sexta-feira, 5 de novembro de 2010

México - Baja Califórnia

México - Baja Califórnia I

Confesso: mesmo antes de deixar os EU, há um Burguer King que, como todos os outros, não peca pela discrição. Quando o vi, pensei: não é MacDonald mas não deixa de ser a despedida apropriada da terra do Tio Sam. Será o último dos próximos anos… porque não!? E pedi o maior em todas as opções: batatas, bebida e o triplo hambúrguer…
Não sei se foi a pressa de entrar no México, se a descontracção (distracção?) habitual. Certo é que quando dei por mim, já estava rodeado de taxistas a oferecerem transporte…A fronteira dos EU, nem a vi. E a do México, continuava há espera que aparecesse… Na verdade, com a tradição, ao que parece terrível, desta passagem fronteiriça, estava à espera de grande aparato, polícia, segurança, perguntas, revista geral. Mas fui avançando descontraidamente com a bicicleta pela mão e dei por mim na praça exterior à fronteira, caótica de trânsito. Só aí “caí em mim” e tomei consciência de que não podia continuar sem um visto válido para o México…voltei para trás, ante os olhares surpresos com que me cruzava. Pior é que as portas são giratórias e redondas, como as do aeroporto de Lisboa mas muito mais pequenas, e a manobra para passar com a bicicleta e carga é um bocado caricata, num pára, torce, avança dez centímetros, pára, torce mais um pouco e assim sucessivamente, perante expressões ora impacientes, ora divertidas, do cordão de gente que passa em sentido oposto.
No posto de imigracion, o único polícia, que mal falava inglês, tirou um A4 da jaqueta pendurada na cadeira, que mirou cuidadosamente – presumo que para ver qual a relação/requisitos diplomáticos com Portugal – e deu-me os papéis para preencher. Quando reparou no visto do Canadá com data de 19 de Julho, fez um ar de espanto, apontou para a bicla, fora da porta, levantou o polegar e acenou a cabeça como que dizendo: muito bem!
Paguei os quase trezentos pesos no banco ao lado e obtive o visto por 180 dias.

Para entrar em Tijuana, esperei garantidamente 10 minutos na “berma” da estrada. O trânsito nas duas faixas que tinha de cruzar para atingir a da esquerda e entrar na cidade, era aterrador. Veloz, continuo, com passagens e ultrapassagens constantes, em ziguezague e “montanha-russa”, sem qualquer hesitação ou contemplação perante o meu ar infeliz… Estava para ali suspenso, com o olhar parado e um riso de resignação/auto-comiseração nos lábios, sem sequer pensar em como sairia daquela, quando um autocarro muito velho e muito lento, que circulava na faixa da direita, liga o pisca da esquerda e começa a encostar-se à outra faixa!! Atirei-me para a frente dele pedalando a toda a pressa e atravessei as duas faixas com ele a servir-me de tampão e protecção…
Já passei algumas dezenas de fronteiras, mas nenhuma tão vincadamente distinta como esta. Tijuana e San Diego são duas galáxias distintas, claro. As casas, as cores, os cheiros, o ritmo, a ordem e a desordem, o trânsito, os carros. Mas fundamentalmente os olhares...aqui sentem-se os olhares, curiosos, perscrutadores, serenos, directos…
O Passeo de Los Heroes, a rua principal de Tijuana, sábado à tarde, parece-me a entrada perfeita no México. Cada edifício, seu tamanho; cada fachada sua cor e “arquitectura”; cada porta, seu negócio; cada passeio, um magote de gente palradora; cada tienda um mar de cores; cada esquina uma teia de fios pendurados. Os cheiros de comida misturam-se com os dos escapes automóveis; famílias inteiras entram ou saem devagar de cada porta.
Mas apesar deste aparente caos, é seguro andar, passear, cruzar a rua. Os semáforos são respeitados e mesmo onde não os há, o peão é razoavelmente bem tratado…Senti-me rapidamente bem e à vontade nesta rua…
Parei numa loja Oxxo – uma espécie de lojas de conveniência, que estão por todo o lado na parte norte da Baja Califórnia – para comprar o “guia roji”, que um dos leitores do blog me recomendou e me tinham dito vender-se cá. Afinal a rapariga nem fazia ideia do que estava eu a falar…
Saí da loja e pegava na Dempster pela mão – perdão, pelo guiador – quando um jovem de vinte e poucos anos sai apressado pela mesma porta. Cumprimenta-me de mão estendida, apresenta-se e diz-me que há uma livraria quatro quadras adiante, na esquina oposta da estrada, num edifício grande e novo, e que lá têm de certeza…e tinham.


A Religiosidade está presente em todo o lado
A Rosarito que acorda parece o fantasma da vila barulhenta, luminosa, de cores vivas e odores intensos, a fervilhar de pessoas sem pressa e aparentemente sem rumo definido, que tardou a adormecer a noite passada. A barraca da esquina, onde me iniciei nos tacos e na simpatia mexicana, fica desoladora e irreconhecível sem o amontoado de clientes em redor, acotovelando-se, à espera de “encostarem a barriga ao balcão” e escolher os ingredientes da sua eleição para os tacos ou burritos suculentos, que outros já vão saboreando devagar. Como não domino o espanhol, deixo-me levar pelas sugestões dos dois jovens cozinheiros e não me desiludo. Parecem competir um com o outro para ver qual prefiro – ou de qual como mais, o que vai dar no mesmo.
À medida que deixo para trás o centro, vão mudando os negócios que ladeiam a rua principal. Às pequenas lojas coloridas de comes e bebes, roupas, salões de beleza, padarias, mercearias, sucedem-se armazéns de materiais de construção, oficinas auto, e uma estranhamente elevada quantidade de “ferreterias” e “olarias”, com enorme quantidade e variedade de produtos forjados e de peças de decoração em ferro e barro.
À saída da povoação há uma surpreendente concentração de ciclistas, com os habituais trajes vistosos e bicicletas de estrada. Será um passeio ou uma prova local…mais tarde perceberei…
A estrada nº1 segue colada à “autopista” com o mesmo número, e à ilharga do pacífico. As casas são dispersas, desordenadas, pouco atraentes, excepto na localização, umas sobre o mar, outras na crista dos montes, todas com os olhos postos nas águas verdes do pacífico.

Costa em Rosarito

O pequeno pelotão de ciclistas passa por mim numa descida, com um carro da polícia a abrir o trânsito e os carros de apoio atrás. Fizeram uma algazarra, com buzinas e palavras de incentivo ao passarem por mim e retribui…
Vão-se sucedendo os empreendimentos turísticos, bastas vezes de gosto duvidoso, em enormes prédios que se erguem do nada e muitos lotes “en venda” e “for sale”.
A “minha” estrada afasta-se da costa e trepa montes fora. Em Mission, paro no único restaurante, à beira da estrada, e deixo-me levar por um segundo pequeno-almoço tardio. As duas costeletas de porco bem condimentadas e os ovos mexidos, souberam-me a “galos de noz”, mas verdadeiramente o que me deixou a lamber o prato foi a tortilha de batata…

Restaurante de beira-da-estrada
A verdadeira subida só agora ia ter início…a estrada tem mau piso, praticamente sem bermas, cheia de pequenas pedras e seixos soltos e, como é típico das estradas de montanha, com muitas curvas. Felizmente o trânsito é pouco, ainda que excessivamente apressado… Pouco depois de começar a subir, um “tic-tic” regular na roda de trás. Está-se mesmo a adivinhar: mais um raio partido. Estava a cerca de 40 kms de Ensenada e não me apetecia substituir o raio do raio. Limitei-me a afrouxar a tensão nos adjacentes, seguindo as instruções do meu irmão noutras aventuras ciclisticas.
Finda a subida, a estrada segue em planalto irregular, por montes de “pequena estatura”, áridos e castanhos. Alguns ranchos estão à venda e até oferecem facilidade de pagamento ou venda parcial…Poucos carros se cruzam comigo mas já recebi mais cumprimentos hoje do que em todos os dias que passei nos EU.
Precisava de encontrar uma oficina para substituir o raio, e à entrada de Ensenada, do outro lado da estrada, estava um tipo de bicicleta à espera de uma oportunidade para poder atravessar. Esperei por ele e perguntei-lhe se havia alguma oficina na cidade. Afinal era grego, está a trabalhar aqui por dois anos, habla un pouquito espanhol e pouco mais inglês e não sabia de nenhuma oficina…
Na cidade passava um miúdo de bicicleta e fiz-lhe a mesma pergunta. Depois de pensar um pouco disse-me que sim e conduziu-me até ela, não sem antes, enquanto pedalávamos lado a lado, me ter dirigido, orgulhoso, algumas palavras em inglês, pois estava a aprender inglês na escola…Chegados à oficina não resisti a dar-lhe 20 pesos e fiquei grato pelo ar de surpresa e satisfação dele.
A oficina era assustadora. Bicicletas velhas e aos bocados, amontoadas em metade da pequena sala. Peças velhas, onde predominavam selins, num canto, meia dúzia de pneus e aros pendurados no tecto e pouco mais. O Homem atrás do balcão aparentavam cerca de 60 anos, tinha um olhar sereno e inteligente e, reparei depois, um blusão com o emblema da federação mexicana de ciclismo gravado. Quando lhe disse, meio a medo face ao ar da loja, qual o problema e se podia repará-lo, respondeu-me com aquela voz calma e segura (ou orgulhosa?) que “sim, naturalmente”.
A bicicleta, com a tralha toda que trás em cima, quase não cabia na exígua e confusa sala…comecei a tirar os alforges e já outro tipo, também entradote, que estava na oficina, começava a desapertar a roda, dizendo que não era preciso eu tirar tudo…eu sei que esta conversa é uma seca para quem ler, mas é que nesta oficina era tudo ao contrário das lojas/oficinas do “nosso ocidente”…
Saca a roda, senta-se na cadeira que estava no meio da oficina, pega em duas ou três chaves de fendas e está a desmontar o pneu…e eu a olhar aparvalhado, à espera que, com aquelas chaves, me rompesse a câmara de ar…mas o ar despachado dele tranquilizaram-me um pouco.
Levanta-se, vai buscar as ferramentas necessárias e o molho dos raios e, entretanto, senta-se na cadeira o homem do blusão da federação de ciclismo. Começa por me dizer que o eixo e os rolamentos precisam de massa…”estão completamente secos” – e é verdade. Desmonta a cassete e eu a ver as peças a espalharem-se…enquanto enche a caixa do eixo e dos rolamentos de massa, começamos a conversar. Vai desfiando a sua indignação com o governo. Com as políticas que tiram o pão aos pobres do México, que semeiam desempregados e crime, que está a matar todos os pequenos negócios com que sobreviviam milhões de mexicanos. Chegou mesmo, na sua voz tranquila, a dizer que as pessoas precisam de comer, e se a comida vem de negócios de álcool, de tabaco, ou de droga, pouco importa a quem tem fome.
E enquanto falávamos (eu era mais ouvir), fui espreitando os diplomas e fotografias por trás do balcão. Foi fácil identificar o seu passado ligado ao ciclismo, com várias homenagens e “diplomas”. Procurei mudar o tema de conversa, e foi vê-lo, na mesma voz mas com outro olhar, a falar dele e dos dois (já eram dois) outros compinchas que assistiam à reparação da bicicleta, enquanto ciclistas “profissionais”, há “muitos, muitos anos, aqui no clube mais antigo do México”. Mas principalmente de um dos filhos – José Manuel Ramirez – que corre nos Estados Unidos e de quem tem várias fotos na parede…

Xepe Garcia - ex-ciclista, pai de ciclista, amante do ciclismo

E como nesta oficina há pouca diversidade de material, mas muito engenho e verdadeira alma e amor às bicicletas e ao ciclismo, a rosca do raio teve de ser aumentada para o raio “dar aperto”. Quis saber qual a minha alimentação e se não tomava vitaminas; surpreendeu-se com os oito mil kms percorridos; espantou-se quando lhe disse que fazia uma média de 100 por dia; e recomendou-me que nunca me deixasse fatigar em demasia, para descansar um dia ou dois de vez em quando… despedimo-nos com um abraço de entendimento e respeito mútuo. Já eu montava a Dempster quando veio à porta e me disse que na Baja Califórnia, até La Paz, era conhecido como Xepe Garcia. Se eu precisasse de alguma coisa, havia muita gente que o conhecia… e aquele raio partido, temporariamente fonte de aborrecimento e preocupação, foi o melhor momento do dia, dos últimos dias…
Encostei a Dempster na esquina de num ciber-café e ia para entrar, quando o cozinheiro que preparava acepipes de marisco numa banca de 2 m2, na mesma esquina mas na parede oposta, me disse para por a bicicleta junto dele, “por segurança”. Agradeci-lhe e passei meia-hora na net. Ao sair é que reparei bem na banca onde o chef manejava a faca com destreza, abrindo ostras, cortando mexilhões, camarões e outros mariscos, compondo tudo com abacate, sumo de lima e mais não sei quantos ingredientes, de onde emergiam tacos, cocktails ou ceviche, num colorido capaz de despertar fome num urso em profunda hibernação. E ali petisquei deliciosos tacos e um cocktail de marisco, frescos e inigualáveis na pureza daquele encontro feliz do mar profundo e misterioso e aquele homem roliço, atarracado, com luvas de silicone e máscara, em dois metros quadrados de uma esquina feia, suja, barulhenta e poluída de Ensenada.
Queria deixar Ensenada mas ainda tinha um problema para resolver: o telefone. Tenho de arranjar uma solução telefónica sem ser o rooming, que é muito caro. Fui espreitando ao longo da rua e numa das inúmeras praças comerciais, lá estava uma loja de comunicações. Expus o que pretendia às três miúdas sorridentes e de ar distraído. No fim disseram-me que não era possível eu comprar um cartão e utilizá-lo no meu telefone desbloqueado. Os cartões só funcionavam em telefones da própria rede, comprados no local… quando perguntei o preço do mais barato, uma das moças disse que o problema seguinte é que o telefone só podia ser activado com uma série de dados pessoais e, sendo eu turista, não podia registar-me. Conclusão: não posso ter um telemóvel mexicano…Já suspeitava disto. Já tinha ouvido algo neste sentido, ainda em Portugal.
Mas não saí de Ensenada sem um telefone de uma rede móvel mexicana completamente operacional…bastou encontrar mais um jovem simpático e generoso.
E como o dia estava mesmo a correr bem, decidi pernoitar no Motel “El Camino”, onde a dona, uma senhora idosa mas viva e de uma simpatia inigualável, me convenceu a desembolsar quase 20€. É curioso porque senti-me bem ao gastar o (bastante – para o meu orçamento) dinheiro que hoje desembolsei. E garanto que não foi um sentimento de “caridade”. Foi sentir que cada uma daquelas “transacção monetária” era muito mais que isso. Era profissionalismo, dedicação empenhada, mas era principalmente dignidade, humanidade, respeito, luta, partilhar uma “certa justiça”.

San Vicente

Depois de metade da jornada ter sido praticamente sempre a subir, ainda que com declives moderados, deslizei pelas suaves colinas até mergulhar no entardecer. Para trás tinham ficado surpreendentes vinhedos e olivais verdejantes, ordenados, extensos, modernos, sem deverem nada aos irmãos californianos.
Pensava pernoitar em Colnett quando surge na beira da estrada, na aldeola de Alfredo Bonfil, uma placa sinalizando campismo e parque de merendas. Não se percebia se era “já ali”, se perto ou longe. Avancei perscrutando o diminuto povoado que se estendia ao lado da estrada, sem vislumbrar qualquer parecença com um parque. À saída da minúscula aldeia, perguntei a um habitante se havia ali um parque de campismo mas ele parecia não perceber o que era isso de campismo…sugerindo-me que só se fosse em Colnett. Eu tentava explicar que era um sítio para dormir, montar uma “tienda”. E à palavra mágica “tienda”, ele disse que havia uma “tienda” ali, sim, e apontou para o interior da aldeia. Percebi logo a confusão da “tienda” em espanhol... Ainda assim decidi ir ver se descobria algo parecido com um parque de campismo. E afinal havia mesmo um decadente “complexo desportivo e recreativo” na aldeia, com um campo de jogos, um parque de merendas, parque infantil e um espaço para campismo, tudo abandonado e degradado, mas suportável…
Montava a tenda quando apareceu o Manuel, um quarentão já um pouco bebido mas muito simpático. Ofereceu-me a casa dele para dormir – que recusei por já ter a tenda montada – e acabei, noite fora, com ele, o José e o António a beber cervejas de litro por garrafas de coca-cola, cortadas ao meio, a servirem de copo. O Daniel, de 47 anos, mergulha desde os 17 e vive da pesca submarina. Só pesca de noite e, quando lhe perguntei porquê, riu-se da minha ingenuidade… porque pesca espécies proibidas, que dão mais dinheiro… não parava de dizer que nos últimos 30 anos viveu 20 debaixo de água e 10 à superfície e que é um recorde alguém fazer pesca submarina durante 30 anos…Creio que é o único não borracho…

A Baixa Califórnia por onde vou passando tem contrastes enormes… tão depressa percorro quilómetros de estrada numa paisagem seca, árida, inóspita, semeada de pedregulhos e uma vegetação rasteira e tisnada, como surgem vastos hectares de explorações agrícolas, com estufas que aparentam modernidade, vinhedos mecanizados, olivais, morangais, tomatais e cebolais, numa azáfama de homens e máquinas que estava longe de imaginar. Fiquei incrédulo perante a quantidade de sacos de cebolas que se erguiam de um cebolal…Jamais imaginei possível tal produtividade.

Vinhedos na Baixa Califórnia

...E cebolas
Em Punta Colonet, parei numa das coloridas “vendas”. Quando pagava o litro de leite e uma fabulosa tarte de queijo de fabrico local, Don Ernesto, um septuagenário que também vinha às compras, dirige-se-me num inglês perfeito. Apresentou-se e quis saber da minha viagem. Depois de lhe fazer o relato standard, contou-me que há cerca de 20 anos, conheceu ali, em Punta Colonet, um canadiano que estava a fazer a mesma viagem e a escrever um livro. Ficou em casa dele e prometeu enviar-lhe um exemplar do livro, que nunca recebeu. Pensa muitas vezes se o homem terá concluído a viagem ou morrido, pois nessa altura “havia muita revolução em toda a América Latina, era muito perigoso viajar…” Disse-me onde morava e franqueou-me enfaticamente a casa, agora, no regresso, ou se alguma vez voltasse a estas bandas…que pena serem 8h da manhã…
À medida que me aproximo de San Quintin e da costa, vão aumentando as tascas de beira de estrada que anunciam pescado e marisco… os tacos deixam de ser de “cabeza”, de “guizado”, ou de “tripa” e passam a ser de amêijoa, camarão, ostras, ouriços ou lagosta. E mesmo sem fome, estes nomes, as cores vivas das tascas, os anúncios rudimentares, mas vistos, e o olhar simpático e digno por trás do balcão, por vezes da família toda, exercem um apelo a que não me apetece resistir. E vou parando e comendo um taco de “cabeza” aqui, outro de “guizado” acolá, um cocktail de amêijoa com uma cerveja ilegal, outro misto com vinho local, enquanto repito vezes sem conta de onde venho, para onde vou, quantos kms já fiz, quanto dinheiro vou gastar – uma pergunta deveras embaraçosa…

Ameijoas, ostras e outros bichos marinhos...deliciosos

O vento sopra favoravelmente e a planície transforma-se em descida constante. Os kms passam a correr e, se não tenho cuidado, ainda chego hoje ao Ushuaia e amanhã tenho de voltar ao trabalho… Que pesadelo! Travo bruscamente e certifico-me de que ainda não são 2h e já percorri quase 90 kms…
Poderia chegar facilmente a Rosário e começar amanhã pela manhã a travessia do deserto, mas à minha direita, mesmo junto à estrada, há um lago com patos e um fontenário a jorrar água, no centro de um jardim com um grande relvado, pinheiros, palmeiras e outras árvores, bancos e mesas para pic-nic com toldos, e até uma casa de banho com chuveiro…parece ser um parque público mas tem dois jardineiros a regarem, aparar ervas e plantas. É capaz de ser o jardim de algum latifundiário, dono das imensas estufas de tomate que se avistam em todo o horizonte. Ainda assim paro e pergunto ao Ernesto, o jardineiro jovem, se se pode pernoitar ali. Com um enorme sorriso diz-me que o local é público – “de todos”, reforça – e que posso montar a carpa onde quiser, tem casas de banho e mesmo bar-b-que para os grelhados – e vai apontando orgulhosamente, e sempre a sorrir, numa e noutra direcção.

Transporte de trabalhadores no vale de San Quintin...

Estava um sol que parecia incendiar o próprio vento…fui comprar umas cervejas frescas à bomba de gasolina, a 100 metros, e passei a tarde com o Fidel, um assalariado agrícola que trabalha 9 horas por dia, sete dias por semana, por 100 pesos diários, nas estufas de Los Pinos, como centenas de outros que vêm de todo o vale de Quintin, em autocarros coloridos. Hoje trabalhou à tarefa e conseguiu terminar cedo, repousando no jardim, com uma cerveja na mão e um olhar distante e fatigado…
Quando lhe mostrei o mapa do México, disse-me que não sabia ler, pois nunca tinha ido à escola. Quando lhe disse que tinha frequentado a universidade, afirmou que podia falar inglês e ele não. Quando lhe disse a idade, concluiu que tinha menos 6 anos mas parecia ser muito mais velho que eu. Quando tirei o telemóvel do bolso, disse ter perdido o dele, que lhe tinha custado duas semanas de salário. Quando se levantou para ir à casa de banho, pediu-me licença. Quando provou a primeira Tecate que lhe ofereci, reteve-a na boca, lambeu os lábios e disse-me que era muito melhor que a cerveja que ele bebia. Quando lhe perguntei de onde era, disse-me que nasceu a dois dias e duas noites de viagem dali, em Guerrero; quando lhe perguntei se a praia próxima era bonita, respondeu que não sabia, nunca lá tinha ido porque tinha medo da água; quando lhe perguntei onde morava, acenou para adiante e disse que morava numa casa de renda, porque os terrenos eram muito caros e ele não era dali… Quando se foi embora, perguntou-me se amanhã ainda lá me “quedava”, porque gostava que os filhos me conhecessem…

O interior é menos colorido...

Hoje iria deixar a zona habitada, “desenvolvida” e “populosa” da Baja Califórnia e entrar no deserto. O efeito psicológico dos vários avisos que me fizeram sobre a total ausência de aldeias, casas e gentes, e consequentemente, comida ou água, levou-me a querer comprar abastecimentos suficientes para chegar à Argentina. Pela primeira vez, a comida e bebida não couberam nos respectivos compartimentos e tiveram de ir em cima da demais bagagem, amarrados com esticadores…
Pouco depois de deixar Los Pinos ficou também para trás Santa Maria, uma pequena aldeia junto à estrada e, mais adiante, Costa Rica, ausente do mapa.


Santa Maria
A estrada segue para sul, paralela ao mar, que se avista a menos de um quilómetro. Até Rosário, a última povoação antes de entrar no deserto, ainda tive de transpor uns montes antipáticos, que desci ensanduichado entre um ruidoso camião tresandando a gasóleo e borracha queimada, e umas pick-ups que, desta vez, não tiveram coragem de transpor o traço contínuo.
Em Rosário decidi almoçar no restaurante local, mais para fugir do calor e poupar nos mantimentos do que pela atractividade da ementa – dourada para turistas. O interior estava praticamente todo decorado com fotos e posters de carros, motas e pilotos da baja da Baja Califórnia – uma prova de todo-o-terreno que percorre toda a península. Na mesa ao lado almoçavam três canadianos de Vancouver, que rumavam a sul, em férias…
Com Rosário fica para trás a última exploração agrícola e, com ela, os últimos tons de verde que veria em vários dias.


O deserto anuncia-se...após Rosario
O deserto impõe-se sem meiguice. A estrada sobe continuamente em curvas e contracurvas constantes, pelas encostas das colinas que se sucedem, cada uma mais elevada que a anterior. Há muito que a linha do horizonte tem apenas duas cores: o céu azul pálido; e a terra castanho torrado. A vegetação é rala, rasteira, mirrada em espetos queimados pelo sol. Aqui e ali começam a destacar-se alguns cactos gordos, ramificados em U, erguidos ao céu. O silêncio absoluto é, de quando em vez, quebrado violentamente pelo som dos motores dos camiões, gritando continuamente de esforço nas subidas e soltando profundos gemidos espaçados nas descidas. O vento é constante e parece não ter direcção definida. Sinto-o quente na cara e violento nas pernas. Paro a meio de uma subida que não termina, em busca de 20 centímetros quadrados de sombra nos rochedos da beira da estrada, para esconder a cara enquanto sorvo lentos goles de água. Os carros, quase todos camiões, que se cruzam comigo, acenam, fazem sinais de luzes, estendem a mão fora da janela com o polegar esticado ou com o médio e o indicador em V. Só posso responder com um aceno de cabeça, pois necessito da força dos braços no guiador.

Este deserto só tem uma cor - seca

Passaram quarenta quilómetros desde Rosário… pareço ter atingido um planalto e começo a pensar em acampar. Para onde quer olhe, a paisagem é toda igual. Não há estrada ou carreiro, largo ou retiro plano, onde erguer a tenda. No mapa também não… só me resta continuar a pedalar. De repente surge uma placa milagrosa, e inesperada, na beira da estrada, com uma faca e um garfo brancos em fundo azul. E não era alucinação, era mesmo real…no topo da subida, à esquerda da estrada, por trás de um cercado de paus secos e uma ou outra árvore mirrada, surge “el Sacrifício de Rosário” – restaurante. De uma assentada esperava arranjava “cama e mesa”. Parei e o Daniel, miúdo de cinco anos com ar traquina e olhar vivo e inteligente, assistia escarrapachado aos desenhados animados. Perguntei-lhe pela mãe e saiu disparado, regressando acompanhado da mãe e irmã mais velha.

El Sacrificio de Rosario

Pedi algo fresco para beber e mandou-me servir da arca frigorífica. Perguntei se podia acampar por perto e levou-me ao quintal, sugerindo-me o local mais aprazível, debaixo da árvore, junto ao jardim de cactos, onde ergui a tenda.
Fiquei a sorver a água gelada, depois da coca-cola semi-congelada, na esplanada. As abelhas atropelavam-se em torno das gotas de água que vertiam da torneira do lavatório, adiante. O sol parecia um balão grande, esvaziando-se lentamente, perfurado pelos picos dos cactos onde aterrou descuidado. O Daniel subia à árvore e descia para a cama de rede, exibindo a sua destreza e força quando descobriu a lente da câmara fotográfica, eu sentia-me em perfeito equilíbrio entre o vazio do deserto e o aconchego daquele microcosmos familiar.

Daniel

O Juan chegou já anoitecia. Silencioso, seco, de baixa estatura, olhos pequenos mas vivos, bigode fino e chapéu na cabeça. Sorriu-me, cumprimentámo-nos e pouco mais. Era de poucas palavras…só quando falámos de futebol articulou algumas frases…
Os clientes eram exclusivamente camionistas. Iam chegando, paravam o camião, invariavelmente sem desligar o motor, e tomavam café ou jantavam em silêncio. A Merlin Monroe, de saia branca esvoaçando e olhar provocador, observava na penumbra em que ia mergulhando o espaço, apenas iluminado pelo candeeiro a gás. A novela, na televisão a cores, despertava o entusiasmo da filha adolescente, irritada com os constantes pedidos de ajuda da mãe e as travessuras do vivaço Daniel. No canto mais obscuro da sala, Juan deixou a sua sombra e trouxe de volta a luz eléctrica do gerado, movido pelo ruidoso motor a gasóleo.
A noite chegou cedo e passei mais tempo na casa de banho, felizmente a poucos metros da minha tenda, do que na cama. Definitivamente o almoço “fino” em Rosário, ou, mais provavelmente, o Ice-tea com gelo suspeito, deram-me cabo da mecânica! A ajudar à festa, os camionistas continuavam a chegar e a partir nos seus camiões de motores ruidosos.

Contrariamente ao que o Juan me disse ontem, a estrada parecia um carrossel endiabrado, com mais subidas que descidas e vento forte. Pouco depois de El Sacrifício de Rosario, surge o rancho El Descanso. O anúncio gasto e envelhecido, anunciava comida e dormida. Do alto do cacto mais alto, uma águia imóvel soltava pios lamentosos, o sol ia subindo rapidamente e estendendo raios impiedosos.

...E o deserto aqui tão perto

O deserto vai crescendo, não física, mas emocionalmente, com os quilómetros que me percorrem as pernas e a mente. Sinto-o cada vez mais forte. Sinto-me cada vez mais parte dele, enredado nele, prisioneiro dele. Só há uma estrada – esta. Só há uma paisagem – esta. Só há um som – este silêncio. Só há duas cores – azul e morte. Só há um sol – este a que nada escapa. Só há uns goles de água – os que trago na bagagem. Só há um coração a bater – o meu. Não, há os camiões que passam velozes e ruidosos e os motoristas que invariavelmente me acenam e cumprimentam em Vs…
Há alguns pontos no mapa que não existem na terra. Mas há também pontos na terra, ausentes do mapa. Pontos que surgem na latitude e longitude mais improvável, no vazio absoluto, anunciando “loncheria”, “taqueria”, ou “cafe”. Normalmente têm bebidas e até servem comida. Por vezes até têm “banhos”. Surgem do vazio e ficam no vazio e o que cobram não é, seguramente, mais que gotas de água – ou oxigénio – para famílias inteiras que parecem atropelar-se para servir uma única bebida, um café ou uma omeleta “ranchera”.

"loncheria" surgida do nada...

O deserto não é um deserto…o deserto são vários desertos – ou sou eu que, perdendo-lhe o medo – já consigo atentar e destrinçar as suas pequenas variantes. Os cactos já não são apenas em U e em tons de castanho-verde. Também os há com um único tronco em tons de vermelho e com uma densa e muito certinha carapaça espinhosa. E outros em cones longos, que estreitam da base para o topo, onde se ramificam em dois ou três galhos pequenos…do tronco parece brotar pequenos tufos esverdeados… e outros ainda compostos por vários troncos, que parecem emergir duma raiz única. Mas também o solo mudou radicalmente. Agora a terra está povoada de enormes pedregulhos de formas arredondadas e tom avermelhado. Alguns formam pequenos amontoados em formas fantasmagóricas e equilíbrio precário.

Cataviña

Em Calaviña, o deserto atinge o seu expoente: diversidade, densidade, cor, formas, texturas. Deixa de repelir, de assustar, de intimidar para cativar, atrair. Resplandece diversidade na adversidade; vida na morte; mistério na simplicidade das formas primárias. E o sol, impiedoso, continua a projectar-se sobre as vidas inertes…a minha camisola deixou de ser vermelha e negra para brilhar do branco-sal que se vai acumulando.

Pregar no deserto

Apesar de, ou por, o “Desierto Inn Hotel” ter um ar aprazível, moderno e confortável, decido prosseguir. Na verdade atrai-me irresistivelmente acampar neste deserto… mas este deserto já é outro. A densidade e diversidade atingida em Calaviña, extinguiu-se rapidamente. Agora o vasto planalto é plano, liso, por vezes parece mesmo um suave areal…mas a suavidade é só aparência…
É preciso um local acessível a partir da estrada. Como não há estrada nem carreiro que me leve da estrada para o “meio do deserto”, terei de acampar perto da estrada. El Pedregoso parece dever o nome a uma inesperada montanha de pedras de pequena dimensão que se estende perpendicularmente à estrada. Nas imediações, paralela à estrada, há uns metros de terra suave, tipo leito de rio, plana e de fácil acesso. O sol ainda vai alto, mas o cansaço e a vontade de gozar o entardecer e anoitecer ali, no silêncio do vazio cósmico, decidiram. Pena foi o jantar… o arroz pré-cozido, afinal era branco, e o fiambre que lhe misturei não lhe deu sabor. A embalagem, de trezentas gramas, era maior que a anterior, de arroz-de-tomate, e não coube no tacho, que foi transbordando. A água estava quente e um litro e meio tinha de se manter intocável para amanhã…não se sabe com que divergências o mapa e a realidade me presentearão…ainda temo o deserto…

El Pedregoso

Já há muito que o meu ciclo diário é o solar… recolho à tenda pouco depois de escurecer e saio da tenda pouco depois de clarear. Pela informação que vi afixada um destes dias num pontão, são cerca de 12 horas desde o nascer ao pôr-do-sol…
O sol ergue-se rapidamente por detrás da pequena colina distante e mais depressa ainda aquece o céu e a terra. Estranho…ia apostar que ontem, apesar do escuro, tinha enchido bem o colchão mas, ao acordar, está semi-vazio…
Começo a pedalar com o compromisso de longa data: os primeiros dez kms são de aquecimento. Não há vento e a estrada é plana. Deslizo velozmente e sem esforço. O mais importante é que assim não transpiro, logo não consumo líquidos, não desidrato e não bebo água, mantendo a reserva intacta! Mas vinte kms depois surge uma “lancheria”. Paro e a água fresca é deliciosa. O café com “oevos rancheros”, estavam horríveis – ou talvez tenha perdido o apetite, ao tomar consciência do pedido que fiz: ovos, com o recente desarranjo intestinal… e ainda por cima rancheros, com muita cebola, pimentos e tomate, tudo guisado (ou frito…). Para compensar, a conversa foi agradável e útil. Os três camionistas que tomavam café disseram-me que havia mais ciclistas na estrada, à minha frente dois ou três dias. Um casal mais adiantado e dois homens mais próximos. Ao sugerir que talvez ainda os alcançasse um dia destes, ofereceram-se de imediato para me dar bolei e levarem-me até eles… Quiseram saber quanto tempo tinha estudado espanhol para a viagem e quando disse que não falava espanhol mas uma mistura de português com pronuncia espanhola, fizeram ar surpreendido e disseram que ainda não tinha dito nenhum disparate…Quando me perguntaram quanto dinheiro ia gastar em toda a viagem e, envergonhado, disse cerca de dez mil dólares (escondendo que será bem mais), olharam-se e falaram entre eles algo que não percebi…imagino que tenham ficado chocados e a pensar no que faria com tanto dinheiro…
No ramal da estrada para a Baia de Todos os Santos existe uma “loncheria” com seis metros quadrados e três televisões. Paguei quinze pesos por um púcaro de café frio… Os preços praticados por vezes parecem excessivos… mas aqui a economia não é de mercado, é apenas de subsistência – ou de sobrevivência – para quem está, mais do que para quem passa…

Gasolineira

Um clic metálico na bicicleta é sempre um som desagradável. Mas é mesmo muito desagradável no deserto da Baixa Califórnia…a meio da tarde, esse clic pareceu uma martelada na cabeça. O melhor que podia esperar era um raio partido – o pior, não quis pensar. Ainda continuei a pedalar, negando assim a realidade e agarrando-me á esperança de um qualquer objecto metálico pisado. Mas acabei por parar e fazer o diagnóstico – não tinha um mas dois raios partidos, ambos na roda de trás, claro. Continuei a pedalar, ainda com mais cuidado que o habitual, procurando evitar oscilações e buracos, e quase parando nas lombas da estrada. Apesar de ter comigo raios suplentes, estou a oitenta quilómetros de Guerreiro Negro e é possível que tenha uma oficina de bicicletas. Arrisco ir até lá…amanhã.

Toc-toc-toc

Era suposto haver Santo Dominguito, no ramal que vai para Santa Rosalilita (não é erro, um diminutivo já não chega…), mas não há nem uma casa. Se Rosarito, a quinze quilómetros, também não existir, as coisas começam a correr mal, pois já tenho menos de 1,5 litros de água – e de Rosarito não dá para passar. Pedalo devagar para poupar água e evitar a sede. Há umas subidas e a tarde foi de vento semi-frontal…entardece e a minha sombra já não cabe na estrada. Mais uma subida e, no topo, avisto Rosarito a uma larga meia-dúzia de quilómetros. Exulto num berro de incontida satisfação e descompressão. Dou vivas a Rosarito e um velhote empoleirado numa colina, à beira da estrada, responde-me algo que não entendo, também aos gritos. Ponho a garrafa à boca e sorvo até à última gota!
Mauricio é o nome do único restaurante da povoação. Pergunto se posso acampar por perto e trazem-me às traseiras, a um pequeno terreiro com árvores, frondosas para estas latitudes, junto a umas mesas e cadeiras de plástico, que devem ter estado limpas quando instaladas, nas imediações do curral das cabras e galinhas. Monto a tenda na companhia de cães e gatos com ar surpreendido. Quando passo a mão pelas costas, obtenho a prova de que pedalo no deserto há três dias sem tomar banho…
O banho de água fria aqueceu-me o corpo, refrescou-me a cabeça e a alma, agitou-me o sangue, fez-me apreciar a dádiva de um duche de água fria no deserto, relembrar os quantos milhões que nem água têm para beber e os menos milhões que não fazem puto ideia de que raio estou a falar…
É tudo uma questão de escala e aqui é outra a escala.

Sul e sol

Afinal houve azar no acampamento de ontem, em El Pedregoso. Escapou-me algum pico malandro, daqueles da cor do deserto, finos como um raio de sol e rijos como aço temperado… e perfurou-me o colchão de ar…Agora passo a acordar com as costas mais direitas – ou então faço turnos e encho-o a meio da noite.
Sou mesmo distraído…voltei a pedir oevos – agora com chorizo – para o pequeno almoço…mas estavam muito bons, acompanhados com feijão e massa de cotovelo, da mesma que acompanhou o peixe frito do jantar.
Já tomei, literalmente, mais refeições “fora” numa semana de México, do que em três meses no Canadá e EU… Na verdade sinto não só atracção pelos paladares, pelos ambientes, pelas pessoas, pelo interior das “taquerias” e “loncherias”, pelo que está a passar na televisão, pelas conversas potenciais com motoristas sempre presentes, como sinto um apelo irresistível em consumir localmente e assim contribuir um pouco para a preservação/valoração deste “ecossistema”.
A estrada está em obras e quando não está, tem vários troços de piso em estado miserável – ainda não é o rípio da América do Sul mas vai servindo de estágio... Cada solavanco da bicicleta é uma pancada no estômago… questiono a decisão de não ter mudado os raios, até porque não sei se há loja de bicicletas em Guerrero Negro. Conduzo com “o coração nas mãos”, em linguagem materna. Aos vinte quilómetros, o diagnóstico mantém-se. Aos trinta também – apenas dois raios partidos.
Em Jesus Maria, paro na taqueria. Na mesa ao lado estão três homens a comer. Um tem olhar vivo e verbo fácil e começamos a falar sobre a estória do costume: de onde sou, de onde venho, para onde vou, quanto tempo. E vai-se surpreendendo com um ar muito expressivo e falando com os outros. De repente pergunta-me se não tenho medo e quando digo que não, ou melhor, quando lhe dou a resposta do Nelson Mandela, citando o autor – todos os Homens têm medo. Simplesmente os mais fortes e corajosos controlam o medo, enquanto os fracos e medrosos, são controlados pelo medo – salta da cadeira, parece que me vai abraçar mas pára bruscamente e, virando-se para os outros, diz-lhes: “Querem ouvir a resposta dele sobre os mortos!?” E virando-se para mim, diz: “Puta madressita, estão dizendo que lá do cimo daquela montanha adiante – e aponta pela janela – todas as noites uns mortos se erguem e andam por aí a fazer barulho! Puta madressita, em 2011, quase, ainda há pessoas que crêem nisso. Tu lo crês!? E desatámo-nos a rir…”
Afinal parece que há mesmo uma bicicleteria em Guerrero Negro, confirma um moço que chega entretanto.

Guerrero Negro

Guerrero Negro é mesmo um povoado feio…casebres ao longo da estrada de asfalto e casebres em pequenas ruas de pó/areia perpendiculares. Chego à bicicleteria e deparo-me apenas com uma senhora idosa sentada na cadeira ao lado do balcão. Não era propriamente a interlocutora que esperava…A loja é paupérrima e nem raios tem. O empregado/mecânico é suposto voltar às 4h. Como tenho raios, decido esperar na povoação e voltar mais tarde…
Pedalo devagar pela rua principal. O olhar e o aceno de uma miúda, por trás do balcão de uma taqueria, incendeiam-me a alma e obrigam-me a parar. Não sei bem o que vi, mas foi um olhar desumano…dei meia volta devagar e voltei. Nem sequer tinha pensado almoçar mas tinha de parar ali…A Alona tem onze anos, anda no quinto ano e gosta muito da escola. Está com o irmão de 5 anos a ajudar a mãe, Catalina, na taqueria Carolina – o nome da filha mais nova, de dois anos. A Alona antecipava-se à mãe nas respostas sobre tudo: que tacos tinha, quais os preços, se havia muitos turistas ou poucos, se este vento era comum. E quando perguntei se não havia nenhuma bebida para acompanhar, perguntou o que queria e saiu disparada, com uma nota que retirou da caixa, comprar a bebida ao café do lado. Quando pedi a conta, nem preciso dizer quem respondeu e fez o troco… nunca vi um olhar daqueles…não eram tanto os olhos, grandes, entre o verde e o mel, na tez morena e cabelo escuro, mas o olhar…parecia ver para alem do exterior…
Afinal o mecânico foi passar o fim-de-semana prolongado aos EU… Só volta na terça-feira. Já me preparava para pôr as mãos-à-obra e mudar os raios, quando um tipo se acerca da oficina e perguntou se precisava de algo. Afinal era um ex-empregado da bicicleteria e estava interessado num biscate… mudou os raios, deixou a roda empenada e pediu-me cinquenta pesos. Disse-lhe que tinha pago cinquenta pesos em Ensenada, ao Xepe Garcia – que ele conhecia de nome – pela substituição do raio e pôr massa consistente nas rodas… ele retorquiu que lá em Ensenada era tudo barato e foi-se embora todo satisfeito. Podia ter-lhe dito que nos EU paguei $2 por um raio e $15 pela instalação respectiva… é a escala…

A terra é redonda...nas pontas!

Olhando para o mapa, a próxima recta estende-se por mais de setenta kms. Olhando para o horizonte, a estrada perde-se na planície. Olhando para o sol, dirijo-me para sul-sudeste. Olhando para o conta-quilómetros, estou a pedalar com o vento pelas costas. Os duzentos e poucos quilómetros que me separam de Santa Rosália é suposto serem muito áridos e despovoados. Os setenta quilómetros até Biscaino passam rapidamente… o cheiro a frango assado que se desprendia de um qualquer grelhador, atingiu-me forte, fez-me crescer literalmente água na boca e parar bruscamente. Há quanto tempo não sentia este aroma…apesar de não ser o franco do Xurrex, era frango assado! E mesmo sem as batatas estaladiças, o acompanhamento era aromático e saboroso. Enfim, enquanto os meus amigos me mandavam mensagens, a dizer que o bacalhau com broa do casamento do Miguel, estava quase tão bom como o que eu confeccionava, eu entretinha-me a degustar uma perna de frango no deserto da Baixa Califórnia…
Durante a tarde começou a despontar lentamente uma cadeia montanhosa à minha esquerda. Difusa inicialmente, foi ganhando forma e dimensão com o avançar do dia. Imaginei um gigante dando grandes passadas na linha irregular da cordilheira distante, e desafiei-o para uma corrida… Creio que tropeçou nalgum pedregulho demasiado pequeno para o seu pé de gigante, pois deixei de o ver…Ainda assim, não fosse surpreender-me lá para San Inacio, ao fim do dia, continuei a aproveitar o vento favorável e deixei-me levar velozmente.


San Inacio é uma visão que se ergue do deserto. Numa zona particularmente árida, nas imediações do vulcão “las três virgens”, surge o Oásis – um grande lago rodeado de palmeiras frondosas e verdejantes, salpicado pelas esparsas casas do povoado.

San Ignacio

Enquanto montava a tenda, chegava-me, pela densa copa das palmeiras, um alarido jovem, com música à mistura. Mal arrumei a tralha, segui o som. Junto ao campo de jogos da aldeia, já na penumbra do sol-posto, duas colunas jorravam acordes populares em altos berros. Por trás do balcão do pequeno quiosque, Fernando Araisa Ramirez, um octogenário de cerca de dois metros estendeu-me a mão enorme e perguntou-me o que bebia. Tinham Corona e Pacifica. De repente lembrei-me que ainda não tinha bebido uma única Corona, e pedi uma aos berros, mesmo ao lado das colunas ruidosas.
Fernando Araisa Ramirez foi o primeiro Basco que conheci no México. Orgulhoso nos seus 80 anos, três casamentos – o último dos quais aos 60 anos – nascido quando o pai já tinha completado 60 anos, estendia-me repetidamente a mão enorme para eu lha apertar e sentir a sua resistência de tamanho – a “superioridade” basca! Recuava constantemente para se poder por completamente de pé (estava meio acocorado sob o balcão que tinha um tecto baixo) e exultava orgulho por todos os poros. Falou-me de um curso de engenheiro-técnico que fez por correspondência, de algo ligado a industria aeroespacial a que parece ter estado ligado – o barulho das colunas, a dez centímetros agravavam irremediavelmente o meu parco espanhol…e de repente trás um prato de tâmaras doces como mel, que fui deglutindo entre goles de Coronas e ele de Pacíficas, falando não sei bem de quê, mas sempre com os Bascos (parecia não saber exactamente de onde eram originários) em fundo…

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Obrigado - enquanto o proximo post nao sai...

Aos muitos que têm preferido o bacalhau (de bicicleta) com todos, em especial os que têm enriquecido a receita com comentários, sugestões e apreciações.

Meus amigos,
Não preciso de vos dizer que este prato tem sido delicioso, que me tem dado um gozo tremendo, incomensurável pescar o bacalhau, demolhá-lo, cozinhá-lo, temperá-lo, degustá-lo em primeiro lugar e servir-me da mais suculenta posta. E apesar da ementa parecer sempre a mesma, o certo é que para mim vai tendo sabores tão diferentes e sempre magníficos… talvez sejam as diferentes latitudes e longitudes do preparo; talvez o refinamento do método ou dos ingredientes; talvez a afectividade e carinho dedicados ao cozinhado, talvez uma fome insaciável; talvez tudo e nada; talvez não interessem as razões. Mas seguramente sem os vossos saberes e sabores, que gentil e lisonjeiramente têm acrescentado ao bacalhaudebicicletacomtodos, o paladar seria muito menos rico, o aroma menos intenso e o bacalhau seria a solo e não com todos. Por isso aqui fica o meu grato agradecimento e reconhecimento pelos mais de 300 contributos à receita e 35 000 que provaram ou comeram - repetindo ou não.
Gostava de personalizar a cada um de vós, que tem deixado mensagens (no blog, no facebook ou mail) que muito me envaidecem e estimulam, um obrigado sentido e sincero, mas não é possível – não tenho os contactos e não tenho disponibilidade/tempo…
A última coisa que queria era que cada um olhasse para esta mensagem e pensasse o que eu penso quando o Rodrigues dos Santos olha para a câmara e diz: “para você em especial obrigado e boa noite”, ou coisa do género… é que as vossas mensagens tocam-me mesmo (talvez da idade, da distância, da solidão, mas seguramente do conteúdo das mesmas) e acreditem que me dão energia e estímulo – não que já tenha faltado, mas nunca é demais!!
Com muito apreço e amizade,
Bacalhau Salgado (nunca de molho!!)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pacífico - San Francisco a San Diego

O Pacífico – de San Francisco a San Diego

Custa deixar San Francisco… já adiei a partida duas vezes, mas hoje é a valer.
À saída da pousada de juventude de Fort Manson, éramos quatro a montar a tralha nas bicicletas. A Sally, uma sexagenária seca, alta, ágil e com um sorriso permanente no olhar e no rosto, era a mais comunicativa do grupo e foi com ela que entabulei conversa. Faz parte de um grupo de 12, dois ou três australianos, um inglês e os demais americanos dos quatro cantos do país. Estavam a pedalar juntos desde Seatle, sempre ao longo da costa, numa viagem organizada, mas com poucas regras… pedalam livremente ao longo do dia, sós ou em grupo, cada um ao seu ritmo, reunindo-se ao fim do dia no parque de campismo previamente combinado. O jantar e o pequeno-almoço são as duas refeições conjuntas, rodando diariamente a dupla de cozinheiros.

Pousada de Fort Manson

Tal como eu, vão seguir a estrada nº1 para sul, até San Diego, onde esperam chegar dentro de duas semanas e meia. Até Monterey fiz praticamente parte do grupo…
Deixei Fort Manson pela manhã, com a luz suave do sol dourando os enormes armazéns bege de telhados vermelho vivo, frente ao mar azul intenso e ladeados pelos intermináveis relvados verdes, fervilhando de gente a fazer desporto.
Alonguei-me no caminho junto ao longo da baia… um último olhar ao “palace of fine arts” que, à primeira vista e à distância, uma semana atrás me pareceu a cúpula de uma enorme mesquita. Uma foto no parque do presídio, onde algumas mesas já estavam repletas de comida para alguma comemoração ou simples convívio capaz de se prolongar por todo o dia. Ao lado, uma jovem de traços orientais deve ter trocado o escritório ou a biblioteca por uma mesa discreta no jardim, onde trabalha concentradamente no portátil.

El Presidio

Um par de pelicanos castanhos voam em círculo sob a marina e de repente um deles parece despenhar-se, mergulhando a pique na água, de onde emerge a engolir algum peixe com aparente esforço.

Pelicano em mergulho

For Point, mesmo debaixo do tabuleiro da Golden Gate, é um edifício de tijolos vermelhos e muros grossos, que domina a entrada na baia de San Francisco. Do último piso, o olhar escorre pela ampla paisagem em redor, de Alcatraz a Sousalito, acabando preso às velas coloridas de pequenos veleiros que vagueiam sem pressa na baia.
Subo uma última vez à Golden Gate e percorro meio tabuleiro… durante a semana apenas uma das faixas laterais está acessível a peões e bicicletas. Apesar de ser manhã, e sexta-feira, é preciso pedalar devagar, parar, pedir licença e avançar devagarinho por entre os passeantes que, às dezenas, percorrem o tabuleiro suspenso sobe as águas verdes da baia.

Golden (Red) Gate

A Ocean Beach está fria e cinzenta. São quilómetros de praia apenas partilhada pelas gaivotas, que parecem dormitar numa pata enquanto a outra descansa, e dezenas de surfistas, negros e elegantes como corvos marinhos nos fatos de neoprene e pranchas coloridas. Algumas brigadas de voluntários apanham o lixo para enormes sacos de plástico. É muito comum ver grupos de voluntários ao longo das estradas em tarefas de limpeza…
Frente ao mar as casas são pequenas, dispersas, frequentemente mais baixas do que as árvores que as rodeiam e com mais cores que o arco-íris.
Bastam duas dezenas de quilómetros para a “grande cidade” desaparecer, dando lugar a uma paisagem completamente diferente, árida e selvagem.

Devils Slide

A estrada nº1 segue a linha de costa, praticamente sempre colada ao mar. Em locais de maior concentração urbana e com mais trânsito, é vedado o acesso a bicicletas mas surgem invariavelmente estradas alternativas, por vezes construídas exclusivamente para esse fim…Podem assumir três características distintas: “Bike route”, em que a estrada “normal” é partilhada pelas bicicletas; “Bike lane”, em que a estrada tem uma faixa delimitada e exclusiva para as bicicletas; e “Bike path ou trail”, que é mesmo uma via fisicamente autónoma e distinta. A sinalização é impecável e mesmo um despistado como eu, com um vulgar mapa das estradas na bagagem, não senti dificuldades encontrar o caminho correcto – mais “desvio”, menos pergunta...

As praias sucedem-se, mais pequenas do que grandes, cavadas em falésias escarpadas, de areias claras e vegetação rasteira a cobrir as dunas suaves. As ondas pequenas, de águas verdes e cristas brancas, trazem os surfistas de negro empoleirados precariamente até ao areal. Praticamente não há veraneantes, pois apesar do céu completamente azul e sol brilhante, a temperatura mal dá para tirar o corta-vento.


Pescadero

Reservas e parques naturais vão intercalando com as praias. São severamente protegidos, só se pode andar pelos passeios delimitados na orla, com bancos e mesas para pic-nic, têm informação "interpretativa" sobre a fauna e flora, avisos por todo lado a alertar para a fragilidade do ecossistema, desde as estrelas-do-mar à flora, das aves às dunas e mesmo rochas, e recantos encantadores onde surpreendi um jovem de joelho na areia, cabeça erguida e uma pequena caixa na mão que estendia à rapariga embevecida...


Half Moon Bay

As povoações são ralas e com escassas centenas de habitantes. Por vezes surge o que parece ser uma quinta em estado de semi-abandono e outras procurando fazer a diferença através da produção biológica, venda directa, imaginação e muita simpatia... Vejo e sinto ao longo do percurso, outros percursos noutras latitudes e longitudes. Os mesmos tons de outono, a mesma vegetação dunar, as mesmas escarpas, ravinas, areais. A linguagem da terra, da natureza, dos elementos afinal é tão semelhante... acredito que se falasse com os agricultores locais, ouviria as mesmas queixas, os mesmos problemas, os mesmos anseios, as mesmas dificuldades.


"Organic farm"

Raramente se avistam casas de férias e quando surgem, estão discretamente integradas na paisagem. São largas dezenas de kms de uma beleza selvagem, agressiva, rústica, quase inóspita, onde o cheiro a mar, o marulhar das ondas em suave baloiço, apelam à modorra num qualquer dos bancos espaçadamente colocados ao longo da linha de costa, junto à ciclovia/passeio marítimo de toda a Half Monn Bay.


Half Moon Bay


Pumpkins...

Após Santa Cruz, ou mais precisamente Capitola, uma pequena aldeia colorida, nascida no mar e a viver apenas do turismo, tem inicio a mais impressionante zona de cultivo de vegetais que pudesse imaginar. Nas palavras de uma professora reformada, com ar de charlatã, que conheci em Monterey, será a maior área contígua de produção de vegetais do mundo.


Capitola


Campismo - Bikers on tour

Seja ou não a maior, são dezenas de kms de culturas, primeiro praticamente só morangos, depois couves, alfaces, cenouras e mais uma ou outra espécie que não consigo identificar. Tudo geometricamente disposto, extensões que confundem o olhar…
O reflexo do sol nos intermináveis plásticos que cobrem a terra à espera que os morangos despontem, por vezes confunde-se com o próprio oceano. Os tractores, de diversos formatos e alfaias distintas, movem-se numa cadência constante até desaparecerem na linha do horizonte…lavram, endireitam o solo, abrem regos rectilíneos, pulverizam. Há cheiros intensos e diversos no ar… os menos desagradáveis são os restos das culturas em decomposição, que integrarão o próximo ciclo produtivo. Paro e provo dois ou três morangos a medo. Não são deliciosos...apenas morangos.


Vai uma para o jantar?

Ranchos intermináveis de homens e mulheres acocorados lado a lado, chapéus de abas largas na cabeça e lenços - quando não sacos de plástico - em torno da cara e pescoço, joelhos no chão e mãos ágeis deslizando velozmente de morango para morango, de alface para alface, de couve para couve. Corta e passa para trás. Outra mão pega, limpa algumas folhas e coloca no tapete rolante onde dezenas se alinham a limpar, embalar e carregar nos camiões que esperam em fila. A fábrica veio ao campo... Os sotaques que se ouvem, a música e as notícias que se desprendem dos rádios, que silenciam os homens e mulheres, são invariavelmente hispânicos. Parecem soar tristes, como os olhos negros na tez morena e cabelos negros… raramente vi um sorriso e nunca uma gargalhada.

Monterey vai despontando lentamente por entre o nevoeiro denso e pastoso, do outro lado da longa baia. Na verdade a cidade parece viver de braços estendidos para a frente marítima, para a baia de águas verdes e transparentes, onde as focas e lobos-marinhos brincam, nadam ou lutam com tal graciosidade que mais parecem estar a representar. No pontão de construção rude, há pescadores de todas as idades empoleirados em qualquer beco, esperando que algum peixe solidário se deixe ir no engodo, para gáudio exuberante do miúdo de tronco nu, que maneja a cana incessantemente.


Monterey - pontão

Os pelicanos castanhos disputam as rochas aos corvos marinhos, às gaivotas e mesmo a alguma foca em tempo de sesta. Parece aquele jogo das cadeiras, em que há sempre uma pessoa a mais… entardece devagar e a luz do sol vai-se alongando em reflexos dourados, projectando nas águas da baia as cores e formas mansas da vida no porto.


Monterey - porto


Monterey - porto

Do porto de pesca pequenas embarcações coloridas continuam a partir, regressando com pequenas quantidades de pescado, especialmente marisco, servido logo ali, nos restaurantes caros que sucederam aos velhos armazéns.


...pois claro

Cannery Row está repleta de Jonh Steinbeck. Dos hotéis, aos cafés; dos gift shops aos restaurantes; da praça, aos cocktails. Mesmo assim, há lugar para discretos placards históricos sobre o passado mais distante. E lá está um lembrando que os “baleeiros portugueses vinham no século XVIII pescar baleias à baia de Monterey. Matavam-nas, extraíam-lhes a gordura e faziam o óleo no local, devolvendo os restos ao mar. O óleo era utilizado essencialmente para iluminação, mas com a descoberta do petróleo, a actividade deixou de ser rentável”. E outro ilustrando a intensa história da industria da conserva de sardinhas, do surgimento ao apogeu, durante a II guerra, e a extinção. E diversos sobre a vinda de Hollywood a Monterey e a Cannary Row, destacando um filme de Fritz Lang, numa das primeiras representações de Merlyn Monroe.


Monterey

A ciclovia e o passeio marítimo prosseguem colados ao mar. Há parques de recreio, mesas para pic-nics, locais específicos para observação da abundante fauna marítima, com painéis (in)formativos sobre as espécies ou a história de cada local, bancos defronte ao mar, quase continuamente.
O cheiro frente a Bird Rock é nauseabundo. Santuário de aves migratórias que ali permaneceram durante largas semanas a nidificar e procriar sem “arredar pé”, agora são as focas e lobos-marinhos que disputam cada centímetro. E o resultado da dupla presença é o “famoso” guanaco, cujo cheiro até faz comichão na garganta e ardor nos olhos.


Bird Rock

Até Carmel, a costa selvagem, rochosa e árida, contracena com extensos campos de golfe e habitação luxuosa, sempre perdida na vasta mancha florestal.

De Carmel a Point Sur

De Carmel a Point Sur

A estrada afasta-se repentinamente da costa, perfurando o vale sinuoso de colinas suaves que crescem até tocarem as nuvens baixas. Deixa de se ver e ouvir o imenso oceano de chumbo e somos invadidos pelo aroma húmido de Outono de Los Padres National Forest. O parque de campismo Pfiffer Big Sur, é a porta de entrada, mas também o coração, de Los Padres. As copas das árvores enormes e densas, roubam a luz do sol e trazem a noite serôdia. Os troncos, ora rectilíneos apontados ao céu, ora contorcidos em formas requintadas, parecem brincar em misteriosos labirintos. As folhas em tons de fim de vida e formas despreocupadas, matizam o solo de sombras e reflexos suaves. Os escassos raios de luz que logram transpor a floresta, projectam sombras fantasmagóricas, clamando por duendes e bruxas imaginários.


Big Sur - Pfeiffer Campground

Ocupo o último lugar disponível no espaço reservado a baikers e hikers e o casal de alemães que chegou depois, tem de pedir permissão para se instalar num lugar “normal”. Na Califórnia parece haver uma grande convergência de vontades e interesses em torno da utilização da bicicleta. Não sei quem nasceu primeiro, se o ovo, se a galinha, mas a enorme comunidade de ciclistas, com inúmeras organizações, associações e realização de eventos, tem como contrapartida uma vasta rede de ciclovias, sinalização abundante e diversas vantagens para os ciclistas. Uma delas é a existência de locais específicos e tarifas reduzidas nos parques de campismo públicos. Os preços normais rondam os 25 a 30 dólares, e 5 ou 6 dólares para ciclistas…

Big Sur


Big Sur

Até Santa Bárbara, o nevoeiro cerrado e a chuva miudinha fundem-se e confundem-se... roubam a floresta e a montanha, deixando adivinhá-las pelo cheiro e pelos constantes declives da estrada; roubam o mar, as ondas e as ravinas, deixando pressenti-las no incessante marulhar da água revolta; roubam as aves, as focas e os elefantes marinhos, deixando ouvi-los nos gemidos afogados das lutas ou brincadeiras.

Elefantes em luta...


...e juniores literalmente na engorda

Santa Barbara parece-me representar uma viragem no mapa da costa da califórnia...a cidade gira em torno da State Street, uma longa rua ladeada de palmeiras, casas baixas e pequenas, de formas curvas, terraços, pátios com entradas em arcos ovais. Toda a vida parece convergir para esta rua...há nomes em espanhol, italiano, francês e mesmo inglês.

Santa Barbara


Santa Barbara

As lojas são pequenas, coloridas e diversificadas, desde a geladaria, às fotocópias; do teatro, ao cinema e à ópera; do macdonald, à steack house; da radioshack à cartier; da discoteca à livraria e às antiguidades. A população é colorida e democrática...scaters, bikers, esfarrapados, pedintes, estudantes, friks, turistas, excursionistas, emproados, reformados. A State Street leva-nos até ao porto e ao museu marítimo. Parte do museu estende-se pelo próprio porto, numa sequência de barcos com memória, que contam a história da cidade, da pesca e do país: os baleeiros, o táxi, o transporte local de mercadorias, a pesca do marisco, os barcos patrulha...


Santa Barbara - porto

O Bill não quer saber da história nem desses barcos que para aí estão só a ocupar espaço...é pescador, vive da pesca, ama a pesca e passa os dias no mar. Está a regressar de lançar as redes (ou armadilhas - o meu inglês não alcança...) e à tarde vai recolher a pescaria com a mulher. Pesca essencialmente marisco, que tem boa saída na cidade - dois ou três restaurantes locais ficam-lhe com toda a pescaria. O canzarrão assiste indiferente à conversa...

Santa Barbara - porto

Muitos dias tem um dia…
Acordei sarapantado com o telefone a gritar no silêncio húmido da tenda. Dois bons amigos quiseram partilhar comigo o almoço de Domingo no Stop do Bairro… apesar de não me dizerem a ementa, conheço-a de cor e, talvez pela primeira vez desde que deixei a ibéria, salivei saudades e senti o travo amargo na garganta… por pouco tempo, pois quando tomava o meu banal pequeno-almoço – duas sandes mistas e uma terceira com o redescoberto delicioso sabor da infância: nutella e banana – recebo uma mensagem. Desta vez estavam em minha casa a beber cardhu à minha saúde! E eu não resisti, juntei-me a eles para partilhar as pequenas estórias do dia-a-dia, os golos falhados e frangos sofridos na jogatana dos Domingos de manhã, combinar o próximo filme, cartada ou jantarada… despedimo-nos no silêncio de um último trago à saúde, ao Ushuaia e à fraterna amizade, que não tem “longe nem distância”. Eles regressaram às suas casas, depois de me regarem as plantas e arejarem a casa; eu terminei o pequeno-almoço sob um céu de chumbo e água, filtrada pelas folhas douradas de Outono do enorme plátano sob o qual pernoitei, em Leo Carrillo State Beach.
Apesar da hora vespertina, as bermas da estrada já estão repletas de carros estacionados de onde saem surfistas de todas as idades, prancha debaixo do braço e passo apressado para a crista da onda.

Leo Carrillo beach

De Leo Carrillo até Santa Mónica, não há praia que não tenha ondas e não há onda que não leve na crista vários surfistas de negro, dançando em precário equilíbrio até invariavelmente se esparramar na curva espumosa da onda e regressar ao ponto de partida.
Reflicto se faço uma incursão rápida ao “centro” de Los Angeles ou prossigo ao longo da costa, quando me apercebo que não tenho travão de trás… um dos calços, já completamente gasto, deve ter-se solto. Como os da frente não estão muito melhor, a prioridade é encontrar uma loja aberta...pois parece que é domingo.
Apesar da estrada ser predominantemente plana, com a chuva e sem travão, as paragens nos semáforos são tensas e já tive de recorrer ao método primário do pé no pneu.
Em Malibu, pressinto pela abundância de lojas, escolas e demais aparatos dedicados ao surf, um dos paraísos surfistas, um estrondo enorme faz-me dar uma guinada tensa na Dempster. No semáforo à minha frente um mercedes e um jipe chocaram com violência, em piões e capotanço. Alguém deve ter ignorado o sinal vermelho...
Prossegui com alguma tensão. Aquele acidente fez-me mal aos nervos. Mesmo um tipo como eu, que "raramente pensa", especialmente no perigo, não conseguia afastar o estrondo da cabeça e os carros a rodopiarem na estrada...
As bermas da estrada são grandes mas estão invariavelmente ocupadas por carros de surfistas estacionados, o que me obriga a pedalar no limite da faixa de rodagem e da berma. De repente sai um tipo disparado do meio de duas carrinhas estacionadas e atravessa-se na minha frente. Nem tive tempo de accionar os travões que não tinha e deu-se o inevitável: afaguei a estrada com delicadeza e suavidade, por entre mil desculpas do tipo, um alforge a deslizar e um susto...
Estava tomada a decisão! Iria para sul, ao longo da costa e LA - Downtown e hollywod - ficam para a viagem de regresso.

Marvin Braude Bike trail

Pouco depois tem início a Marvin Braude Bike Trail, uma ciclovia com dezenas de Kms ao longo do areal quando não mesmo praia adentro, por onde circulam centenas de ciclistas e skaters de todas as idades e ritmos. Há dezenas de redes de vólei de praia. Numas jogam pares, noutras, quadras, noutras é ao molho. Numas limitam-se a tentar passar a bola para o campo adversário, noutras joga-se aos três toques, com remates suspensos no alto e bloco organizado. Numas jogam barrigudos e carecas, noutras elegantes louras e noutras, todas as cores. Ao lado da pista de bicicletas há outra para peões. Uns passam a correr, outros a caminhar; uns de fones nos ouvidos, outros em grupo a cavaquear. Parecia que em Santa Monica
toda a gente tinha vindo para a praia praticar desporto...e senti um formigueiro nas pernas e na sola dos pés, com vontade de largar a bicicleta e correr na areia molhada.

Precisava de travões e era domingo. Deixei o Marvin Braude bike trail e procurei uma rua interior. Estava na main street a consultar o mapa e quando levanto o olhar deparo-me com a Bike Attack mesmo na esquina ao meu lado. Está aberta e repõem calços novos nos travões...sei que os suportes da frente onde encaixam os alforges estão partidos e decido substituí-los também...a procissão ainda vai no ar e mais tarde ou mais cedo, acabarão por ceder completamente. Combinamos meia hora para a reparação e vou passear pela Main Street. E descubro outra Santa Mónica, apenas duas ou três ruas afastadas da praia. Casas pequenas, traça antiga e repleta de gente a passear pela rua, nas pastelarias, na conversa...Ao lado do museu há mais movimento: é o "farmers market". Uma praça pequena repleta de tendas com pequenas vendas de produtos agrícolas. Dos frutos aos legumes; dos vegetais às flores; do mel aos doces; do pão aos bolos e frutos secos; dos sabões aos cremes de beleza; da tasca de comes e bebes aos sumos naturais feitos na hora; do quiosque dos "farmers", com livros de receitas, especificações dos produtos, referências e moradas dos associados, ao grupo de cordas que animava a feira alternando música country com erudita...E o local repleto de gente de mais cores que as do arco-íris.
E de repente estava sentado num degrau da escada, a saborear um prato de comida "nova" e apaladada, a assistir a um concerto e senti-me transportado para há 30 ou mais anos, na feira dos 14 de cada mês, na aldeia vizinha do castelo. Vi regatear o preço dos cabritos, dos borregos e dos leitões. Vi o "propagandista" a anunciar não por 5 000, nem por 4 000, nem 3 000, mas apenas 2 000 escudos um enxoval completo, mais um par de botas. E antes que algum maluco se chegasse à frente e estragasse a jogada, baixava apressadamente para 1000 escudos apenas!! por entre os protestos ensaiados da mulher/ajudante. E senti o aroma da tasca dos frangos e o sabor da mini, naquele dia de festa, caso a venda dos leitões ou dos cabritos tivesse ido a bom porto e carteira estivesse menos tisnada que o habitual... E estava tudo aqui e lá, no sofisticado e caro "farmers market" e na popular, rude, biológica e barata feira dos 14...
De regresso à Bike Attack esperava-me uma surpresa desagradável. Afinal a própria suspensão da frente estava partida ou partiu-se quando o mecânico tirou os apoios dos alforges para substituir. Terá sido do "deslize" da manhã...? Uma suspensão em segunda mão, foi a solução para a bolsa depauperada.
De volta à Marvin Braude, procurava o parque de campismo do meu mapa, em Docwiller State Beach. Certo é que o campismo não apareceu...havia um parque mas só para caravanas. Estava farto daquele dia cheio de boas e más surpresas e decidi que acamparia no primeiro local sofrível que encontrasse e que não dissesse explicitamente que era proibido acampar. E entre o mar e a pista do aeroporto de Los Angeles, num quadrado de relva viçosa, baloiços e bancos de recreio, montei a tenda mais uma vez sob a chuva e o nevoeiro.

Campismo selvagem em LA

Entre a expectativa de ser acordado a qualquer altura por algum polícia zeloso, o marulhar constante das ondas do mar, o desnível do solo e o ruído ensurdecedor dos aviões a descolarem aos pares por cima da minha cabeça, esperei que a noite levasse os dias que o dia teve, nem todos bons, nem todos maus, mas todos singulares.

Passar o porto de LA e chegar a Long Beach de bicicleta não foi uma tarefa amigável! Os camiões de muitas toneladas, muitos reboques e semi-reboques, muitos eixos e muitas rodas, por estradas em obras, vias sem acesso a bicicletas, e becos e ruelas que deseguam numa doca do porto, sem saída, faziam a adrenalina disparar e o suor pingar...
Long beach não é tão longa assim e a meio da tarde estava praticamente deserta. Na verdade, com excepção das três ilhotas à ilharga, não vislumbrei nenhuma singularidade na praia. O mesmo areal grande e plano de Santa Monica; a invariável ciclovia e passeio pedestre, palmeiras e os prédios frente à praia, de longe os maiores de toda a costa.


long Beach

Queria chegar cedo ao parque de campismo de Bolsa Chica para aproveitar o escasso sol e secar o equipamento de campismo, que há quase uma semana não seca completamente. Quando chego ao parque, e apesar das indicações do mapa, mais uma vez me deparo com a impossibilidade de acampar. A mesma estória de só as auto-caravanas serem admitidas. Mostro o mapa dos "State Parks" e a indicação de "tent sites", mas, como muito bem sabia, não a conseguiria demover...

Huntington

Regressei lixado à estrada, pedalando apressadamente para percorrer os cerca de trinta kms que me separavam de Newport Beach, o próximo campismo privado, onde adivinhava que iria pagar uma pipa de massa... Agora as praias sucedem-se e as povoações são contíguas. Chego a Newport Beach já ao entardecer. O parque de campismo tem uma localização excelente, mesmo na margem de um braço do mar que entra terra adentro. As instalações são de luxo e o preço a condizer...
Durante a noite desencadeia-se uma tempestade que continua todo o dia... trovoadas sucessivas, chuva a potes, vento forte. Esperei até às 11h a ver se amainava mas não havia sinais de cedência... apenas oscilações de humor. Vesti a minha melhor paciência, calcei a melhor persistência que encontrei, tomei uma dose dupla de resignação e uma tripla de desafio e atirei-me de cabeça para a frente. Por vezes tinha de fechar os olhos, pois a chuva parecia fazer feridas. Por vezes tinha quase de parar e passar com a bicicleta à mão em locais da estrada alagados pela água. Por vezes parava debaixo de uma varanda ou toldo para evitar uma rajada maior de vento. E uma vez um tipo em mangas de camisa, um copo de café numa mão e um bolo na outra e um ar feliz no olhar, diz-me: se não fosse estas tempestades, como poderíamos apreciar verdadeiramente o lindo sol o ano inteiro? E eu acenei-lhe que sim, que era mesmo isso que eu queria - sol o ano inteiro!! pelo menos o próximo ano!!
Cheguei a San Clement State Beach, tudo escorria água, incluindo as nuvens que pareciam rotas.
Numa aberta, que é como quem diz, chuva menos intensa, montei a tenda numa pequena elevação debaixo de um pinheiro - parecia uma autêntica ilha. Na verdade os lugares para acampar estavam inundados por água, que corria em riachos por todo o parque...enfiei-me na tenda e nem saboreei as duas ou três sanduíches do jantar.

Carlsbad

Depois da tempestade, a bonança vem, mas devagarinho...
Tinha pensado completar os cento e poucos quilómetros até San Diego e pernoitar aí num dos Hostals. Mas o fim do dia pôs-se bonito, com o sol a espreitar, a temperatura a subir e o mar com aquela cor de chumbo que parece afundar tudo com ele. Parei no parque de San Elijo ainda não eram três horas e apesar de os bikers só poderem fazer o check-in depois das 4h30, as simpáticas empregadas deixaram-me instalar. Expliquei-lhes que tinha tudo molhado, depois de uma semana sempre com mau tempo, em especial nos dois últimos dias e só faltou irem ajudar-me a montar o estaminé. Sim, porque quando estendi tudo o que estava molhado, eram as árvores, a vedação, a mesa e bancos, tudo colorido com roupa bafienta, tenda, saco cama, colchão, almofada, calçado, mochilas...pouco menos que um campo de futebol!!

San Elijo

Em Cardif está um monumento ao surfista, quem vestiram de Bob Marley. Parei para tirar uma foto e para um tipo ao meu lado que me pergunta se quero saber a estória desta estátua. E prossegue: aqui, em Cardif, somos os melhores surfistas do país. Esta estátua foi feita em Nova Yorque e, como vês, a posição do surfista é de "aprendiz" - os profissionais posicionam-se assim sobre a prancha, exemplificava. Por isso todos odiamos a estátua e todas as semanas fazem alguma travessura à estátua. Desta vez está vestida de Bob Marley; há umas semanas fizeram um tubarão que colocaram assim e parecia que o tubarão estava a comer a estátua! Aqueles tipos de Nova York são todos aprendizes, estás a ver...".


Cardif

Até San Diego ainda tomei café com um professor universitário, que me pediu desculpa pelo mau tempo. Habitualmente só chove por aqui a partir de Fevereiro e com pouca intensidade, só "light showers". E agora esta tempestade em Outubro...é inédito, I'm sorry, I'm sorry".

San Diego
Não encontrei em San Diego nada de singular. Praia e mais praia. Surfistas por todo o lado. Ciclovias a condizer. A cidade velha toda recuperada e bem preservada, mas exclusivamente turistica. Na Hostal em que fiquei, em Newport beach, encontrei um hambiente singular..e partilhei o "quarto" com o "terrível" estereotipo americano...estória que vou passar, pois agora, apesar da chuva parecer estar de volta, vou para o México, que deve distar escassas quatro dezenas de quilómetros...

San Diego - Old Town

San Diego - Lapso (meu)?

San Diego - Newport Beach
Adiós gringos, asta lueg.