terça-feira, 10 de agosto de 2010

Alaska Highway

Pensava que conseguia, sem mais trabalho, pôr esta coisa das imagens e o texto mais "interligados"... afinal conseguiria mas com muito mais trabalho...fica para depois...









Alaska Haighay

7 de Agosto – dia perfeito
Este será um relato longo, a que poucos resistirão…
Parece que montei a tenda no caminho privado do esquilo meu vizinho. Um parque de campismo dispõe-se ao longo de um caminho circular por entre a floresta, ao longo do qual são desmatados, “mobilados” e sinalizados os rectângulos de cada lugar. Normalmente esses lugares distam entre si entre 5 a 10 metros, ocupados pela vegetação autóctone. Certo é que o esquilo meu vizinho vive de um lado da minha tenda, onde tem a casa e o celeiro, mas o quintal de cultivo é do outro lado. Conclusão, como devemos estar em tempo de colheitas, anda numa roda-viva a acarretar pinhas do quintal para o celeiro. Chega, escolhe a pinha, pega-lhe com a boca e corre frenético para a toca onde a deposita, presumo, e repete a operação vezes sem conta!! Enquanto tomava o pequeno almoço, desisti da contagem à 20ª passagem.
Quando arrumava a tralha passou o Davidm, de bicicleta em direcção á cidade. Disse-me um último adeus (creio que será mesmo o último) e lá se foi por entre as árvores e o silêncio do parque ainda adormecido.
Hoje levam com o relato sobre o combustível…o pequeno-almoço foi uma sandes composta por 1 fatia de pão (género panrico mas mais denso, mais escuro, mais pesado e mais substancial – na verdade nunca comi desse panrico em Portugal…) + 1 grossa fatia de fiambre + 1 fatia de pão + 1 fatia de fiambre + 1 fatia de pão + 1 fatia de queijo + 1 fatia de pão + outra fatia de pão (era a última da embalagem…), uma banana e água (não me apeteceu fazer café).
Arranquei para aí às 8h30. Atravessei a cidade silenciosa e fria pela 4ª avenida. Ao passar junto a uma bomba de gasolina, lembrei-me que me ia saber bem um leitinho. Parei e comprei ½ litro de leite e 3 donuts (não são como os daí, apesar de nunca os ter provado). Bebi o leite de um trago e mamei um donut que me lembrou mais as filhós que a minha mãe faz no Natal, mas comidas dois dias depois, já secas e duras…
Prossegui para a Alasca Highway, a minha próxima companheira de aventura e devo ter e”entrado” para aí ao km 1426... Não sei se já repararam, mas aqui, ao contrário daí, as estradas têm nome; as ruas não. Ao passar junto ao aeroporto, tirei uma foto ao C47 da Canadien Pacific que está empoleirado numa pequena elevação. É um avião que esteve ao serviço dos aliados na 2ª Guerra, tendo depois sido convertido e utilizado para fins civis até 1970, com mais de 13 mil horas de voo...Alguns kms depois vem uma caravana em sentido contrário, que abranda. Estão mesmo a ver, não estão!? Eu também!! È o Beat e a Ester que vão entregara caravana às 9h. Tinham pernoitado num parque 3 kms mais à frente e iam a caminho da cidade. Coincidência? Cinco minutos de diferença e não os teria apanhado mais esta vez! Limitámo-nos a acenar e dizer adeus.
Prossegui a bom ritmo e rapidamente cheguei ao cruzamento com a Klondike Hwy. Uma placa de sinalização dizia “scenic road”, com uma foto apostalada a ilustrar o caminho: lago em tons de verde e azul, montanhas verdes e florestas de pinheiros.
Ainda hesitei, pois podia segui-la até carcross e depois tomar outra para Jakes corner, onde retomaria a Alasca. Mas seriam para aí mais 50 kms extra e sem saber como seria o piso e o relevo. Mantive-me no plano inicial.
Pouco depois surge o Yukon river, com uma bela vista do topo da colina que antecede a descida para a ponte. As águas são verde-escuro, talvez carregadas pelas nuvens pesadas e sombrias que nos rodeiam. Algumas canoas vermelhas deslizam pelas águas, desaparecendo rapidamente na curva apertada, levadas pela corrente que parece forte.
Do outro lado da ponte, o rio parece um lago por onde serpenteiam pequenas ilhotas verdejantes, pouco acima do nível da água. Outra canoa paira por ali, deslocando-se pelo Yukon River entre as ilhotas. Parece pescar, pois tem duas pessoas a bordo, agora completamente erguidas na canoa. As montanhas fecham o quadro e as nuvens parecem uma tampa. Estamos fechados sobre nós próprios naquele espaço de paz e tranquilidade…
Há uma leve brisa que me empurra! Até isso corre de feição, pedalando a 2m kms/h em média. Aproximo-me do March Lake e passa por mim uma miúda de bicicleta de estrada equipada a rigor: t-shirt, calções, capacete, luvas e dorsal. Devia ser uma competição mas nunca mais passava ninguém.
Fui parando, tirando fotos, pedalando, tirando fotos e olhando e andando e passa outra miúda, 10 ou 15 minutos depois da anterior. Mais um longo espaço de tempo e passa um trio, desta vez dois homens e uma mulher. Ok, devia ser mesmo uma prova. Esquisita, mas uma competição…
Ao km 50, na ponte sobre o rio M’Clintock, começa a chuver. Gotas esparsas mas grossas. Nem de propósito aparece uma placa a dizer “March lake recreation park 2 kms”. Era mesmo o que precisava: resguardar-me da chuva e almoçar. Havia um quiosque mínimo mas com o que interessava: “long hot-gog”, anunciava. Pois foi mesmo isso e acompanhado por um litrinho de leite, directo do pacote!
Parou de chover, o sol voltou e com ele a vontade de pedalar continuava.
Prossegui ao longo do lago, em ligeiro sobe e desce, mas sempre muito fácil e os competidores iam passando por mim, quase sempre com um comprimento ou piada. Ás tantas passa uma miúda que por cima dos calções tinha uma lingerie atrevidota – deve ter-se vestido à pressa…saco da máquina e, uma mão no volante a outra a manipular a máquina e “pernas para que nos quero”, vou-lhe no encalço d saco uma foto.
Não muitos kms depois estava uma claque a acenar e em grande alvoroço, mas já tinha passado a atleta e continuavam, parecia que para mim. E pouco depois lá estavam: dos 5 da claque, um era o Beat e outra a Ester!! Iam ficar num lodge ali por uns dias e, ao passearem pela zona dão comigo mais uma vez!! Nem dava para crer. Tirámos uma foto e trocámos mails. Agora é que deve ser mesmo a última!! Prometeram mandar fotos dos ursos que não vi…
Próximo destino é Jakes corner – uma bomba de combustível com café. Era aí também que os ciclistas deixavam Alasca Hwy e viravam para Carcross. Afinal trata-se mesmo de uma competição. São 24 horas de bicicleta em torno do lago e ganha quem der mais voltas…
Bem na estação de serviço reforcei as calorias. Um bolo enorme que não sei descrever mas que me soube a “galos de noz” (tinha uma película caramelizada com frutos secos) e mais ½ litro de leite com chocolate, o meu preferido.
Eram 2 da tarde, 90 kms feitos, sol, montanhas, lagos, pinheiros, estrada mais ou menos plana leve brisa nas costas. Só podia continuar!
Depois de Jakson corner a paisagem ficou mais selvagem, mas agressiva, mais grandiosa, mais solitária, mais silenciosa. Senti que ficava para trás uma zona mais humana – ou humanizada – e que regressava a um ambiente mais íntimo, mais pessoal.
Por entre muitas fotos, cheguei ao lago Squanga, com um parque de campismo não assinalado no mapa. Estava com 116 kms percorridos e apesar de ter energia e vontade para mais, decidi espreitar. Era mesmo junto ao lago de águas esverdeadas. Tinha algumas caravanas mas consegui um lugar mesmo junto ao
lago e, vejam bem, até pendurei a cama de rede entre dois pinheiros, onde escrevi estas linhas.
De repente começa a arrefecer, as nuvens a engrossarem e até se via a chuva a cair lá adiante nas montanhas mais a norte. Tive de retirar à pressa e tratar do jantar antes que chovesse.
E só para fechar, foi uma dose de massa carbonara, com dois enchidos fumados e picantes, 2 fatias de pão, uma banana e os dois donuts que sobraram da manhã. O que queriam? Que passasse fome!? Estas perninhas não bebem gasolina mas também não funcionam a energia solar!

8 de Agosto, finalmente a Bíblia
O dia acordou lacrimejante e tive de arrumar a tenda molhada e tomar o pequeno-almoço de pé.
Ao partir, desfazia-me do lixo no contentor, vem o meu vizinho com o isqueiro na mão, estende-o e oferece-mo. Um daqueles compridos, mesmo de cozinha xpto! Olhei para ele incrédulo e, percebendo a minha hesitação em aceitar, disse “I have lots of these”! A estória começou ontem ao jantar…começou a chover e acabámos todos a jantar juntos na cozinha do parque. E o meu isqueiro expirou mesmo ali, quando me preparava para acender o fogão, pelo que lhe pedi fogo. Mas não deixa de me impressionar…até parece que estava à coca para aquele gesto tão simples e tão significativo.
A estrada seguia para nordeste, em direcção às montanhas onde se viam mais nuvens e mais cerradas do que aqui. Logicamente não tardei a entrar chuva dentro. Não era o mais agradável dos cenários, mas deixei de dar muita atenção a estes condicionalismos naturais: aceitam-se, digerem-se e pronto. Além do mais estava certo que ainda ia ver o sol hoje…
Exactamente aos 20 kms cumpridos, surge Jonhsons Crossing, mesmo antes da ponte sobre o Teslin river, com a habitual bomba de combustível e café/mercearia. A chuva já tinha parado, mas estava desconfortável com frio nos pés e mãos. Ia saber-me bem um chocolate quente e talvez alguma coisa para mastigar.
Teslin ficava a cerca de 50 kms. Mas até lá foi pedalar facilmente, praticamente com a estrada a bordejar o extenso lago. À direita, e especialmente na longínqua linha do horizonte, uma cadeia de montanhas delimitava a vista. As nuvens marcavam presença discreta e distante. Em Testlin visitei o Tlingit Heritage Center. Apenas a colecção de fotografias me satisfez...ah e o café com leite, de borla (a entrada foi 5$...).
Parei no supermercado local e reforcei as provisões. À saída da vila parei no “viewpoint” e almocei com vista para o lago, lá em baixo aos meus pés.
Prossegui e fui vendo os kms passarem. Sentia a brisa nas costas e o sol brincando às escondidas com as nuvens. O chato é que nas subidas apetecia-me tirar o corta-vento e nas descidas estava frio e era-me necessário. Lembrei-me diversas vezes do Serra, o amigo que comigo fez a Patagónia. Estava sempre a parar para pôr e tirar o corta-vento…Certo é que depois de Teslin não haveria mais nenhum campismo oficial, pelo que teria de improvisar. Entretanto a estrada entra na British Columbia, mas nem por isso algo muda. Confesso que está-se a tornar muito fácil ultrapassar os 100 kms por dia. O selim parece que já desistiu de me atacar. As pernas estão perfeitamente à altura das subidas. O coração parece estar maior e mais forte – hoje, no fim de uma subida de cerca de 1 km decidi contar as pulsações: 120. Tudo normal, portanto. Até o vento parece ter desistido. Ou melhor, tornar-se aliado! De facto está uma brisa, não muito forte, é certo, mas ainda assim capaz de fazer estragos se frontal. Fiz o teste invertendo a marcha para ir tirar uma foto que me tinha escapado e senti como podia ser duro se desfavorável…Mas enfim, estava mesmo a gozar a estrada, a “velocidade”, as subidas e descidas, a paisagem, o silêncio, a luz. Procurava um local aprazível para acampar, mas nada. Pelo mapa, parecia que deveria estar a cruzar i Swift river, o que regra geral proporciona sempre um local simpático. Mas o raio do rio nunca mais chegava!! De repente começa a chover, as habituais gotas ralas mas grossas! Decido desviar-me da estrada e resguardar-me na floresta. Á falta de melhor, ficaria já por ali. Aliás, estava a começar a sentir uma leve picada no joelho esquerdo, o que não me agradava… Uma breve pausa e parou de chover. Ficar ou continuar mais 3 ou 4 kms. O raio do rio não podia estar longe. Decido prosseguir e em boa hora o fiz. De facto, menos de 3 kms depois surge o rio, antecedido por um desvio para onde não me dirigi de imediato por ver lá estacionada uma auto-caravana, com fogueira acesa. Já agora queria o sítio só para mim! Certo é que as gotas recomeçaram e o rio não proporcionava melhor poiso. Voltei para trás, passei ao lado da caravana, cumprimentei os vizinhos e disse-lhes que ia acampar ali também. Estava a montar a tenda quando a Tenney-Ann, assim se chama a senhora, me veio visitar, dizendo que tinham comida a mais, se eu não era servido. Dei por mim com uma pratada de massa com diversos ingredientes e ainda companhada de brócolos e couve-flor.
Depois da janta, juntei-me com eles à fogueira (tinham três cadeiras) e ficámos a conversar das coisas simples: sobre a minha viagem, os sítios onde estive, para onde vou, quantos kms faço por dia, o que transporto comigo, o que faço. Da parte deles, contam o mesmo: são reformados, de Okanagan, etc.
E é no fim da conversa, quando se levantam para ir passear o cão, que me vem com um presente: “What does de bible really teach”, mais uma daquelas revistas que os Jeovás distribuem de porta em porta!! Estava passada a mensagem. São mais umas gramas que vou ter de transportar até à próxima reciclagem…talvez antes pratique o meu inglês!!

9 de Agosto, apostola de Jesus
Tomava o pequeno-almoço de pé, quando o meu vizinho Dale, de caneca de café em punho, se me dirigiu e perguntou se queria um café. Aceitei sem cerimónia. Estendo-lhe a minha canequita mínima, mais apropriada para uns shots do que para café, ainda por cima deste por cá, que mal tinge a água, mas ele perguntou se não queria uma caneca maior. Anuí logo e acrescentei: com leite, please.
Uma breve pausa e sai de casa com uma canecada de café com leite. Sabe realmente bem pela manhã, especialmente se está frio, como é hoje o caso…
Arranquei primeiro que eles, despedimo-nos mais uma vez e lá fui, calmamente em direcção a Watson lake, onde só chegarei amanhã. Para já procurava Swift river com intenção de reforçar o pequeno-almoço. O dia estava sorridente, sem uma nuvem. As montanhas verdes, totalmente arborizadas. Os lagos iam-se sucedendo, destacando-se o Swan lake pelo tamanho, pelas cores e pelo recato, pois só de quando em vez se deixava espreitar por entre a densa barreira de pinheiros frondosos.
Swift river estava fechada. Tive de continuar, tendo por próximo objectivo Continental Divide, já com 50 kms palmilhados – é certo que mais uma vez com ventinho pelas costas. Em Rancheria tive a primeira surpresa desagradável. Não havia qualquer tipo de mercearia, apenas um restaurante. E não é que ao entrar no dito, a “patroa” – tinha mesmo ar de “patroa” diz-me de má modo: não viu a informação a dizer que o restaurante não está acessível para clientes? Respondi que não, apesar de ter passado a vista pelo dito. Afinal a partir das 12h só servem a malta das obras, que andam a repara a estrada e a ponte nas imediações. Nem uma sopa, ainda perguntei? Só faltou dar-me com o que tinha na mão. Meti o rabo entre as pernas e saí. Aproveitei a mesa e cadeiras cá fora, saquei dos meus aprovisionamentos e fiz-me à vida, pois claro.
Agora era pedalar até Rancheria, 20 kms adiante. E foi numa das longas descidas que vi uma senhora sentada naqueles resguardos/gradeamentos das bermas das estradas, olhando o rio que corria a seus pés. O mais curioso, e que me fez abrandar, foi uma enorme mala junto a ela, na berma da estrada. Parei, cumprimentei-a e começámos a conversar. A pergunta típica que me fez foi “de onde és”? Mas antes de eu responder ela disse: deixa ver, Polónia. E eu, “quase acertavas. Não, Portugal. E tu, és canadiana?”. “Sou apostola de Jesus, responde-me. Ando pelo mundo, especialmente pela América Latina e divulgar a palavra de Jesus”. Não estiquei a conversa por esse terreno pois não me interessava. Mas ainda falámos um bom bocado e parece conhecer bem a América Latina (Brasil, Chile, Bolívia e Argentina, especialmente).
Lá cheguei a Rancheria e devorei uma sopa de legumes, uma tosta, um copo de leite e uma caneca de café com leite…fui mais moderado.
O objectivo do dia era ficar a cerca de 100 kms de Watson Lake para amanhã poder chegar confortavelmente. Assim, dentro de 20 ou 30 kms teria de encontrar um local aprazível para acampar. Ainda antes das 4 da tardem descobri-o. Havia uma serventia que entrava floresta a dentro em direcção ao rio que não devia andar longe. Meti-me por aí fora e 800 metros depois chego a uma clareira tranquila, junto ao rio. Era o local perfeito. Ainda iria ter uma longa tarde de sol, que aproveitei para lavar a roupa no rio, tomar um bom banho (há 2 dias que não tinha oportunidade), fazer uma boa limpeza à bicicleta, estudar os mapas, pôr a escrita em dia, preparar uma bela jantarada, com sopa e 2º prato!! Ah, e só hoje é que terminou a primeira garrafa de gás! Já posso fazer estatísticas e modelos de previsão.
E agora que são 11 horas e a luz já escasseia (em Inuvik, há menos de 3 semanas, só entre as 2 e as 5 da manhã é que não havia luz…).

10 de Agosto, Bikers on the road
Hoje vou ser parcimonioso e poupar-vos também…
Como estava com o bichinho de chegar cedo a Watson Lake, madruguei. Pequeno-almoço mais parco que o habitual, pois as reservas estão a chegar ao fim, pé-no-pedal e pernas para que vos quero! Pedalei ao longo do Rancheria river, que foi ou mudando de nome ou recebendo afluentes: low Rancheria, small Rancheria. Curiosamente o céu estava completamente nublado sobre a minha cabeça, mas absolutamente limpo, daquele azul translúcido, na linha do horizonte. Era para lá que eu ia…
Ás 7h30 a estrada estava praticamente deserta, pelo que era eu e o silêncio, apenas. Ah, e o vento, o tão amigo e suspeito vento, discreto nas minhas costas. Esta amizade começa a preocupar-me…pois amanhã inflectirei completamente para sul, por vezes mesmo para sudoeste, e nestes dias tem estado sempre a soprar de oeste…
Tinha percorrido menos de 20 kms quando surge à ilharga um casal de ciclistas em sentido contrário. Antecipam-se, cruzam a estrada e cumprimentamo-nos como se fossemos velhos amigos. É o Scot e a Michelle, vem de Vancouver, há dezanove dias a pedalar e têm mais nove dias de férias. Ainda não sabem até onde irão…andar de bicicleta é assim: sabemos de onde vimos, nunca sabemos onde vamos pernoitar nem qual será o ponto final.. Deram-me o mail e site deles, falaram-me de um site (hotshower.com, creio – ainda não testei) dedicado exclusivamente a bikers, disseram-me já ter feito Jasper e Banff e encorajaram-me a ir, que o relevo e a dificuldade não é maior que esta… por meu lado disse-lhes de onde vinha, para onde tencionava ir e falei-lhes do percurso que iam enfrentar. Infelizmente para eles, o vento era frontal e forte…
Poucos kms adiante, antes do Big Creek CG, outro biker em sentido contrário! Desta vez fui eu a antecipar-me e atravessar a estrada. Era japonês – chamemos-lhe sushi, pois o nome verdadeiro não sou capaz de o imaginar…Afinal parece que ainda há quem fale inglês pior do que eu…era o caso. Lá me explicou algo que me interessa sobremaneira: a estrada 37 (cassiar hwy) tem estado com trânsito cortado ou muito condicionado por causa de incêndios…há cinco dias que me alertaram para isso em Whitehorse, na oficina das bicicletas. Pensei que quando lá chegasse já estivesse mais do que ultrapassada a situação mas parece que ainda não. No caso dele, apanhou uma boleia de um camião durante 50 kms. Veremos amanhã…
O resto do caminho não teve estória nem motivos especiais de “reportagem”. Umas subidas tramadas, descidas deliciosas, de vários kms, paisagem “normal”: lagos, montes, pinheiros, céu, nuvens aqui, sol acolá, frio nas descidas, calor nas subidas, silêncio sempre.
Ao chegar ao entroncamento com a A37, 22 kms antes de Watson Lake, pensei em mudar de planos e porque não ir já para sul, evitando os 44 kms extra de ir e voltar à vila. Para isso era necessário apenas que houvesse por aqui internet e uma boa mercearia. Tinha de ter pelo menos gás, pois a minha garrafa suplementar entrou ontem em funcionamento. É verdade que deve dar para 15 dias, pelo menos, mas não quero arriscar sem necessidade. Bastará quando tiver de ser…Como apenas existiam bebidas e barretes ok, bonés e porcarias sem qualquer interesse) no shopp da bomba, tive mesmo de regressar ao plano A.
À entrada de Watson Lake surge o incontornável “sign post forest”, uma área em crescendo onde a malta de todo o mundo vai deixando a sua “marca”… Parece que é a principal atracção da vila, o que não é difícil…pela informação do guia que tenho, vivem aqui 1560…Ainda assim, só gostava que vissem a biblioteca, precisamente onde estou a rabiscar estas letras à pressa!! Qualquer coisa de fabuloso…especialmente para um aglomerado com 1500 moradores!
Bem, antes ainda da biblioteca fui às compras e adivinhem quem estacionou a bicicleta ao meu lado!? Não, não adivinharam! Foi o John, o “Américas” que encontrei em Inuvik e que me olhou de soslaio quando disse que ia fazer a Dempster… Bem, talvez seja preconceito meu. Se calhar é bom tipo…
Fui às compras e garanto que levei um cesto maior do que os que uso no pingo-doce (aí levo sempre o mais pequeno e chega sempre para as compras!). Ia metendo coisas para o cesto e tomando-lhe o peso, olhando para o volume e “cortando” na fome previsível. Acabei com o cesto meio… Arrumava com dificuldade (por falta de espaço) as compras na burra quando sai o John. Nem queria acreditar! O cesto dele estava de cocuruto!! Acreditem que não estou a estereotipar nem exagerar! Bem, não sei onde arruma tudo…certo é que não tem mais arrumação que eu…
Despedimo-nos (vamos para a mesma estrada mas ele não sabe se parte hoje e parece-se comigo: no seu registo).
E agora vou tratar da vidinha, sim, porque até Prince George – a próxima “cidade” a sério, são cerca de 1300 kms. E até lá, não sei se conseguirei net… só se for em Smithers, mesmo assim daqui a cerca de 900 kms…See you there.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Klondike Hwy - Dawson até Whitehorse






Klondike Hwy

2 de Agosto – dia dos encontros

Às 9 horas, fazia a minha última travessia no Ferry e, ao desembarcar, dou de caras com a Karen. A Karen é uma miúda alemã, com aparência muito jovem, frágil e franzina, que anda há dois anos de mochila às costas pelo mundo. Encontrámo-nos pela primeira vez em Inuvik, à saída da biblioteca e trocámos aí as primeiras palavras enquanto esperávamos que parasse de chover. Três dias depois, ao chegar a Eagle Plains, lá estava ela de novo com um sorriso aberto na face. Ia à boleia para Dawson com um camionista. Quatro dias depois, entrava eu no ferry em Dawson e havia apenas um passageiro: era ela. Ia a caminho da pousada de juventude, situada “do outro lado do rio”, junto ao parque de campismo, onde tem início a “Top of the world Hwy”.
Hoje, às 9 horas, ia de novo para o Ferry à procura de apanhar boleia para Tok, no Alasca.
O vento soprava de noroeste e como eu pedalava para sudeste, estava mesmo de feição. Assim, os kms passavam a correr. Ainda bem, pois a paisagem não tem nada de interessante: montes de média dimensão de um lado e outro da estrada, com pinheiros semi-raquíticos e pouco mais.
Tinha cerca de 25 kms feitos e pára um carro ao meu lado. Era o Mike, o inglês de Fort McPherson. Tinha regressado de Inuvik e agora ia com um gajo à boleia, não sei bem para onde. Saiu do carro e estendeu-me um saco dizendo: chicken! chicken! enquanto desatava a falar e a fazer-me perguntas sobre a viagem. Aceitei a chicken mais por delicadeza, pois ainda estava composto do pequeno-almoço. Mas a verdade é da chicken já só restavam a pele e ossos…devolvi-lhe o resto e ofereceu-me sumo de laranja, da garrafa para aí de dois litros. Esse sim, soube-me bem e dei-lhe um bom trago… Mais umas conversas, trocas de mail e lá foi desejando-me boa-sorte…
Fui galgando kms a boa velocidade. A estrada é praticamente plana e o vento é favorável…
O mapa de que disponho não é muito detalhado. Melhor, sobre a estrada, o detalhe é mais que suficiente, pois só há uma estrada!! Mas sobre campismo e pernoita é que não tenho nada. Pelas minhas contas, deve haver um parque de campismo 150 depois de Dawson. Surge a sinalização indicando uma área de repouso e decido parar para enfiar umas calorias. Enquanto olhava as Ogilvie (?) mountains ao longe, surge um velhote que mete conversa. Afinal, também ele é aficionado da bike e já fez Portugal, Espanha e França , nos anos 70!! Bom, o homem não parava de falar e tive de fazer uma vénia e pôr-me a andar. O certo é que até me esqueci de comer…
Como não surgia um local decente, uma sombra, pois o sol apertava, tive de improvisar. Encostar a bicla a um arbusto e comer. Como sempre acontece, depois de servidos não faltam colheres! Dois ou três kms adiante lá estava assinalada mais uma zona de descanso: gravel lake. Mas a parte chata da coisa é que a mesma placa que anunciava a dita zona de repouso, também dizia que a próxima era a …83 kms! Ora pelas minhas contas de cabeça, isto significava que o parque de campismo não deveria distar muito desses mesmos 83 kms! E o pior é que a água já era só cerca de ½ litro.
Mas hoje era o dia dos encontros e quanto tinha 131 kms nas pernas, uma auto-caravana abranda. Adivinhei logo quem era. Os meus conhecidos Beat e Ester, casal de suíços com quem me cruzei pela primeira vez no rock river campground, tendo pernoitado nos mesmos sítios diversas vezes desde então. Perguntei-lhes se não me arranjavam água e claro que acederam. Enchi a garrafa de litro e fiquei safo para os kms que faltassem.
Foi um dia longo, até ao parque de campismo de Moose Creek: 159 kms, à média de 20,4 kms/h. Banho de água fria no rio (mais um parque sem chuveiro) seguido da jantarada do costume…cheira-me que vai ser uma noite bem dormida…


3 de Agosto, urso!
Constatei que só tinha duas fatias de pão para o pequeno-almoço. Bem, não é problemático, pois reforço com uma barra energética e são logo mais 200 calorias…
Hoje não há vento, a estrada é em carrossel, sempre em sobe e desce, ainda que não acentuadas. Certo é que, seja pelo relevo ou pela fadiga da longa jornada de ontem, hoje custa-me progredir e os kms passam mais devagar.
Tinha expectativas que o próximo ponto no mapa – Stewart Crossing – fosse uma povoação pequena mas onde pudesse reforçar mantimentos, nomeadamente pão. Mas não. É apenas uma bomba de gasolina, com uma mini-mini-mercearia e um restaurante próximo. E nessa pseudo-mercearia nada parecido com pão estava para venda. Contentei-me com um Gatorade…
Para já não havia problema. A questão é se os pontos seguintes do mapa seriam semelhantes a este. Na Dempster Hwy estava avisado para as dificuldades de abastecer água e comida, mas não aqui, na menos remota Klondike Hwy. Bem, restava pedalar e esperar que em Pelly Crossing, o próximo ponto no mapa, onde acamparia, pudesse abastecer-me.
Na verdade a paisagem é totalmente desinteressante, pelo que me limitava a pedalar e arranjar uns passatempos de circunstância para distrair… E foi nesse estado de alheamento que um ruído à direita me despertou e conduziu o olhar. Na linha da floresta, a dez metros da estrada (existe de cada lado da estrada cerca de dez metros desmatados), o meu olhar fixa-se noutro olhar. Um olhar fixo e calmo. Era um urso preto, com tons levemente acastanhados, erguido em pose contemplativa. Parecia pequeno, embora seja difícil precisar, pois boa parte estada submerso na vegetação e eu só vi das patas dianteiras para cima. Claro que parei imediatamente, mesmo à frente dele e saquei a máquina fotográfica, mas já estão mesmo a ver, não é? O gajo não me atacou, pelo contrário, baixou-se, virou costas e desapareceu totalmente na vegetação densa. Foi o momento mais feliz do dia e um dos mais marcantes até hoje, mas também de maior frustração. Não podia acreditar! Depois de mais de 730 kms na Dempster, a terra deles, nem um ursinho de peluche que fosse, e agora, quando já tinha desistido de os procurar, aparece-me um oferecido em bandeja, mas não deixa registá-lo! Bem, tão depressa não se me apagará da memória aquela cabeça, aquele olhar tão meigo, tão tranquilo. Segui até Pelly Crossing com a imagem na cabeça e um sorriso nos lábios e lá apareceu a descida para o Pelly river, avistando-se uma dúzia de casas que compõem a povoação. O parque de campismo é à direita depois da ponte e do outro lado fica o edifício mais desejado: uma mercearia decente, os chuveiros e a lavandaria. Já reforcei a dispensa e estou pronto para o que der e vier até Whitehorse!

4 de Agosto – um dia difícil sem estórias para contar
O objectivo era chegar e pernoitar em Carmacks. Pelas minhas contas - sim, porque o mapa não responde a todas as perguntas – seria necessário pedalar 107 kms, o que não era impossível. Antes de partir precisava de comprar água (podendo, não voltarei a iniciar uma jornada sem o reservatório de água no máximo) mas tive de esperar pelas 9h em ponto, horário de abertura da mercearia.
Os primeiros 10 kms foram a subir mas as reservas estão todas no máximo, pelo que não foi difícil. Os vinte seguintes foram planos ou mesmo a descer, passando num abrir e fechar de olhos. Quer dizer, a malta que só senta o rabo no popó, não julgue que fazer vinte kms de bicla não tem sempre a sua dose de emoção. Mas enfim, tudo ok. A partir daqui é que a porca torce o rabo. Naquela recta onde aparece a sinalização de um parque de campismo encerrado, o vento levantou-se, olhou-me de frente ou ligeiramente de esguelha, sem temor nem piedade, e não mais me abandonou.
Aos 55 kms parei para almoçar. Estava a dobrar o meio da jornada e havia que repor stocks de calorias e ânimo. Havia um acesso discreto, floresta dentro, e aproveitei. Pode parecer patranha, mas não é nada fácil aceder a um local simpático e apropriado para almoçar. Um local onde possa arranjar uma sombra (tem estado calor), onde possa encostar a bicicleta (não esquecer que são 55 kg a equilibrar), com um piso macio onde estender os ossos e sentar o doloroso. Isto porque a estrada é separada da floresta, que invariavelmente a ladeia, por uma valeta para aí com dez metros, rebaixada, de forte declive e piso arenoso, onde as rodas se enterram.
Mas hoje consegui um sítio fixe. Por acaso essa serventia até tinha uma cerca tipo alentejana, onde encostei a burra..
Coincidência de um raio. Depois de encontrar o local perfeito para o repasto e o repouso, um lugarzinho com piso de musgo e uns troncos de árvore caídos que faziam de encosto na perfeição, oiço um camião a reduzir sucessivamente as mudanças. Antes de o ver já sabia que vinha para o mesmo sítio que eu. E assim foi. Parou mesmo ao meu lado e saltou lá de cima um tipo novo, barba um pouco mais pequena que a minha e um ar simpático. Cumprimentámo-nos com o já habitual “How is the day?” Perguntei-lhe se ia passar com o camião, pois dirigia-se para o portão. Assim era e lá interrompi o almoço para afastar a burra.
Entretanto a estrela solar já tinha descoberto o meu local de repasto e repouso e apontou para lá todas as baterias. Bem, tive de encontrar uma alternativa mas nada que se comparasse…
Estava a meio da jornada e era 1 hora. Tinha tempo de sobra mas receava o vento que ouvia zunir continuamente nas copas das árvores. Ainda equacionei uma sesta, mas decidi prosseguir.
Os kms seguintes foram duros e de (ou por isso) pouco encanto. As descidas, quando as havia – e não eram muitas – desapareciam sob a força do vento que, por mais curvas que a estrada desse, estava sempre de trombas comigo.
E foi assim praticamente até Carmacks. Vale a pena recordar que pouco antes de five fingers rapids, parei num parque de campismo, mesmo junto a um dos inúmeros rios e ribeiros que por aqui correm. Parece que é zona típica de desova do salmão, que sobem desde o golfo do Alasca.
Atestei com água fresca do rio, enfie as últimas barras e fiz-me à vida, que é como quem diz: à estrada. O parque era muito acolhedor e bem situado, mas queria chegar a Carmaks… Os 7 kms seguintes forma tramados: sempre a subir. O miradouro de five fingers rapids tem uma vista bonita sobre o rio Yukon e vale a pena parar para uma fotografia.
Depois foi quase sempre a descer até ao parque de campismo Coal Mine, pouco antes de Carmacks.
Estava um sol forte às 5 horas, quando cheguei, e o hambúrguer com batatas fritas, que valia a pena ter fotografado, pois descrevê-las é impossível, e uma bebida gelada com um sabor esquisito, trouxeram-me de volta!!


5 de Agosto, os lagos
Hoje foi a minha maior madrugada: às 7h15 já estava a pedalar. Tinha esperança que o vento acordasse mais tarde e assim ganhar-lhe alguma vantagem…mas também é melhor pedalar pelo fresco da manhã, para alem da própria luz ser mais cristalina.
Procuro sempre pedalar devagar e sem esforço nos primeiros dez kms do dia. É tipo aquecimento…O céu está de veras bonito, azul intenso, com algumas nuvens esbranquiçadas de formas e aparentes texturas diversas. Surge o primeiro lago e a primeira fotografia…Para já não há sinal do inimigo…deve dormir.
Na primeira “rest area”, parei. Logo apareceu um casal de “americanos” de Massachusetts. Na verdade a Bárbara nasceu na Alemanha e o Steve é que é da terra do tio Sam. Muito simpáticos e curiosos, fizeram-me milhentas perguntas. Só faltou abrir os alforges e mostrar-lhes tudo o que tinham dentro. E então quando o Steve reparou nos pedais de encaixe, tive de fazer uma demonstração. Mas eram mesmo muito simpáticos, elogiaram Portugal (creio que mesmo sem saberem nada do país, disseram que achavam que era muito bonito, que amigos já lá tinham estado) e desejaram-me mil vezes boa sorte e boa viagem.
Pouco depois regressou o meu inimigo e companheiro de viagem: o senhor vento. Mas hoje não lhe darei atenção…Parei para almoçar num parque de campismo com uma localização magnífica, junto ao twin lakes, dois lagos de água esverdeada. Depois prossegui em busca da linha de horizonte que era deveras apelativa: o tal céu azul intenso, as nuvens por vezes translúcidas e as montanhas verdes. Ao aproximar-me do Fox Lake, o local escolhido para pernoitar, ainda parei num viewpoint alusivo ao brutal incêndio que devastou centenas de milhares de hectares, ardendo consecutivamente 59 dias. Ainda é desolador…

O litle fox late é um daqueles lagos dos postais: águas em vários tons de verde, pinheiros nórdicos espetados, frondosos e elegantes, pequenas ilhotas cuja linha de água é composta de musgo verde viçoso. Apetecia-me ficar já por ali mas o parque era mais adiante e certamente também seria aprazível.

E 110 kms depois de ter começado a jornada, lá estava o Fox Lake Camp ground. Escolhi o lugar 20 para acampar e montar a tenda, a 5 metros da água. Infelizmente acho que o tempo está a mudar, pois encobriu e arrefeceu bastante. Espero que não venha aí chuva…estava a correr tão bem e Whitehorse está a um pulo de …70 kms.

Dia 6 de Agosto Whitehorse again
A vista da minha janela é mais bonita do que a vossa, apesar da minha janela não ter cortinados, nem vidro duplo (nem simples), nem quadradinhos ou rectângulos. É para o lago e para a montanha. É para o céu e as para as nuvens. É para o silêncio e para os seixos redondos do fundo do lago. E, se torcer um puser a cabeça fora, é para a montanha e para a floresta. Foi assim o meu acordar, ás 6h da manhã.

Queria chegar cedo a Whitehorse, pois tenho muito que fazer: lavagem, limpeza e reparação geral da bicla, compras diversas (óculos, capacete, ciclómetro – o velho está a pifar – comida, e outras coisas ainda em lista de espera…), mail, blog…
Praticamente pedalei sem parar para comer ou beber. Apenas uma foto ou outra, já não muito longe de Whitehorse e, para aí a 15 kms da cidade, pára uma auto-caravana 100 metros à minha frente. Nem queria acreditar! Era mesmo a Ester e o Beat, os suíços…terminam as férias amanhã e estão a chegar à cidade aquando a mim. Estávamos todos estupefactos e genuinamente contentes! Afinal fizemos quase duas semanas de férias ao mesmo ritmo, eu de bicla e eles de carro. Pernoitámos quase sempre nos mesmos sítios (ontem ficaram no Fox Lake CG, tal como eu) e, sem nunca combinar nada, entramos na cidade de “mãos dadas”. Há coincidências giras e não esquecerei esta…
E agora está-se a acabar a hora de internet a que tenho direito, pelo que vou editar este post. Se ainda cá conseguir passar mais logo, talvez ponha umas fotos e mais umas larachas. Se não, até Watson lake, daqui a cerca de 450 kms…parece que há umas hot springs antes da povoação muito boas, mesmo num parque de campismo…

domingo, 1 de agosto de 2010

Fotos DHWY










Dampster Hwy

Este texto é um teste. À vossa paciência...Fotos, vai ter poucas, pelo menos enquanto não resolver um problema técnico. Assim, deixo o relato despretencioso de um biciclista que passa o tempo a pedalar, não a escrever, não a filosofar, não sociologisar, não a antropologisar. E desculpem as gralhas, erros, pontuação e acentuação...não dá para tudo!
Seguem-se as primeiras páginas (presumo que relatos futuros sejam menores, pois a vida do pedal pode ser monótona - mas ainda não é!!)
Ah, sobre Dawson talvez escreva depois. Para já sinto-me compeltamente incapaz de expressar o que a vila me transmite...

Ao primeiro dia criei o dia zero
À chegada a Inuvik, o tempo estava cada vez mais encoberto, ameaçando chover. Tinha umas últimas compras para fazer, como o repelente para ursos, gás, comida para vários dias, água e, no meio da febre consumista, ainda comprei um pneu suplente!! Fui encher a bike de ar na bomba de gasolina e, de regresso à cidade, começava a orvalhar…passei mesmo junto ao acesso ao parque de campismo e, entre hesitações, decidi que não ia começar logo com uma chuvada e uma molha. Montei a tenda já com chuva. Só partiria no dia seguinte. Este seria o dia zero!
Estava a meditar no interior quando ouço um: “Hei biker”!? Estiquei o pescoço e deparo-me com o Jonh, um americano ruivo, com barba de 2 meses, todo impermeabilizado da cabeça aos pés. Tinha acabado de fazer a Dampster Hwy. Foi simpático e combinámos que nos encontraríamos daí a pouco na cozinha do parque, para me dar umas dicas sobre o caminho, comida e água.
Pintou um cenário bem árduo: que tinha de levar comida para todo o caminho; assinalo-me no mapa percursos de mais de uma centena de kms onde não havia água; falou-me do piso que, com chuva e lama, ficava duríssimo, não ciclável por vezes; falou-me ainda de uma zona onde o relevo era um autêntico carrossel. Muito animador…

No primeiro dia, cumpri
Por entre a neblina desmontei a tenda, arrumei a tralha e preparava-me para partir quando percebi que, ainda antes da 1ª pedalada, já tinha perdido o capacete, novinho em folha comprado em Edmonton!! Ficou por certo na biblioteca de Inuvik, ontem…
Antes de partir “bati à porta” do Jonh e disse-lhe que tinha um presente para ele. Na verdade é o guia da Dampster Hwy, um livrinho bem fixe de que tinha 2 exemplares. O gajo olhou para mim com um ar mais que duvidoso, perguntando-me se sempre ia partir. Disse-lhe que sim, se calhar também sem muita convicção, e ele lá rematou que durante o dia podia sempre voltar para Inuvik, pois era perto! I can do it, John, I can do it, retorqui duas vezes, mais para me convencer a mim do que a ele...
Comecei a pedalar, ainda parei na biblioteca a ver se lá estava o capacete mas só abria à 1h (era sábado).
Inuvik é uma cidade de 3500 habitantes feia, suja, húmida, de ruas enlameadas. Pelo menos foi o que vi. A evitar.
Pedalei em aquecimento, deixei o asfalto e entrei na Dampster Hwy, de terra batida, cuja placa dizia: Eagle Plains 356, Dawson City 767 e Whitehorse 1220. Era o que me esperava – ou que eu (achava que) esperava.
No primeiro dia contava pernoitar em Caribu Creek CG, 52 kms depois de Inuvik. Queria começar calmamente, pois não tinha feito qualquer treino prévio e no último ano devo ter pedalado menos de 200 kms. Esteve sempre nublado e as rectas infinitas na estrada de terra escura, ladeada de tundra, eram a minha única silenciosa companhia. Cruzei-me com dois carros no percurso e cheguei ao parque mesmo a tempo de montar a tenda antes da chuva começar. Diga-se que o parque é “self-registration”, o que significa que não tem nada. Ou melhor, duas toilets como infra-estrutura e os lugares para acampar com a respectiva mesa e o sempre presente barbecue. Fiz a primeira refeição de campismo (massa com atum! e ninguém reclamou). Bem, mas fiquei quase sem água. Apesar do rio correr a 20 metros, a água era barrenta. Havia uma caravana ao lado e quando alguém chegou de carro, fui lá pedir meio litro. Estava safo.

No segundo dia, superei(-me)
Apesar da curta presença nestas paragens, já há características que vão sendo habituais: orvalho, neblina, humidade e tenda molhada. Queria começar a pedalar de “madrugada” e às 6h da manhã fiz a primeira tentativa. Mas recolhi de novo aos aposentos, pois chovia bem. Nova tentativa e o mesmo resultado. Afinal, parece que não estou preparado para a aventura! Um exercício de introspecção, alguma racionalidade e saltei de casa. Afinal, estava à espera de quê? Apanhar 450 dias de sol!!? Saltei da tenda e já não chovia…
Uma das preocupações do dia era a água. Tinha 1 l e havia que teria de chegar até Tsiigehtchic, ao ferry que cruza o Mckenzie river, daqui a cerca de 80 kms. A estrada é totalmente plana, a única dificuldade é o piso enlameado que trava autenticamente o andamento. E não há piso por onde escolher: se mais na berma, afundam-se as rodas na terra arenosa, se escolho os rodados dos carros, parece uma caixa de ovos, cheia de buracos, fazendo vibrar tudo, especialmente o traseiro, que tenho de poupar.
Para minorar a perda de água, pedalava devagar e de corta-vento aberto, para aquecer o mínimo e não transpirar (poupar água). De repente lembrei-me ter lido algures que o Ferry só funciona até às 12h30. Se assim fosse já não passaria hoje. Chegaria com meia hora de atraso. Mas não, estava mesmo para partir com uma auto-caravana acabada de chegar. Entrei e logo me dirigi ao gabinete para onde entrara o “barqueiro”. Era Gwich’in e estava sentado a esculpir um pequenino barco em madeira. Perguntei-lhe se podia servir-me de água e, sem levantar os olhos do barco, disse que sim. A água era escura, sabia a terra mas devia ser bebível…para mim, foi. Como havia uma cafeteira com resto de café, perguntei se me podia servir. A resposta foi como a anterior e eu lá pus leite condensado numa caneca, café e…estava delicioso. Ainda não disse, mas as temperaturas rondam os 10 a 15 graus.
Depois de Tsiigehtchic, o meu objectivo passou ser chegar a Fort McPherson. Eram mais uns 70 kms, que dificilmente imaginara poder fazer, mas agora pareciam exequíveis. A paisagem melhorou um pouco, o sol até apareceu e o piso estava bom. O rabo é que ia reclamando…duas barras energéticas e as 7 últimas bolachas que ainda restavam de Edmonton foram as calorias necessárias!
O parque de campismo fica 10 kms depois de Mcpherson, já junto ao rio Peel. Na recepção estava um velhote a queixar-se dos ossos e do tempo…parece que é universal essa associação. A verdade é que me mostrou a cicatriz do joelho onde tinha sido operado e tinha mau aspecto…
O parque era excelente, com uns duches e wc impecáveis, tudo limpíssimo e aquecido. E eu era o dono daquilo tudo!! Deu para secar a tralha, o que é sempre um momento alto em qualquer dia e latitude. Não só pelo desconforto que é montar e dormir numa “cama” molhada, mas também pelo peso extra que se transporta.

Ao terceiro dia, vivi o sol e a paisagem
Fort Mcpherson é realmente o último ponto de abastecimento para o resto dos mais de 500 kms, até Dawson City. Como tal, tinha de comprar mais umas coisas: bolachas, conservas, talvez fruta e essencialmente pão. Pensei que as lojas abriam às 8h e às 7h55 já tinha feito os 10 kms do parque à povoação. Estava completamente desértica a única rua por onde se estende: a Mckenzie Ave. Encontrei, lá para o fim, um camionista que aquecia os motores daqueles monstros que, ao passarem por nós, fazem vibrar o chão e a bicicleta, e perguntei-lhe a que horas abria a mercearia. Respondeu “às 10h”. Está-se mesmo a ver o meu entusiasmo… Voltei ao campismo (mais 10 kms) e arrumei tudo, o que me levou cerca de 1 hora. Foi então que conheci o Mike, um inglês que estava a fazer a Dampster, mas de dawson para Inuvik. Dormiu clandestinamente no parque e disse-me que “ninguém” pagava nos campismos, excepto eu! Ainda lhe disse que este era tão bom que merecia mesmo ser pago…deu-me mais algumas dicas sobre o caminho, especialmente sobre um refúgio de caçadores, ao chegar ao Ogilvie river, e que pode ser um excelente local para pernoitar, pois não há parques perto. Preparava-me para voltar à vila quando me aparece o Robert, o guarda do parque, irmão do recepcionista de ontem, oferecendo-se para me levava à vila às compras e trazer-me de volta. Ainda estava a duvidar do meu inglês, mas não havia dúvida! Deixava tudo na recepção do parque e ia e voltava com ele. Foi excelente, pois já me imaginava a fazer 40 kms sem sair do mesmo sítio…
É tudo caríssimo: bolachas a 6$, pão de forma a 5$, ½ litro de leite com chocolate 3$, etc. mas um saco de plástico por 0,26$ é que me pareceu de mais. Pelo menos as laranjas eram deliciosas…. O peso na bicla é que aumentou muito – já ia para aí nos 55 kg.
O Peel river passa-se de ferry. Cheguei lá quase às 11h, mas só de lá saí passava do meio-dia. Estavam com as máquinas a prepararem o local de atracagem nas margens (sim, porque aqui o cais é de terra e vai e vem ao sabor da natureza) e demoraram uma eternidade.
Acabou-se a planície e começou a montanha. Os primeiros kms foram sempre a subir e a bem empinados. Ganhei na vista sobre o rio, Fort McPherson e o vasto planalto rodeado de montanhas azuladas…O sol ia apertando e a transpiração abundava, mas a paisagem finalmente correspondia às melhores expectativas. Até à fronteira com o estado do Yokon, ainda houve uma subida de cortar a respiração, mas aí, no topo, 360º de liberdade, natureza pura e pujante, esmagadora, silenciosa e imaculada.
A descida para o Rock River Camp Ground é praticamente sempre a descer, deslizando pelas encostas suaves do vale verdejante, vida e morte de centenas de caribus ali caçados ancestralmente, numa armadilha da natureza para onde os caçadores os conduziam. Uma espécie de Portas do Ródão, um funil…
O parque de campismo volta a ser self-registragion. O rio passa mesmo à ilharga, barulhento mas de águas límpidas, onde reponho o stock de água, entretanto reduzido a zero.

Ao quarto dia, passei o Circulo Polar Árctico e apareceu o Benfica
O dia começou límpido, verde, silencioso e de uma tranquilidade absoluta. O relevo era suave e o sol ainda não apertava mas já espreitava... Eu é que espreitava obsessivamente em busca de caribus ou especialmente ursos, pois era suposto ser terra deles, mas nada. Quarenta e poucos quilómetros depois do início da jornada, chego ao círculo polar árctico. É mítico, pois claro, e fica num planalto de vistas grandiosas. É aí que peço para tirar uma foto a um casal de turistas. Pego no cascol do Benfica e o Cláudio faz um enorme sorriso e diz: Benfica, Portugal, és do Benfica? Excelente equipa!! E o diálogo foi por aí fora. Ele e a mulher, Bárbara, são italianos, de Parma e o gajo sabia muito do glorioso. Recordámos o Trapatoni e o penúltimo título, o Rui Costa, o Mourinho… Muito latinos, muito simpáticos.
Prossegui e recordo a descida para aí de 8 kms até ao Eagle River. Pura adrenalina, controlada para evitar danos mecânicos. Eagle Plains é um ponto estratégico na Dampser, tipo Canal Caveira. Todos param ali, pois não há outro ponto de apoio (gasolina, comida, café, dormida) entre Mcpherson e Dowson. Comi uma refeição decente (nunca tinha visto um hambúrguer duplo tão grande e que desaparecesse tão depressa do meu prato…uma cerveja custou 4$75 e 1,5 l de água, 4$ - precisava de 2 garrafas de 1,5l de água pois nos próximos mais de 100 kms não haverá…Continuei por mais uns 20 kms e acampei no único sítio aceitável. Ao longo da estrada não há locais aprazíveis ou sequer utilizáveis. È só vegetação densa…
Numa pequena reentrância acampei, pois estava a formar-se uma trovoada e não queria ser apanhado desprevenido pela chuva, que não tardou a cair forte e feio.

Ao quinto dia, a estrada fugiu para o rio
Hoje foi o dia de todos os testes. Comparado com hoje, os dias anteriores têm sido um passeio pela marginal, em dia de sol e brisa fresca pelas costas.
Como não parava de chover, tive de voltar a arrumar tudo à chuva. Notou-se logo no peso, pois transportava kgs de água nas coisas molhadas – o próprio colchão estava molhado e o fundo da tenda não resistira à lama.
O dia estava complemente cerrado, não se via nada, primeiro com chuva miudinha, depois mais grossa e cada vez mais ventoso. O piso estava completamente enlameado e progredir era difícil, mesmo numa velocidade baixa. Mas não muitos kms depois do início, houve um momento solene: um moose e duas crias hesitavam em atravessar a estrada, a não mais de 30 metros de mim. Saquei logo da máquina, enquanto a mãe, presumo, me observava de cabeça empinada. Fiquei quieto há espera que algo acontecesse. Creio que não serão ofensivos nem perigosos, mas são do tamanho de um cavalo e, apesar de não terem cornos, se quiserem podem ser perigosos. Em sentido contrário vinha um carro e os três atravessaram a estrada e desapareceram na tundra.
Prossegui, com aquela imagem impressa na mente a dissolver-se na chuva, no vento, na intempérie, no esforço, até nada restar.
Numa zona de repouso, estavam dois contentores abertos. Não hesitei e entrei no primeiro. Vesti uma camisa seca, comi e fiquei mais confortável. Mas como era num alto, o vento zunia violentamente contra o contentor e a chuva caia impiedosa, empurrada pelo vento. Devo ter ficado na expectativa para aí uma hora. Perscrutava o céu e o horizonte, à procura de uma aberta, uma nuvem menos carregada, mas nada. Não se vislumbrava qualquer melhoria. Decidi então jogar com o psicológico: veríamos quem era mais teimoso, se eu se o senhor tempo. Era um jogo perigoso, especialmente porque sabia que hoje voltaria a não poder contar com campismo oficial. A minha melhor chance era a cabana de caçadores, escondida na floresta, onde a estrada “tocaria” o rio Ogilvie, tal como o Mike me explicara.
Fiz-me de novo à estrada e a minha principal preocupação era agora a bicicleta. Com a chuva, areia e lama, fazia barulhos por todo o lado, especialmente as mudanças, que passei a usar o mínimo.
A determinado passo cruzo-me com um camião, que para. O motorista abre a janela, olha-me com ar de pena e pergunta-me se não quero voltar para trás, para Eagle Plans. Disse-lhe, determinado, que nem pensar. Prosseguiria. Desejou-me sorte e foi-se com um sorriso…Se viesse no “meu” sentido, não teria hesitado um segundo! Deslocava-me a 9 km/h, o que diz tudo.
Por volta das 5h, com quase 9h nas pernas, pareceu-me vislumbrar sinais de cedência do inimigo: as nuvens pareciam mais claras e mais altas. Na linha do horizonte pareciam mesmo esbranquiçadas e nas minhas costas até havia uma clareira quase azulada. Pouco depois surgiram as Ogilvie Moutains no horizonte e ao chegar ao Ogilvie-Peel view point, já tinha uma vista total, quase sem chuva. A paisagem volta a ser grandiosa.
A estrada desliza agora suavemente, contornando as encostas dos montes. Segue-se a descida de mais de 6 kms para o Ogilvie river e a jornada está a terminar da melhor maneira. Só falta descobrir o refúgio, esperar que tenha lenha e que possa secar tudo, especialmente os sapatos, totalmente encharcados e sem substituição.
No fim da descida vejo 3 carros parados e penso: devem estar a observar ursos ou algum outro animal. Seria a cereja… mas quando me aproximo ouço o barulho ensurdecedor da água jorrando montanha abaixo. A estrada desaparece à minha frente e apenas um rio de lama flui violentamente. Os tipos estão como eu, a olhar perplexos e sem saber o que fazer.
Ao fim de 1 hora já se vê a estrada, ainda que completamente cortada, com mais de meio metro de água. Mas o problema nem seria o ½ metro de água, é a força visível do caudal. Passa um arbusto arrastado na corrente e nada o trava. Ao fim de quase 2 horas decido voltar para trás até encontrar um local sofrível para acampar. Não é fácil, não só porque está tudo encharcado, mas porque a estrada termina onde a tundra começa… Aproveito uma pequena reentrância na berma, procuro endireitar o chão um pouco, a pontapé e monto atenda. Ficou muito desnivelada, estava molhada, mas não chovia. O jantar hoje foi uma mega sandes e …tentar dormir. A cabana devia estar a 200 metros…

Ao sexto dia, o sol voltou
O pequeno almoço foi o resto da sandes do jantar!! Como estava tudo encharcado, especialmente os ténis da bicicleta, calcei os “normais”. Estavam secos e eram confortáveis. E conforto era o que necessitava neste momento. Avancei para o sítio onde a estrada estava cortada e constatei o óbvio: a água continuava a correr, mas não mais de 25 ou 30 cms e com um caudal fraquinho. Era só ter coragem para me descalçar, pôr os pés à lama e avançar. E assim fiz. A água estava gelada mas bastou calçar as meias secas e senti logo todo o conforto. Avancei calmamente e poucos metros depois lá estava a cabana do meu sonho e pesadelo. E logo de seguida, a estrada novamente a servir de leito ao rio…voltei a descalçar-me, a sentir água gelada e as pedras que parecia agulhas a espetar…como 20 metros à frente se repetia a cena, caminhei descalço sobre as pedras.
A partir daqui foi sempre a melhorar. A estrada, salvo a lama e o piso degradado, muitas vezes parcialmente levada pela água, estava transitável. Não muitos kms depois cruza-se comigo um carro que para. Era uma empregada da assistência e manutenção da estrada. Fez-me um interrogatório sobre de onde vinha, se tinha passado os rápidos, como tinha feito, se havia carros, se a estrada estava muito danificada. Respondi-lhe a tudo e parecia muito impressionada, nomeadamente com a minha loucura/atrevimento em passar os rápidos, como lhe chamava. Explique-lhe que foi fácil, que o caudal era fraco, mas não parecia convencida.
Durante o resto do dia, era só camiões, niveladoras, retroescavadoras e outros apetrechos numa azáfama a repararem a estrada. Ao chegar à primeira ponte a sério com o Ogilvie, constatei que tinham cortado o acesso ao troço de onde eu vonha. Não deixavam passar ninguém dali até Eagle Plains. Provavelmente teriam de esperar ali um dia ou dois. Afinal tive sorte em estar a meio do troço, pois caso contrário também eu deveria ficar bloqueado.
A estrada e o rio Ogilvie correm lado a lado, no vale que se vai estreitando mais e mais. Vêm-se os sinais da força da chuva por todo o lado: água e lama dois lados da estrada, as encostas esventradas, com árvores caídas, os arbustos do rio todos vergados quando não partidos. Parece que há três anos a estrada não sofria danos desta envergadura.
Decido para em Engineer creek CG. Já tinha feito para aí 50 kms e apetecia-me uma boa refeição, secar as coisas e descansar. Mas ao chegar ao parque, percebo que é mais um self-registration. Tem toilet, cozinha e nada mais. O ponto de água potável indicada no guia da Dempster não é mais que um caminho para o rio, que neste momento é o tal lodaçal. Como contava com água, esgotei toda a que trazia…erro! Assim já não podia ficar ali nem cozinhar o almoço desejado. Bom, dei meia volta e…havia uma caravana a fazer a manobra para ir também embora. Pedi-lhes ½ litro de água mas deram-me 1!! Estava safo, podia continuar até arranjar água e encontrar um sítio fixe para acampar. Acabou por acontecer ao km 175 da Damspter. Mesmo junto ao rio, um razoável reentrância, mesmo com fenos e ervas para ajudarem ao colchão. E pude ir lavar a tenda ao rio, estender tudo ao sol, ver a humidade a desaparecer e a cor a mudar. Tomar um banho meio desajeitado na água gelada, dar mesmo banho à carriça, fazer um mega jantar e contar as estrelas

Ao sétimo dia, o sol continuou e a Dampster quase a chegar ao fim…
Os 105 kms de hoje foram percorridos na zona da chamada Blackstones Uplands. E assim é, zona montanhosa de pedra negra, montanhas pontiagudas, carecas a partir do meio. A primeira parte do dia não teve estória, apenas as dificuldades iniciais de adaptação do traseiro ao selim. Sim, não tenho falado disso, mas está massacrado. Valha-me o milagroso halibut. Já descobri para aí umas dez posições de me sentar, mas nenhuma é perfeita ou sequer sofrível ao fim de dez ou vinte kms! As pernas vão dando conta do recado. Aliás, sinto-as a mudar…novos músculos a aparecerem, e a doerem por vezes, nomeadamente junto aos joelhos. Até ao km 40 a jornada teve pouco interesse. Pedalar sempre a subir, embora suavemente. Por acaso até irrita: há uma ilusão (ou desilusão!) de óptica, pois parece que é a descer mas basta parar de pedalar e pára tudo…claro, o rio não sobe e estou a mover-me em sentido oposto ao rio. Desta vez consigo um sítio aprazível para almoçar. Uma saída da estrada, um pequeno largo, uma árvore onde posso encostar a bike e até sentar-me ao sol e fazer um pic-nic. Não vou dar pormenores mas garanto que terminei com duas bolachas que é suposto terem 90 calorias cada, mais uma mão cheia de sultanas e, pasme-se, sem grainhas. Foi um achado estas sultanas. 400 grs que comprei em Fort McPherson e que ainda duram!
Depois de almoço, a jornada foi sempre em crescendo. A paisagem no Canyon fechado por onde andei durante a manhã deu lugar a um vasto planalto que se foi abrindo e trazendo as verdes montanhas de volta. Cruzei-me com o Karl-Heinz Ranz, um fotógrafo alemão que só faltou converter-me em modelo. Estava mesmo impressionado com um ciclista nestas latitudes, com este tempo e ainda por cima de Portugal. Para alem das fotos, ainda me deu chá e trocámos e-mails. Prometeu mandar-me algumas fotos…uma afectividade muito pouco alemã, diria.
O Chapman lake não é conhecido só por ser o maior da Damspter e por ter várias espécies de peixe, mas também pela tragédia da “patrulha perdida”. Em 1910, a Royal Northwest Mounted Police enviava mais uma patrulha regular entre Dawson, Fort McPherson e o Beaufort Sea. Só que desta vez, e apesar de seguir pelos trilhos dos Guich’in, não levou um guia índio. Perderam-se e morreram todos. Até à última patrulha, em 1921, foi sempre obrigatório ter guia índio e não houve mais incidentes…
Pouco depois entra-se no Tombestone Territorial Park. No que resta das Ogilvie Mountains, ainda se vêm salpicos de neve nos cumes mais altos e protegidos. Os lagos sucedem-se a água brota barulhenta por todo o lado. O verde inunda o horizonte infinito, com a linha sinuosa da estrada, única ferida aberta na natureza esmagadora, a conduzir o olhar. O lago Two Moose ficou para trás, mas de moose, nem rasto.
Já estava com quase 100 kms nas pernas e só queria ultrapassar o North Fork Pass, o ponto mais alto de hoje, acima dos 1250 metros, para iniciar a descida para o campismo.
O parque, apesar de “self-registration”, sem duche, é muito acolhedor, bem situado, com boas infra-estruturas e está cheio de gente. Os suíços com que me cruzei pela primeira vez há 4 dias, no Rock River CG, são de novo meus vizinhos. Parece que viram Grizly Bears ontem… sorte a deles e azar o meu. Deve ser do repelente – adivinham!!
Para culminar o dia, o parque tem um pequeno circuito pedestre onde pude ver e fotografar, em menos de um km, imensa variedade de flora. Fotografei flores em homenagem ao amigo Nelson!!
Ao oitavo dia: Dawson City. I did it Jonh!
Dawson era um ponto de interrogação no plano de viagem. Afinal ficava 84 kms (42+42) “fora de rota”. Ao chegar ao entroncamento da Dampster com a Klondike Hwy, ou virava para a esquerda (Whitehorse, o meu próximo ponto no mapa), ou para a direita. Decidi-me (só desta vez!) pela direita e rumei a Dawson City. A paisagem era desinteressante, menos até do que a da manhã, que já era parca em surpresas ou grandiosidade. Era a descer, o que me levava constantemente a pensar no regresso… Cada vez estava menos certo da decisão tomada…
A povoação fica literalmente no fim da estrada, numa pequena planície, de frente para rio Yucon, rio largo de água barrenta, e de costas para a montanha. À primeira vista é igual às demais: geométrica, com ruas e avenidas numeradas. Mas na realidade é completamente diferente. A menor das diferenças é que se as avenidas vão da second (a firts, aqui chama-se front street) à oitava, as ruas são “Duke”, “Kink”, “Queen”, “Princess”, “York”, mais umas quantas, todas em terra batida.
A cidade parece retirada do museu de memórias dos westerns. Cada casa parece estar ali por uma razão própria, com uma história própria e única, contendo uma alma própria. Apetece fotografar cada uma… O posto de rádio local, ainda não percebi se transmite através de ondas hertesianas, se é apenas pelo som que sai pela porta aberta, que deixa ver um jovem de auscultadores na cabeça exultando num frenesim. O banco! Imaginem um banco em Lisboa (ou qualquer outra cidade “normal”). Situa-se inevitavelmente no rés-do-chão de um qualquer prédio de cimento, com ar seguro e muitos andares. Aqui, o banco tem varanda, onde uma senhora lê ao entardecer, tem cortinas nas janelas, não tem alarmes, nem portas ou janelas reforçadas…mesmo não se tratando de um banco de cultura!!
Ao chegar ao cais, sim, porque a estrada acaba mas o mundo é redondo, para apanhar o ferry para o outro lado, onde fica o parque de campismo, vejo uma azáfama enorme de pequenas lanchas cheias de pessoas, que parecem fazer corridas para jusante. Até parece que o rio é uma estrada com duas faixas de rodagem, pois vão pela margem direita e regressam pela esquerda. Parece-me uma actividade suspeita para uma povoação tão pequena. É então que o barqueiro me informa que está a decorrer o moosehide gathering, um festival que ocorre de dois em dois anos, coincidindo com este fim-de-semana. Como o festival é a jusante, toda esta movimentação é de pessoas que vão e vêm. Do programa consta muita música, animação para os jovens, artesanato, missa, fogo de artifício. Enfim, são os festejos da terra, cujo último dia – Domingo – conto não perder.
Talvez o mais emblemático de Dawson seja o Diamond Tooth Gerties, o primeiro casino a ser legalizado no Canadá, e o facto de aqui ter vivido o prospector, aventureiro e escritor Jack London. Mas para mim, o melhor de Dawson é cada casa que a compõe e a simpatia do Peggy’s Pub e das empregadas.
I did it, John, I did the Dampster Hwy…

P.S. Até daqui a 550 kms, em Whitehorse (até lá, são só montanhas e campismo...)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Partida

Estou de partida de Inuvik, pela Dempster Hwy, a caminho de Dawson City. Espero ter comigo tudo o indispensável (pelo menos o repelente para ursos!! comprei). Como é previsível que nas próximas duas semanas esteja praticamente incontactável, deixo esta breve mensagem para tranquilizar os amigos...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

22-07-10
Meus amigos a aventura por enquanto é apenas de aeroporto em aeroporto, com a tralha às costas. E não julguem que é fácil: se à saída de Lisboa tinha cerca de 45 kgs de bagagem, com mais uns investimentos feitos, já vou nos 50 kgs. Mas mais preocupante do que pagar o peso extra é “ensacar” e “desensacar” a carriça e procurar que chegue escorreita ao próximo aeroporto. À chegada a Whitehorse, dia 21, deparei-me com um problema no “eixo” (não conheço os termos técnicos…) da roda da frente. Parece que há uma boa loja de bicicletas aqui, e como só parto amanhã para Inuvik, espero resolver isto…
Para já ocorre-me dizer sobre estas terras que as pessoas são extremamente prestáveis, simpáticas e profissionais e as “cidades” demasiado geométricas, organizadas, limpas e impessoais. Ah! e em Whitehorse parece que não há rede móvel! É fantástico aqui não se verem todos os putos (e menos putos) de telemóvel na mão…ainda não percebi bem.

domingo, 4 de julho de 2010

Preparativos

A 15 dias da partida, sinto que tenho 1001 tarefas e problemas para resolver. Os percalços já começaram e ainda não dei a primeira pedalada. Ontem, sábado, fui buscar a carriça - uma scot boulder - à loja, novinha em folha. E não é que hoje, ao dar as primeiras pedaladas em Monsanto, fiquei com a "corrente na mão"? Mais vale ser em Lisboa do que em nenhures...