sexta-feira, 15 de julho de 2011

Bolívia I - De Copacabana a Uyuni

Bolívia I - De Copacabana a Uyuni

A “minha” Bolívia poderia escrever-se em quatro “capítulos” e alguns parágrafos de ligação: “carretera de la muerte”; “salar de Uyuni”; “Tupiza”; e a “travessia do sudoeste”, de Tupiza à Laguna Verde, na fronteira chilena. Mas como não resisto a recordar e divagar, cá vai a seca do costume…

Desde Cuzco que viajo com a bandeira do Peru no atrelado – tem cores lindas (vermelho e branco), funciona como “cata-vento” e sempre é mais um elemento de sinalização da bicicleta e do ciclista… Claro que contava comprar uma da Bolívia logo que tivesse oportunidade – para não ferir susceptibilidades e o espírito boliviano – mas não esperava ter de o fazer logo no posto fronteiriço! Mal parei na cancela que bloqueia a estrada, logo dois militares/polícias se me dirigiram e, olhando ostensivamente para a bandeira branca e rubra, me perguntaram se não ia comprar uma bandeira da Bolívia. Dei a resposta óbvia, acrescentando que compraria em Copacabana, se aí houvesse. Mas não se deram por satisfeitos e um deles convidou-me a acompanhá-lo – antes do próprio visto – a um quiosque próximo, de onde já não pude sair sem uma bandeira tricolor… Amarrei a bandeira, para entusiasmo dos mirones e dos guardas fronteiriços e dirigi-me ao posto de controle, em busca do visto. Poucos minutos depois regressei com o respectivo visto e estava uma nova personagem de volta da bicicleta, rodeado de diversos espectadores. Afinal eu tinha amarrado a bandeira ao contrário e o homem, cioso do estado simbólico da pátria, corrigia o meu erro!

O Titicaca visto do Cerro Calvário, em Copacabana


Copacabana fica mesmo na margem do Titicaca, sendo ponto de paragem “obrigatório” para os turistas em trânsito entre o Peru e Bolívia e local de embarque para as ilhas do Sol e da Lua. Esta localização estratégica faz dela a inevitável vila turística, com todo o colorido do artesanato local, enorme oferta de alojamento e restauração e um número interminável de turistas, de todas as idades, credos e línguas, num ecletismo cativante.
A minha intenção era apenas almoçar e prosseguir viagem de imediato mas, apesar do look demasiado turístico do povoado, senti vontade de subir o Cerro Calvário e esperar o pôr-do-sol sob a ilha homónima – a ilha lendária da mitologia Inca, onde “tudo” nasceu: o astro Sol; o Deus Viracocha; e os dois primeiros incas (Manco Capac e a irmã, que foi também esposa, Mama Ocllo)…

Pedalando pela manhã, na margem do mítico Titicaca

O mergulho sereno do sol sobre o lago não me desiludiu e, enquanto sorvia a tranquilidade dos momentos, não pude fugir às memórias da passeata com o amigo Zé pela ilha do sol… revivi a tempestade que rodeava a ilha, felizmente sem nela poisar; o brusco cair da noite, que nos apanhou num qualquer trilho impreciso, baralhando os pontos cardeais e dificultando a orientação no regresso; o encontro ocasional com um jovem nativo, com quem regateei o preço para nos guiar à hospedagem onde estávamos alojados; o jantar, em que a empregada insistia para que escolhesse uma das duas opções – omeleta e já não recordo a outra – e eu insistia em dizer que queria ambas, pois estava esfomeado; e o nosso “guia de circunstância”, a quem oferecemos o jantar e que apenas “provou” e mandou “ensacar” – as embalagens do take-way de cá eram (e continuam a ser) sacos de plástico – levando para casa a comida e bebida…
Pedalar à ilharga do maior lago de água doce do mundo, à mais elevada altitude, não me excita particularmente, pois não sou muito sensível a records… mas pedalar na paisagem grandiosa, fria, silenciosa, do lago Titicaca, deixar o olhar afundar-se do azul das águas imóveis, escalar devagar cada pico imaculado da cordilheira distante, perscrutar cada contorno dos morros que emergem do lago, beber os reflexos do sol da manhã ao som suave das rodas da bicicleta no asfalto frio, é algo que inunda todo o corpo e faz libertar as emoções…
A estrada é interrompida pelo lago e a ligação entre San Pedro e San Pablo é feita numa espécie de jangadas. Há uma auto-caravana na jangada atracada no cais e avanço com a Dempster para a sua companhia. Ainda nem encontrei uma posição estável para a bicicleta e já a Valerie me convida a entrar na caravana para tomar um “café italiano”.
A Valerie, o marido – Françoi – e o filho Julian são parisienses e estão “em tour” desde Maio de 2010. Viajaram para o Canadá, onde compraram a caravana por “metade do preço” de França, e vieram por aí abaixo, em verdadeiro ritmo de passeio… Devem terminar em Agosto, logo se verá onde, “mas de certeza antes de Ushuaia, pois está muito frio”, e regressar a França. Parece que esta viagem lhes mostrou algo novo, pois sabem que para Paris não voltam… para o campo, seguramente, logo se verá onde e fazer o quê.
O Julian, de 10 anos, prepara o café, enquanto nós disputamos os momentos para desfiar os episódios e as emoções da viagem, que estão mais à flor da pele… somos unânimes no fascínio pela Colômbia e os colombianos; pelo colorido Guatemalteco; na “sobranceria” da Costa Rica; no deslumbramento por Machu Picchu. Mas para mim, o mais fascinante daqueles momentos foi mesmo a magia de não ser necessário falar para comunicar… bastavam meias palavras, olhares, sorrisos, expressões faciais e estava tudo dito e compreendido. E como a travessia foi demasiado rápida e o café necessitava assentar, continuámos à borda do lago a falar, a sorrir, quase esquecendo o delicioso café. Despedimo-nos poucos quilómetros depois, numa foto com o Illimani no horizonte, para lá de La Paz…
Em Huarina garantiram-me que havia alojamento em Batallas e deixei-me deslizar pela planície mais umas dezenas de quilómetros. Mas em Batallas não havia nem alojamento, nem comedoro, nem internet, praticamente nem mercearia…
Por trás de um portão entreaberto, um homem empoleirado pintava meticulosamente o pequeno gradeamento da igreja. E, quer em frente, quer ao lado, existia um pequeno largo onde grassavam pequenos tufos de erva. Não me ocorreu melhor saída do que dirigir-me ao sereno pintor e perguntar-lhe a quem podia pedir autorização para acampar ali, uma vez que não havia alojamento por perto. Olhou-me, perguntou-me se era só uma noite e disse-me que podia acampar á vontade.
Metade do problema estava resolvido… quando montava a tenda, partiu-se mais um encaixe das varetas… e já iam dois. Procurei um “ferreiro”/serralheiro e lá “enrolámos” uma chapa de zinco, fazendo não um mas três pequenos tubos para “emplastrar” nos pontos quebrados – ou a quebrar – das guias maltratadas da tenda.

La Paz vista d’El Alto…

…E de um miradouro junta à praça de Espanha

El Alto pareceu-me mais horrível do que eu o recordava, nos seus quilómetros de pó, trânsito, lixo e caos. Por seu lado, La Paz, vista do alto de um qualquer miradouro, é como a retinha na memória: um vale cavado a transbordar de construções pelas íngremes encostas. A cor é a do tijolo, a disposição totalmente anárquica, as ruas labirínticas. Claro que quando se mergulha no coração da cidade, é outra a visão que se tem… o trânsito absolutamente caótico que percorre a principal artéria da cidade – a avenida Mariscal – com centenas de pequenas carrinhas de transporte de passageiros, paradas ou em marcha lenta, pregoando o destino e disputando cada cliente, ao som ensurdecedor das buzinas e dos apitos constantes dos polícias, completamente impotentes e ignorados; os milhares de transeuntes que desaguam nessa mesma avenida, vindos “ribanceira” abaixo, pelas íngremes ruas perpendiculares; o mar de estudantes que, nos seus uniformes distintivos, à hora de saída dos colégios, inundam passeios, ruas e avenidas; e a zona “comercial”, onde quarteirões sucessivos estão, dia e noite, pejados de vendedores e compradores, num constante ruído, movimento e caos. La Paz é, das poucas capitais que visitei, a mais caótica, mais anárquica, mais esotérica, mas também mais intensa e invulgar…

La Paz, praça Murillo



La Paz, Museu da música


La Paz, ao acaso…


A “carretera de la muerte” estava no meu imaginário desde que parti de Lisboa… só algum “motivo de força maior” me impediria de a trilhar. Era uma fantasia, uma provocação, um símbolo que queria coleccionar, uma experiência que queria sentir. Quase todas as agências de turismo oferecem o “pacote” da “Death Road”, mas os preços são exageradíssimos e eu tenho bicicleta… Em boa hora pesquisei a “casa del ciclista de La Paz” na internet. Apareceu-me a morada e informação necessária, ainda por cima localizava-se a dois quarteirões do meu hostal, na Calle Morillo. Ao subir as escadas para o pequeno café onde funciona a “casa”, cruzei-me com o Nino, um jovem e alto alemão que “percorria o mundo” de bicicleta. Amanhã, disse-me, haverá uma descida à famosa estrada e o ponto de encontro é ali mesmo, às sete da manhã. Mas é melhor falar ao Cristian, o homem da casa del ciclista…
O Cristian é um tipo jovem, de uma calma e serenidade tais que, por vezes, parece desligado do mundo. Mas a amabilidade e genuíno espírito de “serviço ao ciclismo/ciclista”, são inexcedíveis. Confirma que no dia seguinte há um cliente americano para fazer a descida com guia e que, querendo, devo estar às sete em ponto à porta. Ele trará o jipe e transporta-nos aos quatro até lá Cumbre para fazermos a descida junto com o Erick, o guia.
Às sete em ponto lá estava eu e o Nino com as respectivas bikes e o Calvin – o cliente americano – com ar de miúdo radical americano. O Cristian apareceu pouco depois, carregámos as bikes e, após uma paragem em casa do Erick, prosseguimos para La Cumbre, o ponto de partida da aventura.

Animada partida para a estrada da morte, em La Cumbre


La Cumbre fica mesmo no topo da montanha, junto a um vasto conjunto de antenas. Aos nossos pés estendia-se um mar de nuvens brancas e, do outro lado do monte, uma lagoa azul gelada. Apesar do sol brilhar no horizonte, o frio da manhã cortava a pele…
Umas macacadas para a fotografia e para não deixar o corpo congelar, as últimas afinações nas bikes, assentos baixados e atiramo-nos do cimo da montanha. O Nino, com bikes sem suspensão e eu, com uma inoperante suspensão dianteira – recordo que a comprei em segunda mão em Los Angeles… - seguiríamos pelo trilho mais marcado e comum. O Erick e o Calvin, de suspensão integral e bikes de downhill, brincariam a seu belo prazer. O Erick malhou nem duzentos metros após a partida, o que lhe refreou um bocado o entusiasmo e o exibicionismo. Mas foi apenas um incidente de percurso… na verdade era um excelente BTTista, um guia muito atento e simpático. Não seriam muitos a preocupar-se com dois penduras (eu e o Nino), quando o seu ganha-pão é fazer aquele percurso com turistas que lhe paguem. Certo é que não notei qualquer tipo de discriminação, má vontade ou antipatia da parte dele, pelo contrário…
A estrada da morte foi fechada ao trânsito regular há uns cinco anos e a sua designação provém da quantidade de “desaparecimentos” anuais – dizem as estatísticas que 25 em média. E a designação é mesmo “desaparecimentos” pois, frequentemente, quando havia (há) acidentes, pessoas e carros pura e simplesmente “desapareciam” na profundeza das ravinas…não ficando ninguém para contar a estória, identificar o local e possibilitar sequer o resgate dos corpos.

O início da estrada da morte é de pura diversão ciclística…



Os primeiros quilómetros da estrada são os de maior diversão ciclística, com o piso duro mas regular, em single treck ou no resto do estradão, com sucessivas curvas e contracurvas. Por vezes há profundas valas na estrada, abertas pela água, o que obriga a travagens de emergência ou saltos arriscados – isto para o Erick e o Calvin, pois o Nino nada arriscava e eu apenas o mínimo, apesar da vontade…
Segue-se um percurso cada vez mais acidentado, de pedra em pedra, pelo vale que se vai fechando. Diz o Erick que há poucas décadas todas estas encostas estavam nevadas boa parte do ano e que agora raramente se vê um fio de neve… as alterações climáticas chegam a todo o lado…
Vinte e oito quilómetros de descida e damos uma pausa ao corpo, às máquinas e ingerimos uma breve refeição junto a umas ruínas. A seguir há que subir uns três quilómetros, rolar mais uns três ou quatro na estrada de asfalto e entrar na “verdadeira” estrada da morte, aquela em que a vegetação é densa, as ravinas infindas, o tempo imprevisível e o piso provavelmente molhado.

Com o nevoeiro por companhia, as ravinas mortais pareciam bosques aprazíveis


O nevoeiro passou a neblina e, por vezes, quase chuva. A vegetação indiciava isso mesmo: típica vegetação tropical húmida… O Nino disse que desistia, que voltava à estrada de asfalto e regressava a La Paz, pois já não sentia as mãos e não aguentava aquele piso. Alem do mais não podia apreciar a paisagem, pois a visibilidade era reduzidíssima. Daí a pouco deparámo-nos com uma enorme caravana de Land-Rovers, parados, com vários tripulantes armadilhados de máquinas fotográficas e câmaras de filmar a darem ao gatilho – era uma expedição alemã, em tour pela Bolívia.

Ao fim de 70 kms de pura descida, frio, nevoeiro, neblinae chuva, praticamente não sentia o corpo…

Talvez o nevoeiro tenha sido um aliado, por toldar a visibilidade e afastar o receio do precipício, que apenas se adivinhava à esquerda da estrada. Talvez a preocupação com a bicicleta me tenha impedido de arriscar uma descida mais veloz, no encalço do Erick, pois o Calvin seguia na minha peugada – o Nino desistiu e regressou à estrada de asfalto, buscando aí um transporte para regressar a la Paz. Talvez tenha deixado também de sentir as mãos, com o frio a trespassar as luvas encharcadas. Mas ao fim de exactamente setenta quilómetros, de quase permanente descida, senti mais alívio que emoção. Afinal deve ter faltado algo no programa, pois não senti a morte a rondar nem sequer o perigo à espreita, apesar de saber que não é impunemente que se chama carretera de la muerte… seguramente ficou envolto no nevoeiro, no frio, na chuva. Ou na racionalidade dos 44…

A caminho de El Alto…

Apesar de Oruro ser para sul, apesar de o meu mapa de La Paz ter uma setinha na ponta da avenida que se esvai pelo vale, indicando “zona sur”, apesar de me ter deixado deslizar por essa avenida durante largos quilómetros, cruzando toda a cidade pelo meio do caótico trânsito da manhã, o certo é que no fim da avenida há uma bifurcação e nenhuma das vias vai para Oruro! A da esquerda irá para o valle de la luna e a da direita para … El Alto! onde se toma a estrada para Oruro!! Tinha duas alternativas: voltar para trás pelo mesmo caminho, cruzar toda La Paz pelo seu miolo e subir a estrada que desci há uns dias; ou tomar a via da direita, uma espécie de “circular” que atinge El Alto pelos subúrbios de La Paz. Optei pela segunda hipótese, mas devo ter feito quase metade do percurso a pé, tal o brutal desnível da estrada… Impressionam as construções nos locais mais inverosímeis, nas barreiras abruptas com uma inclinação brutal. Dá ideia que com um leve empurrão desaba tudo em bola de neve, só se detendo no fundo do vale…
Só ao meio-dia consegui dar por vencida a subida e atingir El Alto. É verdade que não saí muito cedo do hostal, pois fui surpreendido com o único furo da Bolívia – um simpático vidro incrustara-se no pneu de trás e acabou por dar frutos – mas a média pouco superou os três kms/h…
Atingido El Alto e apontado a sul pela estrada de asfalto, o horizonte torna-se infinito, as rectas intermináveis, a paisagem absolutamente monótona e indiferenciada, praticamente desértica e desabitada. Apenas a linha de comboio vem, de quando em vez, visitar a estrada. Ah, e as máquinas e camiões que estão a construir mais duas faixas, para uma verdadeira auto-estrada… aliás, não percebo para quê, pois, com excepção das imediações de El Alto, o tráfego praticamente resume-se aos camiões das obras. Keynesianismo em acção ou alguma promessa eleitoral, por certo.

Rumo ao sul, pela desértica paisagem boliviana…





Na desoladora paisagem, por vezes surge um pequeno núcleo de construções que presumo abandonadas, tal o ar fantasmagórico das mesmas e da terra que as envolve mas, incompreensivelmente, vê-se o fantasma de uma criança, de um adulto, de uma lama ou alpaca, ou o esqueleto de um cão, movimentarem-se nos escombros.
Patacamaya, Oruro e Chalapata albergam-me a caminho do Salar do Uyuni. Dos três poisos, apenas Oruro é verdadeiramente uma “povoação”. Os outros dois não passam de um aglomerado desregrado e poeirento de feios edifícios, especialmente Chalapata, onde tive sérias dificuldades em conseguir local para dormir, pois estava tudo esgotado – é um importante cruzamento de caminhos…

Um pouco mais de sul...



A decisão estava tomada há muito, não seguiria a estrada para Uyuni mas sim o desvio para Quillacas e Salinas Garci Mendonza, de onde deveria rumar a sul e atingir o extremo norte do Salar do Uyuni. Alguém me referiu que a estrada era perigosa, especialmente pelo enorme e veloz tráfego de contrabandistas que a trilham com carros ilegais que trazem do Chile. Claro que achei mais um exagero, baseado na ignorância e no provável sensacionalismo das notícias, do que motivo de preocupação ou receio.

Manhã gelada…

A estrada de asfalto fica-se parada no deserto, sucedendo-lhe a esperada carretera de rípio. No frio gélido da manhã, pedalo sem sequer um fantasma por companhia. Até que repentinamente, entre as 8 e as 9 horas da manhã, a estrada de terra mais parecia uma pista de car-cross ou um trilho do Paris-Dakar. Os carros, invariavelmente sem matrícula, completamente envoltos em nuvens de pó e eles próprios repletos de pó, passavam velozmente, por vezes lado a lado, com o ruído surdo dos motores a contrastar com o chocalhar das suspensões duras, castigadas pelo piso ondulado da estrada. Surpreendentemente, por volta das 9h da manhã nem mais um carro passou e pude pedalar sozinho naquele deserto anunciado, nas imediações do ténue lago Poopo.
Cheguei a Quillacas seria meio-dia, e cinquenta quilómetros percorridos. Era cedo para parar, era tarde para prosseguir, pois Garci Mendoza distava cerca de cem quilómetros e até lá, nada, nem vivalma, só fantasmas, deserto e um caminho que entrou em obras e assim ficou, com um contínuo amontoado de inertes ao centro. Quillacas tem um “albergue turístico comunitário” e, nos degraus de passeio em frente, um carrinho de mão coberto com uma manta abriga uns tachos e panelas com frango guisado – pois claro – arroz e batatas. A tentação – ou a razão – tornou-se irresistível e gozei o sol da tarde na sombra do “quarto”, depois do merecido almoço. Acrescente-se que a diversidade de batatas, e respectivos formatos, na sua terra natal, não pára de me surpreender… hoje as batatas incluíam umas “coisas” negras como carvão e pequenas como castanhas. Perguntei o que era e responderam-me surpresos: “papas negras”!
Os cem quilómetros até Garci Mendoza, apareciam divididos ao meio, no mapa, pelo nome “Tambo Tambilho”. A aldeia lá apareceu saída do nada e na mini-tienda não faltavam uns pacotes de galhetas e a universal coca-cola – agora percebo o que professores me diziam desse milagre coca-cola, ainda o termo globalização não era um lugar-comum… é, de facto, impressionante encontrar no local mais recôndito, mais profundo, mais ausente, mais pobre, onde não há pão, nem leite, nem fruta, nem açúcar, massa ou arroz, coca-cola de várias dimensões – e por vezes light! – empoleirada no sítio mais vistoso da lúgubre tienda…

Tambo Tambilho…

Já o lusco-fusco vinha ao meu encontro e o contador se inclinava para a longa centena de quilómetros, calcorreados no duro piso de terra ondulada, quando, aliviado, consegui vislumbrar Garci Mendonza escondida entre colinas, à ilharga do vulcão Thunupa.
Ao deixar Salinas perguntei ao primeiro transeunte que vi, ainda com ar estremunhado, qual o caminho para Tahua. Não que não soubesse a saída correcta, mas para tentar extrair alguma informação adicional da sua reacção. E a resposta foi para não me meter pelo caminho “ocidental” mas sim contornar o Thunupa por oriente, via Jirira, pois o caminho era melhor e menos confuso… mas a minha decisão estava tomada e lá segui o trilho ocidental. Inicialmente o caminho parece inequívoco, mas com o passar dos quilómetros, e à medida que vão surgindo pequenas bifurcações na estrada, começo a ter dúvidas… segundo o mapa, deveria pedalar praticamente sempre rumo a sul, mas o caminho mais “trilhado” inflete bastante para ocidente e até há uma placa indicando Llica. Dois homens carregam “restos” de quinua no esqueleto de uma camioneta especada no meio da planície. Estão longe da estrada mas não encontro melhor alternativa que calcorrear o piso arenoso para perguntar qual o rumo certo. Confirmam que estou no bom caminho, mencionam uma aldeia adiante como referência e regresso à “estrada” mais confiante. Apesar de pedalar à ilharga do Thunupa, o relevo é praticamente plano, mas o piso é arenoso e muito irregular, o que obriga a marcha lenta.

Intervalo em Soitoco

Até à aldeia de Soitoco não tive mais hesitações ou dúvidas, mas logo à saída começaram as interrogações… se o primeiro desvio para a direita ainda me pareceu óbvio, já no segundo comecei por seguir em frente mas, escassas centenas de metros percorridos com a Dempster pela mão, dado o absolutamente intransitável caminho de pedregulhos, voltei ao ponto de partida e tomei o mais suave trilho da direita. Umas centenas de metros adiante, repetiu-se a dúvida – e a cena: comecei por trilhar o caminho da esquerda mas a ligeira subida e péssimo piso induziram-me a regressar e optar mais uma vez pelo da direita. Mas desta vez “estava na cara” que não podia ser este o trilho… confuso? Sim. O meu instinto – porque aqui apenas podia seguir o instinto – dizia-me que qualquer dos dois caminhos que iniciei, e em que voltei atrás, se fundiriam algures na encosta e que essa era a opção correcta, mas o péssimo piso contrapunha-se ao instinto e empurrava-me para o ponto de partida… Como a jornada iria ser “curta”, decidi voltar atrás, a Soitoco, e tirar as dúvidas junto do professor com quem tinha estado à conversa no intervalo das aulas. Perante o alarido dos miúdos, que continuavam na brincadeira, lá esclareci a rota, confirmando que o meu instinto estava a funcionar bem…
Mais duas aldeias, uns quilómetros largos de areia, onde tive de empurrar a Dempster e, no fim de uma suave ligeira, desponta o mar branco por entre as curvas suaves das colinas que delimitam, a norte, o Salar de Uyuni. A visão inicial é surpreendente pelo contraste, não pela grandeza, pois apenas se vislumbra uma pequena meia-lua branca, contra a dominante cordilheira castanha. Mas à medida que deixo para trás o cerro e mergulho na pequena aldeia de Tahua, na margem do salar, o enorme mar branco cintila à luz do sol a pique, ofuscando tudo em redor.

Tahua, na margem norte do Salar de Uyuni

Tahua é apenas uma pequena aldeia perdida na fronteira do salar e no sopé do Thunupa mas, gozando desse estatuto, tem um hotel de sal onde me pediram 89 dólares por um quarto… claro que não tinha bolsa para esse luxo e ainda não foi desta que pude temperar o jantar com o pó das paredes. Na aldeia existe um ou dois alojamentos mais “em conta” e pernoitei na hospedagem Mongo’s por 50 bolivianos. Curioso foi regatear o preço do jantar, pois a antipática responsável pela hospedagem pediu-se outros 50 bolivianos para me preparar um jantar. Disse-lhe que era muito, que no máximo podia pagar trinta e ela anuiu prontamente!
Um trio de jovens franceses, com quem me cruzei dois dias antes, cerca de Quillacas, tinha-me dito que havia uns duzentos metros de água na entrada norte do salar e vários quilómetros, por vezes com cerca de meio metro de profundidade, no extremo sul. Foi, portanto, sem surpresa que vi a estrada desembocar num lençol de água, onde o céu azul salpicado de nuvens brancas dormitava, lado a lado com a montanha altaneira, debruçada sobre o espelho de água.
O problema não parecia sério, pois contornando umas centenas de metros pela esquerda, o manto de sal parecia suficientemente sólido para evitar a água salgada nos pés e na Dempster.
Na superfície dura e resplandecente de cristais se sódio, não é visível nenhum trilho definido que cruze o salar, de Tahua à ilha Incahuasi. Mas lançando o olhar para sul, em busca do pequeno ponto escuro que emerge, difuso e tremelicando, acima da linha branca de sal, não há que enganar: só pode ser a pequena ilha de cactos…
Pedalar só no salar, numa etapa em linha recta de mais de 40 quilómetros, no silêncio mais extremo, na absoluta solidão, sobre o infinito manto imaculado, sentindo o deslizar lento das rodas na crosta dura como pedra; pedalar ritmadamente, com o olhar perdido no azul do céu, no branco da “terra”, no contorno difuso da cordilheira distante; pedalar no salar de Uyuni é sair da órbita terrestre, é transpor a barreira das coisas terrenas, é flutuar com as nuvens sem perder o pé, é acariciar o sol sem se queimar, é caminhar sobre o mar sem submergir, é flutuar no espaço sem medo da queda; pedalar no salar de Uyuni é viver temporariamente noutra dimensão…
À medida que ia avançando em busca da minha ilha, sentia o piso absolutamente plano alterar a forma, dando lugar a losangos e pentágonos cada vez mais pronunciados, com arestas profundas e fortemente vincadas, o que tornava a progressão não só muito lenta mas dolorosa, num regular saltitar que quebrava as costas e o traseiro – para não falar da Dempster. Por muitas manobras que fizesse para transpor os polígonos de sal nas suas linhas mais suaves, tornou-se demasiado incómoda a cavalgada e decidi caminhar simplesmente com a Dempster pela mão. Na realidade, a jornada pouco excederia os quarenta quilómetros e, mesmo recorrendo todo o percurso a pé, chegaria a Incahuasi a horas decentes para acampar e visitar a ilha…

“Algumas” fotos do salar, de Tahua a Incahuasi…desculpem o excesso…











Se pedalar aquele universo branco me transportava para além da fronteira física do ser, caminhar devagar, passo após passo, sentindo o sal ranger sob os pés, bebendo o sol e as duas cores do universo, é magia, transcendência, simbiose, perfeição cósmica. Parei e deitei-me sob o sal duro, desejei que se eternizassem os momentos, apesar de saber que é no efémero que reside o êxtase e o prazer extremos…
Uma boa dezena de quilómetros percorridos e voltei a cavalgar a Dempster, devagar para saborear, devagar para suavizar o trilho, devagar para viver.
A ilha Incahuasi começava a ganhar forma definida e para trás, e bastante à direita, ficava a ilha Cujiri. À medida que me aproximava da ilha, começavam a surgir rotas definidas no deserto de sal, a maioria no sentindo este-oeste, não tardando a tornar-se visível a actividade turística junto à encosta oeste da pequena ilha, com diversos jipes a chegarem e partirem, como formigas apressadas no carreiro.
A chegada de um ciclista à ilha deve ser sempre motivo de espanto e a minha não foi excepção. Os turistas presentes olhavam-me e comentavam, e um grupo de jovens argentinos não se fez rogado no interrogatório e nas fotografias – para mais tarde recordar. Invulgarmente simpáticos foram os funcionários do pequeno complexo turístico, que me sugeriram logo o local mais abrigado para montar a “carpa”, mesmo encostado ao guichet da venda de bilhetes: os 15 bolivianos da entrada davam-me acesso às casas de banho, campismo e visita à curiosa ilha.
Incahuasi é uma estranha ilha que emerge escassas dezenas de metros acima da imensa planície de sal. Os trilhos que percorrem a ilha brindam-nos com uma impressionante quantidade de cactos, de ar mais ou menos fantasmagórico, que brotam de um solo absolutamente inerte, com aspecto de banco de coral petrificado… É uma visão transcendente, uma composição que rompe a barreira do realismo, apesar de todos os seus elementos serem absolutamente concretos e reais.
Contrariamente aos receios que me vêm incutindo há boas semanas, não senti a noite passada no salar excessivamente fria – ou então talvez os dois sacos cama – um enfiado dentro do outro – tenham o poder calorífico necessário para lidar bem com o frio. Com efeito, em La Paz, depois do alarmismo de diversas pessoas com quem falei, incluindo o Cristian – o homem da casa del ciclista – sobre o frio extremo do salar, que facilmente vai a -20º no período das 3 às 6 da manhã, decidi comprar um segundo saco cama. E agora, com um dentro do outro, sinto-me uma verdadeira salsicha atrofiada naquele colete-de-forças, mas a verdade é que ainda não passei frio durante as noites geladas…
Não tive coragem de sair da tenda a meio da noite, para fotografar a exuberante lua cheia nem as sombras da ilha, como tinha equacionado. Limitei-me a esticar o pescoço fora da tenda e, antes que as orelhas quebrassem, sorver a imensidão daquele manto azul opaco, onde cintilam milhares de estrelas trémulas, sob a batuta de uma lua enorme, alva como o sal que nos envolve.

…E mais “algumas” fotos do salar, de Incahuasi a Colchani…









Ao contrário do dia anterior, não faltam rotas “bem” definidas, com partida da ilha e rumo a oriente. Ainda assim, devo ter-me desviado um pouco para norte, pois apenas um jipe passou à ilharga, durante todo o dia. Os demais carros, incluindo autocarros, seguiam uma rota paralela mas que passava no extremo sul da ilha. Sem vizinhos por companhia e com o piso mais suave que na jornada anterior, pedalei com desenvoltura, rumo à cordilheira distante, onde se destacava um pequeno nevado que me servia de referência.
Para trás, um bocado fora da minha rota, ficou o movimentado hotel do sal, rodeado de jipes e turistas; espreitei os “olhos do salar” – curiosos buracos de pequena dimensão, onde água vítrea espreita por entre paredes de cristais de sal –; e atingi, finalmente, a margem oriental do salar, a tão sublime zona de extracção de sal, junto ao povoado de Colchani, onde diversas famílias se entregam ao árduo trabalho de extracção de sal, num processo absolutamente manual e artesanal…
Uyuni é tão desinteressante quanto o recordava – apenas mais tiendas, mais alojamentos, mais restaurantes, mais agências de viagens, mais turistas, mais gente…
A minha rota “mental”, anteriormente idealizada, não passava por Uyuni. Cruzava o salar de norte a sul, saindo por Kolcha K e San Agustin, sempre para sul, percorrendo o caminho próximo da fronteira chilena, com passagem pelas conhecidas lagunas hedionda, arból de piedra, laguna colorada e laguna verde, junto ao Licancabur, já nas imediações da fronteira chilena de San Pedro de Atacama. Mas a informação repetida de que havia muita água no sul do salar, numa extensão de vários quilómetros e uma profundidade máxima superior a meio metro, levaram-me a rever a rota, optando pelo descrito Tahua-Incahuasi-Colchani-Uyuni. Agora em Uyuni, havia de novo que escolher a rota: contornar o salar pelo sul, para sudeste, via San Cristobal, Villa Alota e, a partir daqui, seguir a “rota das lagunas”; ou prosseguir para sul, para Tupiza. Na minha escolha pesou o facto de já conhecer o primeiro itinerário da anterior viagem à Bolívia, pelo que decidi seguir para Tupiza. A grande desvantagem desta opção é que San Pedro de Atacama, um ponto que não iria perder “por nada”, ficava praticamente fora da rota… a não ser que, de Tupiza, cruzasse todo o sudoeste da Bolívia, talvez o seu território mais inóspito e remoto, até ao parque nacional Eduardo Avaroa, na desejada fronteira chilena.

11 comentários:

  1. Idílio, 1 ano de grandes aventuras, continua a dar-nos "a seca do costume..." (gostei desta versão de Copacabana a Uyuni, invejo-te a estrada da morte, fica Coroico para a próxima)

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  2. Mais dois momentos fantásticos: Estrada da Morte e Salar. E que fotografias. Grande abraço e boas pedaladas. Mário

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  3. Perfeição cósmica. Mesmo.

    beijinho, Idílio.

    Susana

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  4. Absolutamente mítico! Tenho a sensação de ter entrado num sonho e ainda assim estou aqui sentada; o corpo adormece e só ficam as emoções.
    Lindo! E também arrepiante ... Agora estou a falar das fotos com a criança e os pombos ...
    Boas pedaladas!
    Beijo grande
    Cris

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  5. Caro Idilio,
    Mais uma excelente descrição das paragens por vais passando, complementadas por muito boas fotografias.
    Tenho estado em Luanda , como não saio à noite, fico no hotel, os teus textos tem sido a minha companhia,foram novamente lidos e não tenho dúvidas, caro amigo, no final, tem de dar em livro. 300 seguidores garantem 300 vendas, mais uns bons milhares de desconhecidos e está feito um bestseller.
    Um abraço e tudo a correr bem.
    Cesar Leitao

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  6. Este rapaz anda por aí também.
    Boa Viagem
    http://caminhosdebicicleta.blogspot.com/2011/07/20-dias-sem-pedalar.html?showComment=1311599867892#c5838718234492132916

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  7. Ei Portuga, quase nos encontramos em la paz entao!!
    acho que eu vi um recado seu no livro la do cristian.

    Na bolívia as estradas sao duras mas os lugares sao incríveis, né?

    Um abracao, de Coya, no vale sagrado, Cuzco, peru.

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  8. (Agência Royters)

    UCI trava viagem de Idílio Freire



    Parece estar comprometido o objectivo do português Idílio Freire de chegar do extremo Norte ao extremo Sul do continente americano em bicicleta. A União Ciclista Internacional (UCI) encontrou o português quando este lutava contra as íngremes montanhas andinas e surpreendeu-o com um controlo anti-doping inesperado. Idílio Freire não estava à espera, e as análises acabaram por revelar a presença na urina do ciclista de diversas substâncias interditas.



    Perante os resultados, a argumentação do português passou por várias fases, adoptando sucessivamente diferentes estratégias: começou pela táctica-Alberto, que consiste em culpar a carne de vaca que se comeu na véspera, mas esta estratégia revelou-se infrutífera, apesar dos bons resultados conhecidos que tem alcançado noutras situações. Passou para a táctica-Loureiro (dizer que tinha bebido “umas coca-colas” pelo caminho) mas os inspectores também já tinham ouvido esta. Ainda tentou a intrincada táctica-Hamilton, que consiste em revelar que o seu corpo é uma quimera, culpando o organismo do irmão gémeo nunca nascido do útero materno, mas esta, tal como na versão original, também não mereceu grande crédito. Já em desespero de causa, recorreu à táctica-Queiroz, que passa por mandar os inspectores para a **** da mãe deles e virar-lhes as costas.



    Resta agora aguardar o resultado da contra-análise, que pode confirmar ou não o resultado dos primeiros exames, mas os especialistas consultados pela agência Royters foram unânimes em considerar que a viagem de Idílio Freire deverá terminar mais cedo que o previsto.

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  9. Mais uma mostra de paisagem fascinante surrealista, inóspita, fora da "órbita terrestre". Uma boa parte faz-me lembrar o norte da argentina, cemitérios em paisagens lunares, olhos a arderem em superfícies saturadas de sal... vou seguindo lado a lado contigo, entusiasmado e curioso em descobrir a próxima curva deste percurso alucinante. Obrigado e boa continuação.

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