quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Peru V - De Machu Picchu a Copacabana, na fronteira da Bolívia

De Machu Picchu a Copacabana – fronteira da Bolívia

Se na anterior visita a Cuzco percorri o mítico caminho Inca a pé, nos seus três dias e quatro noites, desde Urubamba à Porta do Sol, desta vez segui a rota mais rápida, de “colectivo” até Ollantaytambo e comboio turístico até Águas Calientes. E também por aqui salta à vista a enorme mudança que a zona sofreu numa década: agora é estritamente proibido qualquer turista circular no comboio “normal”, tendo obrigatoriamente de recorrer ao caro comboio turístico…

Desculpem o exagero…Machu Picchu…














Mas Machu Pichu continua a ser um local arrebatador pela imponência e dimensão, impressionante pela singularidade da construção, mas acima de tudo, místico pela impar localização, especialmente se atingido pela Porta do Sol, ao fim de três dias de “peregrinação”, por paisagens tão arrebatadoras quanto secretas, inacessíveis, duras, diversificadas. E a pergunta surge naturalmente: porquê? Porquê construir tal santuário, tão distinto “povoado”, num local tão distante da capital do Império e, principalmente, de tão difícil e exclusivo acesso…
Se há dez anos subi Wayna Picchu e admirei do cume do íngreme “rochedo”, o imponente complexo, desta vez percorri o longo e íngreme caminho até ao monte Machu Picchu que, apesar de distante do santuário, proporciona uma vista deslumbrante, um domínio visual de toda a região, dos vales cavados, dos picos imponentes, do rio contorcendo-se no leito estreito. Ali é fácil sentirmo-nos acima do comum mortal. Ali é mais fácil ouvir o silêncio dos deuses. Ali é mais fácil sentir o poder da natureza e a insignificância humana – mesmo dos que se possam sentir acima do comum mortal. Mas ali também é mais fácil sentir o poder dos Homens, vendo a sublime grandiosidade da realização de um sonho. Ali, todos os sonhos parecem ser possíveis. Ali, a vida quotidiana parece mais absurda, mais mesquinha, mais inútil. Ali dá vontade viver eternamente, não para respirar, mas para poder crescer e aprender até ao infinito do tempo.

Momento em família, com a Christine e o Pierre

Quando desci de Machu Picchu, a transbordar de prazer, sonho e energia, ia ao encontro de um belo momento terreno: encontrar-me com a minha prima Christine e o namorado Pierre. Nada e criada em Paris, onde vive, veio de férias ao Peru, visitou Machu Picchu e que melhor lugar podíamos desejar para um caloroso e terno abraço!? Que satisfação pelo encontro e que prazer pela coincidência… um dia faço um apanhado das coincidências mais inverosímeis que a vida me vai reservando, colocando no topo um santomense da ilha de Príncipe que deveria ter encontrado em Cuba, e para quem tinha uma “encomenda” do irmão, que vivia em Portugal, mas que acabei por encontrar, meia dúzia de anos mais tarde, num beco da cidade de São Tomé, numa visita de trabalho de escassos dias …
Uma viagem de “colectivo” pelo vale sagrado, com paragem no impressionante mercado de Pisac, Urubamba, Moray e Maras, completaram a minha segunda passagem pela capital do Império Inca. Mais tarde estudarei o que visitar no terceiro regresso…

Passageiro assustado…

A rota segue para sul, em direcção ao lago Titicaca e à fronteira com a Bolívia. Mas antes está decidido um “desvio” na rota, para visitar Arequipa, a “cidade branca”. A segunda maior cidade do Peru, é reputada de grande beleza, especialmente pela cor branca da pedra em que são construídos os edifícios coloniais, mas também pelo majestoso enquadramento da cidade, envolta em três imponentes vulcões: o desgarrado Pichu Pichu; o perfeito Mistic; e o altaneiro Chachani. Mas antes de chegar a Arequipa, houve que percorrer mais de 600 quilómetros, por estradas, caminhos, montes e vales, cruzar rios e ribeiros, acampar no gelado altiplano…

Fabrico de telha

Depois da riqueza dos últimos dias, a estrada que nos leva de Cuzco em direcção a Puno é de um desinteresse frustrante. Salva-se o piso bom e o relevo, praticamente sempre a descer. Da etapa que nos levou a Cumbapata, o povoado onde pernoitámos, recordo uma aldeia onde parecia que todos os habitantes tinham como actividade a produção de telha. Num processo absolutamente artesanal, famílias inteiras desempenhavam todas as tarefas do fabrico, desde a extracção e depuração do barro, amassar, preparar “finas” tiras de argamassa, cortar e moldar à mão, em cima de um molde metálico, cada telha, que depois era transportada com delicadeza e posta a secar, enfileirada com todas as outras. Parece irreal, parece um sonho, parece uma viagem no tempo, parece um museu vivo, a vida num certo Peru…
Quase à chegada a Cumbapata cruzámo-nos com um grupo de três jovens franceses, também em bicicleta, que tinham deixado, no dia anterior, o hostal onde nos hospedámos em Cuzco. Prosseguimos juntos até Cumbapata e pernoitámos no mesmo
hostal. Mas no dia seguinte os nossos rumos eram distintos: eles seguiam pela N3, para Juliaca, Puno e lago Titicaca; nós despedíamo-nos do conforto do asfalto e lançávamo-nos à aventura, pelas nossas conhecidas estradas de terra, a “corta-mato” para Arequipa.
Logo que deixámos Cumbapata a paisagem mudou de novo… depois da breve subida, estendeu-se no horizonte o vasto altiplano, frio, seco, despovoado, descolorido, inóspito, excepto para as lamas, escassas ovelhas e menos bovinos e burros, que teimam desafiar os elementos e sobreviver no vazio.


Manhã

Wanqoraqay podia ser uma aldeia como qualquer outra, perdida na vastidão do vazio, sem se dar por ela. Mas Wanqoraqay é distinta de todas as outras aldeias ausentes – é a terra que viu nascer, crescer e insurgir-se Tupac Amaru, o precursor peruano da revolta e luta pela independência do país…morreu, inevitavelmente, com toda a família, às mãos do colono, mas poucas décadas mais tarde o sonho concretizou-se.


Tupac Amaru

A estrada que nos foi sugerida por um “sábio” local, numa qualquer bifurcação de caminhos, parece não constar do mapa. Julgávamos rumar a el Descanso, exactamente para descansar na noite, mas a povoação parecia não existir, ou ser demasiado longe, ou não ser atingível por este caminho… certo é que pedalávamos absolutamente sós, numa vastidão indistinta e sem qualquer referência. De tempos a tempos surgia um(a) pastor(a) de alpacas, tão perdidos e solitários quanto nós e diziam-nos que “é por aqui” mas está “mui lego”. E assim se foi o dia, e a noite começou a gelar de negro o altiplano. Na melhor das hipóteses poderíamos chegar a Checca, uma aldeia que se atravessou inesperadamente no nosso caminho, o que significa que nos afastámos largamente do “caminho”.

Banho anual das alpacas

Mas o encanto maior do viajante é não ter caminho certo, rumo firme, metas exactas. É deixar-se ir, na certeza que, do incerto, virá o que busca sem o procurar. E Checca lá surgiu, uma rua ladeada de casas; uma escola absolutamente desproporcionada na pequena aldeia; a casa campesina – um albergue municipal, com as mais ínfimas e básicas condições que se possam imaginar; e, com a ajuda do responsável local pela casa campesina, depois de “bater” a três portas, quase implorando que nos preparassem algo para comer, uma ceia frugal.
Pela manhã, o meu caminho e o do Luís separaram-se. Ainda não definitivamente, pois iríamos seguir rotas semelhantes nos próximos dias ou semanas, mas por conveniência de horários, ritmos.
Não sei se parti mais cedo que o habitual, se o altiplano é mais frio que nunca, mas os primeiros quilómetros, até el Descanso, gelaram-me os ossos como já não tinha memória. Os poucos campesinos com que me cruzava, pareciam fardos de roupa, enrolados da cabeça aos pés, apenas com os olhos à espreita…olhando-me como extraterrestre.
Em el Descanso a feira semanal bloqueava por completo a estrada principal, estendendo-se ao campo de futebol. É incrível a quantidade de gente que aflui às feiras, sem que se perceba a proveniência, pois os povoados são esparsos e minúsculos. Mas mais impressionante é ver o que os pacientes feirantes oferecem… não falo do calçado, vestuário e bugigangas intermináveis; nem sequer dos frutos e legumes, muitos deles com cores e formatos que não sei descrever. Falo de vendedores sentados literalmente por trás de dois queijos; três ou quatro “peixes”, com menos de cinco centímetros cada; menos de meia dúzia de tomates; quatro ou cinco ovos; etc.. Impressiona a escassez, a pobreza, para alem, claro, da falta de higiene, dos odores, do caos…

Assim se vive no planalto

A estrada asfaltada de el Descanso a Espinar é uma belíssima surpresa. Bom piso, sobe suavemente pelas colinas pobres, onde apenas a pastorícia subsiste. Uma manada de vacas cruza a estrada pachorrentamente. Atrás vem o Adriano, português de quarta geração, garante. Homem viajado e culto – pelo menos para o meio – com filhos na Argentina, clama contra a reforma agrária, que lhe deixou apenas 5000 hectares de terreno, 1% da propriedade ancestral…

No vale apenas cabe o caminho e o Apurimac

Com Espinar foi-se o asfalto e regressou a terra dura. A paisagem é mais desoladora que nunca. A terra parece mais pobre, mais árida, mais inóspita, completamente descolorida, como descoloridas são as ruínas de casas que rareiam em redor. Inesperadamente atravessa-se-me ao caminho um pequeno curso de água, azul brilhante: é o rio Apurimac, o mesmo que cruzei há umas semanas, antes de Cuzco. O caminho entra no estreito vale solitário, silencioso, caminhando lado a lado com o Apurimac: eu vou, ele vem… Sinto-me entrar num ameaçador corredor sem fim e sem retorno, com enormes falésias de estranhas formas rochosas, erguendo-se de ambos os lados do vale. Por vezes, as massas de pedra aparentam um tal (des)equilíbrio, que parecem despenhar-se a qualquer momento, fechando em definitivo o estreito carreiro.

Caminho sem retorno…



Conta-se pelos dedos da mão a presença humana e, quando surge, não se compreende como e onde pode sobreviver…as ruínas de Maukallaqta parecem um sinal de vingança dos deuses – este lugar está vedado aos Homens, deveria estar escrito à entrada do vale, todo o que se atrever a mirá-lo, mais ainda, ousar habitá-lo, não sobreviverá à próxima lua cheia. Mas os Homens sempre ousam e, se há tantos séculos ousaram, construindo um autêntico povoado, porque não ousar hoje, ainda que erguendo não mais de três habitações…

Ruinas de Maukallaqta

Não muito distante surge Maria Fortaleza, mais um conjunto arqueológico fundido nas rochas, sepultado na montanha. E do topo da colina onde se abriga, abre-se ao olhar o magnifico “três canyons”, um tridente esculpido na imponente rocha, por onde fluem outros tantos rios, sendo o mais famoso o Apurimac.

Três canyons




É cedo para acampar no pequeno parque envolvente e prossigo para um ponto do mapa que dá pelo nome de Taracuyo. Parece que é Domingo e não servem refeições na ínfima aldeia, por isso prossigo em busca de um recanto – que não faltam – para ingerir algumas calorias. Estou a prepara umas sandes e surgem, da profundeza do vazio, quatro crianças – dois pares de irmãos. Os dois manos mais crescidos cumprimentam e fazem algumas perguntas, os outros apenas têm olhos para a comida, que compartimos com uma naturalidade desarmante.

Companheiros de almoço

Seria monótono e repetitivo descrever o resto do trajecto até Caylloma, a aldeia onde cheguei noite dentro. Seria maçador lembrar que o caminho bifurca, deixando para trás o vale dos fantasmas, das estátuas, da desolação, passa um ribeiro, e começa a subir monte fora. Seria maçador dizer que estavam dois camiões dos grandes (cinco ou seis eixos) parados antes do ribeiro, a cujos motoristas perguntei qual o caminho a seguir, e mais de uma hora depois passaram por mim a uma velocidade semelhante à da árdua bicicleta, tal a dureza e degradação do caminho.

Mais do mesmo…



No topo do monte, um estranho cemitério com ar de abandono, velava pela paisagem moribunda. E aí teve início talvez a mais árdua descida, de pedra em pedra, seixo em seixo, areia solta, tendo mesmo ultrapassado um dos dois camiões meus conhecidos, que paravam sistematicamente para inspeccionar rodas e não sei que mais…Seria maçador, mas é o meu diário e quero guardar as marcas fortes de cada recanto do caminho, de cada caminho.
Chegado ao desvio para Caylloma, já entardecia. A opção era acampar ali mesmo ou tentar a povoação – garantiram-me que havia alojamento e comida na aldeia. A pequena aldeia vislumbrava-se à direita, abrigada no sopé de um monte. Em linha recta, parecia perto. Alem do mais, parecia situar-se ao mesmo nível e o piso era razoável.
Lancei-me à estrada, na convicção que em pouco mais de meia hora chegaria, mas a noite caiu, o frio assestou, a estrada subiu, os quilómetros multiplicaram-se, o piso piorou, as forças fraquejaram e quando aterrei em Caylloma o tempo parou para eu respirar…

De Caylloma a Chivay…





De Caylloma a Sibayo, serão largas dezenas de quilómetros sem ver vivalma. Mentira, há uma espécie de aldeia algures, com uma mercearia onde tomo uma bebida e compro uma mão-cheia de figos secos que, de tão secos, mando fora… E há dois rebanhos de alpacas, um na encosta, com pastor, outro num vale, pastando livremente. Há os suportes dos alforges que partem de novo e que me obrigam a uma operação de “trasladação”, onde esqueço as luvas, o que me leva a fazer mais uns quilómetros extra. Há um ribeiro que por ali escorre, quebrando a violenta secura da paisagem. Há paisagens inolvidáveis e inalcançáveis, com distantes cordilheiras nevadas sobrepondo-se ao mundo. Há subidas, sempre, e descidas, sempre, quais delas as mais memoráveis e sentidas. Há um forcing final para deixar Sibayo e chegar a Chivay, a porta de entrada no Canyon del Colca…

Sibayo



O Canyon del Colca estende-se ao longo de uns bons setenta quilómetros, desde Chivay até Cabanacondes – pelo menos esse foi o meu Canyon...
Sem a carga habitual na Dempster, inicialmente quase nem conseguia manejá-la, tal a leveza e instabilidade, que rapidamente se tornaram gozo e diversão na manhã fria do vale do rio Colca. O desvio pela aldeia de Yanque é compensado pela estranha igreja e pela colorida praça em frente, onde um grupo moderado de locais, estende o seu artesanato e folclore, à espera de receberem uns pesos dos turistas.


Campo de Quínua, no vale do Colca


Yanque

Seguem-se os miradouros com vistas imponentes sobre o profundo vale, onde ancestrais socalcos de mirabolantes contornos e formatos, alojam diversos cultivos, que se multiplicam em tons e coloridos. À ilharga, do outro lado do rio e do sui generis vale, ergue-se a imponente cordilheira de sucessivos nevados, dominada pelo Culluncuya, nos seus 5600 metros. Mais uma vez a natureza não se vez rogada, lançando ao Homem os maiores desafios mas compensando-o com a mais ímpar criação.


Socalcos milenares no vale do Colca

A Cruz de los Condores é o mais místico e turístico ponto da rota, ou não fora um daqueles locais onde tempo e espaço não existem para alem do voo dos condores, que rasgam o céu azul com a serenidade dos seres intemporais, aparecendo e desaparecendo no segredo da montanha.

Condor passa…

Até Cabanaconde é como se eu próprio voasse nas asas paradas dos imponentes condores, sorvendo o vale, que se esconde de tão profundo, roçando a montanha, que estende a sua asa áspera e rugosa, lambendo a água gelada do revolto Colca, inalando a brisa cortante, em fuga do gélido Culluncuya. E aterro em Cabanaconde para um lanche tardio, antes de apanhar o autocarro de regresso a Chivay, onde ainda me espera nova tentativa de soldar o raio dos suportes dos alforges…
Sabia que até Arequipa a estrada era asfaltada, o que, ao fim de mais de uma semana praticamente sempre a pedalar no duro rípio, encarava com grande alívio. Também sabia que a altitude de Arequipa era largas centenas de metros inferior à de Chivay, prometendo facilidades adicionais. Não sabia é que a estrada ia passar no Mirador de los Andes, 4910 metros acima do nível do mar, o ponto mais alto dos meus registos ciclísticos…
O início até foi fácil, fosse pelo desnível não ser acentuado, pela altitude não ser exagerada, pela “pressa” de despachar a subida, provavelmente pela energia recuperada no dia anterior. Mas com o decorrer dos quilómetros e das horas, com a percepção que afinal o fim estava para além do alcance da vista, com o sol a aquecer, o ritmo abrandou fortemente e percebi que tinha trabalho para muitas horas. Curva após curva, paragem para “almoçar”, quilómetro após quilómetro, paragem para beber, lanço após lanço, paragem para tirar fotos, comecei a tentar adivinhar qual seria a última curva, o último morro… As antenas, esses benditos espantalhos de ferro, lá estavam espetadas num cume de outra cordilheira. Se comecei por “negá-la”, convicto que passaria mais abaixo, já a olhava de cima para baixo e continuava a subir.

A recta interminável que leva aos 4910 msnm…

Finalmente – mesmo não sendo o topo – uma recta enorme, no fim de uma curva apertada, estendia-se suavemente a perder de vista, desaparecendo num cume distante. Em redor era o topo do mundo, um planalto semeado de pedras, nada mais, onde pastavam três vicunhas que se esgueiraram mal me sonharam. E ainda mais em redor, cumes nevados em todas as direcções. Nem vento, só frio e pouco oxigénio, presumo, pois arquejava aceleradamente para transpor a ligeira subida.

Pastora… sem rebanho?

No fim da interminável recta, no pequeno topo onde a estrada inflectia, o Mirador los Andes mirava uns sete vulcões em redor…com o Ampato, nos seus 6288 metros, a dominar sobre os demais. Mal parei, logo uma das várias vendedoras de artesanato me atazanou a cabeça para comprar algo. Estava tão estafado que lhe respondi de mau humor que me deixasse respirar e se calasse. E resultou, pois ninguém mais me importunou, deixando-me beber em silêncio o ar frio e embalar num embrulho de neve, todos aqueles cumes imponentes que o olhar pode alcançar.

Mirador los Andes



Mas o frio era tal que não me permitiu saciar a vista, empurrando-me montanha abaixo em busca de tempo mais cálido. Montanha abaixo é um pouco exagerado, pois o declive era muito ténue e, nem duas dezenas de quilómetros volvidos, entrei na pequena montanha russa, com subidas e descidas pouco acentuadas. E assim cheguei ao cruzamento da estrada 30A, que liga Juliaca a Arequipa, já entardecia e enregelava de novo.

Descendo do miradouro, a caminho da reserva natural de salinas e laguna branca



O cruzamento de estradas é sempre um potencial local de acolhimento, alojamento e alimento, mas este tinha apenas uma dúzia de horrendas barracas, de ambos os lados da estrada, vendendo bebidas, bolachas e pouco mais. Uma dessas barracas, já no fim da fileira, dava pelo nome de restaurante e a proprietária iniciava a preparação do jantar. Pedi-lhe para armar a tenda nas imediações e quase a colei a uma parede lateral onde o vento do fim da tarde parecia chegar com menos raiva.
Acordei com a tenda cristalizada por dento e por fora, com a condensação da respiração e algum vestígio de maresia. E o pior é que o muro que me salvou do vento, escondeu-me do sol, obrigando-me a tinir de frio para desmontar a tenda e arrumar o estaminé…

A caminho de Arequipa

Misti

Vicuñas

Yura

Agora sim, com o Chachani, o Misti e o Pichu Pichu no horizonte, com as desoladoras encostas esbranquiçadas, com a estrada a deslizar velozmente, afundando-se em vales cada vez mais profundos, com o piso macio e as bermas “largas” do asfalto negro, foi ver o velocímetro disparar, os quilómetros correrem e esperar que Arequipa assomasse, branca e saborosa como prometia nos guias turísticos.
É melhor tentar esquecer os horrendos subúrbios de Arequipa, aquela imensidão de caixotes de tijolo ou terra, com cobertura de lata e portas e janelas de ferro; as ruas poeirentas, atulhadas de lixo e entulho; os cheiros fedorentos dos amontoados de lixo na beira da estrada. Afinal estes subúrbios só diferem de outros por serem maiores e por a paisagem em redor ser, ela mesma, de uma desolação e abandono lunar…
Mas o centro histórico de Arequipa é charmoso, cuidado, limpo, repleto de cores e aromas, de pátios recatados, velhas casas imponentes nas suas varandas, portas, pátios. A praça de armas, mais uma vez epicentro da cidade, rodeada de belíssimos edifícios de dois pisos, suportados em elegantes arcadas coloniais. As ruas pedonais, onde abunda pequeno comércio, artesanato e inevitáveis comes e bebes. Claro, e o convento de Santa Catalina, que parece uma “aldeia dentro da cidade”. Mas sobretudo a vista sobre os vulcões Chachani e Misti, seja do terraço da catedral seja do fronteiro edifício municipal…

Arequipa pela objectiva














Para mim, Arequipa fica acima de tudo ligada ao Chachani… Há muito tempo que desejava tentar subir um vulcão “a sério” – pelo menos um “seis mil”. Queria sentir na pele essa coisa do “mal de altitude”, a escassez de oxigénio, o frio do cume gelado, o ranger dos crampons nos pés. Queria, no fundo, saborear a última passada, poisar o pé no topo, olhar para baixo e espreitar o mundo de um ângulo novo, desconhecido. É isso, queria conhecer um pouco mais do desconhecido, incluindo de mim próprio…
O Chachani parece ser o vulcão ideal pois, com os seus 6090 metros, ultrapassa a barreira simbólica dos 6000; é tecnicamente fácil, condição indispensável para quem o máximo que subiu foi ao Pico e não dispõe de qualquer equipamento ou experiência; é relativamente rápida a ascensão – dois dias apenas; o preço é moderado; e está ali “à mão de semear”.
Para subir ao Misti, parece que há hordas de gente, mas para o Chachani não é tanto assim, pelo que tive de esperar um dia até surgir um segundo candidato. Partimos de Arequipa às 8h30 da manhã, com quatro litros de água, snacks e muita roupa. O programa consistia em ir até cerca dos 4800 metros de jipe; fazer um treking de três horas até ao acampamento base, a 5200 metros; descansar e jantar pelas 18h; (tentar) dormir até à 1h30; levantar, tomar pequeno-almoço e iniciar a subida às 2h da manhã. A ascensão deveria durar seis horas, atingindo o cume às 8h e descer ao campo base em três horas.
Depois da cansativa e longa viagem de jipe, por caminho de cabras, pedras e calhaus, aos solavancos e a engolir pó e calor, foi com alívio que saltei do carro, pus a mochila às costas e os pés à estrada. O percurso até ao campo base foi rápido e fácil, não demorando mais de 2h30 a 3 horas. O local é idílico, nas imediações de um pequeno cone vulcânico, perfeito no seu formato, recatado na exuberância dos picos envolventes, nu na sua simplicidade, onde não faltava o sol morno e dourado do entardecer.

No campo base, à espera de Godoot





Adrian – o guia – foi preparando o material para a subida, ajustando os crampons, ensinando utilizá-los, explicando algumas regras básicas, recomendando o que levar e preparando o jantar. Eu e o Fabrice sorvíamos a pacatez do local nos raios de sol dourado, cada um entregue aos seus pensamentos.
O jantar cumpriu o horário e as expectativas: uma saborosa sopa “instantânea” e massa com atum em tomate.
Fosse a hora, inusual para dormir, fosse a excitação (controlada), fosse a altitude, fosse tudo à mistura, certo é que não preguei olho. Quando ia para adormecer, naquela fracção de segundo em que se está a transpor a porta do consciente para o inconsciente, dava sempre um aflito passo atrás e continuava acordado. Creio que era mesmo a falta de oxigénio que me mantinha desperto, pois julgo que a cadência da respiração enquanto consciente era superior à “automática” a que o corpo está habituado quando dormimos a uma altitude “normal”…
O melhor do pequeno-almoço foi a caneca de chá quente, que permitia manter as mãos cálidas…
Cumpri à risca as instruções do Adrian e enfiei na mochila 1,5 litros de água, vários snacks, umas calças para o frio, um polar extra, a máquina fotográfica e os crampons. Pareceu-me carga a mais para tão curta expedição mas não facilitei…
Armados de bastões, lanterna e mochila, atacámos a subida eram 2h em ponto. Devagar, com passos curtos mas regulares, o Adrian à frente, eu seguia-o e o Fabrice fechava o pelotão. Na escuridão da noite ouvia-se melhor o silêncio. Os passos suavam ritmados e a respiração ouvia-se em surdina. Não havia mais de dois metros de intervalo entre cada um de nós, normalmente nem excederia um metro. Ia-mos “colados”, passada após passada, primeiro por uma espécie de carreiro íngreme, ainda que com piso regular, depois por um pedregoso percurso, onde tínhamos de calcorrear pedregulhos de diversos tamanhos e formas irregulares, numa escalada pronunciada. Quando o Adrian anunciou que estávamos a meio do caminho, sugerindo uma pausa para beber e comer algo, senti que “estava no papo”. Na verdade estava bastante fatigado, ofegante, com a respiração alterada, mas olhava e ouvia os dois companheiros de aventura e via os mesmos sintomas. Sinais da “doença da montanha”, não tinha, o que me animava e alegrava.
Depois da breve pausa retomámos a marcha com a mesma cadência. Curiosamente, os primeiros passos, talvez minutos, pareceram-me mais difíceis, mas depois de “apanhar” o ritmo, senti-me estabilizar num esforço constante. As pedras ficavam para trás, o caminho “arredondava” por um vértice mais suave e daí a pouco era altura de calçar os crampons e atacar a neve. O do pé direito entrou bem e rapidamente ficou apto, mas o do pé esquerdo teimava em não entrar. Na verdade, ontem o Adrian mediu e ajustou o pé direito e deu o mesmo tamanho ao esquerdo, mas ou o ajuste foi mal feito ou a porcaria dos ténis têm dimensões ligeiramente diferentes, o esquerdo não entrava. Eu já não sentia as mãos, não percebo onde é que o Adrian foi buscar agilidade e desenvoltura para sacar da chave de fendas, desaparafusar, ajustar e voltar a aparafusar o crampon e ainda me ajudar a calçá-lo, pois acho que sozinho já não seria capaz – não sentia nem controlava as mãos…
Caminhar no gelo foi muito mais fácil do que esperava. Senti-me completamente seguro, à-vontade e até divertido com o som do gelo esmagado. Mais meia-volta, mais uns metros, mais um patamar e estamos no topo!

Às seis da manhã púnhamos o pé no topo do Chachani e o sol sorriu…



O último degrau está transposto. Em redor tudo fica num patamar inferior, mesmo as nuvens distantes parecem submeter-se ao Chachani. Arequipa é uma mancha de luz difusa. O Adrian saca do telemóvel e contacta “a base”: “São seis da manhã e estamos no topo”. Demorámos 4h exactas em vez das seis previstas… O sol rompe a linha do horizonte no mesmo momento. Tiro a máquina da mochila, descalço as luvas e tiro umas fotos ao acaso – nem reparo no equilíbrio da velocidade e abertura – devem ficar tremidas, pois só o frio me enche o corpo e a cabeça. Já não sinto de novo as mãos. O Adrian chama a atenção para aquele vulcão que se projecta no enfiamento da luz solar. Diz que é a sombra do próprio vulcão… parece impossível aquela sombra gigante de um vulcão perfeito, em tons azul acastanhado… parece real mas não passa de uma sombra! Desejo tirar-lhe uma fotografia mas não tenho mãos. Só quero espreitar mais uma vez o mundo a meus pés e descer dali depressa. Quero as mãos de volta – os pés não os sinto há muito tempo, por isso não me incomodam, é como se não existissem – quero sol, quero parar e revisitar as últimas horas.
Para mim, a viajem pelo Peru terminou no cume do Chachani, mas para a cronologia e os seguidores do Bacalhau, ainda há uns dias e umas centenas de quilómetros a percorrer, até transpor a fronteira boliviana de Kasani-Yunguyo, junto a Copacabana, no lago Titicaca.

Agora pelas costas…

De regresso ao cruzamento onde a estrada bifurca para Chivay, por onde vim há pouco mais de um par de dias, prossegui pelo planalto peruano. A paisagem não muda, a aridez é uma constante, o relevo é mais suave no mapa do que no terreno, num constante ondulado que desgasta devagar mas inexoravelmente. Até Santa Lucía não há qualquer povoado ou abrigo e tenho como meta pernoitar por lá mas, à medida que me aproximo do lago Launillas, os moderados ondulados acentuam-se inesperadamente e já rolo de novo acima dos 4500 metros.
As sombras começam a descer os montes mais elevados, a estrada vai-se escondendo nas encostas, desaparecendo em curvas ascendentes, as forças começam a escassear e Santa Lucía não aparece…
Hesito entre levar o esforço ao limite e arriscar uma chegada nocturna a Santa Lucía, em troca de uma cama e um jantar de faca e garfo, ou buscar uma clareira na margem do lago e esperar por um novo dia. Mais que a cama e o jantar burguês, irrita-me a ideia de não ter conseguido atingir o que me propus… além do mais a povoação não pode estar longe e esta subida tem de terminar e parir uma descida condizente. Arreganho os dentes, cerro os punhos e decido levar o esforço até ao fim. Pouco depois surge a última curva, o último declive e uma longa e suave descida. Ainda não é noite mas o sol já desapareceu destas bandas, dando lugar ao cortante frio do altiplano, agravado pela deslocação do ar da descida. Não deixo de pedalar, seja para tentar manter a temperatura do corpo, seja para lutar contra a noite, que galga o vale. Com o desgaste, os planos parecem subidas, rolar a 16 kms hora parece frustrante e insuficiente, os carros já acenderam há muito as luzes e, de quando em vez, fazem-me notar que devo fazer o mesmo – tenho luz atrás mas não à frente. Finalmente surge uma portagem, indício de que a povoação está perto. Mais uma curva e a ténue claridade da pequena aldeia entra-me pelos olhos adentro. É noite, mais uma vez a pequena hospedagem é modesta e pouco acolhedora, a água gelada e o pollo tem mais ossos do que carne, mas encontro aconchego no prazer da meta atingida.
Depois de deslizar pela planície gelada, apesar do sol brilhar no céu azul, tomar um enorme copo de sumo de papaia, oferecido pelos simpáticos e bem-humorados polícias alfandegários na pequena aldeia de Cabana, cheguei à feia e poeirenta Juliaca e à velha companheira estrada N3. Puno dista poucas dezenas de quilómetros e o lago Titicaca já se “cheira” na vasta planície. Passo o cruzamento para as ruínas de Sillustani, onde se acumulam um aglomerado de taxistas esperando clientes. Não paro, pois guardo na memória as fantasmagóricas ruínas de pedra, do género dos nossos moinhos de vento, mas de dimensão incomparavelmente maior, utilizados como tumbas.
O sagrado Titicaca continua fascinante, nas suas águas intensamente azuis, circundado pela enorme cadeia de picos nevados, na margem boliviana, e a planície suave, do lado peruano. Do cimo da pequena elevação que antecede Puno, o lago não tem fim, perdendo-se no céu azul, tão tranquilos um quanto o outro…

Titicaca

Puno lá está de pés mergulhados no lago e o resto do corpo abraçando os turistas. Passeios no lago, visitas à ilha Taquille e às ilhas flutuantes dos Uros, constituem o menu de todas as agências e hotéis. Continuo a dar-me por satisfeito com as memórias anteriores mas, apesar do excessivo cariz turístico das ilhas flutuantes e dos seus “barcos” de junco, é uma experiência única, caminhar sobre um “nenúfar” com escassos metros de diâmetro, sentir o “chão” de junco flutuar sob os pés e, se nos aproximamos da beira, sentir o calafrio do pé afundar-se na água… Mas acima de tudo é impressionante o processo “natural” de formação das pequenas ilhotas, exclusivamente de junco…

Pesca no Titicaca

Basta deixar Puno e desaparece de imediato a vertente turística do lago, regressando a vida real peruana, com os escassos habitantes da orla do lago a cortarem e secarem junco, pescarem artesanalmente, esgaravatarem a subsistência nos campos de batatas, cereais e na escassa pastorícia.

Cereais a secarem

Pomata parecia uma localização para pernoitar e subi a empinada estrada que conduz à praça de armas. Sim, há uma hospedagem municipal e, no rés-do-chão, servem jantar às sete em ponto.

Para a fotografia?

A estrada ainda está repleta de sinais da violência das últimas semanas: árvores derrubadas, pneus queimados, pedras, pedregulhos e rochedos, vidros de carros partidos e mesmo um incendiado… Em Puno houve vários mortos, mas isso foi há mais e uma semana. Os grevistas e manifestantes suspenderam os protestos por uma semana, para a realização das eleições e eu aproveito para passar a fronteira, antes fechada. O camarada Ollanta, que venceu com 50,09% a “Fujimora”, vai ter com que se entreter…
Há duas fronteiras próximas com a Bolívia: Desaguadero ou Yunguyo, que cruza o lago. Apesar de minha conhecida, é por esta que me despeço do Peru e entro na Bolívia… apetece-me pedalar sobre o azul do lago, sob o azul do céu, apontando ao branco dos distantes nevados.