quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Nicarágua de Sandino

Nicarágua de Sandino...

Entrei na Nicarágua pela fronteira de Guasaule. A única diferença com as anteriores, é o comércio de laranjas, do lado hondurenho. Dezenas de cavalos, equilibram no dorso um ou dois sacos de laranjas a “rebentar pelas costuras”, que são pesados e transferidos para os dois camiões estacionados na berma da estrada.
Na fronteira hondurenha, a funcionária pediu-me o recibo dos 3 dólares que paguei ao entrar no país. Recordo-me bem de ter pago os dólares ao empregado, que largou o garfo com que comia o prato de arroz, para carimbar o passaporte; de lhe dar o dinheiro e não ter recebido qualquer recibo. Depois de algum suspense e consultar a chefia, lá acedeu em me deixar sair sem pagar novamente, recomendando-me, com ar recriminatório, que peça sempre o recibo.
Do lado nicaraguense o movimento era mais intenso que o habitual nas fronteiras anteriores. Há imensos nicaraguenses a entrar na Guatemala. Entrego o passaporte e o empregado pede-me 12 dólares. O meu guia da América Central menciona $5, o cambista a quem vendi as lampiras, tinha-me garantido serem $7 e agora pedem-me $12!? Fiz-me desentendido e insisti na pergunta sobre o montante a pagar. O tipo olhou para mim com ar enfastiado e fez-me literalmente o “desenho”: $12 se quer o visto, disse. Expliquei-lhe que só tinha $7 e que ia trocar dinheiro. Poisou o passaporte e desapareceu por uma porta, enquanto eu fui novamente “ao mercado” comprar mais $5. Quando regressei, o passaporte lá estava mas do tipo nem rasto. No guichet ao lado, outro funcionário carimbava velozmente uns papelitos minúsculos, que me parecem ser vistos temporários para os locais que cruzam a fronteira por horas ou escassos dias. Esperei e desesperei, até que o “meu funcionário” regressou, ainda a palitar os dentes e limpar a boca: era hora de almoço…Apôs o carimbo no pequeno papel e não directamente no passaporte e passou-me um recibo de …$2. Está-se mesmo a ver que, lixado como estava com a espera, e com o recente episódio do lado hondurenho, virei-me para ele e apontei para o recibo de $2, perguntando, com ar inquisidor, afinal quanto é a entrada!? O tipo, desta vez com ar de enfado, juntou os dois papéis e mostrou-me que o outro tinha um valor de $10…
Somotilho é a primeira povoação em território nicaraguense, talvez a uns 15 kms da fronteira, e almocei na explanada do primeiro restaurante que vi. O único prato era bife de cebolada, acompanhado com os inseparáveis frijoles e arroz – mais uma tortilha e um pouco de salada. Na rua, dois miúdos jogavam à bola, por entre o constante vai-e-vem de coloridas bici-táxis – ou trici-táxis – bicicletas transformadas em triciclos, que fazem o serviço de táxi…
A tarde estava bastante quente, e a forte brisa que soprava de Este não ajudava no meu trajecto para Sudeste… Felizmente o percurso é praticamente plano, e consigo manter uma boa média.
Ao longo da estrada surgem casas bastante dispersas. Umas parecem mesmo abandonadas, mas outras têm um ar acolhedor. A vasta planície de campos verdejantes, intercala a pastorícia de bovinos, com culturas que não consigo identificar. O trânsito é escasso mas, surpreendentemente, os veículos que passam por mim, com elevada percentagem de pick-ups, aparentam bom estado. Bicicletas, cavalos e carroças, completam o tráfego.
Na linha de horizonte começa a emergir o cone agudo de um vulcão. Não percebo se são nuvens ou fumo, o chapéu que lhe cobre o cume. À medida que me aproximo, não só vai ganhando dimensão como começa a ganhar nitidez toda uma cadeia montanhosa, pontuada pelas elevações cónicas, típicas dos vulcões. Inquieto-me com a possibilidade de ter de transpor hoje aquela cordilheira, para chegar a Chinandega, a única cidade nas imediações. Observo melhor o mapa e concluo que, afinal, a estrada contorna o “vulcão Viejo” pela encosta norte, o que estica o percurso do dia, mas deve livrar-me da subida.
Procuro manter um ritmo forte, pois não quero pedalar de noite e a terra gira demasiado depressa nesta latitude…
Perto de Vila Salvadorita, ultrapasso dois rapazolas nas suas pasteleiras. Daí a pouco pedalamos os três em fila, em grande velocidade, infelizmente comigo sempre à frente, a puxar…mas a verdade é que por mais de uma vez abrandei o ritmo para não os perder – há sempre um efeito psicológico na competição – e ali sentia-me um bocado a desafiá- los. Teve piada porque, quando parei numa tienda, na beira da estrada, para comprar água, eles pararam comigo, tomaram o peso à bicicleta, desataram a bater palmas e fizeram questão de me encherem a garrafa de água (que agora se vende em “minúsculos” sacos de plástico – de 250 ml).
Até Chinandega foi uma “correria” louca e cheguei à cidade exausto, já mesmo no lusco-fusco. Fiquei no primeiro “hotel” que encontrei, num quarto escuro, sombrio, minúsculo, claustrofóbico, com um beliche aos “pés da cama”, que atafulhava ainda mais o exíguo espaço. Mas a originalidade que retive foi a iluminação: fizeram um buraco na parede que separa o quarto da casa de banho, onde enfiaram uma lâmpada fluorescente comprida, que assim ilumina ambas as divisões…

Hotel em Chinandega

Chinandega parece ser famosa principalmente pela destilaria de rum Flor de Caña, a mais famosa exportação do país e uma importante fonte de divisas, já que é praticamente todo exportado... Nas ruas da cidade, o número de bicicletas e carroças superam largamente o de carros.
No pequeno percurso até Leon, o país de Sandino vai mostrando as suas faces, nem sempre sorridentes… As bicicletas passam devagar, transportando um, dois, três e até mesmo os quatro! membros de uma família, num equilíbrio físico difícil de imaginar. Miúdos e graúdos deslocam-se em cavalos magros, com o trote arrastado e sem o pêlo brilhante e olhar fogoso que nos habituamos a ver nos equídeos de luxo. Pesadas carroças de madeira, carregadas de lenha ou pasto, arrastam-se lentamente pela estrada, puxadas por bois pachorrentos ou cavalos estafados, o mais das vezes com as costelas e quadris pontiagudos à flor da pele. Modernos tractores de enormes dimensões, passam apressados a caminho dos vastos campos de cana-de-açúcar. Pick-ups de brilhantes grelhas cromadas e rumo definido, passam velozes. Da soleira de cada porta, das ondulantes camas de rede, das cadeiras de plástico em redor de uma mesa “coca-cola”, do chão empoeirado de terra avermelhada, ou simplesmente de cima de uma pedra ou bloco de tijolo, jovens, crianças, homens e mulheres de braços caídos, olhares parados nos rostos fechados, talvez aguardem pacientemente que a semente da esperança lançada por Sandino, cultivada por Amador, prometida por Ortega, desabroche na próxima primavera e inunde a terra fértil da Nicarágua. Talvez, como me dizia Maria, a jovem empregada do hostal “tortuga boluga”, aos nicaraguenses baste uma cama – ainda que de rede – e uma refeição para serem felizes…Não sei porquê, mas senti que a sua boca dizia uma coisa e o seu olhar, outra bem diferente.

Leon - "1ª Capital de la revolucion"

León é a auto-proclamada “primera capital de la revolucion”, pois foi a primeira cidade (capital de província) a derrubar a ditadura da oligarquia ditatorial de Somoza e instalar o poder revolucionário sandinista. Óscar, 55 anos, é veterinário e geneticamente revolucionário. Combatente sandinista da FSLN desde “a primeira hora”, com apenas 17 anos, aponta, orgulhoso, para uma fotografia, entre as tantas que povoam as paredes do velho edifício da Asociación de Combatentes Históricos Héroes de Veracruz. “Sou eu”, diz, “no dia em que tomámos León, derrotámos a ditadura oligárquica de Somoza e fundámos a “primera capital de la revolucion”! No resto do país ainda se lutava, mas depois de León ser tomado, nada podia parar a revolução…”.


Leon - Sandino

Discorre com sincero orgulho sobre a história da revolução. Sandino é, obviamente, o pai a mãe, a cabeça, o coração, o herói… Filho de pai cafeeiro e mão campesina, forma-se em engenharia, vai trabalhar nos EU e no México, onde convive com o movimento revolucionário e os seus dirigentes – Zapata à cabeça. Carlos Amador e a fundação da FSLN, décadas mais tarde. As revoltas estudantis e o assassinato de Rigoberto Lópes Pérez. Quantos olhares vazios, quantos rostos anónimos, quantos nomes silenciados, olham, apontam e gritam, das brancas paredes da memória do edifício da “asociación”. Impressiona-me que nem um único dos retratos esboce o mais leve sorriso…Como não podiam adivinhar a morte que os esperava, concluo que não chegaram a aprender a sorrir. A ponte para o presente, e para o “companheiro Daniel”, é feita com menos entusiasmo. Fala dos 5% de analfabetismo, da educação e saúde gratuitas e universais, da distribuição da terra “a quem a trabalha”…A revolução não acabou. A revolução não pode acabar enquanto o miúdo de calções vermelhos dormir, estatelado, no meio do passeio e as pessoas lhe passarem ao lado sem o verem. A revolução apenas pode mudar de cor, de armas, de símbolos, hibernar até. Mas não pode morrer…

Leon - Mural

Lá fora, bem no meio do passeio da Calle Rúben Dário, jaz, de bruços, o miúdo de calções vermelhos e t-shirt cor-de-sujo a quem ontem neguei dinheiro para comer alguma coisa ao jantar, pensando que se estava simplesmente a aproveitar do meu look de turista. Sem cama de rede, sem uma refeição, sob o sol quente da manhã.
Léon está repleta de memórias revolucionárias, de mãos dadas com o sofrimento e a morte dos que trocaram o (seu) presente, sem condições, por um futuro onde não chegaram. Na pequena Galeria Héroes e Mártires, centenas de olhares de homens e mulheres, a preto e branco, olham-nos de todos os ângulos…terão encontrado a sua paz na guerra a que se entregaram…
Lá fora escurece rapidamente. Deambulo em busca de um local para jantar. Nas traseiras da Catedral, junto ao mercado, duas bancas, no meio da rua, libertam um agradável cheiro a comida. Aproximo-me hesitante, procurando avaliar o aspecto, mas já uma expedita rapariga me pergunta o que pode servir-me. Para o espaço e condições, tem uma impressionante variedade de comidas: “Papusas” – uma espécie de empanadas, mas “lua cheia” e não apenas “meia-lua” como estas – com vários tipos de recheio, carnes grelhadas, feijão, arroz, banana frita… Vou perguntando o que é cada coisa e mandando juntar. No fim, acabei com um prato a abarrotar de deliciosos sabores e aromas. Enquanto me esforçava para comer tudo, o meu olhar cruzou-se mais que uma vez com o dum tipo, que andava para trás e para diante, no passeio em frente. Apesar do esforço, levantei-me sem conseguir limpar o prato. Mal me afastei da mesa e me dirigi à moça para pagar, o tipo do passeio chegou-se velozmente à mesa e limpou o prato para um saco de plástico que trazia na mão… Regressou ao “seu passeio”, iniciando o jantar dele com o que sobrou do meu. Desta vez confirmei o que sempre suspeitara: não é por comer tudo o que tenho no prato, que a fome dos que não têm sequer prato, diminui…neste caso até foi o contrário.
Léon vive devagar. Vive em casas baixas, de estilo colonial, com varandas e belos gradeamentos em ferro forjado, de portas abertas para ruas rectilíneas, com o piso rude e irregular de há séculos. Como as demais cidades de fortes raízes coloniais da América Central, o epicentro é a colossal catedral e a praça central, contígua. Pelas ruas deambulam turistas, predominantemente jovens mochileiros, muitos deles de língua francesa.

Daniel...

Numa espécie de ringue, decorre uma intensa partida de basquetebol. Magros e gordos, altos e baixos, carecas e cabeludos, em tronco nu ou com camisolas a preceito, com estilo ou atabalhoados, dos 15 aos 60 anos, disputam os pontos nas tabelas e denominam-se Jordans, Magic, Powel & Cª. Sigo com algum fascínio aquela miscelânea de jogadores, não pelas jogadas ou os pontos que conseguem, mas por ver a mesma alegria e entusiasmo nos de 15 e de 60…
No passeio aquecem skaters, patinadores e futebolistas. Já é noite escura quando os gigantes se dão por saciados e lhes cedam o palco. Um miúdo de calções vermelhos, t-shirt cor-de-sujo e expressão zangada, agressiva mesmo, senta-se ao meu lado e pede-me dinheiro para comer. Olho-o nos olhos escuros e digo-lhe que não – deve querer aproveitar-se do meu ar turístico…
Passei a manhã a visitar o museu arquivo Rúben Darío e o centro de arte Fundación Ortiz-Guardián. Para alem dos belíssimos edifícios onde se localizam, surpreendeu-me a vasta colecção de arte de toda a América Latina, um certame de arte contemporânea de todos os países da América Central, a enorme exposição de cerâmica e mesmo uns Picassos, incluindo uma cópia ou esboço (?) da Guernica…


Vendedor de gelados

Deixo Léon a caminho de Manágua, embora não tenha intenção de parar na capital. A poucas centenas de metros do centro de Léon, regressa com intensidade o modo de vida rústico e carenciado dos nicaraguenses, com as carroças e bicicletas em constante vai-e-vem.
As longas rectas sucedem-se na planície verdejante, delimitada, lá longe, à esquerda, por uma cordilheira de majestosos vulcões. Parece que são dezassete ao todo, alguns em actividade… Com excepção dos distantes vulcões e pequenos fait-divers da vida quotidiana, que acontece para lá da berma da estrada, a jornada é monótona e cansativa. O sol quente, a humidade crescente com a aproximação ao equador, a brisa forte que me acompanhou todos os dias na Nicarágua, e uma longa subida nas imediações de Manágua, fizeram-me desistir do objectivo secreto de pernoitar em Masaya, cerca de 30 kms depois da capital. Mas como queria chegar o mais longe possível, decidi passar Manágua, esperando encontrar um hotel, ou motel, nos subúrbios. Os kms iam passando, o desgaste aumentando, o vento fortalecido pelo meu desgaste e de hotel nem sinal – na verdade vi o Hilton…mas se me aproximasse, deveria ser logo preso! Como estava com pouco dinheiro, parei num multibanco, junto a um supermercado. Duas mulheres, na casa dos 50, conversavam junto ao “cajero” e decidi perguntar se havia algum hotel ou alojamento próximo. Uma delas respondeu que podia alugar-me um apartamento para pernoitar, corrigindo de imediato que não era um apartamento mas sim um quarto na quinta dela. Mostrei-me interessado e perguntei-lhe onde era e quanto custava. A resposta foi mais surpreendente…ficava ao km 13 da estrada (estávamos no 9º) e perguntou-me quanto queria eu pagar! Não estava de todo preparado para aquela pergunta e lá lhe disse que o máximo que podia pagar eram $15 (até no país de Sandino, o dólar vem antes das córdobas…). Respondeu-me que estava bem e para esperar um pouco por ela, pois me “conduziria” até à quinta, seguindo à minha frente no carro.
Ao km 13 há um pequeno desvio à direita e, imediatamente a seguir, novo desvio em terra batida, que dá acesso a várias moradias completamente embrenhadas na luxuriante vegetação tropical. Abriu o portão, abriu as portas da casa, mandou-me entrar com a bicicleta sala adentro e arrumá-la junto a uma parede da sala. Foi-me mostrar o meu quarto, cozinha e casa de banho. Infelizmente não havia água corrente naquela altura – há cortes frequentes no abastecimento de água – e tive de recorrer ao velho método de um alguidar de água e um púcaro.
A casa era de uma enorme simplicidade, com parca mobília e menos elementos decorativos. Mas era uma “casa na floresta”, com um grande alpendre, vedado com rede mosquiteira, onde se dispunham várias cadeiras de baloiço, camas de rede e uma rústica mesa de cimento com cadeiras em redor. Era ali que a Ivânia gostava de passar as tardes, sempre que podia, enquanto o filho Leonardo, de 12 anos, dedilhava acordes confusos, numa das duas guitarras que tinha na sala contígua.
Antes de sair de novo com o filho e me entregar a chave da casa, com a única recomendação de não abrir a porta nem o portão a quem quer que fosse, preparou-me um chá e um pão com manteiga, pois eu “devia estar com muita fome” – não pensei que fosse tão evidente…E enquanto tomávamos o chá, apresentou-se. É emigrante em Montreal, no Canadá, há quase trinta anos. O marido e as duas filhas mais velhas estão lá e ela está temporariamente na Nicarágua, “para ajudar este miúdo” – o filho. Gostaria de não me cobrar nada pela dormida, mas está com alguns problemas na vida e só por isso aceita. A “amiga” com quem estava a falar quando a vi, ficou muito preocupada por ela levar assim um estranho a dormir em casa, ainda por cima estando sozinha com o miúdo, mas ela “seguiu o coração, pois quando me viu, sentiu logo que eu era uma pessoa especial e boa”! Não a felicitei, mas bem podia, pois foi a pessoa que, até hoje, mais rapidamente avaliou correctamente a minha pessoa!!
Na verdade, a Ivânia é que é mesmo uma pessoa excepcional e excepcionalmente boa…quando regressou, passava das 10 da noite, sentámo-nos no alpendre e contou-me o dia dela – quase dava um post, de uma humanidade e solidariedade luminosa…

Manágua - Quinta Scorpio

Despedi-me da quinta scorpio – assim se chama a casa da Ivânia – mal clareava o dia. Não quis pequeno-almoço e despedi-me com o peso das coisas definitivas…Até nunca mais, que é como quem diz, até sempre, pois dificilmente me esquecerei da Ivânia.
Masaya é uma pequena povoação cerca de 30 kms a sudeste de Manágua. Na realidade só há duas razões para pernoitar na cidade: o mercado nacional de artesanato – o único do país – e o activo vulcão Masaya, onde quero fazer um treking.
Uma das coisas excepcionalmente boas desta viagem que estou a fazer, é poder viver cada momento, cada lugar, cada sitio onde pernoito, cada café ou restaurante onde me sento, cada banco de jardim onde “poiso”, cada conversa circunstancial, com a intensidade das coisas absolutas, únicas e irrepetíveis e com a leveza da absoluta despreocupação com o antes e, especialmente, com o depois – com o autocarro ou o avião, com o jantar, com a reunião, com o encontro, com o compromisso, em suma, com o Relógio. Por isso, mesmo Masaya, uma vila – ou cidade – sem nada de cativante, cativou-me. Cativou-me o jardim, mais pequeno e banal que os jardins das cidades importantes, talvez pelos excepcionais sumos naturais que uma senhora simpática e paciente – para me explicar repetidamente quais os sumos que tinha e de que eram – preparava; talvez pelos miúdos brincando em “calhambeques” que se parecem com bicicletas; talvez pelos vendedores de jornais e jogo, que passam (passeiam?) tranquilamente, aparentemente pouco preocupados com o negócio e mais com a conversa.

Masaya – noite de folclore


Vulcão Masaya

Para alem do jardim, há o “museu” – da revolução, claro. Na verdade é uma pequena sala no edifício da câmara (?), narrando e ilustrando a participação revolucionária da região. E, tal como em Léon, lá estão centenas de fotos dos que sacrificaram o único bem que tinham – a vida – ao sonho. É verdade que as fotos “enganam”, pois muitas são das vítimas/heróis enquanto miúdos. Mas isso mesmo dá um ar ainda mais sombrio e injusto à morte. Quando via aqueles olhos de crianças mortas, parados ainda em vida, fixos nos meus, pensava: espera, na foto eram crianças inocentes, mas morreram já adultos, convictos da causa que abraçaram…seja como for, todos aqueles olhos se apagaram como velas lançadas na tempestade, para iluminarem o caminho da esperança…


Juan, vendedor de cordas

O mercado de artesanato fica numa grande “praça”, vedada por um muro parecido com um castelo. As tendas dispõem-se “tematicamente”, em complexos corredores, cantos e recantos. A diversidade é enorme, o colorido sumptuoso, a qualidade parece elevada, os preços baixos e, surpreendentemente para estas latitudes, os vendedores – muitas vezes a lerem o jornal ou um livro – têm uma postura discreta, deixando os visitantes completamente à vontade.
A maioria deste artesanato é produzido na cidade e existe um mapa com a localização de grande parte das oficinas dos artesãos…na minha deambulação pela cidade, que me levou aos subúrbios ocidentais, junto da laguna Masaya, com vista para o vulcão do mesmo nome, vi vários artífices trabalhando em minúsculas oficinas familiares, de portas abertas aos turistas curiosos. Claro que alguns perderam alguns minutos a responderem ao meu inquérito…

Masaya - vendedores de lenha

Mas como nem só de artesanato e turistas vive uma comunidade, um jovem casal de comerciantes de lenha, fazia a entrega da última encomenda do dia. O cavalo seco e com ar estafado, arrastava, sem pressa, a carroça agora vazia. Como há muitas pessoas sem possibilidades para cozinhar com gás, o negócio da lenha vai dando para alimentar os três, diz-me o Juan, com um sorriso triste. A mulher, de lápis e calculadora em punho, vai anotando as encomendas – e os créditos, que também os há…

Granada - Catedral

No mundo simples e a “preto e branco”, Léon é conhecida pela sua tradição revolucionária e de esquerda e Granada pelo conservadorismo. Parece que a implantação político-partidária e a concentração dos votos é mesmo extrema nestas duas cidades e no passado as divergências resolveram-se com violência…


Granada, vista de la Merced

A torre da igreja La Merced oferece uma visão soberba de Granada, das ruas geométricas que nos conduzem o olhar até ao lago Nicarágua, aos vulcões, sempre vigilantes, ou à vegetação verdejante dos arrabaldes. Acima das casas baixas, de telhados de acastanhada telha de canudo que, muitas vezes, dão para sedutores pátios interiores, erguem-se cúpulas e torres de igrejas pelos quatro pontos cardeais.


Granada - La Calzada

Granada faz parte da “ruta colonial e de los volcones”, que atravessa toda a América Central. Muito menos imponente e cosmopolita que San Cristobal de las Casas, no México, menos turística que Antígua, na Guatemala, e que a sua vizinha Léon, parece estar também a despertar rapidamente para o turismo.
A Calle Atravezada e a Calle la Calzada não só delimitam a cidade como circunscrevem claramente o centro. É surpreendente como todos os turistas afluem à mesma zona, povoando as esplanadas, bares e restaurantes de uma mesma rua. É como se houvessem duas cidades na cidade: a Calle la Calzada – para turistas – e o resto. É um estranho turismo, este em que turistas convivem com turistas, mais parecendo que estão num cruzeiro em doca seca…mas é aqui que, pelo menos à noite, todos os caminhos vêm dar. É nesta rua que todas as ofertas podem surgir, desde jovens “massagistas” com ar lânguido e olhar insinuante, a discretos dealers de estupefacientes.
Turistas de todas as idades e pronúncias vão preenchendo as explanadas, e as mesas enchem-se de garrafas de cerveja de litro, vazias. Parece popular na Nicarágua a cerveja de litro, normalmente dividida entre mais que uma pessoa…eu próprio já fui surpreendido com uma, pois como não especifiquei, veio, por defeito, uma de litro!


Granada - campo de futebol

Lambia devagar o gelado, que teimava em escorrer pelo cone, quando o Luís se aproximou de mim com a sua colecção de artefactos de barro. Contrariamente ao habitual, poisou as faianças, com cuidado, no chão, apresentou-se, sentou-se ao meu lado e não falou de negócio mas sim da minha t-shirt – uma adidas preta com listas brancas nas mangas – que serviu de introdução a uma longa conversa sobre futebol, claro. Apesar dos imensos conhecimentos que tem do futebol europeu, confundiu a t-shirt com a “alternativa” do Real Madrid. Mas mesmo assim, pediu-me insistentemente para lha “regalar”, pois colecciona equipamentos de equipas e selecções de futebol, “mas são muito caros na Nicarágua”. Na verdade, ao ouvir o entusiasmo e orgulho com que fala do equipamento da argentina, do Liverpool, Inter, etc., estive vai-não-vai para ficar em tronco nu na praça central de Granada e dar-lhe a t-shirt. Mas tive uma ideia melhor: prometi enviar-lhe a do Glorioso quando chegar a Lisboa. Trocámos endereços e ficou de me “lembrar” lá para Novembro…

Granada - de pequenino...

Granada confina com o lago Nicarágua. De águas acastanhadas e ondas impressionantemente grandes para um lago, na sua margem estende-se um enorme parque verde, que dizem pouco recomendável depois de escurecer. Mas durante a tarde é um excelente perímetro para passear, repleto de vida e espelho das singularidades nicaraguenses. Campo de futebol improvisado, em que quatro bicicletas fazem de balizas; campo de pastagem, onde vacas e cavalos devoram enormes tufos de erva verde a escassos metros do lago; pista de jogging, skate e bicicletas; cenário de fotografia de moda, onde uma jovem hesita entre controlar o vaporoso vestido, revolto pela aragem, e o sorriso ensaiado para o fotógrafo. Eu, acabo a tentar reparar a bicicleta de uma gaiata que mal chega com os pés aos pedais, numa bicicleta enferrujada, onde já nada funciona…


Lago Nicarágua - Ilha Ometepe

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

El Salvador e Honduras

A minha passagem por El Salvador foi praticamente “directa”, seguindo a estrada panamericana, sem procurar sítios que façam parte do roteiro turístico. Mas a verdade é que as poucas atracções turísticas que tive oportunidade de visitar, não me despertaram entusiasmo, muito menos fascínio. Apenas as ruínas de Joya de Cerén, património da Unesco, perto de San Salvador, têm interesse histórico. O sítio arqueológico mostra um pequeno conjunto habitacional, soterrado por diversas erupções vulcânicas no fim do século VI e recentemente descoberto.
A fronteira de Valle Nuevo-Las Chinamas, entre a Guatemala e El Salvador, é definida pelo rio Paz.

Fronteira Guatemala-Salvador

A tarde vai a meio e a descida para o rio mostra um horizonte tendencialmente plano, onde domina o cónico vulcão Chingo. O posto fronteiriço guatemalteco fica imediatamente antes da ponte e o movimento de carros e pessoas é residual. Uma centena de metros antes do edifício, meia dúzia de jovens erguem-se na modorra quente do sol impiedoso e dirigem-se-me, excessivamente excitados. Trazem na mão os habituais maços de notas, um deles, uma calculadora e vários apenas fazem ruído, anunciando o câmbio.
A moeda corrente em El Salvador é o U$ dólar e, como habitual, não sei se tenho de pagar alguma taxa para entrar no país. Os “meus” cambistas dizem-me que não e oferecem-me 1U$=8,09 quetzais. Parece-me um câmbio razoável, pois 1€=10,4 quetzais. Rebusco os quetzais da carteira, sempre rodeado por excesso de alarido, e contabilizo 690. Rapidamente o tipo da calculadora faz a conta, e aponta o mostrador com 43 dólares, que o cambista me passa para as mãos. Digo-lhe que a conta tem de estar errada e o alarido aumenta. Mando-os calar, para fazer a conta sem calculadora. Mas já o “calculadoras” me aponta o mostrador e escreve, 690/8,09=53. Afinal estava mesmo errada a conta!! Enquanto o cambista me passa mais dez dólares para a mão, um terceiro jovem do grupo adianta-se, para me conduzir “rapidamente ao guichet especifico”. Sempre a fazer perguntas, dar explicações inúteis, “obrigando-me” constantemente a alimentar o diálogo. Já era o meu guia pessoal, sem que eu tivesse de lhe pagar nada, por pura preocupação com a imagem e simpatia guatemalteca, dizia o intrujão. Apoio a bicicleta no descanso e quase sou “empurrado” para a porta e o guichet das saídas, onde não há ninguém, sob a garantia de que toma conta da bicicleta. Já estava mais que irritado com a solicitude e presença do miúdo, mas lá o tolerei, ficando aliviado quando entrei na sala e me vi livre dele. Como não havia ninguém na fila, fui imediatamente atendido e quando saí confirmei que o tipo já tinha desaparecido, o que me agradou, pois estava farto dele.
Atravessei a pequena ponte, contornei o edifício salvadorenho e entrei na porta indicada, onde não havia uma única pessoa. O simpático empregado recebeu o passaporte, perguntou-me de onde vinha e para onde ia, pôs o carimbo, escreveu algo e devolveu-mo, dizendo que o visto obtido na Guatemala, válido por 90 dias, me permite o acesso a todos os países da América Central. De facto, quando vi o carimbo de El Salvador, tinha escrito: “a petición de usuário”.
Só depois de regressar à estrada é que voltei a pensar na cena do câmbio, em que nada batia certo. Ou melhor, tudo batia certo: a confusão criada à minha volta, a calculadora que dava resultados diferentes para os “mesmos números”, o rapazote a conduzir-me sob grande alarido e verborreia até à alfândega, mas desaparecendo mal entrei lá dentro… Enfim, ri-me durante muitos quilómetros a recriar a cena em que tinha caído que nem um patinho. Ok, Zé Luís, já sabes que estou “programado” para fazer contas com mais de 10 dígitos…estas contas pequenas parecem-me uma inutilidade. Além do mais, na fronteira da Guatemala tinha prometido a mim próprio não regatear mais os câmbios. Mas uma coisa é regatear câmbio, outra é deixar-me levar, como um analfabeto. A compensação é que assim ficava com uma estória para contar e prolongado motivo de riso, por apenas U$30.
Após a fronteira, a estrada sobe paulatinamente durante uma dezena de quilómetros. Não há aglomerados de habitações, mas apenas algumas casas dispersas ladeiam a estrada. Curiosamente, enquanto umas parecem ser quase “luxuosas”, mesmo com paredes pintadas, outras são inacreditavelmente miseráveis – um bloco de doze metros quadrados, com muros de adobe que deixam à vista os paus que suportam a terra, cobertura de lata e uma porta onde se arrima um conjunto de ramos atados por um atilho. Uma mãe resgata, duma pequena elevação, um miúdo nu, da cor da terra onde gatinha.
Vencida a subida, e maugrado o calor intenso, os 25 kms até Ahuachapán, o meu destino imediato, passam rapidamente.

Ahuachapán

Fui dar por acaso ao hotel casa blanca – uma casa de estilo colonial, pintada de branco, claro, com um bonito e pacato jardim interior, quartos grandes e confortáveis. Os US$29,5 pareceram-me excessivos, mas era um luxo de ano-novo. Alem da estranha sensação de utilizar U$ dólares como moeda corrente num país da América Central, também a presença de vários bancos “ocidentais”, entre eles o City Bank, me pareceu algo “deslocado”. Mas afinal era só o princípio, pois nos escassos dias que passei em El Salvador, principalmente em San Salvador, a presença dos maiores “símbolos” de consumo, e consumismo, americanos, foram-se intensificando.
Não deixa de ser irónico que “todos” os países da América Central tenham vivido, recentemente, períodos revolucionários, visando, directa ou indirectamente, o inimigo Tio Sam, e hoje lhes “caiam nos braços”, adoptando inclusivamente a própria moeda…

Auchapán

No jardim da praça central de Ahuacapán, frente à catedral, o José Cifrão, um salvadorenho de cinquenta anos, bem constituído, bem parecido, bom comunicador e de bíblia discretamente na mão, meteu conversa comigo. Talvez tenhamos passado mais de duas horas a discutir os “males do mundo” e da América Central em particular. E o balanço final é: um ódio de morte aos EU e aos colonizadores/saqueadores espanhóis, admiração ilimitada pelo Chavez, uma enorme esperança no Brasil, curiosamente como benemérito, desconfiança total nos governantes “que apropriam a parte de leão da ajuda internacional”, que “apenas alimenta a oligarquia” e mantém os países na mesma miséria de há séculos…
O que mais me impressionou da longa conversa, foi o ódio e a descrença…a minha convicção, cada dia mais profunda, é que a “principal causa” da pobreza em que vivem persistentemente 4/5 da população mundial, em modernos sistemas de escravatura, produzindo, de borla, os bens que esbanjamos quotidianamente, são os “termos de troca”, que o abençoado “mercado” generosamente pondera a favor dos ricos. O exemplo do café é algo que trago atravessado na cabeça e na alma…como é possível que o preço do café, todo ele produzido em países paupérrimos, por agricultores que vivem em condições desumanas há séculos, esteja a ser transaccionado por um “preço de mercado”. Que mercado é esse, que define que eu possa tomar um café em Lisboa por 0,50€, e o produtor desse café morra literalmente de fome na Guatemala, em El Salvador, na Colômbia, Brasil, Timor, Quénia, etc.. O “preço de mercado” tem de garantir que o produtor e consumidor vivem condignamente…a voz do produtor não se houve acima do cafeeiro; o seu olhar nunca foi além da montanha onde nasceu e onde morre todos os dias; os seus pés descalços, apenas conhecem o carreiro para subir e descer cerros a pique, vergados sob a fome, a miséria e a pobreza absoluta, trazendo às costas os preciosos grãos de café, que nos chegam à mesa em chávenas fumegantes a “preço de mercado”. E mesmo o camião que passa e leva o café, a troco de uma mão vazia de quetzais, é escuro, sujo, decadente, ruidoso, ameaçando desmembrar-se em qualquer curva da estrada…O mercado, esse está literalmente a séculos de distância, não tem rosto, não tem família, não come nem bebe, não tem sentimentos, nem emoções. Ninguém o vê, ninguém o conhece, mas sabe-se que está sempre presente e que, como um Deus, tudo explica, tudo sabe e tudo resolve – sabiamente, já se vê…

Sem romantismo

O caminho para Santa Ana é totalmente desinteressante e limitei-me a pedalar. Ia direccionado ao hotel libertad mas um quarteirão antes surgiu o “la casita” e decidi averiguar. Havia um quarto por $12 e outros a $10. O hotel era muito básico e pobre, mas já estou habituado ao género, e como o miúdo responsável – trabalhador estudante – era muito simpático, decidi ficar. O problema é que só pelas 17 horas (ainda não eram duas…) podia ocupar o quarto. Lá arrumei a tralha num beco e, mesmo com roupa de ciclista, suada e desconfortável, fui deambular pela cidade. Rapidamente confirmei a total ausência de interesse, onde apenas a praça central merece uma vista de olhos, e enfiei-me num ciber-café. Não aguentei muito tempo, pois localizava-se junto a uma paragem de autocarros que, ao arrancarem, enchiam literalmente a sala com o fumo negro e nauseabundo do escape…
Voltei ao hotel um pouco antes das 5 e só então percebi a razão de apenas poder ocupar o quarto após as 5 horas…é que a utilização diurna era de curta duração…na escassa hora que esperei, foi um rodopiar de entradas e saídas. Só esperava que ao menos o miúdo mudasse a porra dos lençóis. Mas, pelo sim pelo não, voltei a dormir no saco cama…


San Salvador pode esperar...

A estrada de Santa Ana para San Salvador é monótona e desinteressante. Algumas dezenas de quilómetros antes da capital, há um desvio para Joya de Cerén, o único património do país que faz parte da lista classificada pela UNESCO. Por falta de qualquer referência convincente a sítios “imperdíveis” no país, decidi fazer o pequeno desvio e visitar o local. Trata-se de um pequeno conjunto arqueológico, mostrando uma aldeia soterrada por cinzas e lava vulcânica, no século VI e descoberta, acidentalmente, na década de 70.

Olhares tuti-fruti

O pequeno museu tem uma mostra de artefactos usados à época, com elegantes peças de cerâmica muito bem preservadas.
A aproximação a San Salvador é particularmente desagradável devido à poluição, que se acentua ao longo da grande subida que antecede Santa Tecla – a cidade subúrbio de San Salvador.
Apesar do intenso tráfico, raramente sinto alguma dificuldade ou insegurança no trajecto para o centro da cidade. Na verdade as informações que me foram chegando sobre a “terrível” San Salvador, criaram-me algum receio e preconceito. Mas resisti às recomendações de me alojar na zona nova da cidade e evitar o centro histórico. E assim fui deixando para trás zonas mais verdes, ruas mais desafogadas, trânsito mais ordenado, prédios mais altos, mais coloridos e mais limpos, os cheiros mais comuns da circulação automóvel, transeuntes mais jovens e mais ocidentalizados, para me embrenhar na caótica calle Rúben Darío. As tendas ultrapassam largamente o passeio e estendem-se pela rua; os autocarros urbanos, velhíssimos e decrépitos, avançam aos solavancos, por entre as habituais nuvens de fumo e algazarra das buzinas; os táxis, “acotovelam-se” para tentar furar e passar à frente uns dos outros; as bicicletas saltam do meio das tendas para a estrada, atravessam-se à frente dos táxis, sobem por qualquer nesga de passeio e, por vezes, vão mesmo às costas; carretas de madeira, repletas de tomates, fruta, vegetais ou bugigangas várias, param em qualquer local em que surja uma oportunidade de negócio e contorcem-se para conseguirem prosseguir, conduzidas por furiosos pregoeiros. A imagem tem tanto de dantesco, quanto de harmonioso, em que tudo parece obedecer a uma superior desordem à beira do caos, sem nunca o atingir.

A História segue dentro de momentos...

Confesso que a mistura de sons, em que os pregões nada ficam a dever às buzinas, dos cheiros e o movimento anárquico dos vários transportes, me fizeram transpirar e desejar sair rapidamente dali. Mas estava literalmente no meio de uma corrente da qual da qual era impossível sair, pois as perpendiculares eram exactamente iguais…
Foi com inusitado alívio que cheguei à Catedral e regozijei com o facto de a frente estar “vedada” a toda actividade. Na verdade, a própria Catedral está ocupada, há 16 dias, pela associação de veteranos da Frente Farabundo Marti…Pude respirar, consultar o meu guia, orientar-me e retomar o rumo para o Hotel Internacional Custódio, a três tenebrosos quarteirões…
Ainda acreditava que San Salvador me cativaria depois do choque inicial, tendo aceite a generosa promoção: 3 noites por $20, em vez dos normais $8 por noite. Na verdade, estava ciente de que ficaria apenas 2 noites, pelo que o desconto de $4 na verdade ia transformar-se num acréscimo de $4, mas não me apeteceu decepcionar a entusiasta proprietária, que me perguntou se não era muito barato o preço que me estava a propor…
Saí do hotel directamente para o centro histórico da cidade, ou seja, para o meio do caos…Apesar de haver um quarteirão específico para o mercado, a verdade é que “o mercado” está por todo o lado: ruidoso, escuro, sujo, pegajoso, mal-cheiroso, desordenado, repleto de detritos, restos de legumes e frutas, plásticos. E pregões! Levei algum tempo até perceber o preço dos tomates, sem dúvida o mais anunciado e vendido: “5 tomates, a cora”, gritam. Só bem depois percebi que a “cora” é “quarter”! Também foi aqui que me confrontei pela primeira vez com a água empacotada, em vez de engarrafada…vende-se em pacotes de ½ litro, trinca-se um bico e já está: é só chupar…e esquecer onde esteve o saco, por que mãos ou locais passou.
A pequena Plaza Barrios e o Parque Libertad permitem ver com alguma tranquilidade o que falta ver desta sociedade salvadorenha: pobreza, miséria, pedintes, amputados, sem abrigo literalmente nus, deitados, inertes, no meio de um qualquer passeios que cruza a praça…num banco de jardim a “dois metros”, come-se um gelado, namora-se, lê-se um jornal ou mesmo um livro, ou toca-se guitarra. Aqui, o “mercado” não exclui ninguém, pelo menos enquanto não se pagar para estar no jardim…
Sem grande vontade para jantar, ingeri uma piza no único local com ambiente tranquilo e arejado que descortinei…

Muros da história

Muros de hoje

Pela manhã, as ruas ainda desertas, deixavam mais a nu os restos de frutas e legumes, espalhados por todo o lado, a cidade sombria e suja, as bancas de madeira parcialmente “recolhidas”. Fui caminhando no sentido oposto ao percurso de ontem, vendo a cidade acordar. No parque Cuscatlán, procurava o “monumento a la memoria y la verdad”, um mural impressionante onde estão lavrados os nomes de 30 000 (trinta mil!) mortos e desaparecidos. Diz a própria inscrição que faltam milhares de vítimas civis, desconhecidas… Na “sala nacional de exposições” conheci uma impressionante exposição do Antonio Bonilla. Uma enorme carga de sarcasmo, ironia, provocação, incidindo sobre a guerra, o sexo e as misérias sociais…
O “museo da la palabra y la imagen”, decepcionou-me pela exiguidade…esperava uma vasta, e comprometida, exposição sobre a guerra civil, mas apenas existe um pequeno conjunto de fotografias sobre a guerra e, principalmente, sobre a “rádio venceremos”… a rádio da guerrilha.
Cá fora, nas ruas novas de San Salvador, o american way of life expande-se confortavelmente. Centros comerciais, cinemas, filmes, cadeias alimentar, moda jovem…Há muitas formas de matar moscas, excepto com vinagre…
Dizia-me o meu anfitrião, Victor, hondurenho, engenheiro mecânico de aviões, semi-activo, proprietário do Hotel Internacional Custódio, que a juntar a todos os males visíveis na sociedade salvadorenha, há que somar a crispação, o confronto, violência, que permanecem enraizados nos homens e mulheres de El Salvador…pareceu-me ver uma notícia num jornal do dia 4 de Janeiro, anunciando vinte e tal assassinatos desde o início do ano…

Sem escolha

Entrei nas Honduras pela fronteira de El Amatilho. Inicialmente tinha pensado entrar por El Poy, na zona central de El Salvador e dirigir-me a norte, para visitar as ruínas Maias de Copán. Mas a falta de interesse que me despertou o país e a suspeição que as Honduras não difeririam muito, levou-me a seguir “o caminho mais curto” para o Ushuaia…

Muros vagos

A principal diferença, que me saltou à vista mal cruzei a fronteira, é a habitação. As casas guatemaltecas têm telhados de telha de canudo e paredes pintadas, para além de enormes estendais de roupa a secar…também me surpreendeu a quantidade de casas em que se percebia não haver homem, apenas mulher, normalmente jovem, e filhos pequenos. Afinal, é o resultado da pesada emigração…

Máscaras

Out of size

Nacaome é a primeira povoação pós-fronteira com alguma dimensão e onde havia hotel. Depois de me alojar no hotel palmeiras, por sinal sem qualquer indicação, fui fazer uma curta exploração à cidade. No pavilhão municipal anunciavam-se as meias-finais do tornei de futebol salão. Depois de jantar, o ruído no pavilhão já se sobrepunha aos alaridos dos miúdos que brincam no jardim contíguo. Paguei as 15 lampiras do bilhete e sentei-me no pavilhão quase repleto de malta jovem.

Quinas

O primeiro jogo estava mesmo a começar e de repente a minha atenção foi cativada pelo equipamento vermelho escuro de um jovem jogador, mesmo à minha frente. Raios me partam se aquilo não são as “quinas”. Claro que é o equipamento da selecção portuguesa! Mas não é só ele, toda a equipa veste o equipamento das quinas. Um tem mesmo o nome “Nani” nas costas! Que coincidência!! Levanto-me, contorno o recinto e vou ter com o “banco de suplentes”, para saber que estória era aquela de estarem a jogar com o equipamento da equipa portuguesa…pensei que tivesse sido uma oferta da embaixada, cônsul ou coisa do género, mas afinal foram os miúdos que o compraram e pagaram, para participar no torneio! Confesso que senti uma inusual vaidade por ver aqueles putos com o equipamento das quinas vestido, ali, em Nacaome, uma aldeia remota das Honduras…

Muros desfeitos


Muros da infância

No dia seguinte poderia perfeitamente ter entrado na Nicarágua, mas como o mapa e o guia são parcos em detalhes, não dando para perceber a dimensão da primeira povoação do outro lado da fronteira, decido pernoitar em El Triunfo, a menos de 10 kms da Nicarágua. Mas contrariamente às minhas expectativas, não havia qualquer multibanco no povoado e, do dinheiro que tinha, sobraram 50 lampiras (2€) depois de pagar o hotel. Pior, para entrar na Nicarágua precisava de dólares – 5, dizia o guia; 7 disse-me o cambista no dia seguinte; e 12 foi quanto tive de pagar. Não me restou outra opção a não ser pedir lampiras ao meu anfitrião, apanhar um autocarro cedinho e voltar a Choluteca, uns 40 kms atrás, para levantar dinheiro…e esta é o resumo da diferença entre entre um gajo (eu) da “classe média” de um país rico (Portugal) – ainda que possa ser o mais pobre dos ricos – e a generalidade dos centro-americanos com quem me cruzo, com quem falo, com quem convivo: um cartão multibanco que me permite acesso ao “mercado”




Muros de papel pardo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Guatemala

Guatemala, um país com tantas cores


América, América…

Depois de ter passado duas longas horas na fronteira mexicana de Cuautchémoc, sob o sol impiedoso do meio-dia, passei a “terra de ninguém”, por sinal habitada, e entrei na Guatemala por La Mesilla, uma fronteira pouco movimentada e onde o maior fluxo é no sentido Guatemala – México.
A primeira diferença que senti, e antes de a sentir, literalmente, antecipei-a visualmente, é o relevo. Com efeito, as últimas dezenas de quilómetros que percorri no México, foram totalmente planos, mas à medida que me aproximava de Cuautchémoc, uma cadeia montanhosa ia despontando no horizonte, com picos íngremes que se justapunham cada um mais alto e difuso…recordo que já tinha perscrutado várias vezes o horizonte, mas só com um olhar mais atento descortinei a “última”, e mais elevada, montanha, pois confundia-se facilmente com as nuvens dispersas que a envolviam…
Apesar de serem poucos os turistas a requererem visto, é grande a confusão que reina em torno do pequeno gabinete fronteiriço. Mal me aproximo da fila, aparece um guatemalteco na casa dos 50-60 anos, sorriso amável, dentes prateados, chapéu branco à cowboy e maço de notas na mão, a propor câmbio de moeda. Recusei afavelmente e disse-lhe que trocava os poucos pesos que tinha no banco… ele sorriu mais e retorquiu que o banco não aceitava pesos…e, apontando para a porta ao lado, disse para ir confirmar, pois era um banco – era de facto uma agência bancária. Ignorei-o e fui para a fila, mas ele não desarmou e ficou por ali. Estava na fila e lembrei-me que normalmente se paga pelo visto. Como não tinha quetzais, fiquei de olho no meu cambista, não fosse precisar... mas, afinal, na Guatemala não se paga… Os dois funcionários são muito eficazes e rápidos a conceder o visto e em escassos minutos estava despachado. Dirigi-me à bicicleta e o meu amigo insistia no câmbio e na impossibilidade de trocar os pesos sem ser ali. Sabia que tinha poucos pesos, não tinha qualquer quetzal, os bancos já estavam fechados e não sabia se havia multibanco…na verdade tinha pouco a perder. Ofereceu-me 60 quetzais por 100 pesos. Não fazia puto ideia qual a taxa de câmbio e recordei-me de uma cena na fronteira Líbano-Síria, em que o Sten, um sueco idoso com quem trabalhei no Líbano e com quem fui à Síria, aceitou uma taxa 50% inferior à normal (uma estória muito engraçada, com a trapaceira cambista a telefonar dois dias depois para devolver o dinheiro…). Disse que era muito baixo e, para dar força ao bluff, pus a Dempster em marcha. Mas, como convém, devagarinho, à espera da contraproposta. Propôs 62 quetzais. Estava a gostar de negociar, e ainda forçar o bluff, quando ele me desarmou, dizendo que era Natal, que estava a tentar ganhar alguma coisa… rebusquei 800 pesos na carteira, que perfaziam 496 quetzais. Disse-lhe que tinha de arredondar para 500 e, sempre de sorriso triste, estendeu-me os 500 quetzais. Só depois sacou da calculadora para ver o câmbio efectivo…
La Mesilla é uma rua íngreme de casebres descoloridos, com ar inacabado, sujos, invariavelmente devotados ao comércio. Tiendas de roupa, calçado, comida, “mercearia” e “diversos”. Na verdade, há uma densidade surpreendente de lojas de telemóveis… Os vendedores são frequentemente miúdos ou miúdas de idade indefinida, mas que aparentam, quando muito, 15 anos… A confusão, às cinco da tarde, é total, não só pelos imensos pedestrianos que deambulam, sem rumo, pela rua, como pelo enxame de moto-taxis que sobem e descem continuamente, velozmente a descer e a passo de caracol a subir… olhando para uma moto-taxis, diria que tinha 3 lugares: um à frente para o condutor e dois atrás para passageiros, mas garanto que vi sete (3 à frente e 4 atrás) pessoas numa – algumas crianças, é verdade, mas eram 7!
Fui subindo a rua e os anúncios, e localização, dos hotéis eram pouco apelativos… até que apareceu o hotel Mily’s, com ar razoável e num local “sossegado”. Eram 120 quetzais (12 €, pelas contas rápidas que fiz). Mais do que o preço, importava-me perceber como é que funcionam os guatemaltecos: se é para negociar, ou não… pelo que fiz o bluff habitual: que era muito caro, se não tinha outros quartos mais baratos e fui-me encaminhando para a bicicleta, com ar de quem se vai embora. O rapaz perguntou-me se não ficava, com uma voz tão débil e um olhar tão vazio que não consegui dizer “não”.
Dei uma volta pela rua, até à igreja, mas tudo o que vi era igualmente repulsivo…as próprias “mercearias” tinham um ar sujo, decadente… lembrei-me então que tinha o telemóvel do México, com 400 pesos de chamadas que já não podia utilizar. E veio-me à memória a cara do meu cambista, com o permanente sorriso triste e aquela frase de que estava a tentar ganhar alguma coisa para o Natal. Desci a rua até à fronteira e lá estava ele do outro lado da cancela. Acenei-lhe e veio ter comigo. Disse-lhe que tinha o chip com 400 pesos e que lho dava para ele vender, mas precisava de um favor: tinha de me descobrir uma nota de 100 pesos com a figura da Frida Khalo, que procurava há semanas para uma amiga coleccionadora. Fiquei à espera, a vê-lo interpelar cada cambista, folhearem as notas uma e outra vez e regressar, pela primeira vez sem o sorriso triste na face. Ninguém tinha essa nota… se eu tinha a certeza que existia mesmo. Disse-lhe que talvez me tivesse enganado e dei-lhe o chip, por entre mil agradecimentos, mas não lhe dei alegria ao sorriso.

Entrada nas Terras Altas

La Mesilla vai ficando para trás e para baixo, pois a estrada começa a subir continuamente. Na verdade fiz o mapa altimétrico dos próximos 240 kms e assustei-me com o resultado… é verdade que há um efeito escala, como me diria, de imediato, o “meu chefe”, pois pôr 240 kms em menos de uma vintena de centímetros, comprime imenso a escala e as subidas tornam-se linhas verticais. Mas mesmo assim, certo é que vou ter de subir dos cerca de 700 metros aos 3015 em dois ou três dias…
Contrariamente ao México, aqui as habitações sucedem-se ao longo da estrada, seja em aglomerados urbanos, sejam habitações mais ou menos isoladas. Mas o que é impossível não notar, são os vendedores de combustível. Em cada esquina, quase cada porta, ou mesmo sem porta nem esquina, surgem embalagens plásticas de gasolina e gasóleo. O preço é, invariavelmente, 20 quetzais o galão de gasolina, quando na bomba ronda os 30! Era um negócio intrigante, aparentemente legal, pois estava bem à vista e “publicitado”, para além de que as gasolineiras estavam vazias ao contrário destes vendedores de rua – principalmente jovens – que tinham clientela frequente.

Banca de combustível

Inicialmente pensei que misturassem algo na gasolina para a venderem tão mais barata, mas se assim fosse, dificilmente teriam comprador, concluía eu…Até que parei junto do José, que tinha a sua banca afastada de qualquer povoado, já bem no coração do desfiladeiro por onde eu ia trepando lentamente, e lhe disse que estava a ficar sem gasolina, se ele me vendia alguma! Não percebeu a piada e disse que sim, claro. Lá expliquei que a minha gasolina era de outro tipo, não da que ele vendia! E da amena conversa de beira de estrada, lá se desvendou o mistério da gasolina a 20 quetzais, contra os 30 da bomba. É que vão buscá-la ao México, onde é muito mais barata. Ainda lhe perguntei se não tinham de pagar imposto na fronteira, e respondeu-me que sim, mas mesmo assim era mais barata… deduzo que parte venha no depósito, parte seja declarada e parte clandestina. Certo é que parece ser o negócio do momento…a par do café…
À medida que avanço, a estrada vai-se perdendo no vale cavado no sopé das montanhas altas da Guatemala, parecendo que estou a entrar num labirinto sem saída. As encostas verdes são íngremes, selvagens e densamente vegetadas. A água despenha-se em abundantes cascatas, esbarrando na estrada, por vezes com estrondo. As casas, se se pode chamar casa ao amontoado de latas e tábuas, ou adobe, que se erguem de um e outro lado da estrada, têm uma espécie de pequena eira, ou terraço, onde os dourados grãos de café secam ao sol. Olhando melhor, identifico nas encostas alguns cafeeiros dispersos, pintalgados pelos preciosos grãos vermelhos…um pequeno ruído chama-me a atenção. São dois homens, provavelmente pai e filho, que rastejam literalmente pela encosta acima, com um pequeno balde ao pescoço, para onde são ripando os grãos de café. Parecem desumanos nos trajes, na fisionomia, no olhar, na vida que não têm…
Agora o pequeno rio Selegua corre agora à minha direita. Do coração invisível da encosta, desprende-se o som dorido de uma motosserra. Lá em baixo, dois homens atravessam, devagar, o rio a vau, vergados sob a madeira que transportam às costas, como animais de carga.

Curvados sob as pranchas de madeira

Com o vale a fechar-se sob o peso esmagador da montanha, as povoações ficaram para trás, mas de quando em vez ouço o alarido esganiçado de crianças, surpreendidas por certo com a minha presença. Por vezes tenho dificuldade em localizá-las, e mais ainda em entender onde e como vivem, em minúsculos casebres empoleirados num qualquer pequeno socalco da encosta, a umas dezenas de metros de altitude…

Família do Juan Perez

Mas a casa do Juan Perez está bem à vista. De terra, na terra, com cobertura de lata e folhas, porta de paus e acho que sem qualquer janela. Cá fora, são tantas as crianças e jovens, que mais perecia estar na presença de uma escola. Mas não, são mesmo os filhos e netos do Juan Perez. Vivem todos ali, naqueles não mais de 40 metros quadrados… O Juan Perez, a mulher e um filho, dos mais novos, estão a descascar café num “engenho” mecânico. Parei e fui logo rodeado pelo rancho de miúdos curiosos. Dirigi-me para o trio que trabalhava e meti conversa. As habituais boas tardes, o que estavam a fazer, se custava muito dar à manivela (do “engenho”). Pedi para experimentar e, ao arranque inicial, ia mandando tudo para o chão, perante os risos deles, mas depois de iniciar o movimento, até é fácil… No fundo é um sistema de duas rodas dentadas onde os grãos de café verde vão passando e largando a casca, que vai para um lado e os grãos para o outro.
Por cada quilo de café seco, o Juan Perez recebe entre 1 e 2 euros (10 a 20 quetzais), dependentemente da qualidade. Não sabe quantos quilos consegue por ano, mas basta olhar à volta para saber: consegue as borras inúteis de cada café aromático, servido na esplanada da indiferença, por olhares tolhidos de cifrões dourados que amordaçam, com indiferença, na miséria, os Juan Peres das terras altas das Guatemalas…
Tanto receei o relevo do dia, que foi com surpresa que cheguei a
Huehuetenango, num planalto entre a Sierra Madre e a Cordillera de los Cuchumatanes.
O trânsito era tão intenso, anarquizado, caótico, o fumo dos escapes tão negro, tão espesso, tão intensamente a cheirar a combustível, o ruído constante das buzinas, por tudo e por nada, que decidi pernoitar no primeiro hotel razoável e barato que encontrei.
Depois de relaxar um bocado, decidi ir ao coração da cidade, dar uma volta e jantar. Pela primeira vez, tive procurar à pressa a saída do mercado, incapaz de digerir a mistura explosiva de cheiros que se respiravam no sombrio e claustrofóbico mercado…
A única referência de interesse que vi sobre Huehuetenango, são as ruínas de Zaculeu, um antigo aglomerado urbano da civilização Maia. E como não vou visitar Tikal, as mais importantes de todo o império Maia, no norte do país, pelos menos vou a Zaculeu.
Decidi ir de autocarro, pois não me queria embrenhar de bicicleta no caos da cidade. Frente ao hotel e restaurante Casablanca, reparei num velhinho e um menino que arrastavam uma cabra teimosa, amarrada com uma corda ao pescoço. Estranhei uma cabra na cidade, mas pensei que houvesse alguma feira de animais perto e esqueci o assunto. Depois de tomar o pequeno-almoço no aconchegante Casablanca, dirigi-me à praça terminal dos “colectivos”. Em frente, do outro lado do passei, o miúdo segurava a cabra pela corda e o velhinho ordenhava-a para uma malga, que foi entregar na porta em frente… leite fresco, sem dúvida…no coração de uma cidade em cujo perímetro vive um milhão de habitantes.

Zaculeu

As ruínas de Zaculeu pareceram-me muito mal documentadas (o mapa da sítio apenas referencia numericamente as varias estruturas, sem qualquer explicação ou designação específica) e pessimamente recuperadas. Trata-se de um conjunto de “altares/pirâmides” de diferentes dimensões, mas não muito imponentes, dispostos frente ao que julgo ser o “palácio” do líder, o mais elaborado. A recuperação foi feita em cimento, pelo que o complexo tem uma aparência anacrónica…

Autocarro de Zaculeu

Contava fazer a ligação de Huehuetenango a Quetzaltenango num dia, mas a visita a Zaculeu atrasou-me a partida e acabei por pernoitar em Quatro Caminos, literalmente uma povoação que deve a sua existência ao cruzamento de duas estradas: a panamericana – este/oeste – e outra com orientação norte/sul.

Aromas

O Hotel Reforma estava todo reservado pelo exército mas, afinal, umas centenas de metros atrás, havia um segundo Reforma, onde me instalei.
O coração do povoado é, sem dúvida, o cruzamento. E o caos em torno do cruzamento é absoluto e inimaginável.


Quatro Caminos

Os velhos “School Bus” da Ford, amarelos com listas negra, doados ou vendidos pelos Estados Unidos, depois de impróprios para aí circularem, pintados com cores berrantes, decorados invariavelmente com frases religiosas e complementados com potentes buzinas no tejadilho, povoam as estradas da Guatemala – e o sul do México – envoltos em nuvens de fumo negro e rugidos que fazem vibrar a estrada. O cruzamento de Quatro Caminos é o centro de distribuição de passageiros e carga, que chegam e partem pelos quatro pontos cardeais. Os autocarros anunciam-se ao longe, sob o contínuo troar das buzinas, entram no cruzamento como que possessos, envoltos em nuvens de fumo negro e pestilento, sob o rugido rouco das buzinas, o ronco grave do motor, sacudido por acelerações irregulares, e os gritos histéricos dos angariadores, pendurados na porta, quando não já no tejadilho, prontos para descarregar e carregar toda a espécie de carga.
Nas sujas e caóticas bermas, os autocarros vão-se engalfinhando como podem, cortando a saída uns aos outros. Por vezes estacionam lado a lado, ocupando uma faixa da estrada, para trasladarem as bagagens directamente de um tejadilho para o outro, em acrobáticos movimentos pendulares dos dois homens empoleirados nos tejadilhos. Os passageiros de todas as idades, em trajes coloridos, quase não se vêm, envoltos e curvados sob bagagens desproporcionadas.
O quarto do hotel, sem qualquer janela na abertura, em trevo, da casa de banho, devia estar orientado directamente para o cruzamento. Fosse como fosse, até às tantas da manhã e muito antes do sol nascer, a sinfonia infernal entrava livremente pelo quarto dentro. Mas por alguma razão que não sei explicar, durmo que nem um justo, e mesmo quando acordo a meio da noite, pouco depois estou de novo, feliz, no reino das trevas, acordando sempre cedo, perfeitamente recuperado e ávido de voltar ao pedal…

Quetzaltenango, também conhecido localmente por Xela – o nome anterior à chegada dos espanhóis – fica num extenso vale rodeado por três enormes vulcões: o Chicabal; o Santiaguito (que vai soprando umas fumarolas); e o Santa Maria, o maior de todos, com 3771 m. Na verdade só fui à cidade, que representa um desvio de umas dezenas de quilómetros, com o objectivo de subir a um ou dois vulcões. E parece-me que boa parte dos turistas estrangeiros que por lá passam procura fundamentalmente estudar espanhol numa das várias escolas que se anunciam pela cidade. No Hostal Miguel Cervantes, onde me alojei por acaso, há pelo menos um irlandês, que viaja de mota em direcção ao Ushuaia, um francês, dois suecos e um velhote canadiano a aprender a língua…
A cidade é mais ou menos entendida como a capital das “terras altas” da Guatemala, e as fortes raízes revolucionárias e contestatárias, levaram-na mesmo a declarar a região como um estado independente da Guatemala…

Apesar de ser a segunda maior cidade da Guatemala, o centro pareceu-me bastante tranquilo, sem o trânsito caótico, por exemplo, de Huehuetenango. As ruas mantêm o empedrado antigo, e a arquitectura da praça central, e dos vários edifícios circundantes, com enormes colunas, fazem lembrar Roma ou Atenas…foram os lucros do café…

Centro de Quetzaltenango

O mercado, ou melhor, os vários mercados, são enormes e os mais genuínos que já vi. A época natalícia acrescenta áreas dedicadas ao tema, onde o colorido das infinitas bugigangas, coexiste com o aroma da resina dos pinheiros e o cheiro característico do musgo amontoado. Mas o top são os pequenos montículos de serradura, numa bebedeira de cores garridas e brilhantes.



Mercado em Quetzaltenango

O mais impressionante é assistir, de manhã cedo, à chegada dos vendedores. Crianças, jovens, velhos, mulheres ou homens, chegam de todo o lado, cambaleando sob as enormes cargas que os esmagam. Os rostos são esgares de dor, esculpidos na tez escura; o olhar mortiço fixo no chão, pois não conseguem erguer as cabeças e olhar além; as pernas, não raras vezes apoiadas em pés descalços, oscilam como juncos ao vento, parecendo ir perder o equilíbrio a qualquer momento e desintegrarem-se sob o peso da carga. Alguns utilizam pequenas carroças, ocupando o lugar da besta. Vi dois – um, transportava um carregamento de tomate e outro, rolos de folhas para fazer tamales. Qualquer deles perecia um insecto a ser esmagado sob uma qualquer força cósmica, à qual estavam amarrados…
O vulcão Chicabal é o de mais fácil acesso e mais rápida ascensão – cerca de 4 horas. Pode-se apanhar um autocarro no terminal Minerva e, em meia hora, está-se em San Martin Chile Verde, onde começa o caminho.
À saída do autocarro espera-nos uma descida íngreme de fazer gemer os joelhos. Depois é sempre a subir. Ainda não teria percorrido quinhentos metros e já transpirava em bica, quando pára uma carrinha de caixa aberta, com três pessoas na carroçaria, e o condutor me pergunta se vou para o vulcão. Digo que sim e manda-me subir. Rapidamente a estrada de cimento passa a terra batida, com crateras profundas, regos e buracos. Apesar de subir devagar, os solavancos são constantes e brutais e o meu mal tratado traseiro, sentado na chapa ondulada da carrinha, parece estar a ser açoitado violentamente por uma palmatória. A inclinação da estrada não pode ser maior e não percebo como é que a carrinha consegue subir, mas lá vai, pé-ante-pé, até ao cimo… afinal o dono da carrinha é candidato à presidência do município de San Martin e os demais viajantes são familiares emigrados no Alasca, que vieram passar o Natal e fugir do frio.


Chicabal

O Chicabal tem um miradouro de onde se pode ver o enorme Santa Maria e, ao lado, o Santiaguito a fumegar. Dizem os meus companheiros de visita que está a crescer, que se nota maior de ano para ano…
A cratera do Chicabal é uma lagoa de águas azuis, onde se reflecte a frondosa vegetação que cobre por completo o vulcão. A descida para a lagoa faz-se por uma íngreme e longa escada de madeira, emersa na vegetação e envolta no estridente chilrear dos pássaros. Nas zonas de sombra do estreito carreiro, que permite contornar a caldeira, os cristais de gelo rangem sob os pés. Umas vezes junto à água, outras vezes recolhidas na floresta, erguem-se pequenos e modestos altares cerimoniais dos indígenas, que continuam, século após século, com as mesmas tradições e crenças religiosas…
A beleza do sítio resulta mais de um certo misticismo, da localização naquele quadro de imponentes cumes vulcânicos, em que a força e violência da natureza parecem estar sempre presentes, que da paisagem ou da lagoa em si.
No regresso, tive oportunidade de ver a real importância do vulcão para a população de San Martim…a actividade mais comum é a recolha de lenha. De machete em punho, é ver famílias inteiras a cortar lenha, que vão agrupando em molhos bem compactos. Impressionante é vê-los, de todas as idades, descerem velozmente as encostas íngremes com os pesados e volumosos molhos às costas, num equilíbrio que parece desfazer-se a qualquer momento. Outros ripam folhagens dos arbustos para alimento dos gados. E há ainda quem recolha sacos de húmus para fertilizar as sementeiras, principalmente de batatas, feijão e hortaliças…

Assim amanhece o dia de Natal em Xela

Deixei Xela pouco depois do dia de Natal se anunciar. As ruas estavam completamente adormecidas e apenas um ou outro varredor ia amontoando o lixo da noite anterior, composto principalmente por abundantes resíduos dos foguetes e outros explosivos – parece-me que a principal manifestação natalícia da noite anterior, foi o abundante estalejar de foguetes, morteiros, fogo preso, bombas, bombinhas e “bombetas”, que inundaram a cidade desde o anoitecer até às tantas…
Pouco depois de começar a pedalar, tive de fazer uma paragem “técnica” para reforçar a indumentária, tirando as luvas do frio do fundo do “baú”, pois já não sentia as mãos…Afinal não é por acaso que Xela é considerada a cidade mais fria da Guatemala...

Estranha morfologia

Próximo do entroncamento que me levaria de novo à pan-americana reparo em dois pontos que se movem devagar lá bem à frente. Parecem-me dois cicloturistas com bicicletas bem carregadas… Á medida que me aproximo confirmo a impressão anterior. É mesmo um casal jovem com a tralha característica de viajem em autonomia. Alcanço-os rapidamente na subida e começamos o diálogo de “reconhecimento” mútuo. São suíços (é o terceiro casal suíço com quem me cruzo…), começaram a viagem na cidade do México e vão para a patagónia, prevendo terminar em Setembro…A Eveline é muito simpática e comunicativa, enquanto p Martin pedala em silêncio, umas dezenas de metros mais adiante – o facto de não falar espanhol também não o favorece…
Apesar da estrada ter duas faixas em cada sentido, o trânsito circula apenas pelas duas da esquerda, pois as da direita estão continuamente obstruídas por enormes massas de terra, pedra e árvores das encostas, esbarrondadas pelas rigorosas chuvas.
Um grupo de uma vintena de homens, rapazes e miúdos, espalhados em fila pela encosta íngreme, manejam com afinco enxadas, pás, picaretas, escavando uma vala profunda no solo árido. Surpreende-me tão intenso labor em dia de Natal e meto conversa. São praticamente todos os moradores masculinos de uma minúscula aldeia enterrada no fundo do vale, que procuram reconstruir a canalização de abastecimento de água à aldeia, totalmente destruída pelas fortes enxurradas da recente época de chuvas…
Progrido lentamente na longa subida, por vezes muito acentuada, e a presença de um grupo de pessoas na beira da estrada, em coloridos trajes domingueiros, é um bom pretexto para parar. Poucas palavras tínhamos trocado, quando um dos dois homens do grupo, apontando para um miúdo de poucos anos, me perguntou se não o queria levar comigo para o meu país… Mei atrapalhado, sem perceber se estava a falar a sério ou a brincar, lá lhe disse que já era muito grande e pesado, não o podendo transportar na bicicleta… ainda insistiu se não queria experimentar sentá-lo no atrelado, mas felizmente a Eveline chegou naquele momento e consegui mudar o rumo da conversa…
Não saberei se estava mesmo a falar a sério ou não, mas não imagino muitos pais brincarem com este tema.

Quem vê caras…

Pouco depois deste episódio, atingimos o “cumbre alaska”, nos seus 3015 metros. A vista em redor é soberba, com vários cumes de vulcões perfurando a linha do horizonte. Creio ser o Agua, nas imediações de Antígua, que liberta mesmo uma nuvem de fumo que se eleva lentamente no céu.

Bem que o quis evitar…por isso comecei no Canadá


Companheiros por … um dia?

Como a minha jornada é mais longa que a dos meus companheiros de circunstância, trocamos endereços e despeço-me. Pretendo ir até Chichicastenango, um dos mais notórios mercados de artesanato da Guatemala, enquanto eles irão directamente para San Pedro la Laguna.
Depois da longa descida para Nahualá, começam a surgir muitas crianças ao longo da estrada, acenando e cumprimentando efusivamente, no meio de grande alarido. Inicialmente pareceu-me que estavam simplesmente dizendo adeus, mas atentei melhor no que diziam e percebi que pediam “dulce, dulce” e “quetzal”. Normalmente eram crianças com bebés ao colo ou às costas, seguramente para dar mais dramatismo. Numa descida rápida, passou por mim um jipe e, sem sequer abrandar, atiraram pela janela uma mão cheia de doces, presumo, para um grupo de meia-dúzia de miúdos. Foi degradante vê-los jogarem-se para o chão, a disputarem os doces como troféus…
O dia avançava e não conseguia encontrar qualquer local onde almoçar, ou sequer comprar algo para comer. Pouco depois do desvio para o lago Atitlán, surge uma bomba de gasolina com uma pequena tienda. Entro e pergunto a um dos dois jovens se vendem algo para comer. Enquanto vou escolhendo umas “galhetas” e uma espécie de madalenas, da escassa oferta, solto, ao acaso, que “uns tamales é que vinham mesmo a calhar”. O rapaz surpreendeu-se e perguntou-me se gostava mesmo de tamales… e mal começara a comer as bolachas, aparece com um, que aqueceu no micro-ondas e me ofereceu, apesar da minha insistência em pagar…Estava delicioso o pequenito recheio de frango, do Almoço de Natal…

Tamal… pelo contrário, está uma delícia de Natal!

Apesar do sol ainda ir alto, decidi pernoitar no hotel de Los Encuentros, mais uma povoação que parece dever a sua existência a um encontro de … estradas. Chichicastenango ainda distava cerca de 20 kms e o dia tinha sido duro, não só pela subida da manhã, aos 3015 metros, mas também pelo desgastante do permanente sobe e desce. Além do mais parece que é dia de Natal, pelo que me presenteei com um descanso imprevisto.
Tinha planeado ir de bicicleta a Chichi, mas quando arrumava a tralha, ocorreu-me ir de autocarro e deixar as coisas a guardar no hotel.
Se pensava já ter visto tudo no que respeita aos “chiken bus”, nada mais errado. A viagem em Acapulco e o decadente autocarro em que vim de Zaculeu, em Huehuetenango, eram brincadeiras de crianças…

Não era este…

O autocarro tem 2 filas de assentos, como a generalidade dos autocarros. A especificidade é que os assentos, de 2 lugares cada, são corridos e não individuais. Mas em cada conjunto de dois assentos (quatro lugares) sentavam-se, no mínimo, seis adultos, chegando a ver nove (seis adultos e três crianças) sentados…mas mesmo assim, o cobrador ia empurrando passageiros para o interior, pedindo para nos encostarmos para trás. Eu, tal como qualquer outro dos passageiros que viajavam de pé, não tinha um centímetro quadrado, para alem do espaço de apoio dos sapatos...




Mercado de Chichicastenango

Contrariamente ao que deduzi da observação do mapa, a estrada era um autêntico carrossel, com curvas constantes, de 180º e mais. Cheguei exausto a Chichi, transpirado, e transpirando odores, com os braços doridos de me segurar ao varão do autocarro, com as pernas dormentes pelo imobilismo forçado…
O regresso foi um pouco mais tranquilo, mas nos autocarros da Guatemala, a tranquilidade é o mais relativo dos conceitos…

Lago Atitlán

O lago Atitlán estende-se aos pés de Solola, uma povoação pacata que o observa de cima. Mas à luz baça das 3h da tarde, está longe de deslumbrar. É verdade que a imponência dos vulcões circundantes, cria um quadro poderoso, onde qualquer Homem se sentirá minúsculo, mas falta brilho, luz que nos retire o folgo…
A estrada desce abruptamente até Panajachel, o principal destino turístico na margem do lago. Como não tenho intenção de aqui pernoitar, pedalo directamente para o “embarcadero” e apanho o barco para San Pedro la Laguna, na margem Oeste. Ao aproximar-me do embarcadouro fui abordado por um “angariador” que me propôs transporte em “lancha privada” por 350 quetzais! Parei estupefacto e disse que nem pensar. Nesse caso ficaria em Panajachel… Pareceu meditar um bocado e então fez-me nova proposta – desta feita na lancha pública – por 150 quetzais. Acho que teria conseguido a travessia por 50 (um passageiro paga 20…) mas desta vez decidi não regatear e paguei a exorbitância que me pediu…
A lancha pública é um pequeno barco, para aí com vinte lugares, que vai contornando o lago pela margem norte, parando nas diversas aldeias: Santa Cruz, Jalbalito, Tzununá, San Marcos e San Pedro. Com excepção de San Pesdro, são todas aldeias minúsculas, ou assim parecem vistas da margem, aprisionadas entre as águas do lago e a encosta abrupta da montanha.



San Pedro La Laguna

San Pedro é uma pequena e pacata vila de montanha. A rua paralela ao lago, está totalmente orientada para o turismo, mas tudo em muito pequena escala: restaurantes e bares com rústicos terraços de madeira sobre o lago; uma ou outra agência de turismo; cibercafés e pequenos hotéis. É por esta escassa área que deambulam principalmente mochileiros e jovens com ar despreocupado, por vezes com cervejas de litro na mão e cigarros “aromáticos” entre os dedos.
Para deixar esta zona da vila, é preciso quase fazer escalada, tal o declive da rua, e das estreitas escadas e carreiros que se erguem encosta fora. Surpreendo-me com as frágeis moto-táxis, que trepam, ruidosamente, rua fora, com três, quatro e mesmo cinco passageiros…
Deambulava pelas ruas mal iluminadas, de empedrado irregular, escuro, sujo, esburacado, com cheiros fortes de comida, de combustível mal queimado, de restos de lixo em decomposição, quando não o inconfundível cheiro de urina, quando me chegaram aos ouvidos os sempre dramáticos cânticos religiosos. Nas imediações iniciava-se uma procissão. Homens, mulheres e crianças, entoam preces que não entendo, em vozes que parecem vir de dentro das crateras profundas dos vulcões em redor, rostos sombrios e olhos que não ousam ver alem dos pés, que arrastam lentamente, como se arrastassem um mundo de chumbo. E sob os ombros curvados de quatro mulheres, ergue-se o andor com uma santa envolta em flores, rendas, dourados e iluminada pelo foco potente de uma lâmpada, alimentada pelo gerador ruidoso que segue a uma vintena de metros…
Parece que toda a povoação parou para a procissão. Quem não percorre as ruas, está à beira das casas, benzendo-se, rezando, curvando-se, ajoelhando-se por vezes, à passagem do cortejo.
Frente aos gelados Sarita, decido dar por finda a minha participação e comer um gelado. Depois de um respeitoso intervalo, servem-me um enorme copo com uma espécie de “banana split”, a transbordar de chantilly. Desço a rua devagar, a saborear pequenas colheradas de gelado. Mas sinto-o queimar-me nas mãos ou na alma, incendiado pelos olhares ávidos de dezenas de miúdos e crianças que por ali estão, no rescaldo da procissão… Discretamente, livro-me dele, depositando-o nas mãos de dois putos, incrédulos, sentados na soleira da porta.
Tinha decidido deixar São Pedro de manhã cedo e contornar o lago pelo sul, seguindo por estradas secundárias que me levariam de novo à panamericana já “perto” de Antígua.
Quando chego com a tralha junto da bicicleta, que ficara numa “garagem” a uma vintena de metros do hotel, percebo que desapareceu o que lá tinha deixado…capacete, esticadores, um saco de plástico com coisas sem importância e…o alforge que continha todas as peças suplentes e ferramentas da bicicleta. O excesso de confiança tinha, finalmente, dado mau resultado. Fiquei furioso comigo, a lembrar-me do Brian e dos seus cartões, e decidi voltar para o quarto, descontrair e pensar… é impossível dizer qual a coisa mais indispensável que trago comigo, mas aquele alforge era seguramente importante, principalmente porque sem ele, qualquer problema na Demspter não tem solução, e é difícil substituí-lo, pois não se vendem boa parte das peças e chaves que transporto…
A hora seguinte passei-a a recriminar-me e a pensar. Mas também a achar estranho o desaparecimento, especialmente do saco de plástico, roto e apenas com farrapos sujos para limpar a bicicleta… comecei a achar que havia algo errado e com esperança que alguém tivesse guardado tudo. Só pelas 8h30 é que o dono da garagem apareceu e confirmei a minha boa suspeita! Tinha metido as coisas soltas no saco de plástico e arrumado tudo. “Há poucos roubos por aqui, mas é melhor não arriscar”, disse ele… Fiquei tão aliviado e satisfeito, que decidi comemorar e adiar a partida um dia. Hoje iria visitar San Marcos e apenas “pairar” por ali…


Sam Marcos

San Marcos é uma das pequenas aldeias à beira do lago. Serão poucas dezenas de casas, não tem nada para ver, apenas para sentir. Por vezes parece que estamos numa aldeia deserta, no mais absoluto silêncio. Outras vezes parece que nos encontramos a caminhar num daqueles labirintos, passatempos dos jornais, envoltos em vegetação densa, caminhando por estreitos carreiros, de onde partem outros carreiros que não se percebe onde vão dar, se têm saída ou não. De quando em vez surge uma cancela de madeira, entreaberta, que pode conduzir a um “restaurante”, ou a uma casa de massagens, ou um atelier não se sabe de quê, ou ao pátio de uma casa, invisível por entre as folhagens e árvores, ou a uma pousada, hostal ou qualquer outro tipo de alojamento, ou a uma
pequena horta ou capoeira…

Pedro

No fim de um desses carreiros incertos, deparei-me com o Pedro, o filho e um empregado. Colhiam vermelhos grãos de café em absoluto silêncio. Sem nunca interromper a azáfama, o Pedro explicou-me o ciclo árduo do café…que me pareceu semelhante ao da vinha. Dois a três anos depois de plantado, dá a primeira colheita. Tem de ser podado, curado, adubado, desfolhado (para a flor limpar, dando origem aos grãos de café) e colhido em duas ou três fases, pois nem todos os grãos ficam maduros ao mesmo tempo. Depois segue-se a descasca e secagem, que demora uma semana. O preço do café seco ao produtor, varia entre 10 e 20 quetzais o quilo, dependentemente da qualidade…O Pedro orgulha-se desta colheita de café, e mostra-me os grãos vermelhos, grossos e sem doença, sem estarem picados. E orgulha-se dos 17000 pés que plantou há um ano, em San Juan, e que espera serem o futuro da família. E orgulha-se do filho que fez o bacharelato em computadores, porque é bom saber, mas que anda “para ali”, no meio destes 300 pés, a apanhar o café, porque é bom saber de tudo. E pediu-me para passar em San Juan antes de me ir embora, para me “regalar” um quilo do melhor café que há, para eu levar para Portugal e dar a conhecer, mas compreendeu que eu não ia puder transportar um quilo de café durante um ano de bicicleta… Quando me despedi, levantou os olhos para mim por uns segundos e disse-me “que bom que apareceste aqui e que pudemos falar”. E quando acenei lá para o meio dos 300 pés a dizendo adeus, o filho veio despedir-se de mão estendida e olhar sorridente…
Pensava que existia um acesso mais suave de São Pedro à estrada que segue para Santiago, mas quando perguntei a um moto-taxista, disse-me que não, que tinha de subir mesmo por aquela rua… claro que tinha de levar a Dempster à mão, mas mesmo assim, os pés escorregavam-me e os sapatos teimavam em descalçar-se…Pé-ante-pé, centímetro após centímetro, lá fui escalando a rua, perante os olhares espantados dos escassos transeuntes. Quando deixei a povoação e atingi a estrada, já sentia o ardor do suor nos olhos, mas ainda nem o aquecimento tinha feito. A estrada circunda o vulcão San Pedro, subindo cerca de sete quilómetros. Mas é subida a sério, sempre em 1x2 e mesmo em 1x1. Aliás, bati o meu recorde em bicicleta, ao pedalar em 1x1 em crencos, mas por poucos metros, antes de apear e arrastar a Demspter comigo…A encosta do vulcão é muito fértil e toda cultivada, com pequenas parcelas de milho nas zonas mais planas e café ou abacateiros nas encostas. Deve ser época de preparar a sementeira do milho, pois deparei-me com dezenas de homens e jovens, de enxada nas mãos, revolvendo a terra e limpando o solo,


De San Pedro a Santiago, pela encosta do vulcão San Pedro

À violenta subida, segue-se uma descida tramada, agravada pelo piso de terra solta, com autênticos socalcos, pedras pontiagudas, muito pó e curvas acentuadas. Reparei, a determinado momento, que estava um carro da polícia parado um pouco atrás de mim. Mais adiante parei para tirar uma fotografia, e lá estava o carro da polícia. Como ia muito devagar, e o carro não passava, parando quando eu parava, concluí que me seguia… Soube depois, a caminho de Antígua, quando encontrei de novo a Eveline e o Martim, que aquele caminho era considerado perigoso e não recomendado aos turistas, o que os levou a desistir de o percorrer…eu tive escolta pessoal e cheguei ao fim sem percalço.

Os esquecidos…


Santiago de Atitlán

Santiago e San Lucas são aldeias remotas, onde muitos nativos continuam a não falar castelhano, mas sim um dos 23 dialectos da Guatemala. Onde a vida é tão primária, a alimentação, o vestuário, as casas, as ruas, o mercado, tão elementar, tão básico, que, não fosse a presença dos automóveis, facilmente nos esqueceríamos que estávamos no século XXI.
Depois de San Lucas voltei a sentir até aos ossos o brutal peso do relevo e quando cheguei ao irreal povoado de Godinez, só queria uma cama. Mas quando vi a única pensão existente – a pensão Lucy – desejei poder pernoitar no pior local em que tenha acampado alguma vez…Não haver duche, apesar de estar sebento de transpiração, nem água corrente, mas apenas umas barricas com água e uma bacia negra para utilizar, acabou por ser insignificante quando vi o quarto, sem janela, com três colchões apoiados em cima de uma estrutura de cimento, sem lençóis, com um cobertor negro e umas almofadas com ar sebento. Tudo temperado com um odor agro, bafiento e rolos de cotão a erguerem-se com qualquer movimento de ar… Estendi o saco cama, esperei não tocar em nada mais que o meu saco cama e levantei-me antes do sol, desejando pôr-me longe daquele sítio… onde o jantar foi uma experiência à imagem ao alojamento, na Guatemala real, a uma dúzia de quilómetros da Panajachel, um dos principais pontos turísticos do país…
Até Patzun, a estrada que segui é muito secundária, completamente embrenhada nas montanhas e com declives brutais. A determinado passo a estrada desaparece, destruída pelo (agora) pequeno rio. Dois jovens extraem areia e seixo do rio, separando-os numa primária “peneira”. Mas adiante, um grupo de homens e crianças escavam túneis na montanha esbranquiçada. Também eles extraem uma espécie de areia, creio que mais parecida com saibro. Dois jovens banhados em suor, carregam um camião, utilizando baldes de vinte litros…
Em Patzun pude respirar. A montanha terminou e a zona é mesmo intensamente cultivada. Dezenas de homens e mulheres cultivam legumes e hortaliças nos campos planos. Parei numa tienda de madeira, erguida à beira da estrada. Estava seco e esfomeado. O pequeno Álvaro, trabalhador estudante de 12 anos, interrompeu o pequeno-almoço que ingeria, meio escondido, apressadamente, e serviu-me um sorriso com um enorme bolo seco e um sumo com a frescura da manhã. Estava a comer, quando chega o pequeno Mateus com 5 quetzais na mão e um enorme sorriso no olhar e cumprimenta-me com uma voz vibrante: olá ciclista!! – é um cumprimento habitual, especialmente entre os miúdos… pergunto-lhe se tem uma bicicleta e acena negativamente a cabeça, com o olhar menos sorridente. O Álvaro acrescenta que também não tem…como se eu estivesse para dar uma bicicleta ao Mateus e me fosse esquecer dele. O Mateus pergunta o preço dos bolos e vai pedindo até perfazer os cinco quetzais. Quando estende a nota para pagar, digo-lhe para a guardar que lhe ofereço os bolos…já que não posso dar-lhe a bicicleta.
O Álvaro recebe dez quetzais por dia, cerca de um euro. E não consigo apagar da memória: o meu primeiro salário diário, por oito horas, seis dias por semana, aos 12 anos de idade, foi 250$ (1,25€). Sou economista, sei que o meu 1,25€ em 1979, tem um valor actual superior talvez a 10€. Mas sabe-me bem olhar com esperança para o pequeno Álvaro, embora essa esperança não resista à observação desapaixonado das terras altas da Guatemala, de todas as tantas Guatemalas que se estendem sob o céu cinzento.
O regresso à Panamericana, é o regresso ao trânsito ruidoso e ao cheiro pestilento dos autocarros, carros e camiões. Mas, em contrapartida, o relevo é favorável e voo ao longo de quilómetros e quilómetros. Há um desvio para Chimaltenango, mas o meu objectivo é Antígua quanto antes. Pouco depois há um novo entroncamento, digamos que à saída de Chimal, e não é que surgem dois ciclistas carregados com a tralha tipo dos viageiros!!? Claro que eram a Eveline e Martin!! São assim as coincidências giras destas vidas…Seguimos juntos até Antígua, mas aí escolhemos alojamentos diferentes. Provavelmente ver-nos-emos por aí, embora devamos seguir rumos diferentes no futuro próximo, pois irei por El Salvador e eles equacionam ir pelas Honduras.
Antígua é património da UNESCO. Em certa medida, parece-se com San Cristobal de Las Casas. A construção colonial, as ruas empedradas, a proliferação de igrejas e conventos, a enorme presença de estrangeiros, o turismo…Mas tem duas ou três características distintivas: tem a beleza monstruosa dos vulcões que a rodeia, com o Agua a fungar nuvens de cinza numa presença ameaçadora; tem a monumentalidade das ruínas de igrejas e conventos, devastados pelos repetidos sismos; não tem a alma, a genuinidade, a naturalidade o colorido, o cosmopolitismo e, principalmente, a alegria e simpatia mexicana…Talvez se tivesse visitado primeiro Antígua, a minha apreciação fosse diversa…

Fotos de Antígua…



























De Antígua até à fronteira de El Salvador, pouco há a referir…talvez os afectuosos e calorosos votos de Feliz Ano Novo, com que era sistematicamente brindado. Talvez a surpreendente, e embaraçante, atitude de Isac, um jovem para aí de 30 anos, que começou por me oferecer água, ou comida, ou alguma peça para a bicicleta e chegou mesmo a tirar algumas notas do bolso, que quase mas obrigou a aceitar, pois “quer praticar o bem, e o que dá ao seu irmão, dá-o a Deus…” Lá o consegui convencer que já me estava a dar algo, ao explicar-me o caminho a tomar, e que havia muitos irmãos ali perto que necessitariam mais do que eu…
O episódio com os cambistas na fronteira com El Salvador, fica para o próximo capítulo…