segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A caminho de San Francisco

Prólogo

Meus amigos, está a ser cada vez mais difícil manter o ritmo...do Blog, não da viagem!! Os erros devem aumentar, os detalhes diminuirem, as fotos serem menos seleccionadas... enfim, a "qualidade da coisa" é capaz de se ressentir! mas a "janela é para manter aberta!! A propósito, face a alguns pedidos e perguntas sobre o assunto, é suposto falar para a antena 1, quinzenalmente às 4as feiras, entre as 6 e as 7 da manhã... para os que sofrem de insónias enão têm melhor ocupação, podem sempre ouvir umas banalidades...

A caminho de San Francisco
Os mais de cem kms que separam o Echo Sumit de Folsom, fariam as delícias de qualquer amantes do ciclismo…são praticamente sempre a descer! Recordo apenas uma ou duas subidas que dão nas vistas – ou nas pernas.
Até Pollock Pines, uma pequena povoação na “fronteira” da El Dorado National Forest, a estrada esgueira-se, solitária e silenciosa, pelo vale cavado no vértice das montanhas abruptas, na sombra, por vezes gelada, da floresta densa. Praticamente não há casas e o único vestígio da presença humana é mesmo a estrada.
Em Pallok Pines vejo um anúncio indicando “corte de cabelo – $16”. Estava um calor tórrido e, pelos auto-retratos, dá para perceber que pouparia no champô…Entrei e dei de chofre com o John Wayne pendurado na parede! Barba e cabelo eram $22!! A forma de rentabilizar o preço, que me pareceu exorbitante, era aplicar-lhe um corte radical, e assim foi…no mesmo dia, em Folsom, vi anúncios de corte de cabelo a $9,9…
À saída da barbearia devo ter-me deparado com a figura mais extraordinária ou louca, não só desta aventura mas da minha vida…lamentavelmente não fixei o nome. Um velhote franzino, que parecia ligado à corrente eléctrica de alta tensão, olhou-me com um olhar de uma vivacidade desumana, paralisante, e fez a pergunta habitual… comecei a responder mas a voz dele sobrepôs-se à minha, num timbre agudo, firme e automático, impossível de parar ou sequer ser interrompido. Dissertava sobre a maior bicicleta do mundo, creio que construída por belgas, que transporta trinta e tal pessoas e é recorde mundial, constando do Guinness…eu nem abria a boca, pois as palavras saiam-lhe em torrentes, atropelando-se – pelo menos para o meu fraco inglês… Na sua euforia, disse-me “espera aí, eu tenho isto tudo aqui no carro”. Abre o porta-bagagem e vem de lá com um dossier que começa a folhear. São fotos, artigos de jornal, por vezes parecem mesmo ser “esboços técnicos” de “coisas estranhas”. Folheia o dossier em frenesim, para trás e para a frente, até encontrar o que me quer mostrar – a famosa maior bicicleta do mundo. Tem vários desenhos, perspectivas, alçados, medidas, grandes planos de detalhes, etc.. Explica-me apressadamente como funciona…e passa de imediato para um projecto dele: uma auto-caravana…anfíbia! Tem múltiplas fotos dele e um grupo de amigos em passeios, um dos quais ao Canadá. E vê-se mesmo a caravana com rodas mas um “casco” tipo barco, metade em terra e metade no rio… Pergunto-lhe se é professor, cientista, ou o que faz na vida e ele diz: “tudo, tudo isso e mais. Comecei as loucuras quando tinha 19 anos…e mostra-me outra foto tirada no memorial onde estão esculpidas na rocha as “cabeças” dos mais memoráveis presidentes dos EUA. Diz-me: “vês esta foto, a placa com os nomes!? Ninguém consegue tirar esta foto deste ângulo…tive de escalar as estátuas para a tirar! Como era proibido, paguei 600$ de multa!! 600$, vê bem, quando tinha 19 anos!!!”. E eu, aparvalhado, sem perceber se estava perante o maior louco e charlatão da América, ou um pequeno génio, escutava sem capacidade de reacção, ou até de compreensão…Acredito que era mesmo um homem invulgar…Despedimo-nos e, quando começo a pedalar, pergunta-me se não tenho reflector atrás na bicicleta, que é perigoso, pois os americanos são doidos…
Prossigo pela Pony Express Road, e passo junto a Sportsman, um entreposto mítico na ligação Este-Oeste. As casas são discretas e incrustadas na floresta, as sombras frondosas, o trânsito diminuto e lento. Pedalo devagar para sorver o misticismo que paira no ar. Sucede-lhe a Carson Road, também ela em homenagem a Kit Carson, o mesmo dos livros de cowboys aos quadradinhos, um dos meus preferidos há mais de 30 anos…
As montanhas há muito desceram à terra, os pinheiros, cedros e outras árvores de grande porte, vão dando lugar a pomares, primeiro, e vinhas, depois. Castanheiros, nogueiras, pessegueiros, pereiras, ameixeiras… tudo enfileirado, geometricamente alinhado, densamente povoado mas de pequeno porte.
No topo de uma colina surge um edifício grande, à esquerda da estrada. Há muito movimento de carros e pessoas: é o “Boa Vista Market”, assim mesmo. É um mercado essencialmente de fruta e derivados gurmet: doces, bolos, compotas, sumos…
Os preços da fruta são metade dos praticados nos supermercados e os alperces, peras e uvas que comprei, eram deliciosos…Na caixa perguntei a origem do nome e a empregada confirmou o que suspeitava: era um nome português porque foi construído por uma família de emigrantes portugueses, proprietários da quinta em frente, onde inicialmente vendiam produtos da quinta…
Suspeito que a Lava Cap Wineries e o Machado, candidato a xerife, também terão uma pontinha de Camões no sotaque.
Gostaria de ter pernoitado em Placerville, que me pareceu uma vila pacata e pitoresca, de pequenos edifícios de madeira, com muita gente a animar as ruas ladeadas de pequenas lojas, cafés, galerias. Mas o parque local não aceita campistas, apenas auto-caravanas. Prossegui irritado em direcção a Folsom, na expectativa de que tivesse um parque de campismo…
Poderia estar a pedalar no Alentejo interior…a bolota caída dos carvalhos frondosos esmaga-se na berma da estrada estreita. Numa cerca de arame enferrujado, com ar decadente, três ou quatro ovelhas partilham o espaço com um cavalo. As silvas vão trepando pelo casebre de madeira abandonado, com o telhado semi-desabado. Uma mão-cheia de bois pastam os restos de feno seco e ralo que resiste ao calor do verão.
Para Folsom ainda falta quase uma vintena de quilómetros e o sol começa a desaparecer por entre os carvalhos, deixando a estrada na penumbra…Pedalo a toda a brida, sem ver, ou sequer olhar, sem cheirar, sem sentir por onde passo, apenas em busca do ponto de chegada…exactamente o contrário do que gosto. E de repente, num entroncamento da estrada, surge um café-bar (já não se designa saloon…). Seria o ideal pernoitar por ali. Contíguo ao café havia um pequeno parque de recreio, com ar pouco cuidado e ainda menos utilizado, onde o filho dos donos do café, depois de conferenciar com o pai, me conduz e sugere que fique. O pequeno rectângulo de onde brotam tufos irregulares de relva, é perfeito…e o mega hambúrguer, três canecas e intensa simpatia familiar que respirei, valeram qualquer Placerville…


Rescue - Campismo familiar
Folsom cresce na margem do American River e não se percebe onde acaba, pois até Sacramento, a capital da Califórnia, as zonas comerciais e residenciais sucedem-se numa malha urbana constante. O centro histórico está completamente esventrado por bulldozers que abrem valas profundas nas ruas.
Durante vários anos (2002-2007?) a vila foi distinguida como “bike-friendly”….São inúmeras as ciclovias, mapas, lojas de bicicletas e praticantes…Na verdade, desde Reno-Sparks, que se nota uma alteração brutal, com centenas de praticantes e vias dedicadas às bicicletas.
Até Sacramento naveguei sem mapa, limitando-me a seguir as ciclovias em direcção ao sol poente. Mas não cheguei sem que um prego perfurasse a roda de trás…
Como o único parque de campismo fica já fora da cidade, em Sacramento – Oeste, atravessei a cidade sem parar. Talvez volte amanhã…

Regresso a Sacramento. Pelo menos quero passear pela cidade velha… O meu sentimento em relação às cidades que vou percorrendo é cada vez mais claro: invejo os parques e espaços verdes; sinto curiosidade e aprecio as zonas antigas, invariavelmente as “velhas cidades do oeste”, com duas ou três ruas perpendiculares, os edifícios coloridos, de madeira o mais das vezes, com os passeios de madeira elevados e varandas sobressaídas: barbearia, hotel, salon, mercearia e pouco mais…; e fico pouco impressionado com os novos edifícios, mais ou menos vidrados, espelhados e altos…Sacramento não foi excepção…


Sacramento - old town

Sacramento

A caminho de Davis prossigo pela "bike route" que ladeia a estrada 80. Há vários ciclistas num e noutro sentido. Acompanho um cinquentenário com quem vou tagarelando e de quem recebo sugestões para o caminho a seguir até ao pacífico…sugere que prossiga em direcção ao lago Berryessa e depois para sudoeste, por Napa e Sonora, até chegar à nº 1, em Point Reys. É um pouco mais a norte e um caminho mais longo do que pensava fazer mas, face ao “it’s a hard road but a scenic road, you will enjoy it”, não ia recusar pela segunda vez seguir uma “scenic road”…ainda estou com a “lonliest road” atravessada!

O parque de campismo nas margens do Putah Creek é enorme, está praticamente deserto e parece ser um santuário/reserva de aves. Ao entardecer, os patos passam em bandos alinhados em V, como mandam as leis da física; as garças brancas parecem ser residentes; os pavões pavoneiam-se discretamente pelo meio das árvores, um qualquer pássaro cinzento metálico, cuja genealogia desconheço por completo, mergulha na água e regressa ao tronco da árvore vezes sem conta; por cima da minha cabeça inúmeros outros pássaros, uns com o pescoço vermelho, outros negros com umas bolas brancas nas asas quando abertas, fazem uma grande algazarra…


Putah Creek

O céu é das águias; o rio é dos patos, partilhado por uma ou outra garça branca; as árvores são de pássaros de várias cores, tamanhos e timbres; a estrada é minha…
Depois da vasta planície que se estende de Sacramento a Winters, pensei que até ao pacífico seria um passeio. Nada mais errado…as colinas vão-se sucedendo suavemente, mas sempre a subir. Nas encostas multicolores, o amarelo-torrado do feno em fim de vida, contrasta com as manchas densas dos carvalhos que trazem sombra à estrada. O lago Berryessa é uma pequena barragem na montanha, com os seus braços de águas verdes envolvendo os pequenos vales ressequidos.

Lake Berryessa

No fim de uma qualquer descida surge o primeiro vinhedo a perder de vista, geométrico, numerado, as videiras todas exactamente iguais, com a mesma altura, a mesma dimensão, creio que o mesmo número de cachos, talvez mesmo igual número de uvas por cacho...
No posto de turismo de Napa, o empregado parece ficar desapontado quando lhe digo que pretendo apenas um mapa da cidade e outro da região…já tinha engatilhado o discurso com todas as adegas, o respectivo circuito e operadores.


Napa - Vinhedos

De Napa a Sonoma sucedem-se os vinhedos e as adegas, algumas com casas sumptuosas e enormes. A estrada, em obras, praticamente não tem bermas e tenho de disputar os escassos centímetros necessários, aos carros. Foi o percurso com mais “adrenalina”e cheguei a Petaluma fatigado física e mentalmente…pouco faltou para desmaiar quando a empregada do parque de campismo me pediu $45 por uma noite…

De Petaluma a Point Reys Station é uma zona rural, pobre, remota. Os campos parecem descuidados, abandonados mesmo; um par de burros e outro de cavalos partilham as ervas ressequidas; as casas rareiam e quando surgem têm uma aparência modesta, quase decadente.

Petaluma-Point Reys

As colinas foram crescendo e formaram uma cadeia montanhosa. É a última barreira que me separa do mar, com que sonho há três dias.
A temperatura baixa abruptamente, a humidade vê-se, sente-se, é táctil e cai em gotas de arco-íris pelas folhas da floresta, agora densa e sumptuosa…o Pacífico vem assim ao meu encontro, fresco e de mansinho.

Point Reys

Point Reys Station parece ser uma aldeia feliz, depois de ter dado a volta ao destino. A decadência natural e morte anunciada pelo encerramento da linha e partida do último comboio, foi fintada pelos homens. A agricultura biológica, a sustentabilidade, a fusão entre alimentos naturais e gastronomia, os pequenos ateliers de arte e artesanato, a preservação e recuperação urbana e o “regresso à terra”, encheram de vida e cor as pequenas ruas, num convite silencioso à preguiça…
Point Reys trás consigo a estrada nº1, com quem tenho encontro marcado, que acompanha a costa do pacífico praticamente desde a fronteira com o Canadá até ao México, e com quem tenho encontro marcado.

Point Reys - Stinson Beach

Rumo agora a sul e a estrada mais parece uma ciclovia, tal o número de ciclistas com que me cruzo. Em Stinson Beach, poucas dezenas de kms antes de San Francisco, pergunto ao único veraneante das proximidades se há algum parque de campismo perto. Pergunta-me de onde sou e quando digo “Portugal”, desata num relato interminável sobre as suas próprias férias, há mais de 25 anos, em Portugal. Pergunta-me por Salema, na costa alentejana, e os olhos brilham-lhe. Uma praia deserta, onde só havia uma tasca, em que o marido servia à mesa e a mulher era a cozinheira. A massa de peixe era tão salgada que não a conseguiram comer, perante o ar incrédulo dos donos do restaurante. Repetia a pergunta se Salema ainda era assim ou se já estava cheia de hotéis e restaurantes. Depois falou-me de San Francisco. Que eu ia encontrar Lisboa em San Francisco, com tróleis, eléctricos, muitas colinas. Não lhe disse que em Lisboa já só restam as colinas…De repente parou de falar e perguntou-me o que é que eu queria saber. “Ah, parque de campismo!? Há um muito bom mas é de onde vens – em Olema…A única hipótese agora é fazeres campismo selvagem na praia, talvez na próxima, em Miura, seja melhor…é mais pequena e mais discreta. Há 30 anos era legal, agora não sei, mas experimentas e logo vês!!”. E foi-se embora de repente, praia fora… No meu mapa havia um parque de campismo poucos kms adiante – o deep ravine campground. O problema é que só era acessível com pré-marcação… A estrada subia falésia acima e lá do alto avisto a meus pés meia dúzia de telhados lá em baixo, junto ao mar, no sopé da ravina. Poucos metros depois surge a cancela de acesso ao parque. Estava fechada e com uma série de escritos sobre proibições e multas. Parei olhando para as alternativas, pesando os prós e contras, quando pára um carro. Sai um tipo e abre o cadeado de código e pergunta-me se também vou descer? Digo-lhe que estava a pensar nisso mas não tenho reserva feita… acrescenta que não há praticamente ninguém lá em baixo e decido avançar. Não só não conheço qualquer alternativa de alojamento perto como a localização do parque é irresistível. O acesso ao parque é por uma estrada estreita e que desce abruptamente até ao mar. O parque são meia dúzia de bungalows encravados nas falésias, mesmo em cima do mar, e literalmente mais seis lugares para tendas de campismo, dispersos na vegetação. Não há luz eléctrica nem duche, apenas uma casa de banho. No primeiro bungalow estão três pessoas sentadas no alpendre e trocamos cumprimentos. Explico de novo que não tenho marcação mas não há mais parques nas imediações e vai-se fazendo tarde…no fundo procuro cumplicidade. Uma das mulheres começa por me dizer que só está um lugar de campismo ocupado e que o parque era suposto ter fechado no dia anterior (30 de Setembro). E é então que olha para o marido e diz que posso ficar na “cabin” deles, pois vão-se embora hoje, lá pelas 8 horas, mas pagaram até amanhã…fico atrapalhado com a oferta, mas aceito.

Deep Ravine CG

O passeio pelo parque e a localização dos lugares de campismo fazem-me mudar de ideias…não resisto a acampar no lugar mais distante, à ilharga de um pinheiro com inúmeros braços que crescem quase junto ao solo, a poucos metros da falésia onde o mar rebenta com estrondo. Lá longe, para sul, por cima das nuvens ou do nevoeiro de fim do dia, vislumbro uma ponta metálica que só pode ser a Golden gate…

Deep Ravine CG

Acordo muito cedo…estou com a adrenalina toda e quero chegar rapidamente a San Francisco. As gaivotas e os corvos parecem tolhidos pelo frio e escondidos no nevoeiro cerrado, que por vezes parece mesmo chuva. A estrada sobe e desce, contornando as falésias onde o mar se ouve mais do que se vê. Os poucos carros que vão para norte e levam invariavelmente pranchas de surf no tejadilho. Começam a passar alguns ciclistas em ritmo acelerado. Após Muir Beach a estrada sobe acentuadamente e passam por mim, em ambos os sentidos, dezenas de ciclistas…afinal é sábado! Apesar de estar às portas de San Francisco, a paisagem é completamente rural, com várias pequenas quintas, invariavelmente com a indicação de exploração “organic”…

Muir Beach

Sousalito é a porta de entrada em San Francisco, e parece viver só do turismo, especialmente do cicloturismo… A Golden Gate pode ser atravessada a pé e de bicicleta, sendo o Golden Gate Bike Tour um dos circuitos mais populares da cidade, com prospectos, operadores e alugueres de bicicletas “por todo o lado”. Tem partida de San Francisco, principalmente da zona do porto e baia, e término em Sousalito, o outro extremo da ponte, de onde se pode apanhar o barco de regresso…

Marcha em Sousalito

Aos fins-de-semana, os dois passeios laterais da ponte estão abertos: um exclusivamente para bicicletas e o outro para peões.
Ainda era manhã e o nevoeiro denso apenas deixava ver parte do tabuleiro e dos cabos de suspensão da ponte, o que lhe emprestava um ar misterioso e incerto. Parecia verdadeiramente suspensa no espaço, conduzindo-nos ao vazio, ao infinito. Estava parado à entrada do tabuleiro, com dezenas de bicicletas a passarem em ambos os sentidos, quando um tipo me perguntou para onde ia. Saiu-me “Argentina”. E ele com olhar atento diz-me “não, isso é de onde tu és”. “Perguntei-te para onde vais”. E eu insisti: “I am from Portugal and I am going to Argentina”. Aparece uma miúda do grupo e ele olha para ela com um ar divertido e diz-lhe: “este tipo diz que vai para a Argentina”. E ela tem exactamente a mesma reacção dele: “Ele percebeu mal a pergunta… He is from Argentina”. E o outro, rindo-se, diz-lhe: “foi exactamente o que pensei, mas não, vai mesmo para a Argentina”. E lá seguimos juntos a conversar sobre bicicletas e alojamento em San Francisco, suspensos naquela parcela de metal vermelho que desaparecia suavemente no nevoeiro.

Golden Gate
Não consigo imaginar melhor forma de entrar em San Francisco…É como se aquele nevoeiro viesse de mansinho arrumar o passado, ordenar o quadro onde estavam escritos os lugares, as pessoas, as estradas, os montes e vales, o frio e o calor, a fadiga, e criar um espaço enorme para preencher com o que San Francisco sabe que tem para oferecer aos visitantes.

San Francisco

A Golden Gate entrega-nos directamente a enorme parque verde, com caminhos pedestre e ciclovias, umas vezes separadas outras partilhadas. Tomei o lado esquerdo, em direcção à marina e Fort Manson, sempre à espera que a ciclovia terminasse. Mas em San Francisco as ciclovias nunca terminam – na pior das hipóteses, prosseguem na rua paralela – e os parques verdes parece suceder o mesmo…

San Francisco

Estórias em San Francisco
Não vou alongar-me com relatos sobre a semana que passei em San Francisco…apenas umas pinceladas gerais e dois ou três episódios que achei singulares
Se pudesse escolher uma só coisa para levar comigo de San Francisco para Lisboa, escolhia os parques verdes…Grandes ou pequenos; só relvados, cuidadosamente ajardinado e tratados ou sem estado “selvagem”; com bancos e mesas para pic-nic ou recintos desportivos; cicláveis ou apenas acessíveis a peões; todos invariavelmente com casas de banho e, acima de tudo, repletos de gente de todas as idades, condição, tamanho e peso, muitos a fazerem algum tipo de desporto. No local mais inverosímil, podemo-nos deparar com um ou um grupo de “orientais”, normalmente pela manhã, a fazerem os seus exercícios lentos, pausados, suaves, de uma tranquilidade contagiante…

Festival Árabe


Golden Gate Parque

Se pudesse escolher uma segunda coisa, pois seriam as ciclovias…provavelmente San Francisco tem mais colinas que Lisboa – e garanto que tem ruas com inclinação muito superior às ruas de Lisboa. Ainda assim, não deve haver nenhum local da cidade que não seja acessível de bicla. E se há imensos ciclistas a pedalar por desporto, há incomparavelmente mais que o fazem como meio de locomoção…Sentia-me um verdadeiro caracol nas ciclovias. Homens e mulheres passavam por mim num ritmo que eu só com esforço acompanharia.


Parque de estacionamento

Porto de pesca

Porto de pesca

Porto de pesca

Se pudesse escolher uma terceira coisa, seria a vida da rua. No dia em que cheguei, numa qualquer praça da cidade onde fui dar por acaso, estava a decorrer o festival de cultura árabe. No Golden Gate parque, estava a decorrer um festival musical em quatro palcos simultaneamente, oferecido por um magnata multimilionário – parece que ofereceu um cheque de um milhão de dólares para a realização do evento – que incluía, entre dezenas de outros músicos, Patti Smith, Elvis Costello, Joan Baez. No dia seguinte, em Fort Manson decorria um mega encontro/manifestação e espectáculo musical em defesa de medidas mais eficazes na pesquisa e combate à sida. E o festival no Golden Gate parque, continuava. Todas as quartas, na Levi’s plaza, o SFJazz apresentava uma banda de jazz, das 12 às 13h30. Tudo isto de livre acesso, claro. Porque a pagar, nem imagino…Arcade Fire, na 3ª feira.

San Francisco

San Francisco

San Francisco
Se pudesse, continuava a escolher…e escolhia as cidades que há dentro da cidade…a Chinatown pela singularidade, colorido, diversidade, chinesices. Fillmore pelo Jazz. Mission, pelos murais, pelo sotaque, a língua, os cheiros. Pelo México. Fort Manson até Fort Point, pelos parques e a baia. …….. pelo porto, pelos barcos, pelos armazéns, pelos tascos, pela noite e pelo dia. Civic Center, pelas praças, pelos edifícios monumentais, pela praça das Nações Unidas, especialmente às Quartas e Domingos – dias do “farmer’s market” – pelo Yerba Buena garden e edifícios contíguos, pelo SFMOMA.

Mission
Se pudesse escolher, podia muito bem escolher San Francisco…
Se pudesse escolher, escolhia almoçar num burger king junto à Market Street. Estava sentado numa mesa perto da entrada e aproxima-se de mim uma mulher idosa, razoavelmente bem vestida e pergunta-me se pode levar os dois guardanapos que estão no tabuleiro (o 3º estava na mão). Digo para levar um, pois preciso do outro, mas ela pega nos dois e diz que preciso dos guardanapos para me limpar porque tenho comida para comer e vai-se embora com os dois…

Se pudesse escolher, estava parado pela manhã num semáforo do embarcadero, ao lado de um carro com dois ocupantes e o vidro aberto. O passageiro pergunta-me de onde sou e respondo “Portugal”. Ele diz-me: “Oh, Portugal! Very good country. You made lots of progress in last years. You legalize important things. Very clever, very clever…Have a good one!” e lá foi embora no sinal verde…
Se pudesse escolher, tinha comprado uns ténis, largado a bicicleta e corrido a cidade toda, tal a vontade que sentia cada vez que passavam por mim, fossem oito da manhã, ou dez da noite, nos parques ou nas ruas, planas ou inclinadas, gord@s ou magr@s, nov@s ou velh@os, velozes ou lentos, sós ou em grupo.
Se pudesse escolher, talvez escolhesse San Francisco…

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Califórnia Trail

Califórnia (e Oregon) Trail - não se fotografa nem se descreve...vive-se e pode tentar imaginar-se...


Oregon Trail - Massacre Rocks

Califórnia Trail

O olhar amarelece, tingido pelos tons ocre de toda a terra que existe. As plantas, rasteiras e mirradas, agonizam e vergam-se ao sopro furioso do vento quente e seco. As rochas deslavadas, há muito que viram ser-lhes arrancadas as últimas partículas de terra e, com elas, a esperança da vida. Os corvos parecem estátuas fúnebres, emitindo monossílabos de tempos a tempos, por poupança ou perda de memória. Raramente uma águia emerge da terra, e quando o faz, eleva-se lentamente em círculo pequenos, enquanto solta um piar que mais parece um gemido de desalento e resignado. De um lado e do outro desta morte, velam montes de média estatura e múltiplas formas: ora esfarrapados e despenteados, como cristas de galo disformes pelas lutas de capoeira; ora lisos como a água do mar na linha do horizonte. Bois sedentos, famintos e cegos arrastam carroças rudimentares, esmagadas no peso de grandes sonhos e míseros haveres, rasgando a estrada aos solavancos por entre gemidos silenciados no medo e na incerteza. A última côdea de pão negro, ficou no esforço de transpor uma qualquer derradeira colina – que o não foi. A farinha ardeu com o calor, e as cinzas subiram aos céus, por um qualquer anti-milgare, para gáudio de deuses distraídos. O único fio de água que ainda não se afundou nas profundezas da terra, arrastando-se pelo leito do Humboldt, é espesso, pastoso, malcheiroso, refúgio de larvas e peçonha.
Os pés, há muitos sóis que acariciam directamente o solo agreste. Os corpos secos e cobertos de pó, oscilam como espigas de trigo no momento da sega, antes de tombarem enfeixados no campo.
Os nativos – a que chamaram índios e travestiram de demónios – observam incrédulos, do seu altar em silêncio. Clamam aos antepassados e vindouros sapiência e entendimento para a tragédia que os seus olhos vêem mas o saber não alcança. Olham atemorizados o movimento da terra e dos homens que mais parecem demónios transportando a morte consigo.
A Califórnia prometida está apenas à distância de uma vida – de cada uma única vida…
As flechas de papel esbarram nas balas de desespero. Os gritos explodem em choros. O tropel dos cavalos desencadeia avalanches de rochas e terra que esmagam os pés há muito descalços. A criança que corre, espalha o fogo do seu cabelo ruivo. O vale em chamas e fumo repousa finalmente em paz. À espera da próxima vida que há-de ir mais e mais além, até passar a última colina, estender o olhar e deixar as lágrimas irrigarem o campo outrora morto.

Sem título...
O gemido triste do comboio, silencia o uivo do último lobo da pradaria e acorda-me de mansinho…

Á medida que avanço para sul, para a fronteira do Nevada, sinto na carne e na alma a paisagem a mudar…as vastas planícies são cada vez mais áridas e secas. O Snak River parece ser o milagre da vida para toda a região. É dele que brota, em quantidades aparentemente ilimitadas, a água que corre pelas inumeráveis artérias deste solo sequioso. Os canais de irrigação sucedem-se, e todas as culturas que vejo em redor, do milho às batatas, do feijão à forragem, tudo parece depender do rio. O cheiro e os mosquitos não deixam dúvidas sobre a ruralidade da zona.

Porquê?
Depois de Twin Falls, em direcção ao sul, rapidamente fica para trás o último tom de verde, a última parcela cultivada, a última casa ou aldeia. Apenas a estrada prossegue serena e indiferente à paisagem silenciosa. Rogerson, apesar de suja, decadente, pobre, parece-me um oásis no deserto. O “parque de campismo” rivaliza com os piores que conheço.
Depois de montar a tenda, e não querendo acreditar que os duches e casa de banho eram mesmo os que os meus olhos viam, decidi ir de novo à recepção confirmar. A boa notícia é que estava a decorrer o Rodeo ali mesmo na aldeia. Fui até lá, mas apenas cheguei a tempo do bar-b-q, que estava a começar. Existia uma lista de preços afixados e perguntei se me podia juntar. Com sorrisos e palavras simpáticas que não percebi à primeira, disseram-me que era bem-vindo, grátis e bastava ir para a fila. Contribui com 5$ e aderi à ementa, composta por feijões guisados, maçarocas de milho amarelo cozido, batata assada com a pele e grandes nacos de carne de vaca assados na grelha e fatiados na hora… Depois de repetir três vezes, achei que já toda a gente olhava para mim e fui-me embora. Completei o jantar no campismo, com uma sandes dupla e um litro de leite…

Rodeo em Rogerson

Tomava o pequeno-almoço pelas oito horas, já sob um sol atrevido, quando aparece o Bill com um bolo parecido a um grande queque e mo oferece. Claro que aceitei logo, apesar de ter um exactamente igual em cima da mesa… Na verdade o que ele pretendia era meter conversa e saber o que andava por ali a fazer um barbudo de bicicleta… Mostrei-lhe no mapa por onde tinha andado e qual a rota que iria seguir e concluiu que já conhecia mais dos EU do que ele.
Não tinha percorrido ainda 20 kms quando passa por mim uma caravana, que para logo à frente. Era o vizinho do bolo! Saiu do carro com um mapa que mais parecia uma enciclopédia e disse-me: estive a pensar na rota que vais seguir e a estudar o mapa e parece-me haver uma alternativa melhor para ti… Sugeria-me que seguisse a “lonliest road” – a estrada mais solitária da América… Não se cansava de dizer “It’s a cinic road, but should be Your road”. Resisti à tentação… admito que os sucessivos “pass” acima dos 7 000 – e mesmo 8 000 – pés, as distâncias de mais de 100 kms sem qualquer povoação, campismo ou “rest area”, o calor e o vento contra que me acompanharam nos últimos dias, foram superiores à vontade de trilhar a também conhecida por “Pony Express Road”.
Jackpot fica imediatamente na fronteira do Nevada. Quando vi o nome pela primeira vez, ainda em Lisboa, no Google, duvidei que o não fosse apenas uma coincidência de palavras. Mas não, são 1271 habitantes e seis casinos…o mais famoso dos quais é um autêntico arranha-céus no meio de nada.
Prossegui sob o sol cada vez mais intenso na paisagem árida, agressiva, morta. Deixou de haver ranchos, culturas, pessoas ou animais. A estrada é uma recta interminável e só as pequenas colinas que transpõe lhe quebram um pouco a monotonia. O vento oscila de intensidade mas não de direcção: sopra de sul. Sinto que será um dia duro, pois até Wells, mais de 100 kms depois de Jackpot, apenas posso contar comigo. Começo a racionar a água, especialmente para o caso de não conseguir chegar a Wells e necessitar de acampar e cozinhar…A mesa para o almoço foram os alforges da bicicleta, encostada nos resguardos da estrada.

Entrando no Nevada
A cerca de 65 kms da cidade estava uma caravana parada na berma da estrada, e não hesito: peço-lhes para atestar a garrafa de 1,5 litros.
Com alguma dose de persistência e insistência, cheguei a Wells, uma vila triste nascida do cruzamento de estradas e perdida num indiferenciado, inóspito e agreste vale.

Wells...longe
As povoações vão mudando de nome: Elko, Carlin, Batle Mountain, Lovelock… as milhas na estrada vão diminuindo pouco a pouco. O Snake River há muito deu lugar ao Humboldt. Os dias vão decorrendo iguais. Pareço pedalar dentro de um enorme vulcão, aproximo-me da parede, transponho-a e, quando estou no topo, lanço o olhar e desço para novo vulcão e assim sucessivamente…a linha do horizonte é sempre uma cordilheira castanha; o céu é sempre azul; a estrada negra, recta e infinita, esvai-se no solo plano de tons amarelo-torrado; o sol aumenta de intensidade e atinge o pico quando começa a inclinar-se sobre o mar longínquo. A berma da estrada, do tamanho de uma faixa de rodagem, é toda minha e da Demspter. O tráfego é intenso e ruidoso, especialmente camiões com vários atrelados, mais parecendo comboios.

Carlin Canyon

Entretanto...
Em Winnemucca respira-se outro ar…talvez por o Butch Cassidy aqui ter deixado a alma e levado o dinheiro do banco; talvez pela diversidade urbana, com vários edifícios de traça antiga, paredes de tijolo, telhados de telha vermelha, varandas coloridas; ou talvez apenas sugestionado pela placa alusiva à “route 66” ou à presença basca. A verdade é que foi a primeira povoação do Nevada de que gostei, onde me senti bem, em que senti prazer ao passear pelas ruas, entrar no interior sombrio, e ao mesmo tempo luminoso, dos “casinos”, beber uma cerveja e conversar com o vizinho do lado.

Winnemucca
O estômago e as pernas murmuravam que ia sendo tempo de almoçar, quando surgiu a indicação para Rye Patch Dam, um parque de recreio e campismo nas margens do Humboldt river. Achei que ao fim de tantos dias passados na sua vizinhança, devia-lhe senti-lo de perto, talvez mesmo mergulhar nas suas águas…o local é aprazível e a sombra das árvores tornam-no quase paradisíaco sob os raios do sol abrasador. Uma garça branca com as calças bem arregaçadas, passeia-se, pé-ante-pé, na linha de água. Depois de almoçar, dedico alguns minutos a estudar o mapa – não tanto para hoje, pois conto chegar em breve a Sparks, mas para os dias seguintes – e adormeço com a cabeça em cima de uma qualquer cidade americana… e assim deixei, sem me despedir, o meu mapa Michelin dos EU…
“Forty mile desert” não precisava existir – pelo menos não aqui nem agora… que raio é necessário ainda provar!? Separar os “nus dos mortos”…


Forty mile desert

Forty mile desert

Forty mile desert

Sparks e Reno, com os seus cerca de 270 000 habitantes, formam o primeiro grande aglomerado urbano com que verdadeiramente de deparo.
O dia entardece e na cidade não há parque de campismo. Os motéis e hotéis baratos estão todos esgotados pelo exército de 30 000 motards que se passeiam em ensurdecedoras Harleys. Olho Greg LeMond, tricampeão do Tour, de baixo para cima e observo um verdadeiro gigante de bronze…o de amarelo repousa seguramente numa rua distinta, a dois passos, na sua Reno natal.

Oh pra elas...tantas!
Decido procurar rapidamente as margens do rio em busca de um recanto pacato onde possa montar a tenda. E locais não faltam…existe uma ciclovia ao longo do rio e, de quando em vez, relvados aprazíveis que fariam inveja a alguns parque de campismo. Elegi um local discreto, com uma mesa de cimento mesmo ao lado, onde já me via a jantar, e espetava as primeiras estacas quando, do outro lado da pequena barreira de árvores, pára um carro. Sai um tipo, cruza o curto espaço e antecipo-me perguntando-lhe se posso acampar ali. Responde-me que não, que é proibido acampar em toda a mancha florestal da cidade…já era lusco-fusco e olho para ele com ar desanimado, interrogando-o, primeiro com o olhar e depois, meio afirmação, meio interrogação, digo: e agora o que hei-de fazer…? Onde é que são os limites da cidade? Onde é que poderei acampar? O tipo hesitou e lá me disse: procure mesmo junto ao rio… descendo a margem, pode ser que encontre um local mais escondido e, se quiser, arrisque acampar. Mas já sabe, se a policia aparecer, está sujeito a uma multa e problemas… Segui a sugestão e, com os pés meio na água e a cabeça nuns arbustos espinhosos, lá arranjei os cinco metros quadrados para montar o estaminé, já a lua ia cheia e alta…
…O que me intriga é como raio, à noite, numa zona periférica da cidade, longe de pessoas e casas, surge um “vigilante” (não era polícia), nem cinco minutos depois de eu ter parado e começado a erguer a tenda… já há um bom par de semanas, em Salmon Lake, parei para almoçar num parque de campismo fechado ao público. Não havia vivalma por perto, afastei-me da entrada, e da estrada, duas centenas de metros, estava numa mesa bem resguardada e discreta e mal tinha feito a primeira sandes, aparece-me um polícia de carro a dizer que podia almoçar mas depois tinha de ir embora…

Depois do incidente do campismo, decidi deixar Nevada o mais rápido possível e seguir o caminho mais curto para a Califórnia. Trukeey seria a cidade de entrada no novo estado… Levantei-me com o sol e comecei a pedalar para Oeste. Reno ficou para trás e quando quis entrar na estrada 80, a mesma que me trouxe desde Wells, era proibido o acesso a bicicletas… Prossegui numa qualquer paralela até que…acabou. Tinha pedalado quase trinta kms. Custava-me a acreditar, mas a melhor solução era voltar a Reno e seguir para sul, pela 431, em direcção a Tahoe Lake. Para além de acrescentar algumas dezenas de quilómetros, anunciava o Mont Rose Sumit, com 8900 pés (mais de 2700 metros de altitude…). Mas férias são férias, quem pedala por gosto não cansa e um bom desafio nunca fez mal a um espírito teimoso… Trinta kms para oeste, outros trinta de regresso ao ponto de partida e finalmente a estrada 431 estende-se a meus pés, sempre a subir, sempre sob o sol tórrido do início da tarde, repleta de motards e automobilistas. Afinal, para alem da concentração de motas, Tahoe Lake é um destino turístico obrigatório e era fim-de-semana…Antes de deixar para trás a última casa, eis uma estação de serviço… porque não um último reforço para o corpo e a alma? E à porta de entrada dou de chofre com o Samuel L. Clemens, sentado com cara de ferro e bigode farfalhudo, concentrado nos últimos retoques do Huckleberry Finn…Acho que com a luz do sol intenso a toldar a visão e a concentração férrea (ou de bronze…) nem deu por mim… mas não faz mal, o prazer foi meu!


Mark Twain na estação de serviço!!
Terão sido 25 kms consecutivos a subir. Terão sido 1350 metros de desnível. Terão sido 2 horas e meia a pedalar. Terão passado centenas de Harleys e milhares de carros. Terão caído poucas gotas de suor, pois a camisola vermelha, era metade branca ao fim do dia. Mas afinal subir é apenas uma descida elevada a -1!! ou não!? E o 1 não é o mero elemento neutro da multiplicação? Ao fim de dois meses a pedalar, venham mais cinco duma assentada!!

Um Sumit...
A parte norte do Lago Tahoe, pelo menos num sábado quente de Setembro, é o pior sítio para estar. Repleto de carros, motas, gente, barulho, shops… Entardecia rapidamente e precisava encontrar um parque de campismo para esticar os ossos. Kings beach era a única solução, mas os 25$ custaram-me a desembolsar…

Por ausência de alternativa, ponho a carregar os apetrechos electrónicos na casa de banho. Hoje não foi excepção e lá deixei o telemóvel enquanto jantava. Quando fui buscá-lo, tinha-se evaporado… Reflectia no absurdo de ir de tenda em tenda, caravana em caravana, olhar com ar acusador e perguntar quem raio tinha desviado o telemóvel, quando chega um alemão com o telemóvel na mão para o colocar de novo a carregar onde estava. Perguntou-me se era meu e explicou-me que como andavam por ali uns miúdos “traquinas”, achou melhor levá-lo e ir de tenda em tenda à procura do dono. Mas também não lhe deve ter agradado a ideia e acabou por devolvê-lo ao ponto de partida…acabei na caravana dele, a beber tequilla com ele e a mulher…é piloto cargo da Lufthansa e, por entre os goles escaldantes do álcool, percorremos juntos vários países, especialmente africanos…

Lake Tahoe
À medida que pedalo para sul e viro costas aos principais aglomerados urbanos, o lago torna-se um local aprazível, cativante. Tem uma ciclovia com dezenas de quilómetros, que ora bordeja o lago, ora mergulha na floresta densa. À medida que a manhã avança e o frio matinal fraqueja, aumenta em flecha o número de praticantes com quem tenho de partilhar a ciclovia. São de todas as idades e sexos, de bicicleta, patins ou ténis.
Além do mais, hoje é um domingo especial, com várias provas de atletismo a decorrerem, incluindo a maratona…a vantagem é que eu próprio vou comendo e bebendo ao longo dos vários postos de abastecimento!

Sem comentários...

Emerald Bay
No extremo sul do lago, a estrada 50 tem mais trânsito do que a ponte 25 de Abril no dia 1 de Agosto…um carro patrulha manda-me parar e recomenda-me não prosseguir viagem, pelo menos hoje – Domingo. Diz-me que a estrada praticamente não tem bermas, é muito sinuosa, especialmente até Twin bridges, que o tráfego de regresso às cidades é muito intenso e que arrisco demasiado. Há um parque de campismo uma milha adiante e equaciono ficar lá, mas quando a proprietária e recepcionista me diz que são 35$, já depois dos 10% de desconto que o meu ar estupefacto lhe deve ter provocado, agradeço e viro costas, não sem antes ainda ouvir: “this is Lake Tahoe! What do you expect?”
A menos de 200 metros existe outro parque de campismo, mas desactivado…um local lindíssimo, junto a um ribeiro por onde escorrem águas verdes, sob pinheiros enormes formando clareiras luminosas nas sombras frescas. Nada diz explicitamente que é proibido acampar, mas todos os sinais o indiciam…encosto a bicicleta e espero que uma decisão desça de mansinho pelo tronco do mais forte pinheiro…não consigo esquecer o episódio em Sparks. Não receio propriamente a polícia, mas alguma multa pesada…e começo a sentir aquela sensação desconfortável e irracional de ser observado, controlado. Ou melhor, eu próprio começo a “controlar-me” e a condicionar os meus actos. No Canadá não teria hesitado um único segundo em pernoitar ali…
Como o pinheiro com quem falei continuava em silêncio, decidi eu. Não ia ficar ali, não ia pagar 35$, muito menos depois da última frase, que ainda me soa arrogantemente aos ouvidos. Iria voltar à estrada e retomar o meu rumo…
Fosse do stress ou da zanga, o certo é que a subida ao Echo Sumit, a 7382 pés, foi um puro contra-relógio. Quando vi a placa indicativa, nem queria acreditar! Mais a mais, estava junto a outra indicando o Pacific Creast Trail – uma rota mítica para bicicletas que percorre os EU de norte a sul pela “crista do pacífico” – que equacionei seguir quando “planeie” a viagem, mas de que desisti mal vi a altimetria…

Pacific Creast Trail...
Depois do Echo Sumit foi descer a sério e à séria…
Toda a zona é muito montanhosa e faz parte de uma reserva florestal: a Este, a Humboldt Toiyabe National Forest; a Norte, a Tahoe National Forest; e a Sul e Oeste, a El Dorado National Forest. A estrada é realmente estreita e sinuosa, ladeada por enormes paredes cavadas no granito e precipícios à distância de uma barreira metálica. Mas à medida que desce, são os frondosos e enormes pinheiros que delimitam cada curva da estrada e escondem o sol. A temperatura baixa rapidamente e o próximo campismo do mapa fica a dezenas de quilómetros…
Uma curva da estrada dá de chofre com Strowberry – um nome que não está no mapa. Uma ou duas casas e o Lodge à esquerda e uma grocerie á direita. Opto pelo segundo e pergunto ao rapaz jovem e louro se não há por perto um local onde possa acampar. Para minha surpresa, diz-me que há um parque de campismo a meia milha, logo após o Lodge. Nem queria acreditar… a sorte definitivamente gostava tanto de andar de bicicleta quanto eu. E mais! O Loves Leap – assim se chama o parque – está mesmo estendido ao longo do Pony Express Trail, na sombra de uma falésia de largas dezenas de metros de onde vão descendo diversos escaladores de cordas e arnês à cinta…

Lovers Leap CG

sábado, 18 de setembro de 2010

A caminho de San Francisco I

Jannie and Steve
Depois de ter ficado até à uma da manhã a preparar o texto e fotos para um novo post, passei a manhã a actualizar o blog…os uploads das fotos demoram uma eternidade, depois dão erro e tenho de recomeçar…irritante, especialmente quando do outro lado da janela há vida a cada segundo que passa.


Colter Bay - Jackson lake and Teton Range
O parque de campismo confina com o Jackson Lake. Existem nas redondezas diversos trilhos pedestres que se cruzam numa teia de recantos, cada um oferecendo uma perspectiva única do lago e dos picos nevados em frente. Antes de prosseguir viagem, deixo-me enredar nessa teia, por entre os pinheirais húmidos na manhã tranquila, e quase dormito sob os raios de sol mais persistentes projectando-se no solo, num jogo dinâmico de sombra e luz…
Oh estrada onde tens estado!? Partilhamos em silêncio quantas horas, quantos minutos, quantos segundos? Olho-te de cima e tu a mim de baixo. Tenho-te admirado, não pela beleza da tua tez escura, da suavidade ou agressividade da tua pele, do risco ao lado ou ao meio ou dos lados e ao meio, ou sem qualquer risco com que te apresentas para minha sedução ou protecção. Tenho-te admirado simplesmente porque sem tu cá estares eu não estaria também. Sem tu seres, eu não seria…Tenho-te observado cuidadosamente umas vezes, superficialmente, outras, ou ignorado simplesmente o mais das vezes. E sabes que já descobri em ti uma imensidão de objectos que te são alheios, te desfeiam e a mim me atrapalham? Porcas, parafusos, pregos, abraçadeiras, molas, chaves, porta-chaves, os mais diversos bocados de ferro, toalhas, roupa diversa, vidros, para não falar das latas, plásticos, bocados de pneus esfarrapados…e algum desses objectos já me travou a marcha e irritou. Mas foi ele não foste tu…e se fosses, estavas mais que perdoada. Apesar das partidas que me pregas!

Teton Pass

Teton Pass
Lembras-te de amanhã? Sim, amanhã ainda não aconteceu, mas para mim já, pois hoje para mim é ontem e amanhã é hoje! Pois é, amanhã empinaste essa coluna dorsal negra e lisa, contorceste-a sinuosamente, talvez para te exibires e me seduzires, ou dissuadires, e ao longo de oito mil metros jogaste comigo para o mais perto do céu que estive nestes quase dois meses de comunhão contigo…fomos juntos até aos 2570 metros do Teton Pass. Aí, vencida ou orgulhosa de mim, baixaste a crista, estendeste o teu tapete negro (o vermelho é para distintos seres) e levaste-me em segurança até ao teu parente próximo: o Teton Valley. Pelo caminho – e é por isso que sei que não me queres mal, que era apenas um jogo de sedução, um teste e uma leve provocação – brindaste-me com curvas suaves, portas de entrada ou saída para o florido manto que te enleva, pintado de verdes, amarelos, vermelhos, azuis, brancos, lilases, por onde saltitam riachos em pequenos saltos e suaves murmúrios. E a meio da subida ainda chamaste os teus aliados das alturas e pintaram o céu de breu, soltaram as fanfarras e fizeram trovões, rangeram os dentes e chisparam raios de electricidade que atravessaram o mundo – este onde existimos agora – representaram uma ópera e choraram lágrimas reais – sei que eram mesmo lágrimas reais porque me chegaram salgadas aos lábios secos, apesar de dizeres que o sal era do meu rosto suado.
E quando chegámos enlaçados a Teton Pass, sorri para ti e tu retribuíste, orgulhosa ou envergonhada…percebeste que o meu sorriso era de orgulho e satisfação por ter passado no teu teste, impiedoso mas justo! Já sei, já sei que ainda não conquistei o teu coração. Já sei que tens inúmeros segredos para me contar ao longo dos próximos tempos. Que este foi apenas mais um – o mais difícil até agora, mas também por isso o mais saboroso! E o nosso pacto é para cumprir: levas-me até ao “fim do mundo” e eu ouço os teus segredos mais ousados e aceito os teus desmandos e regras sem protesto!
Mas isso foi amanhã. Hoje, estrada, foste meiga. O vento esqueceu-se de respirar – espero que não se extinga… o sol nem pestaneja, não vá escapar-lhe algum ínfimo pormenor cá em baixo, o céu deve estar triste sem a companhia da menor das nuvens com que passa os dias a fazer desenhos irreais, as nuvens, essas devem ter sido chamadas de emergência para uma reunião de alto nível, esperemos que nos antípodas e demoradamente. Os pinheiros observam-se nos olhos – talvez se namorem, ou enamorem, em silêncio. Ou talvez façam apenas a fotossíntese que o seu código genético lhes manda…ou talvez velem pelas plantas e flores que se exibem a seus pés. As verdes da juventude, aguardam em ânsia viçosas a vez de passarem a amarelas. As amarelas, pacientemente e maduras, aguardam os pigmentos vermelhos da vida e da morte, do fogo e do gelo. As vermelhas resistem ao castanho da morte e à esperança da ressurreição da estação seguinte. E eu, apesar de uma molécula cósmica naquela simbiose, sinto-me estranho, indesejado, intruso, incapaz de entender ou sequer sentir a grandeza e perfeição onde tu, estrada, me conduziste. Sim, a culpa é tua, porque tu vês, conheces e sabes tudo, pois estás em todo o lado. Mas eu não, eu vou apenas onde me levas e não tenho capacidade, nem conhecimento nem grandeza de Alma ou de Saber para poder apreender, ou sequer compreender, o que me mostras. E isto custa muito mais do que passar o Teton Pass amanhã…
E depois levas-me por trilhos secretos, se calhar ilegais mesmo, e mandas-me abrir os olhos e ver. E eu, que já ia de olhos dilatados, como posso ver mais ainda!? Como posso captar com o olhar do corpo a grandeza da Teton Mountain, ou sequer das suas filhas Moran Mountain e outras anónimas a seus pés, se mergulham pela cintura nos lagos de água verdes – chamas-lhes outros nomes: esmeralda, jade, turquesa, azul, mas sei lá se falas verdade, pois nunca estudei a ciência das cores…mas rendo-me ao teu argumento: se fossem apenas verdes, então eram iguais todas as águas em todos os lagos…

String Lake
oh, e como se não bastasse, pintam-lhe as margens com os mesmos motivos, cores e flores que bebemos ao longo do dia e até no fundo das águas dispuseram trocos, seixos, areia e cristais por onde se passeiam pequenos peixes solitários e com ar hesitante.

Jenny Lake

Jenny lake

Mas agora, estrada, é a minha vez de brilhar. Reparaste quando chegámos a Jenny Lake? Enquanto almoçava num banco discreto, à sobra da “grocery”, ao lado da Dampster, quantas pessoas vieram ter comigo, faziam perguntas e exclamavam AH! quando eu dizia coisas simples como ter partido de Inuvik, no norte do Canadá, há seis semanas, ter atravessado todo o país, visitado o Yellowstone e o Teton National Park e estar a caminho de San Francisco, mas com os olhos postos no Ushuaia, apenas com a Dampster e 55 quilos na bagagem, ao longo de mais de cinco mil quilómetros, perdão, três mil e duzentas milhas. Acho que te roías de inveja…mas bonito foi mesmo quando o Bill (pai), o Mat (filho) e o Wes (amigo) – os três, em bicicleta de estrada, tinham estado a participar numa corrida – vieram ter comigo e, ao ouvirem a mesma estória simples, me abraçavam, apertavam as mãos, pediam para tirar fotos comigo, como se eu fosse mais do que eu…e depois deram-me as barras energéticas que tinham e ficaram a ver-me partir como se fosse mais do que eu…

Família de ciclistas
E ao fim do dia – sim porque pode mesmo haver dias assim, e não ser tudo inventado aqui, num local que ainda não vou revelar… – na recepção do Gras Ventre Campground, conheço o Steve e a Jennie. Pegava no envelope para fazer o self-registration e já o Steve me perguntavam: “De onde és e para onde vais?” e eu respondia com paciência e satisfação, dando o nome do blog, apesar de estar em português... E dava as primeiras pedaladas à procura de um sítio para acampar e ouço a voz do Steve: “Luís, Luís!” Parei e ele continuou: “Porque é que não acampas nas traseiras do nosso sítio? Afinal temos apenas uma pequena auto caravana, não utilizamos o espaço todo a que temos direito e poupas o dinheiro do campismo”. E a Jennie olhava para mim a incentivar um “sim” com o olhar brilhante – ou assim o vi.
Depois de montar a tenda – sempre a primeira coisa que faço – cruzei os duzentos metros de freixos(?), choupos(?) dourados até chegar ao rio, onde me refresquei mais do que lavei. Regressava e vi o Steve a ir da minha tenda para a caravana…chamei-o e ele voltou atrás. Trazia um copo grande de sangue de maçã morno que me estendeu juntamente com um “afinal és um excelente fotógrafo Sir” – assim mesmo: “Sir”! E eu, ainda espantado e confuso, pergunto-lhe: não sou nada, mas como é que sabe!? E ele: Acabei de ver o teu blog!! Fiquei sem palavras…
Preparava eu o jantar e já ambos saiam para ir passear os cães (têm dois…) E escolheram ir pelas “traseiras”, passar por mim e surpreenderem-me de novo. Agora a Jennie, diz-me: “então era um hambúrguer e não um bife! Que pena!” E eu de novo aparvalhado: então esteve a ver o blog e até percebeu a estória da minha decepção com o jantar em Seeley lake!! E ficámos a conversar e a rir…

Gras Ventre CG

Jackson

A cabine Elk 36
E hoje, que ontem era amanhã, está contado e narrado ontem, mas continua e acaba hoje…
Teton Pass deita-se longamente e mergulha em Teton Valley. Entardece rapidamente e mais depressa ainda porque os montes raptam o sol, mal se descuida e espreguiça na linha do horizonte. Hesito entre campismo selvagem e dois parques que se sucedem antes de Victor, a primeira pequena povoação deste lado da fronteira do Idhao. Deixo-me embalar e enlevar pela velocidade, passo o povoado, viro em direcção a Idaho Falls e, quando começo a perscrutar um local aprazível para acampar, surge uma placa a indicar “Teton Valley Campgrond”. Tem um ar tão acolhedor e aprazível, uma localização tão idílica (esta é mesmo a provocar!!) que acabaram as hesitações e preocupações orçamentais. Dirijo-me à recepção e o simpático dono olha para mim, para a bicicleta e expõe a coisa assim: “quer um lugar para acampar, para montar a tenda por uma noite?” E eu digo que sim, que é apenas isso de que necessito, um pequeno espaço para montar a tenda. E ele retorque: “ok, mas eu tenho “cabins” livres e pelo mesmo preço, dou-lhe uma… Ali, a Elk 36, está bem”? E eu, “está óptima, muito obrigado, é muito simpático… vai ser a primeira vez em quase dois meses que não durmo na tenda mas numa cama!!”. E então lá veio a estória e o repetido “great adventure” dele…

Teton Valley campground


Teton Valley campground
E foi nestes fantásticos 12 metros quadrados que senti uma enorme vontade de escrever a minha “ode” à “estrada”, a todas as estradas que me trouxeram até aqui, que tiveram nomes ou números, mas a quem devo os dias bem vividos – ok, admitamos, felizes mesmo – que passei…

Teton Scenic Byway
Para começar bem o dia estava, estava anunciado no mapa mais um Pass – palavra horrível para um ciclista, pois é sinónimo de montanha empinada… - desta vez o Pine Creek. Abreviemos, este Pass nem primo chega a ser do Teton: cinco kms a 5% de inclinação não chegam a dar para aquecer…
Depois do Pine Creek Pass a estrada segue por um vale fechado onde apenas cabe a estrada e um ribeiro e ladeado das cores emergentes de Outono, onde o ouro e o jade se misturam. Mesmo as encostas, mais secas e agrestes, vão soltando labaredas fugazes de vermelhos intensos. Poupo os kms e deixo-me embalar cantarolando Zeca, uma música que fala de pássaros que “voam alto”… “com bicos rosa”…”nuvens desfeitas”? Só sei trautear – a letra, infelizmente, está esquecida.

Teton Scenic Byway
E o vale de repente abre-se a uma enorme clareira de trigo dourado. Até Swan Valley a estrada ondula com as searas de trigo. E Swan Valley traz no ventre o Snake River, de águas verdes e transparentes, correndo com força à sombra das ainda tímidas cores do Outono. Nada melhor que a margem esquerda para almoçar…


Teton Scenic Byway
A partir daqui, é plana e rectilínea a estrada e infinitos os trigais. Partilham o universo com o céu azul e nada mais…

SnakeRiver

A caminho de Idhao Falls
Idaho Falls pareceu-me demasiado horrível para sequer abrandar…prossegui pela estrada 91 e pernoitei no parque de Sheley, um enorme e aprazível relvado, com casas de banho, água quente, e tudo para mim, pois só havia duas ou três auto-caravanas noutra ponta do parque.

Sheley Campground
The Ghost
Pedalava distraído, entregue aos pensamentos de viajante, quando algo me saltou ao canto do olho, abanando-me os sentidos e obrigando-me a virar a cabeça para trás.
Poderia ser apenas um homem com o seu cortador de relva a aparar o jardim. Mas a casa não era casa, o jardim não era jardim e a relva não era relva. Apenas o homem parecia ser um homem e não havia dúvida, mais não fosse pelo barulho, que utilizava com um cortador de relva barulhento.
O cérebro trabalhava rapidamente. Tinha de voltar atrás, sentia-me irresistivelmente puxado para trás. Travei já umas dezenas de metros adiante, dei meia volta, atravessei a estrada e aproximei-me lentamente. Voltei a atravessar a estrada mesmo em frente ao homem, que levantou os olhos para mim e parou de imediato o cortador de relva. Era alto e magro, com ar elegante, praticamente branca, cabelo comprido que se confundia com a barba, boné na cabeça e óculos. Olhou-me com ar interrogador e a única coisa que me ocorreu foi perguntar-lhe se Blackfoot era muito longe. Caminhou para mim – parecia satisfeito por ter um motivo para interromper o que estava a fazer – e disse-me que não: “aí 8 milhas, ou menos”. Olhei para a casa, cercada, com ar decadente mas com “algo” que a fazia parecer diferente, e perguntei-lhe se morava ali. Soltou uma enorme gargalhada teatral e disse que sim. Eu disse que me parecia uma casa especial, diferente das outras. E ele respondeu que foi construída nos anos de 1850, como central de reservas e apoio para a companhia Ponny Express, que tinha ali um entreposto. Nos anos 20 do século passado tinha sido uma igreja Mórmon e nos anos 40 escola secundária. E agora…, continuei eu. E ele concluiu, por entre a mais sonora das gargalhadas: “now is the ghost’s house”. Então estou a falar com o “fantasma”, perguntei a rir? É como me chamam para aí…AH! AH! AH! AH!...Estendi-lhe a mão e apresentei-me: “I’m Luís, from Portugal” e ele estendeu-me a mão macia, quase delicada (a minha avó diria mãos de médico…), magra e dedos muito longos, e manteve “I’m the Ghost, from here”. Propus-lhe que tirássemos uma fotografia, pois era o primeiro americano que via com uma barba maior que a minha! Quase me assustei com a gargalhada!! Disse que desde que tinha sido despedido – há dois anos – nunca mais tinha cortado a barba nem o cabelo, rematando, enquanto lançava o olhar por cima da cerca, “my piggs don’t care”. E nova gargalha, neste caso conjunta. Perguntou-a idade, e concluiu que tenho menos onze anos que ele. Por entre outras dissertações, quando falávamos da minha viagem, disse-me que 98% das pessoas eram boas…só 2%, ou menos, eram más…

The Ghoast
Despedimo-nos com um sorriso e uma palmada afectuosa nas costas, e recomeçou a inventar relva para cortar com o seu ruidoso e decadente cortador…
…Ia a vinte ou trinta metros e ouvi-o gritar: I’am Ralph! Ralph, ok!? Com o olhar nublado, e sem olhar para trás, ergui a mão direita bem acima da cabeça com o polgar esticado...
Durante muitos kms pedalamos os três num só...
Parei em Blackfoot. O barulho na transmissão é agora regular e persistente e quero encontrar uma oficina para resolver isto, espero que por pouco dinheiro, desta vez. Passava muito lentamente no cruzamento de duas ruas interiores, olhando para todos os lados à procura duma eventual loja de bikes, e a Mary, cinquentona bem avançada, plantada de braços cruzados, diz-me se não quero almoçar ali – ali, é o passeio em cuja esquina o Jonh acaba de montar o seu “estaminé” ambulante e se prepara para servir refeições… nos quatro cantos do cruzamento estão umas placas amovíveis de madeira, pintadas com produtos agrícolas e anunciando o “local market farmer”. Parei, olhei para ambos e perguntei o que é que serviam para almoço. O Jonh disse que hoje era cozinha mediterrânea especial. Perguntei o preço e ele, se queria sanduíche ou prato. O prato eram 8 dólares… perguntei ainda se havia uma loja de bicicletas na vila. Era a 50 metros, do outro lado da rua. Então combinei que ia primeiro à loja e depois voltava. Enquanto me viam a bicicleta eu almoçaria…
O Jonh é Arménio e vive há 30 anos nos EU…toda a família emigrou. Digo-lhe que tenho muita fome e como muito e ele promete-me um almoço especial. Como sou o único cliente, falamos enquanto vai tirando os pimentos amarelos, verdes e vermelhos do grelhador a gás, coloca a carne picada do típico “xistaouque” (as espetadas finas de carne de borrego, típicas do mediterrâneo sul, e dos árabes em particular), um peito e uma perna de frango. Prepara numa grande caixa/prato um puré delicioso, pimentos, a carne, mais uma pasta vermelha à base de pimentos grelados e ainda – como disse que gostava de picante – um pimento picante! Tudo complementado com o pão árabe/mediterrâneo…
Sentei-me num banco “de jardim” que estava na esquina e comecei a degustar as iguarias e o Jonh olhava-me interrogativo. Foi sem favor nem cerimónia que lhe disse que estava uma delícia… estava mesmo. Os sabores e aromas do Líbano, do mediterrâneo – apesar de ele ser arménio – passavam com distinção…e nem dois minutos volvidos, já havia uma mesa e cadeiras para o meu repasto. E no fim já éramos quatro para a fotografia…

Entre amigos
Que interessa hoje que o mecânico de bicicletas fosse um rapaz dedicado, simpático e voluntarioso, mas que não percebesse nada do ofício!? É verdade que lavou impecavelmente a bicicleta, especialmente o mais difícil: corrente, cassete, pedaleiras; afinou os travões e deixou-a num brinco…por fora! O problema da transmissão é que nem conseguia – ou queria – identificá-lo…Disse que não era nada, eu insisti e ele disse para lhe dar 5 dólares, mas como só tinha 4 para o troco, ficou com seis por entre desculpas e agradecimentos!!


Seagull campground