quarta-feira, 8 de setembro de 2010

EUA - Montana

EUA – Montana
No freeshop canadiano da fronteira de Roseville, comprei 20 dólares americanos. Sabia que iam ser necessários 6 para o visto…
Havia quatro carros na fila para entrar nos EUA e eu parei atrás do último. Não deixa de ser uma sensação especial, um misto de timidez e vaidade, uma bicicleta, ocupando um espaço mínimo e representado ainda menos, ali a portar-se como um “adulto” Mercedes ou Dodge, de vários escapes, muitos cavalos, muitas rodas e buzinas…Chegou a minha vez, avancei ao sinal verde, apresentei o passaporte e adiantei logo que não tinha visto. O polícia, sereno, disse-me para avançar, encostar a bicicleta e entrar na próxima porta. Assim fiz. Estavam três pessoas sentadas á espera e eu olhava em redor, procurando um local para me sentar e esperar a minha vez. Mas ainda não tinha dado um passo para o banco e já o polícia me chamava ao balcão. Perguntou-me como estava o meu espanhol, ao que respondi que esperava que fosse suficiente para chegar à Argentina. Percebi depois que o sentido da pergunta era diferente: afinal o impresso que me deu para preencher estava em espanhol. Pediu-me desculpa por não ter em português… Fui preenchendo e conversando com ele ao mesmo tempo. Já sabia basicamente de onde eu vinha, há quanto tempo e onde pretendia chegar, sempre a falarmos os dois bem alto, que até parecia ecoar no silêncio total do espaçoso compartimento. Os demais funcionários, por trás das respectivas divisórias onde trabalhavam, esticavam a cabeça, olhavam e sorriam com ar perplexo. Quando cheguei ao quadrado da “morada nos EUA”, olhei para ele e acenei para o impresso. Ele disse: ponha “on touring” e no quadrado seguinte, Whitefish – deve ser onde fica esta noite, não? Eu disse logo que sim, e o problema foi ultrapassado. Impressões digitais das duas mãos, quatro dedos primeiro e depois o polegar sozinho, fotografia aos olhos e os 6 dólares, “em US$ ou cartão de crédito”, antecedidos de uma séria chamada de atenção para o cupão verde do visto, que ele tinha agrafado no próprio passaporte: “atenção a isto, não o percas pois tens de o entregar à saída”.
Ainda tive de repetir novamente a um incrédulo jovem agente, que tinha quinze meses para chegar ao Ushuaia…com sentido de humor o polícia acenou-me, desejando sorte e boa viagem e chamando-me a atenção para não me enganar e voltar para o Canadá!

Montana - USA
Aos primeiros quilómetros percebe-se logo que estamos num país diferente… Anúncios por todo o lado, imensos carros e em grande velocidade, casas, campos de golfe, oficinas, restaurantes, estabelecimentos comerciais. A primeira povoação – Eureka – é maior que a generalidade das que cruzei no Canadá! Com excepção, claro está, das capitais dos estados e pouco mais…
Parei no turismo de Eureka fundamentalmente para perceber as diferenças…que tipo de informação tinham, se era tudo de borla ou não, como era o atendimento (simpático, eficaz, prestável…), parques de campismo, etc.. E não fiquei desiludido. Talvez seja menos abundante a informação que no Canadá…perguntei se até Whitefish a estrada era plana (até ali tinha sido a descer ou plana) mas fiquei a saber que era um constante carrossel…

Dickey Lake
Realmente a estrada é um constante sobe e desce, com o vento a soprar de sul, mais ou menos frontal. Mas as subidas são sempre suaves, muito mais suaves que no Canadá, o que dá para manter um ritmo forte, apesar do sol quente, num céu completamente azul, fazer transpirar em abundância.
A mudança dos Kms para milhas demorou uns minutos a interiorizar e converter…rapidamente percebi que não chegaria a Whitefishe, que dista 49 milhas de Eureka e 55 da fronteira.
Em Fortine, parei num café de beira da estrada e tomei uma seven-up e um bolo (ainda não sei o nome, apesar de ser o meu preferido e habitual). A senhora, muito simpática, perguntou-me se queria o bolo com um qualquer creme por cima. Mesmo sem perceber que mistela me sairia, disse que sim. Enquanto ela preparava a iguaria, um tipo jovem de barba ruiva, que mergulhava a cara num hambúrguer com ketchup, meteu conversa comigo e lá tive de repetir uma vez mais a estória da minha vida (recente e futura). O som que mais utilizou foi Huau! a cada nova coisa que eu dizia… Veio o bolo barrado com uma doce película esbranquiçada e devorei-o com a seven-up gelada…antes de prosseguir, a dona do café disse-me que havia um óptimo sítio para acampar em Stillwater Upper Lake, cerca de 15 milhas adiante.
Regressei à estrada em busca de Stillwater Upper Lake mas, mais uma vez, não o descobri a tempo. No mapa surgia claramente antes de Olney. Mas acabou por surgir a placa indicando a entrada na povoação de Olney e de Lake, nada, o que significa que já devia ter passado… nem queria acreditar…Pensei voltar para trás mas o meu contrato diz que devo evitar essa atitude …o meu caminho é sempre em frente, sem recuos nem targiversões… vislumbrei adiante, à beira da estrada, um conjunto de edifícios e achei que podia ser a solução para esta noite. Afinal é o centro de detecção e combate a incêndios, tipo quartel dos bombeiros. Mas estava completamente deserto, sem vivalma… parecia um óptimo sítio para acampar, com espaços relvados, até tinha mesas de pic-nic, casas de banho…parecia mesmo à minha medida! Hesitava em assentar arraiais quando reparei numa casa iluminada, do outro lado da estrada. Fui até lá e saltou-me um canzarrão ferocíssimo aos pés. Felizmente veio logo o dono acalmá-lo com um berro estridente!! Perguntei ao tipo onde é que podia acampar e ele foi extraordinário. Disse-me que eu estava mesmo no sítio certo. Daquele lado da estrada, 20 metros adiante, junto à floresta, há um recinto relvado onde posso acampar. Do outro lado, no tal complexo onde estive, posso servir-me dos chuveiros, casas de banho e água. Afinal é uma obra colectiva e para uso colectivo, com a maioria das portas abertas…
Tomei lá um duche retemperador, em instalações impecavelmente limpas, bem arranjadas, tinham detergentes, gel duche, champô, inclusivamente toalhas arrumadas e empilhadas. Claro que usei as minhas coisas, mas fiquei surpreendido com aquilo tudo ali, à disposição e sem ser vandalizado, roubado…

Tinha percorrido pouco mais de 4 quilómetros quando surge à direita na estrada um lago de águas verdes, paradas na tranquilidade da manhã silenciosa, onde as casas das margens se reflectiam em cores discretas. Havia um grande relvado no topo e bancos de pic-nic. Parei para tirar umas fotos e confirmar com um vizinho que se tratava de Stillwater lake…o mapa estava errado.

Stillwater Lake
Até Whitefishe limitei-me a pedalar pela estrada da morte… não sei como seria em Portugal se tivéssemos a mesma tradição, mas é inibidor e um pouco assustador a quantidade de cruzes, aos pares ou isoladamente, com flores ou sem flores, com bandeiras ou sem bandeiras, com dedicatórias ou não, que se sucedem ao longo da estrada. Garantidamente foram mais de 15 ao longo do dia. E como a estrada é estreita, praticamente sem bermas e os carros a passarem a abrir, até voltei a pôr o capacete…
Em Whitefishe parei numa loja de Bikes…não que precisasse de algo mas é a atracção…e mal tinha encostado a Dampster, ainda fora da loja, já um empregado se me dirigia e me dizia, com ar observador e dedicado, “What can I do for you?” Disse-lhe que procurava umas protecções à prova de água para os ténis e ele logo me conduziu ao local. Dirigíamo-nos ao balcão e já lhe estava a contar a aventura em que estava metido. Estendeu-me logo a mão, disse-me que lá tinha estado há poucos dias um irlandês com o mesmo objectivo e entregou-me o livro de convidados, onde esperava que eu escrevesse “em português ou inglês, um parágrafo ou uma página ou o que quisesse. Na mesa ao canto, ou na rua ou no café”. Depois mostrou-me dezenas de outros aventureiros que por ali tinham passado e que assinaram o livro. Com destino ao Ushuaia havia menos…por exemplo, o ano passado, a 19 de Setembro, passou um inglês, fotógrafo profissional, que ainda só está na Guatemala…
Depois de uma breve paragem num ciber-café, prossegui viagem, rumo a Columbia Falls. Ainda não tinha decidido se iria ao Glaciar National Park, ou não. O vendaval que tive pela frente, mesmo cara-a-cara, decidiu por mim… Se era este o tempo que me esperava, o melhor era avançar para sul e não despender dois dias no parque…além do mais, não sei se será tão diferente das Rocky e glaciares do Canadá…
Até Bigfork, pela estrada 206, foram kms duros de superar. Parece que ainda me faltava descobrir alguns músculos, que apareceram só para se queixarem…
A estrada estende-se em longas rectas pela planície dourada, com os cereais ou já ceifados e o restolho espetado ou à espera de vez. O céu está salpicado de nuvens negras ameaçando chuva. Eu, fatigado, só quero chegar a Bigfork e acampar aos pés do Flathead lake.

Estrada 206 - Creston
Os monumentos aos “veteranos” e a religiosidade, com igrejas e placas com os “10 mandamentos”, são outras características que saltam à vista.
O parque de campismo é 6 estrelas…mergulha directamente no Flathead lake, um lago enorme, com mais de 45 kms de extenso, lugares exclusivos para pic-nic mesmo junto ao lago e uma escassa dezena de sítios para tendas. Na zona que escolhi, a 5 metros da água, só havia mesmo três lugares para acampar…percebe-se por esta densidade o recato do parque…Entardecia lentamente, com a luz dourada do sol a lamber as águas do lago, onde algumas nuvens, altas mas escuras, criavam reflexos de chumbo. As montanhas ao longe, em tonalidade azul-escuro, fechavam a porta para o mundo exterior.

Bigfork Campground
Desfiz-me em afazeres: montar a tenda, tomar banho, lavar e estender toda a roupa suja, limpar a Dempster, fazer o jantar. Já era noite quando me pude dedicar ao diário e às fotos, atrasados de alguns dias. Por azar, o parque só tem tomadas eléctricas numa única casa de banho, por sinal a mais afastada do meu sítio. Como a bateria está a zero, tive de trabalhar directamente na casa de banho, sentado na sanita…passei o cabo desde o lava mãos, por cima do mictório, até à casa de banho e aí permaneci um bom par de horas a carregar a bateria e escrever…mas não se preocupem! A crónica não deve ter cheiro, pois é tudo impecavelmente limpo… o pior é que a sanita não tinha tampa e, como talvez saibam, tem um diâmetro enorme, pelo que quase me afundava!!

Afinal não precisei voltar 3 milhas atrás, na estrada 83. Mesmo junto ao parque de campismo a estrada 209 faz a ligação à 83, em Ferndale.
Se nos dois dias anteriores reparei e deixei-me impressionar pelas cruzes ao longo da estrada, então este início da manhã é horrível: 9 cruzes em 12 kms de estrada!! A manhã está fria, mas de um frio límpido, brilhante mesmo. Ou será a luz…ou ambos. A estrada é muito secundária, escondida na floresta, com um pequeno ribeiro de águas densamente verdes, reflexo constante da não menos viçosa e densa floresta de pinheiros. E não passa ninguém…ainda não são 9 horas. Chego a Ferndale e a estação de serviço está aberta. Paro para o chocolate quente e um bolo. Mal entro – e como é agradável entrar num local assim aquecido, quando lá fora devem estar menos de 10º – perante o meu ar inseguro, sem saber bem onde procurar, logo uma das duas empregadas, solícita e sorridente, me pergunta se pode ajudar. Digo que quero um bolo e sou conduzido ao local dos bolos…mas ela vê no meu olhar que não era bem aquilo que eu tinha em mente. Então passamos a outra zona do estabelecimento e, numa vitrina, lá está exactamente o que quero. A empregada tira um prato, coloca o bolo e diz-me se não o quero um pouco aquecido, o que me parece boa ideia. Aquece o bolo no micro-ondas e entrega-mo. Vira costas mas ainda volta atrás para me dizer onde estão os talheres. Sirvo-me do chocolate quente, pago e sento-me num cadeirão de madeira, no exterior, ao sol. E surge de imediato a empregada a dizer-me que têm mesa e cadeira no interior, se não prefiro.
Toda esta lenga-lenga chata é para ilustrar quão eficazes, solícitos, profissionais e mesmo simpáticos têm sido a generalidade das pessoas…Até parece que estão à minha espera para me servirem bem.

Swan Lake
Boa parte da manhã foi passada ao longo do lago Swan, mais um pequeno paraíso, em que, no recato da floresta, se escondem as típicas casas de madeira. São lotes sucessivos em que da estrada apenas se vislumbram as serventias.

A April e o Nathan, que ficaram impressionados com o nome do meu blog...

Sem título...
Terminado o lago, continuam kms e kms de floresta, rectas intermináveis no silêncio verdejante dos pinheiros…
Chegado a Seeley lake e instalado no parque de campismo, aberto pela última noite da época, fui até ao povoado, que dista apenas 2 kms. Para além da curiosidade, procurava internet. Como é normal nestes aglomerados de pequena dimensão, o povoado não passa de um conjunto de estabelecimentos e casas que se estendem de um e outro lado da estrada. Mas neste caso, em vez dos McDonalds, Pizza Hut & Cª, havia um “steak house”, com muitos carros à porta. Caí na tentação de entrar, ainda na expectativa de ver a ementa antes da última palavra. Mas não foi possível…a empregada perguntou quantos eram e logo me encaminhou para uma mesa. Só depois é que apareceu o cardápio…apenas existem três opções e a mais barata começa nos 21$. Foi o que escolhi, sem perceber bem o que seria. Comecei a ver passar alguns pratos, e confesso que o aspecto e o cheiro me estavam a deixar impaciente na cadeira. Era uma posta enorme de carne grelhada que, à chegada à mesa, a empregada cortava ao meio de um só golpe, como faca em manteiga, em dois nacos enormes, vermelhos, fumegantes. Quando chegou o meu, tive a maior desilusão das férias e confesso que seria a única decisão que, até à data, gostaria de reverter. Era um hambúrguer, enorme e saboroso, é verdade, mas apenas um miserável hambúrguer…

Passei quase toda a manhã no ciber-café a actualizar o blog e afins. Assumo que parti com um certo stress… tenho ouvido notícias muito pouco animadoras sobre o tempo em Yellowstone: neve, chuva, frio. Estou a ir para Sudeste, quando o meu destino é o Sudoeste…mas estou decidido a não alterar os planos, pelo menos não sem “sangue”… E por isso quero chegar o “mais depressa possível”, para ver se consigo chegar à costa do pacífico antes de frio ser permanente e da chuva e a neve se me atravessarem no caminho.

Salmon Lake
A floresta acabou e sucedeu-lhe a pastorícia… surgem os grandes ranchos de Montana, com manadas de vacas a perder de vista. Os campos já estão completamente dourados, a palha cortada, enfardada e armazenada. As vacas parecem armazenar com esforço nos estômagos recheados o resto da erva seca. Passam carros com os condutores de inevitável chapéu à cow-boy. Normalmente acenam com a mão num cumprimento amistoso, coisa que já não sentia há umas semanas.

American way of life?
A planície é levemente ondulada e a estrada também. Pedalei toda a tarde a grande velocidade, sentido o corpo tenso mas confortável e a responder bem… quando parti de Seeley lake, nem me atrevi a pensar em chegar a Avon, mas os 120 kms volvidos, ainda fiz mais outros 20, numa das mais longas jornadas e, de longe, com a média mais elevada…esperava encontrar uma mercearia em Elliston mas já estava fechada.

Montana - perto de Avon

Montana - perto de Avon
Restava-me encontrar um local para acampar… Parei no Salon e o anúncio nas duas portas – “no guns allowed inside” – provocou-me o tal mix-feelings: por um lado a sensação de ser transportado para outro tempo e outro lugar, num lugar e num tempo dos Westerns que continuam gravados no meu imaginário infantil; por outro, perceber que estamos em 2010 e que ainda há avisos destes…
Entrei no local, escuro, sem luz natural e discreta luz nas paredes, com um balcão em U e dois grupos de clientes, um de cada lado do U. Eu parei no topo e disse à empregada que procurava um sítio para acampar por perto…ainda sugeri talvez junto à igreja ou escola. Mas uma sexagenária sentada no extremo do U, começou a falar-me de um sítio 2 milhas adiante, numa estrada secundária. Não percebia era nada da pronuncia deles…entretanto mete-se mais outro na conversa, desta vez um velhote de barba totalmente branca, mas desse então é que não percebi uma única palavra… Resumindo, depois de insistir uma e outra vez sobre qual o nome da estrada secundária, e continuar sem perceber, fiz de conta que tinha percebido na perfeição e fiz-me à estrada…não deviam existir muitas estradas à direita, no espaço de 1 a 2 milhas…
E assim foi. Pouco depois surge um entroncamento à direita, junto à última casa da povoação e virei. Havia um desvio de terra 100 metros adiante, que subia montanha fora para o meio dos pinheiros…devia ser para ali mas subir aquilo, nem com a bicicleta pela mão…ainda fiz mais uns metros na estrada de asfalto mas nada… montanha à direita e propriedades vedadas à esquerda. Tinha mesmo de subir e acampar lá em cima, no meio dos pinheiros.

Campismo em Elliston
Com muito esforço (até me saltou um sapato), subindo em S, lá consegui superar os 100 metros até ao primeiro patamar plano. Uma vista linda para nascente, sob pinheiros grandes e frondosos e chão macio da caruma e feno. Só havia um problema: não tinha água para fazer o jantar…e só havia uma solução: ir pedir água. Em último caso iria ao Salon, mas não me apetecia voltar a montar na bicla por hoje. Assim, fui à casa da vizinha, a última casa da povoação. Quando me aproximei, saltam-me dois canzarrões a ladrar e eu limitei-me a encostar-me a uma árvore, estender a garrafa da água na direcção deles e falar-lhes amigavelmente. E resultou. Acalmaram e em segundos já lhes fazia festas no focinho. Entretanto, aproximo-me da casa e apareceu a dona, jovem, com duas miúdas a saltitarem em redor. Contei-lhe a estória de estar acampado lá em cima e necessitar de água para o jantar e ela, solícita, encheu-me a garrafa. 1,5 l deu para o jantar, lavar os dentes e os apetrechos!!

Helena é a capital do estado de Montana. Estava a cerca de 30 kms do local onde acampei. Mas esses 30 kms dividiam-se em duas partes: antes de McDonald Pass e depois de McDonald Pass, com uma elevação de 6320 pés (cerca de 2000 metros). Felizmente, e até à data, as elevações nos EU são muito mais suaves que no Canadá. Longas mas suaves…foram 8 kms a subir e mais de uma dúzia a descer. Um percurso fantástico para começar o dia gelado...

McDonald Pass
O centro de Helena é diferente de todas as cidades que já vi: edifícios bonitos, com ar “antigo”, alguns a fazerem lembrar a construção em Londres, com os tijolos vermelho-escuro expostos, igrejas com ar “secular”, robusto e clássico, ruas pacatas com muita gente passeando, várias pessoas a fazerem jogging pelos passeios largos e verdejantes. E uma biblioteca como ainda não tinha visto: enorme e repleta de gente!! de todas as idades.

Helena
Depois de percorrer calmamente o centro da cidade e passar uma ou duas horas na biblioteca, regressei à estrada – quero chegar a Yellowstone dentro de dois dias, três no máximo.

Canyon Ferry Lake
A estrada é plana. De um e outro lado os campos de cereais alternam com as manadas de gado a pastar. Ao longe, a este e sul, um cadeia de montanhas com salpicos de neve nos cumes mais distantes…deve ser esse o meu destino próximo.
Mais uma vez tive de fazer campismo selvagem, desta vez junto à margem esquerda do Missuri, poucos quilómetros após Toston, uma aldeia “inexistente”. Também mais uma vez ia sendo apanhado sem água…roubei um litro na casa de banho do Salon que fica no cruzamento da 12 com a 285…

A noite não foi muito bem dormida. A linha do comboio passa a poucas dezenas de metros e, vá lá perceber-se porquê, não só circula toda a noite, como insiste em apitar constantemente… talvez seja para afugentar o gado que incidentalmente se encontre na linha… certo é que não é possível dormir duas horas seguidas. Também só ao levantar-me desvendei o mistério do barulho nocturno na água do rio que, no silêncio da noite, mais pareciam lutas de crocodilos! Afinal eram patos, imensos patos que, de quando em vez, decidiam lutar, ou fazer corridas, ou levantar vou…
Confesso que foi uma noite especial. Estava a uma boa dezena de kms da povoação, a própria estrada de asfalto distava 5 kms, o Missouri corria a não mais de 5 metros da minha tenda e separava-me da linha do comboio e de uma manada de bovinos que pastavam na outra margem…senti-me um bocadinho no faroeste dos filmes.
Mesmo ao regressar ao asfalto senti uma “anomalia” na bicicleta…que raio, não podia ser mais um furo!! Mas era mesmo… Claro que não vou continuar a contar a estória de cada furo – hão-de ser dezenas – mas este chateou-me não só porque foi no pneu novo – roda de trás – como foi uma pedra pequena e pontiaguda que me lixou o próprio pneu! E agora, como as bermas da estrada estão povoadas de pedrinhas de todos os tamanhos e feitios, para além de objectos inimagináveis (parafusos, porcas, abraçadeiras, chaves, molas, vidro, pregos, bocados de metal de formas várias), a lei das probabilidades diz que em breve aquela fragilidade será descoberta por alguma dessas quinquilharias e os furos repetir-se-ão no mesmo sítio…Ah, a outra razão para referir este furo é que já testei os remendos “tip-top” (super patch) e, o tempo confirmará, para já são fantásticos mesmo…não sei como é que nunca vi à venda em Portugal…por acaso tenho uma explicação…parece-me que aí preferem vender câmaras de ar…mesmo os kits normais, são uma miniatura de cola e de remendos…aqui não. Estão em locais bem visíveis, há várias opções, nomeadamente estes “tip-top” – era assim que chamávamos aos remendos quando comecei a andar de “triciclo”…o remendo era um bocado de uma câmara velha!
A Montana por onde rolei hoje é o nosso Alentejo. Mas maior, mais rico, menos quente, menos bonito (não tem as belas aldeias alentejanas…), sem árvores, sem vinho, sem pão e sem queijo. Afinal não é o nosso Alentejo ondulado e dourado, de cereais e gado a pastar livremente…é só parecido à superfície mas a alma não tem qualquer semelhança!
Quando a paisagem não me cativa nem me prende, entrego-me à parte desportiva…foi o que fiz de novo hoje…durante a manhã imaginei-me no Tour e pedalei contra mim próprio, há falta de melhor adversário. E assim fiz os 80 kms até Bozman a mais de 22 kms/h.
Mas no caminho ainda me cruzei com a Carol e o David, um casal de reformados ingleses que andam num tandem há vários meses pelo Canadá e EU… vêm de sul e dizem que em Yellowston está um frio de rachar…
Com todas as informações tramadas sobre o tempo em Yellowstone, já estou a stressar! Acabei por comprar um par de luvas novas, supostamente “todo-o-terreno” e umas meias especiais de lã. O orçamento, está quase a rebentar…acho que me acontece como ao Jesus, regresso no natal…ainda por cima, se outro dia comprei natas a penas que era leite, hoje não sei que raio comprei…a embalagem era igual, mas diz Buttermilk e sabe mal!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

"A estrada que vai para o inferno", a estrada mais bela do mundo

A estrada que vai para o inferno, ou Icefields Parkway, ou a estrada do gigante, ou estrada 93, ou a estrada mais bela do mundo. Escolhe a tua…

A informação do folheto turístico é que o parque de campismo tem quase 800 lugares, o que me deixou de imediato de pé atrás e sem qualquer vontade de cá pernoitar. Mas o adiantado da hora e a fadiga falaram mais alto. Puro engano! Devem ser dezenas de hectares, pois a sensação é de sermos meia dúzia de gatos-pingados, tal a dispersão. Mesmo nos duches, não havia qualquer fila ou sobrelotação…
Decidi ficar pelo menos um dia em Jasper. Da vila, pode dizer-se que é exclusivamente turística. As casas são, porta sim, porta também, todas dedicadas ao comércio, sejam os gifts, cafés, pubs, bares, restaurantes, lojas de roupa, agências de organização de eventos. Tudo arrumadinho, limpinho, organizado, florido e decorado. Um filme cor-de-rosa, adereços de lantejoulas, sorrisos em cada esquina. Por vezes em excesso…é a povoação típica de que não gosto, sem alma, sem personalidade, sem vida própria…é apenas um local de passagem e consumo, nada mais…


Beauvert Lake
Mas em Jasper existe muito mais que a vila. Existem imensos trilhos nas imediações. Uns só pedestres, mas a maioria são cicláveis. Foi por aí que me “servi”…entrei floresta adentro e comecei por explorar os lagos em redor, uma sequência formidável: Beauvert, Mildred, Anette, Edith, entre outros de menos nomeada ou cujo nome não retive. Para alem do sossego, dos recantos, dos bancos discretos e dispersos ao longo do percurso, dos caminhos estreitos, de terra, normalmente, mas por vezes de asfalto, da sinalização irrepreensível, até excessiva, as cores são realmente estonteantes, irreais. Todos os tons de verde e azul que consigamos imaginar, estão presentes e a multiplicar naquela palete divina. Mas o que me surpreendeu de verdade é que dei por mim a passar no meio de um discreto, mas enorme, campo de golfe, com os golfistas e respectivos caddys a esperarem para eu passar… e dei por mim a olhar para as placas sinalizadoras das habitações, ralas e quase fundidas com a vegetação, e no entanto cruzavam-se inúmeros trilhos de acesso público!! Já imaginaram esta partilha do património natural em Portugal!? Na Quinta da Marinha, por exemplo…somos muito à frente…condomínios privados é que é o futuro.


Beauvert Lake

Edith Lake
Prossegui para o Maligne Canyon, mas não me impressionou. É verdade que a força da natureza mostra ali todo o seu poder e persistência. Que a força dos elementos travam ali uma batalha de milhões de anos, com a água do rio Maligne a combater a resistência dos rochedos que procuram cercear-lhe o livre curso. Parece ser uma batalha sem fim, com os rochedos a contorcerem-se em recantos, curvas, precipícios, por onde a água corre em violento turbilhão. Mas já senti o poder do Fish River Canyon, o segundo maior do mundo. Já vi as pessoas a desaparecerem literalmente, tornando-se invisíveis na distância que nos separa do leito do rio…


Medecine Lake



Medecine Lake
Depois prossegui em direcção ao Maligne Lake, mas fiquei-me pelo Medecine. A maior diferença para os que tenho visto, é que este está enquadrado não pela habitual floresta densa e sumptuosa, mas por uma paisagem árida e agressiva, de rochedos esbranquiçados com os quais contrasta fortemente. Almocei em silêncio sobre um desses rochedos, como quando guardava as ovelhas: escolhíamos o maior rochedo para merendar…acho que era para nos sentirmos dominadores, mais fortes ou poderosos.
Entretanto as nuvens foram-se adensando rapidamente, formando um pesado manto negro com que taparam o céu. Regressei a toda a brida, pois não estava interessado em acabar o dia encharcado. Foram os 27 kms mais loucos e forçados de que tenho memória, suados até aos dedos dos pés. Abri a porta da tenda já sob o rugido furioso dos trovões mas apenas com escassas lágrimas abatendo-se sobre mim. Fiquei mais de quatro horas na tenda, brincando às fotografias e aos escritores, mas acima de tudo sentido os elementos em redor: é uma sensação indescritível viver um forte temporal, relâmpagos flamejando continuamente, qual fogo de artifício, sentir o solo a vibrar sob o corpo ao som do estrondo dos trovões entrecruzados, chuva a cântaros respingando por todo o lado, tudo isto à distância da fina membrana de uma tenda de campismo, neste caso um T0…

Os grossos pingos que se abatiam sobre a tenda, deslizavam dos ramos dos pinheiros que me deveriam resguardar. Levantei-me e a humidade era quase física, palpável. O plano hoje era visitar o vale dos cinco lagos, regressar ao parque, arrumar a tralha e ir a Jasper actualizar o blog e fazer algumas compras. Depois prosseguir para sul, pelo paraíso dos glaciares, das montanhas imponentes, dos picos nevados, dos lagos frios e translúcidos, dos rios selvagens, das quedas de água em fúria, dos pinheiros verdes e das flores selvagens salpicando as bermas da estrada 93 – Icefield Parkway, a estrada mais bela do mundo, como nos é apresentada nos folhetos turísticos. Ou “a estrada que vai para o inferno”, no dizer de uma octogenária da minha aldeia, que por cá passou com o filho, emigrante em Calgary…

Vale dos 5 lagos #2

Vale dos 5 lagos #3

Vale dos 5 lagos #3

Vale dos 5 lagos #4
O vale dos cinco lagos é mais uma dádiva provocatória da natureza. Deve ter surgido de um qualquer despique entre deuses pelas graças de uma princesa de sapato de cristal…o vale só é acessível a pé, a cavalo ou de BTT, mas neste caso é difícil, pois o piso é muito irregular, pedregoso, com raízes de árvores expostas à superfície e imensas árvores caídas, atravessadas no estreito carreiro. Andei mais com a Dempster pela mão ou literalmente às costas do que em cima dela. Mesmo assim gostei que fosse comigo, para partilharmos o encanto da manhã em silêncio. Há um carreiro de formigas contornando os cinco lagos, que se sucedem longitudinalmente. As cores mudam consoante a profundidade do leito e outras razões técnicas que desconheço...mas ouvir este silêncio em silêncio, sentir a textura do solo macio sob os pés, beber as cores do musgo, da água, das árvores, das sombras e das montanhas, deixar o aroma húmido da terra entrar no corpo e percorrer as artérias, é entrar na tranquilidade cósmica.

Parque de Campismo de Jasper
Só por volta das 2 horas deixei Jasper de vez. Agora era pedalar rapidamente pela estrada que vai para o inferno, até ao próximo parque de campismo, no lago Honeymoon. Mas é difícil avançar quando os sentidos, insaciáveis, querem alimento, que brota 360º graus em redor…A estrada contorce-se por entre indomáveis cumes montanhosos, cada um em busca de maior imponência e beleza. Só dos que ultrapassam os 3000 metros, contei 8. Chamam-se Edith Cavell, Fryat, Belanger, Brussels e por aí fora.

A estrada que vai para o inferno

A estrada que vai para o inferno
Também tenho alguma razão de queixas do relevo, pois estendeu-me algumas passadeiras fortemente onduladas pela frente, e do senhor vento, que decidiu ajudar à festa e empurrar-me para o ponto de partida.
Assim cheguei ao parque de campismo de Honeymoon. Para minha surpresa estava quase cheio. Imensa gente, incluindo muitos jovens em constante algazarra. Acampei no lugar contíguo ao Loe e Stephanie, um casal de franco-britânicos que iniciaram há 4 meses, em Montreal, a travessia do Canadá/Estados Unidos, junto à fronteira. Estão agora a terminar, com 9000 kms nas rodas e nas pernas. São um casal muito simpático, especialmente o Leo, nascido em Inglaterra mas a viver Toulouse. Deram-me algumas informações úteis, como os 6$ que é preciso pagar pelo visto na fronteira americana, a estrada dos Glaciar Nacional Park que está fechada a bicicletas das 11h às 16hm, as possibilidades de campismo junto às estações de serviço nos EUA.

Honeymoon Lake

Honeymoon Lake
Entretanto, havia romarias ao lago Honeymoon, pois o vento tinha feito uma pausa para descansar, deixando as águas do lago formarem o espelho perfeito onde todos queriam ver a própria alma. Azar, pois a única alma que se consegue ver é a do Deus da Montanha, das Nuvens, do Céu e das Florestas. As almas humanas tiveram de olhar para o umbigo e envergonharem-se da sua pequenez e vulgaridade…
Dormitava agitado, talvez pelo frio que não me deixava só, quando fui desperto por gemidos femininos de uma tenda próxima! Primeiro pensei que estava a sonhar, depois que estava num filme, depois, bem, depois não havia dúvidas, um casal de jovens fazia sexo puro e duro, a julgar pelos gemidos descontrolados da rapariga! O que se seguiu fez-me lembrar o campo no verão quente… Um grilo começa a cantar timidamente. Outro junta-se-lhe na cantoria, depois outro e outro, e às tantas é uma sinfonia onde todos os cantares se fundem e confundem num só, até serem interrompidos por qualquer som exterior que desafine (assuste os grilos). Foi mais ou menos o que aconteceu! Um coro geral de gemidos, agora masculinos e femininos, interrompidos pouco depois por sonoras gargalhadas, bocas, piadas! E à noite regressou o silêncio e tranquilidade.

Estava parado na estrada procurando aprisionar no quadrado da máquina fotográfica a alma dos montes em redor, quando o Leo passa por mim, sorridente e com ar de gozo, seguido da Stephanie. Partiram do parque de campismo depois de mim, dizem que andam devagar mas, com o seu ritmo certo, já me ultrapassaram…É verdade que parei nas Sunwapta Falls e eles não…e que paro dezenas de vezes para tirar fotos.
Seguimos praticamente juntos durante toda a manhã, almoçámos no miradouro que nos conduz o olhar até ao glaciar Stutfield, já nas imediações do Columbia Icefield, o maior glaciar da região, localizado na fronteira dos parques de Jasper e Fanff.
Retomei a marcha antes deles. A subida de 5 kms fez-me suar as estopinhas: a estrada iria atingir os 2030 metros no Sunwapta pass, pouco depois do Icefield Center…

A estrada que vai para o inferno
Estou no coração dos glaciares. A neve amontoa-se nos picos dos montes, ora branca como a neve, ora em tons de um azul incandescente, enfeitiçando o olhar. Cá em baixo, tudo parece pequenino, à escala dos brinquedos.
Em poucos kms ao longo da estrada, são 12 os glaciares, todos eles acima dos 3500 metros de altitude. O pai de todos, é o Columbia, com 3750 metros…

Imediações do Icefields Center

Imediações do Icefields Center
Parei no Icefield Center, onde tudo é demasiado caro e turístico… Quando via a exposição do 1º piso, aproxima-se um miúdo com ar de vinte e poucos anos e mete conversa comigo. “Hi Sir, how are you?”. Mal abri a boca a esboçar a resposta convencional e já me bombardeava com perguntas… tinha-me visto na estrada com a bicicleta e queria saber como tinha feito para a transportar para Jasper. Iniciámos assim uma conversa simpática, em que lhe contei de onde vinha e até onde tenciono ir. O olhar dele brilhava de espanto, mas não desarmou. Contou que esteve em Portugal há 2 anos, e fez de bicicleta, com um amigo, Lisboa – Bilbau, ao longo da costa portuguesa e espanhola, com passagem por Santiago de Compostela: cerca de 2000 kms que adorou…quis saber quanto ia gastar, como arranjei o dinheiro, quantos kms, quanto tempo, quais os países por onde passaria, se tinha um site ou blog…
Depois do chocolate quente, que custou os olhos da cara, regressei à estrada. Daí a 40 kms havia um parque de campismo (Rampart Creek) onde contava pernoitar. Se a paisagem anterior é fulminante, especialmente com a presença imponente dos glaciares, a seguinte confunde-nos o olhar e esmaga-nos os sentidos com uma sequência brutal de montes enfiados uns na raiz dos outros: é o Sunwapta pass, a 2030 metros de altitude, que separa os parques de Jasper e Banff. Mas separa também a corrente dos rios – o Bow river vai-me acompanhar por muitos kms e agora pedalo a favor da corrente! Para já são 8 kms de descida, por vezes alucinante e assustadora…não fora os alforges e bateria aqui o meu recorde de velocidade em bicicleta: cerca de 80 kms/h.

Sunwapta pass

Sunwapta pass
Até ao parque de campismo, os kms passavam velozmente, pois o piso ou era plano ou a descer. Há vários miradouros e vistas de parar o sangue nas veias e arrefecer o estômago.
À chegada ao parque, deparo-me de imediato com o Lukas e a Rebecca, o casal de suíços. Um pouco de conversa e ia acampar no lugar contíguo. Mas tinha-me caído uma luva que um casal de alemães encontrou e me veio devolver. No meio da conversa, disseram-me que já tinham dado a volta inteira ao parque e que, dos lugares vagos, o mais bonito era o 37. Despedi-me dos intrigados suíços e rumei ao lugar 37, a 5 metros do rio, cujo acesso era um carreiro estreito delimitado por duas fiadas de seixos. Lavei-me apressadamente nas verdejantes águas geladas e pensei que não iria conseguir voltar a sentir o corpo.

Como sempre, ou quase, choveu durante a noite e o dia amanheceu completamente encoberto, com nuvens e nevoeiro a fundirem-se num só. Apenas por volta das 9 horas consegui arrumar tudo e dirigi-me ao local dos suíços, para me despedir deles. Mas para meu espanto, estava uma invulgar concentração de bicicletas junto à cozinha colectiva, de onde uma ténue onda de calor amenizava a manhã gelada.


Família de ciclistas/aventureiros

Família de ciclistas/aventureiros
A primeira a sair-me ao caminho chama-se Mathieu, tem 4 anos, é francesa e corre em volta da cozinha, com um sorriso estampado no rosto vermelho do frio. Foge do irmão de 6 anos e meio…É uma família francesa de 6 elementos: os pais e 4 filhos, com idades entre os 4 e 16 anos. São de Grenoble, estão a pedalar há 3 meses no Canadá e têm mais 18 meses para chegar ao Ushuaia…a pequena Mathieu vai de atrelado com o pai, mas todos os outros têm de se transportar, pedalando.
Para mim foi o delírio. Aquele exército de bicicletas e ciclistas, no habitual colorido das roupas, alforges, bandeiras, etc. Tiradas as fotos da praxe, saímos todos juntos do parque mas em breve os deixámos para trás, pois fazem entre 30 e 60 kms por dia…Eu prossegui com o Lukas e a Rebecca.
Pouco depois do cruzamento com a estrada 11, o Lukas furou. E aí descobri que tem uns remendos fantásticos. Não é preciso pôr cola nem qualquer tratamento especial. Basta lixar um pouco a superfície da câmara e aplicar o remendo, após extrair a fina película que o protege. Aperta-se bem e já está! E funciona, pelo menos nos 2 dias seguintes, em que andámos juntos, não houve qualquer problema! Fantásticos! Tenho de comprar rapidamente…


A estrada que vai para o inferno
Após o almoço, surgiu a subida esperada e receada: Bow pass, a 2067 metros. Subimos calmamente, esperando pela Rebecca…

Bow pass
Mesmo no cimo surge o desvio para Peyto lake, um lago encravado entre montanhas. A água é de um azul opaco, denso, que me recorda a mistura de sulfato de cobre com cal, com que o meu avô curava a vinha há largas décadas… Infelizmente as nuvens e o nevoeiro iam-se adensando e acabaram mesmo por trazer com eles a chuva.
Até ao parque de campismo de Mosquito Creek pedalei furiosamente por entre bátegas de água gelada.

Peyto lake
Chegado ao parque, dirigi-me directamente para a cozinha colectiva. É um edifício de uns bons 80 metros quadrados, com um grande fogão a lenha ao centro e uma mesa e bancos de cada lado do fogão. Vi-me e desejei-me para conseguir acender uma fogueira, apenas com os panfletos turísticos que tinha dispersos e toros de madeira, molhados e grandes. Mas consegui e durou noite fora…acabámos por montar as tendas no parco espaço livre que ainda existia na cozinha, secar a roupa e calçado encharcados e nem pagámos…

A cortina de nevoeiro que nos rouba a paisagem em redor, foi-se entreabrindo timidamente, aguçando ainda mais a curiosidade sobre que belezas que escondia. Pelas escassas frestas, irrompiam montanhas imponentes debruçadas sobre a estrada. Ia aumentando a certeza de que o sol acabaria por levar a melhor e varrer o frio e o nevoeiro que nos atormentavam pela manhã. Só chegados ao lago Herbert, já nas imediações do Lake Louise, é que comecei a sentir as mãos dentro das luvas…

Mosquito Creek

Lake Louise
Lake Loiuse continua a ser um dos ex-líbris da Icefield Parkway. É um lago cor de esmeralda, encravado entre duas montanhas áridas – uma no topo e outra numa das margens – e uma terceira florestada. No topo por onde se acede, existe um hotel de luxo. Os parques de estacionamento estão sempre cheios e os turistas de todas as nacionalidades são demasiados para o meu gosto. Ainda assim desencantámos um banco afastado do passeio principal, conseguindo algum recato para almoçarmos as nossas habituais sanduíches.

Lake Louise
A recomendação para visitarmos o lago Morina foi ignorada, não por duvidar da beleza mas por ficar a 14 kms, sempre a subir.
Regressámos à estrada, agora pela 1A, relegada para os turistas menos apressados, pois os outros seguem pela 1. A estrada é praticamente sempre a descer, por entre vegetação densa, onde o forte perfume do pinheiro se mistura com outros mais difíceis de identificar. A linha do comboio e o rio Bow vão serpenteando ao lado da estrada, num jogo das escondidas. Até Castle Mountain Village, que deve o nome à enorme formação rochosa cujo topo parece as ameias de um castelo, rolámos em boa velocidade, gozando a bicicleta no silêncio e liberdade da ausência de tráfego.
E em Castle Mountain os nossos caminhos separaram-se: eu ia visitar uns amigos a Calgary, onde passaria um dia. O Lukas e a Rebecca seguiriam para Radium Hot Springs e depois também iriam visitar amigos.
Os kms seguintes, até Banff primeiro e Calgary depois, foram de carro. Voltei a dormir numa cama, jantar a uma mesa com talheres e pratos normais, sopa, sobremesa, vinho, cerveja, aguardente de medronho da minha aldeia. Roupa lavada, seca e dobrada. Conversa, velhas memórias, pois o Manuel, vizinho da mesma aldeia, emigrou para cá há 36 anos.

Banff
Foi um dia e meio bem passado, com o meu anfitrião e família a desfazerem-se em simpatia, atenção, cuidados, como se de um miúdo de 10 anos se tratasse…se calhar não estarão muito longe da verdade!
Mas a estrada esperava por mim e eu desejava regressar ao meu mundo, desligar-me da cidade, dos lugares repetidos, das rotinas familiares. Ansiava por me embrenhar na natureza, nos montes, planícies e vales, nas estradas onde não passo duas vezes, cruzar rios que não mais verei…queria o filme de novo a rodar.

Calgary, em família

A estrada 93, após Castle Mountain, desliza pelo Kootnei National Park, primeiro com uma subida de fazer largar a camisa, depois compensa com a maior, mais longa e mais acentuada descida de que tenho memória. Há um troço, já perto de Radium Hot Springs, com saídas de emergência para carros. O curioso é que essas saídas sobem encosta fora, ao longo de uma centena de metros ou mais, mas com um declive que mais parece uma rampa de lançamento de mísseis… Grande parte do poderoso vale por onde serpenteia a estrada, está totalmente ardido num cenário apocalíptico. Apenas despontam alguns pequenos arbustos verdes no meio dos troncos agonizantes dos pinheiros.
Radium Hot Springs é uma povoação encravada nas falésias da montanha e parece dever a sua existência apenas ao turismo, principalmente termal. Os hotéis, de muito pequena dimensão, sucedem-se dos dois lados da estrada, num colorido estonteante de amores-perfeitos, sardinheiras e múltiplas outras flores de espécies e nomes que desconheço. Parece uma aldeia de bonecas, tudo colorido, arrumado, limpo e em muito pequena escala…
Sucede-lhe Invermere, que parece viver do lago Windermare e Fairmont Hot Springs, mais uma aldeia turística, que junta às “hot springs” os desportos de inverno, pois há estâncias de esqui nas imediações.

À medida que deslizo para sul, ao longo da 93, as montanhas rochosas vão-se tornando mais distantes, mais pequenas, mais suaves, mais arborizadas e mais verdes. Nas imediações da estrada, a paisagem é agora mais urbana, mais agrícola, mais humanizada e habitada.
Até Fort Steel são poucos os momentos ou locais que merecem referência…uns campos de golfe e casas de férias junto aos lagos Windermare e Columbia.
Fort Steel é apresentada como “Heritage Town”. Na realidade é uma povoação museu, que entrou em declínio há quase um século, após o curto período de exploração mineral nas imediações. Como estava um calor dos diabos, aproveitei para descansar e visitar tranquilamente o povoado. Os edifícios estão muito bem preservados, nos locais originais, podendo-se visitar alguns. Podia ser uma “cidade” do faroeste do nosso imaginário, mais ou menos infantil…
Retomei o percurso, deixando a 93 e seguindo um pouco à aventura pela Vardner road. Praticamente não havia trânsito, ouvindo-se apenas o suave deslizar dos pneus da Dampster na estrada. Podia cheirar o aroma dos campos, das forragens e palha, já secos, a serem enfardados em enormes rolos cilíndricos. Cavalos e vacas pastando ao entardecer. E o sol deslizando suavemente no horizonte em busca do repouso merecido…

Fort steel

Fort steel

Fort steel
Os kms iam passando e após Bull River, voltei à 93. Esperava encontrar um parque de campismo que não havia maneira de aparecer. A minha sombra já não cabia na estrada e isso era sinal de que anoiteceria em breve…Em situações destas, ao fim do dia estabeleço um contrato com os meus parceiros de aventura – as pernas e a bicicleta – do género: se não aparecer o sítio ideal até ao kms 100, por exemplo, ficamos pela “melhor oferta” que surja até ao km 110 e só em casos extremos é que passamos daí… como não gosto de quebrar promessas, especialmente com parceiros tão importantes para a minha empresa, já me aconteceu ficar a 2 ou 3 kms de um fantástico parque de campismo…

Horseshoe Lake
Pelas minhas contas deveríamos estar muito perto Jaffray, mas ao km 107 apareceu uma pequena serventia para a esquerda da estrada e não hesitei: ficaríamos por ali…numa pequena clareira, com erva macia e árvores por companhia, pena não haver uma mesa ou ao menos um pedregulho para me sentar…

Hoje, pelas minhas contas, entraria nos EUA. Deveria estar a cerca de 65 kms apenas… Três kms depois de regressar à estrada estava em Jaffray, que anunciava um belo parque de campismo…paciência, tinha poupado os prováveis 20$ da estadia.

Baynes Lake
Depois de tomar o segundo pequeno-almoço, mais uma vez deixei a estrada principal do mapa e segui uma secundária. Parecia ser mais directa e seguramente teria menos trânsito. Só não sabia como seria o relevo, mas decidi arriscar. E de novo me dei bem. Não só devo ter cortado quase 10 kms no caminho, como pude pedalar como gosto: no habitual silêncio e solidão, com os sentidos muito mais despertos.
Ao regressar à 93, a placa indicava Roseville a apenas 18 kms. Por este andar ainda poderia cruzar a fronteira antes de almoço. Mas surgiu adiante o habitual posto de combustível com a respectiva mercearia e decidi que seria o meu último repasto no Canadá…e num simpático e rústico edifício que anunciava gifts, café e antiguidades decidi fazer a minha última visita em solo canadiano. Entrei, tomei uma canecada de café e comprei, para a despedida, uma mini-bandeira do Canadá. Para trás ficavam menos de seis semanas a pedalar, cerca de 4 400 kms percorridos (só 4 100 é que entram nas “estatísticas”, pois os outros foram passeios locais…) à média de 105 kms/ dia, 237 horas a pedalar, em média 5h30 por dia, quase a 18 kms/h, cerca de 900 fotos (outras tantas para o lixo), quase 3000$ gastos (mas cerca de 800 foram “investimento”…).

Os EUA, onde estou há...creio que 3 dias, virão em nova oportunidade...isto toma-me demasiado tempo...