quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Chile - de San Pedro de Atacama a Valparaíso

Chile - de San Pedro de Atacama a Valparaíso
A tralha...
Depois dos duros dias passados no sul da Bolívia, desejava transpor a fronteira chilena e aterrar em San Pedro de Atacama. Tinha bastante presente o que li algures sobre o local: “apesar de ser uma pequena povoação perdida no deserto, comparada com o sul da Bolívia, é um maravilhoso oásis…” Transpostos os últimos quilómetros de terra e neve com a Dempster pela mão, sem sentir o corpo gelado, apenas escutando o seco bater do coração na manhã sempre fria, avistei, finalmente, a nesga escura de asfalto desaparecendo nas encostas brancas dos montes gelados. Para a esquerda era seguramente a fronteira com a Argentina e o famoso “paso” Jama, de que ouvi contar maravilhas paisagísticas; para a direita, a estrada precipitava-se numa interminável descida, desaparecendo no infindo deserto, com passagem por San Pedro de Atacama. À beira da estrada algumas famílias divertiam-se com as habituais brincadeiras na neve. Eu é que não tinha qualquer sentido de humor, desejando apenas sair rapidamente da zona gelada e poder sentir no corpo os frágeis raios de sol que brilhavam no céu azul. Os mais de quarenta quilómetros de descida, devolveram-me, finalmente, a energia, o calor e a boa disposição, bem afundados nas peripécias dos últimos tempos. E trouxeram San Pedro, um pequeno povoado completamente perdido na imensidão do deserto. Esperava avistar a povoação à distância, brilhando qual diamante, como um magnífico oásis no deserto. Mas não, o povoado quase não se distingue da paisagem árida e monocromática do deserto. Apenas a presença da pequena mancha de árvores verde-pardo, que salpicam algumas ruas e praças, deixam adivinhar a sua presença. Igreja de San Pedro
Inicialmente achei que devia estar na cidade errada, ou talvez ainda estivesse na Bolívia… As ruas de terra, as casas de um só piso, invariavelmente de paredes em adobe, o telhado da igreja, também ele numa espécie de adobe ou terra, o próprio “mercado” à entrada da povoação, com apenas meia dúzia de vendedores e pouco mais produtos, correspondiam mais à imagem das pequenas povoações bolivianas do que ao Chile moderno, urbano e “desenvolvido” que tinha na cabeça. Mas afinal era só uma questão de olhar um pouco além da superfície… as ruas de terra estavam imaculadamente limpas, as paredes das casas, cuidadosamente preservadas na sua tipicidade e as que eram pintadas, exibiam igual cuidado. Por detrás das portas e janelas, proliferam os negócios do turismo, numa interminável oferta de restaurantes e bares; colorido artesanato andino; repetidos programas de excursões às atracções naturais da região; abundantes “centros de comunicações”, com internet e cabinas telefónicas; lavandarias, geladarias, mercearias; e um número interminável de hospedagens. As duas ou três ruas principais, parecem uma passerelle multicultural, multinacional, multilingue, onde se cruzam pessoas de todas as idades, estilos e tamanhos. Mas se dúvidas tivesse sobre o país em que me encontrava, bastava atentar nos preços!! dos mais elevados de toda a viagem – pelo menos do universo hispânico… Por um quarto esconso, com “banho compartido”, cobraram-me 18 000 pesos (27€) e tudo o resto seguia o mesmo padrão… Deambulando pelas ruas de San Pedro, dei por mim a visitar a igreja, onde uma discreta folha A5 anunciava o programa das festividades locais para os dias 28 e 29 (dia de San Pedro). Estava, então, explicado o invulgar afluxo de turistas e seguramente algum excesso nos preços… Com início a meio da tarde do dia 28, no primeiro dia de festejos a música submerge as ruas do povoado, por onde desfilam diversos grupos musicais, numa surpreendente diversidade de sons, ritmos, sonoridades, coreografias e instrumentos, terminando na igreja, num certo clímax sonoro.
Festejos de San Pedro – desfiles pelas ruas da vila No Domingo, as ruas voltam a ser o palco da festa, percorridas por uma estranha procissão/desfile, com tanto de religioso quanto de pagão. A procissão é encabeçada por San Pedro, no seu “altar altaneiro” e encerrada por uma coreografia onde um touro, um cavalo e um par de ginetes interagem. De permeio, são vários os grupos e as coreografias alusivas a lendas ou acontecimentos marcantes da região de San Pedro de Atacama. Mais uma vez, o desfile termina na igreja, numa amálgama de cor, movimento e sonoridades. As notícias em San Pedro não são as melhores: os passos fronteiriços com a Argentina estão encerrados. Há perspectivas de Jama poder abrir “em breve” mas Sico – o que pretendia cruzar – está fechado sine die e os dois dias que contava passar no pequeno povoado já vão em quatro… San Pedro, para além de ser um atractivo turístico, de per si, é o epicentro de um vasto conjunto de invulgares monumentos naturais. A curta distância do povoado destacam-se o vale da lua, o vale da morte e as ruínas de Pukará. Um pouco mais afastado, fica o Salar de Atacama, um impressionante deserto de sal onde emergem lagoas de cores irreais, poiso de flamingos cor de fogo. Ainda mais afastado encontram-se os géisers de Tatio e as lagunas altiplânicas.
Vale de la muerte Os vales da lua e da morte – este último parece dever o nome a um erro de fonética, pois consta que o padre belga Le Peige, ao avistar o local tê-lo-á designado de Valle del Marte, em linha com o vale vizinho, que designou de Valle de la Luna, mas o sotaque francófono terá levado os locais a entenderem como Valle de la Muerte – impressionam mais pelo magnífico enquadramento – com a vasta cordilheira andina, altiva na cadeia de sucessivos vulcões, cobertos pelo resplandecente manto de neve – do que pela invulgaridade das suas formas ou a dimensão. Claro que o facto de ter visitado Tupiza e as deslumbrantes formações rochosas dos arredores, mata o efeito surpresa e diminui o impacto dos vales atacameños. Ainda assim, o entardecer metálico, a dança das cores e das sombras, com a luz do sol esvaindo-se pelos vales, ao mesmo tempo que incendeia os cumes da cordilheira nevada, transporta-nos para além da esfera terrestre.
Três virgens Vale de la luna Não vou permanecer indefinidamente em Atacama, até porque o pequeno povoado, as suas ruas, o museu, o artesanato, as portas e pátios, já não me surpreendem nem escondem grandes segredos. De bicicleta, dou uma última volta pelas ruas em silêncio e vou até ao posto fronteiriço. O Paso Jama está aberto ao tráfego pesado mas não se perspectiva a abertura do Paso Sico. Ainda insisto sobre a evolução prevista para os próximos dias em Jama, mas o carabinero olha primeiro para mim, depois para a bicicleta e de novo para mim com ar de gozo, acena a cabeça e diz que não poderei passar de bicicleta. Viro as costas e avanço para o “plano B”, que é como quem diz: quem não tem cão, caça com gato. De regresso à estrada, com a cordilheira andina sempre no horizonte
Ao fim de quatro ou cinco dias sem pedalar – já nem sei ao certo – soube-me bem sentir a Dempster deslizar no silêncio da planície e na vastidão do deserto; sentir que estava de novo “a caminho”; sentir-me restabelecido, forte e confortável; deixar San Pedro e dirigir o olhar ao almejado sul. Na verdade não tinha qualquer plano para além dos próximos dois dias, do sul do Salar de Atacama. Não estudara estradas nem rotas chilenas; nada li sobre atractivos turísticos no norte do Chile – para além da zona do Salar – nem ligações fronteiriças. Alem do mais, não sei quais as fronteiras abertas e onde poderei passar, pois a maioria dos “pasos” fronteiriços só costumam abrir em Novembro. Mas o que me aborrecia mesmo era renunciar ao início da Ruta 40… por pouco tempo, já se vê, pois aborrecimentos nesta viajam é coisa que não resiste muitos minutos nem muitos quilómetros! Cerca de duas dezenas de quilómetros após San Pedro, surge o desvio para a laguna Cejar. Não faço ideia se fica muito distante ou se vale a pena o desvio, mas uma vez que não poderei visitar as “lagunas altiplânicas”, decido visitar Cejar. O caminho é cada vez mais arenoso e o piso irregular, sem qualquer ponto de referência no inóspito deserto. Ao fim de quase uma dúzia de quilómetros surge a pequena barraca de acolhimento aos turistas e a respectiva bilheteira.
Laguna Cejar À primeira vista achei que tinha sido um grande barrete e uma perda de tempo, mas à medida que me libertei do preconceito e deixei o olhar beber os irreais tons da água das lagoas, para depois cavalgar as translúcidas cordilheiras andinas, repousando, por fim, na estreita faixa de ervas douradas, devolvi o sorriso ao sol vigilante. O regresso ao asfalto brindou-me com mais uma bela surpresa. Repentinamente, e sem se fazer anunciar, teve início um atroz bailado de areia que, em escassos segundo escondeu o sol, o céu e as montanhas, engolindo o silêncio e a própria faixa da estrada. Com a cabeça e os olhos o mais protegidos que consegui, “arrastei-me” até ao povoado de Toconao. As, já de si poeirentas, ruas do povoado não se distinguiam do vasto areal do deserto vizinho, não se vislumbrando vivalma e, para meu desespero, a única residencial existente estava totalmente ocupada por uma empresa. Já equacionava estender a tenda no jardim da praça de armas, ao abrigo de um qualquer conjunto de arbustos, quando um ancião que passava, vergado pela idade e pelo vento, me disse existir uma casa à entrada da povoação onde alugavam quartos. Deu-me as “coordenadas” e fui lá ter sem falhas.
Salar de Atacama Para sul, ladeado, à distância, pela magnifica alvura da cordilheira andina, numa infindável sequência de vulcões, e pelo absolutamente inóspito Salar de Atacama – considerado o deserto mais seco do mundo – rapidamente cheguei ao desvio para a laguna Chaxa. Ao deserto sucedeu-se o salar, que é como quem diz, a areia desapareceu da paisagem mais próxima, sendo substituída por incríveis blocos de sal.
Salar de Atacama – laguna Chaxa A visão é completamente apocalíptica, com o solo a fazer lembrar um infinito campo minado, um corpo esventrado de onde emerge uma imensa carapaça de blocos de sal, em formas irregulares e arestas agressivas, nos tons do deserto. O pequeno carreiro interpretativo, para alem explicar a origem, formação e composição do deserto, alerta para formas de vida que o povoam. Claro, as aves, com destaque para os espantosos flamingos, que se alimentam graciosamente nas águas carregadas de sal, são apenas a mais atractiva, não necessariamente a mais sublime. A concentração de minerais e a sua mistura, despoleta uma variedade irreal de cores, tonalidades e odores, num enigmático pasmo pictórico. E o voo dos flamingos, vermelhos de sangue contra o azul do céu, proporciona momentos de luxúria cromática.
Slar de Atacama – laguna Chaxa Peine é a “última fronteira” do Salar de Atacama. É a aldeia mais a sul do salar e o último poiso antes de lançar o peito à aridez mortal dos mais de duzentos quilómetros que me separam de Baquedano, o próximo povoado. Claro que duzentos quilómetros são uma distância risível no contexto desta viagem, mas não são duzentos quilómetros quaisquer. Há que adicionar principalmente a volatilidade do clima que, garantem-me, em escassos minutos pode passar da mais prazenteira companhia ao mais tempestuoso inimigo. E durante o percurso não só não há qualquer aldeia, casa ou casebre, como não há uma rocha, uma árvore, um muro ou resguardo onde montar a tenda e fugir aos elementos. É verdade que ontem tive uma pequena amostra do que seria uma tempestade no deserto, mas evito pensar demasiado no tema, pois é claro que não saberia o que fazer se nos próximos dois dias se repetisse a “gracinha”.
Salar de Atacama – campo de exploração mineira Salar de Atacama – estrada de terra e sal… Tal como no mapa, a estrada que cruza o sul do salar, de Peine até ao campo da Companhia Chilena de Lítio, é uma recta infinda. O piso é uma estranha combinação de terra e sal que, dizem, é duro como cimento, quando seco, tornando-se um lamaçal resvaladiço como o gelo, quando molhado. Mas parece que esse perigo não existe por aqui, pois por estas bandas “nunca” chove. A paisagem é desoladora, aterradora, completamente estéril e indiferenciada. De um e outro lado da estrada erguem-se os pequenos blocos de sal, como o campo minado, esventrado, rasgado por sulcos profundos que delimitam estropiados pedaços de sal da cor do pó do deserto. Muito ao longe ergue-se a cordilheira Domeyko e para trás vai-se perdendo a cordilheira andina. Uma vez por outra passa um carro em grande velocidade – normalmente são pick-up’s de empresas mineiras, os únicos que se aventuram por estas bandas. A Companhia Chilena de Lítio parece estar a construir uma montanha no deserto. Uma, não, várias montanhas de sal, que crescem no deserto plano, rivalizando com os montes distantes. Findo o salar, volta o deserto. Há que transpor a cordilheira Domeyko, não excessivamente elevada, para depois iniciar a longa travessia do deserto. Mas se a subida da cordilheira não é demasiado longa nem inclinada, rapidamente sou descoberto pelo inimigo mais temível: o vento, que desce velozmente pelas sucessivas gargantas por onde a estrada se contorce, em constantes curvas e contra-curvas. Tenho de desistir de pedalar e contentar-me em conseguir empurrar a Dempster contra o vento e a subida. Felizmente não serão mais de dois ou três quilómetros, ao longo dos quais vou sendo olhado com espanto e invariavelmente cumprimentado pelos inúmeros camionistas que circulam pela estrada. São dezenas e dezenas de grandes camiões num constante vai-e-vem, transportando a riqueza mineral do deserto para os portos distantes. Transposta a Domeyko, sinto-me esmagar pela vastidão do interminável horizonte, numa linha irregular de colinas que despontam num mar infinito de areia, sombra, frio e vento. Durante a dúzia de quilómetros seguintes, o forte vento contra é mitigado pelo declive, ainda que suave, da estrada. Mas finda descida, comecei a sentir todo o peso do vento, fortemente ampliado pela desoladora paisagem e pela infrutífera busca de um recanto, uma vala, um morro onde pudesse acampar, resguardar-me e rebuscar energia física e mental. Pedalava a 10 kms/h, no limite do esforço; teria ainda umas três horas de luz; algo haveria de surgir nos próximos trinta quilómetros. Era esse o jogo psicológico para empurrar as pernas e iludir o desânimo. Algures, entre o quilómetro 115 e 110 da estrada, vislumbram-se umas longínquas instalações mineiras. Sei que nem vale a pena tentar chegar lá, mas desvio-me pelo trilho que me parece mais consistente, contorno uma pequena elevação de areia e consigo erguer a tenda, que parece poder resistir ao vento. Não tenho vontade de comer, ou melhor, não tenho vontade de preparar o jantar. Sandes, bolachas, barras energéticas e água q.b., são um delicioso repasto. Para sobremesa, peço ao vento que me deixe tranquilo e à tenda que resista. Por hoje, parece-me que já é desejar o céu. Depois da tempestade, a bonança?
As manhãs parecem ser mais serenas que as tardes e noites. O dia amanheceu tranquilo, solarengo e sem a mais leve brisa. E o meu estado de espírito não podia reflectir maior simbiose com a natureza. Queria pedalar depressa; queria apanhar aquela infinita descida, tão ténue que só as pernas a podem sentir, na velocidade que imprimem com um mínimo esforço; queria saborear a desolação da paisagem, seca, árida, inóspita até às entranhas, absolutamente monótona; queria olhar o vazio e reter o infinito; queria soprar o vento e vê-lo fugir aterrorizado; queria imaginar um mundo só meu, naquele pedaço de ausência. E com as loucuras á solta, cavalgando as dunas de curvas tão suaves que ameaçam nem existir, eu próprio me perdi de mim e só me reencontrei uns trinta quilómetros antes de Baquedano, quando um grande complexo mineiro saltou à estrada com as suas regras, sinais de trânsito, horríveis edifícios e a agitação habitual de quem vê o mundo traduzido em cifrões. Baquedano é um horrível entreposto, devotado à actividade transportadora: restaurantes, mercearias, hospedagem, bomba de gasolina e … casebres a cair, de velhos, de feios, de lixo. O que mais impressiona é o contraste dos resplandecentes camiões, carros e pick-up’s – últimos modelos das maiores marcas mundiais – que enchem os parques e a beira da estrada, com as decadentes casas e ruas da povoação. Na verdade é o espelho do Chile, onde o ouro e a lata, o esplendor e a decadência, não andam de “mãos dadas”, antes se olham à distância, num acentuado, por vezes chocante, contraste. Como é sobejamente conhecido, o Chile é uma estreita e longuíssima faixa de território, delimitada pelo pacífico e pela cordilheira dos Andes. Com excepção do norte do país, a linha fronteira entre o Chile e a Argentina coincide – sem ser coincidência, claro está – exactamente com o cume da cordilheira andina: se a água correr para o Pacífico, é território chileno, se correr para o Atlântico, é território argentino. Ao olhar o mapa, a ruta 5 sobressai como uma linha contínua que se prolonga desde a fronteira com o Peru até ao extremo sul da longínqua ilha de Chiloe. Gorada a possibilidade rumar ao estremo sul do continente ao longo do território argentino, cruzar o propagado lindíssimo paso Jama e calcorrear a mítica ruta 40 de fio a pavio, terei a ruta 5 por companhia. Apesar de acalentar a esperança de poder cruzar a fronteira “em breve”, o mais provável é ter de me manter do lado ocidental dos Andes por muitos dias e milhares de quilómetros. Sobre a paisagem ao longo dos 1000 quilómetros, desde Baquedano a la Serena, pouco há a dizer. É o deserto de Atacama, o deserto mais seco do mundo; é areia em 360º do campo de visão; são minas e mais minas indicadas pela sinalética da berma da estrada. Sem grandes serras ou montanhas à vista, não se pode dizer que seja uma planície, embora os desníveis sejam muito ténues, com diversas subidas e descidas de vinte e mais quilómetros; são rectas intermináveis, que fatigam o olhar. Não há povoados dispersos, apenas cidades que distam uma ou mais centenas de quilómetros entre si. Ruta 5… adeus trópicos
Pedalar pela ruta 5 é um exercício verdadeiramente solitário, um desafio mais mental do que físico, tanto mais que se está sempre sob a ameaça de uma brusca fúria meteorológica e, depois da experiência da travessia do Salar de Atacama, não consigo arredar completamente do espírito o receio de uma tempestade de areia ou um “simples” vendaval. Mas ao longo desta primeira etapa ciclística pela ruta 5, há sempre alguma estória para não esquecer e mais tarde recordar… Da incaracterística e feia Antofagasta, cidade portuária por onde se esvai muito do minério da região, recordo que só para aí à sexta tentativa consegui levantar dinheiro num multibanco… já desesperava. E recordo também o longo e simpático passeio marítimo, um extenso espaço ajardinado e com diversas infra-estruturas desportivas, onde dezenas ou centenas de pessoas de todas as idades praticavam desporto… Interrogo-me sempre porque raio não temos algo semelhante de Lisboa ao Guincho, ou de Lisboa a Vila Franca… ou de Vila Franca ao Guincho – isto para falar só da zona onde vivo, claro está! Taltal dista mais de 230 quilómetros de Antofagasta, o que implica acampar no coração do Deserto de Atacama. Algures, num local designado no mapa como Varilhas, a ruta 5 prossegue o seu interminável percurso, surgindo um desvio à direita indicando Taltal, pela ruta B710. É por aí o meu rumo, ciente que doravante nem a companhia dos camiões terei, pois esta é uma estrada muito pouco transitada. Talvez uma dezena de quilómetros depois do desvio, há como que uma pequena área de descanso, que mais não é que um terreiro alisado na berma da estrada. Estava parado um carro e uma senhora e um jovem pareciam lanchar. Juntei-me a eles no meu frugal almoço e a Maria Eugénia, talvez quase sexagenária, ofereceu-me gentilmente uma fanta e, na sequência da conversa, disse que era português. O jovem, para aí de uns trinta e cinco anos, olho-a de um modo tão intenso e alegre que cheguei mesmo a pensar se também seriam portugueses. E quase! A Maria Eugénia, chilena de Antofagasta, assessora de comunicação da “fiscalia” – a administração fiscal chilena – conhece a Europa de fio a pavio e Portugal de ponta a ponta. Adora Lisboa, “uma das mais bonitas cidades europeias – e olhe que conheço quase todas as cidades importantes da Europa”. Tem amigos na cidade e arredores – Mafra, Cascais, etc. – e está ligada a um projecto de livro e respectiva adaptação para televisão, na Argentina se não estou em erro, mas o nome já me “passou” – é verdade, esta parte está, lamentavelmente, um bocado imprecisa, mas estou a escrever estas memórias uns meses depois, depois da enorme e irremediável perda do meu “livrinho vermelho”, onde ia anotando alguns pormenores quotidianos. Despedimo-nos com fraternidade e a promessa de que em Outubro de 2012, quando a Maria Eugénia voltar a Lisboa, tomaremos um café… Ruta B710…
Pedalei uns bons trinta quilómetros sempre a subir, numa daquelas subidas suaves mas intermináveis, mesmo ao meu gosto. O dia ia-se esgotando e as sombras do deserto caíam de manso sobre a estrada e o vasto vale, subindo lentamente pelas encostas das colinas. O vento não era forte mas estava vivaço e preocupava-me a resistência da tenda maltratada e como fixar as estacas na areia do deserto. Buscava algo diferente; talvez uma pequena colina, uma vala, um buraco onde pudesse resguardar-me um pouco do vento. Numa qualquer curva pareceu-me haver um pequeno desnível na areia, a não mais de uma vintena de metros da estrada. Mas mais importante: havia uma série de pedras de média dimensão nas imediações! Eram algo com que nem me tinha atrevido sonhar, pois serviriam perfeitamente para prender a tenda – recolheria tantas quantas as necessárias, colocá-las-ia nos bordos da cobertura da tenda que, seguramente, iria resistir a vento “normal”. Alvorada na ruta B710
Quando me dei por satisfeito com a segurança da tenda – até porque o vento tinha amainado – escurecera e, sob a colina próxima, do céu escorria sangue sobre o cume em fogo. Fiquei ali a ver a negridão da noite escura acentuar-se e sorver o sangue do sol poente… quando me estendi no interior da tenda, sob a fina película de nylon, senti uma parte de mim elevar-se acima do cume mais alto das redondezas numa risível tentativa de captar o infinito: o silêncio infinito que brotava de cada poro de areia; a solidão infinita, única habitante que ousa desafiar o “nada” e cavalgar incessantemente o deserto; as estrelas do infinito universo, que piscavam os olhos de espanto. Nunca o “nada” e o “tudo” estiveram tão perto de mim como no deserto – em todos os desertos onde acampei; nunca o vazio e a plenitude tiveram maior expressão; nunca a vida e a morte se apresentaram tão perfeitas. Nada como o deserto, nada. Tal com a Maria Eugénia me tinha dito, depois de transpor a longa subida, lá para as bandas do cerro Paranal e do European Southern Observatory, é sempre a descer até Paposo, uma pequena aldeia de pescadores junto ao mar. Não fora o terrível vendaval que, num repente, se ergueu dos quatro pontos cardeais, com rajadas absolutamente loucas, com areia, plásticos, embalagens de metal e plástico, plantas, numa dança possessa, e teria gozado uma das descidas mais alucinantes de que tenho memórias; assim vivi um período de incalculável adrenalina, a raiar o medo… à medida que estrada se ia enfiando por um, cada vez mais estreito, canyon a aleatoriedade e intensidade iam diminuindo. Mas, extraordinária natureza, de repente, em não mais de cem metros, senti-me entrar literalmente numa câmara frigorífica. A temperatura baixou instantaneamente e senti-me enregelar – o pacífico, gelado e difuso na neblina cerrada, surgia umas curvas adiante e umas dezenas de metros abaixo. E, com ele, Paposo, a minúscula aldeia de pescadores. Em Paposo, parei na primeira casa que vi com ar de “tienda”. Mais do que comida, queria fugir ao frio gélido da rua. Enquanto ingeria lentamente as “galhetas” e o sumo acabado de comprar, reparei no papel espetado na parede anunciando a venda de pescados, mexillones e outras espécies que desconheço. Perguntei, um bocado ao acaso, se não serviam comida feita por ali na aldeia – pescado ou marisco… A miúda regressou com a resposta daí a uns segundos, seguida do pai e da mãe: “ainda era muito cedo – umas 11h30, de facto – e estavam a preparar o almoço. Mas se quisesse esperar meia hora, serviam-me almoço”. Taltal não estava longe, aquela família parecia mesmo simpática e lá fora continuava um frio pouco pacífico. Esperei na sala cálida, frente á cozinha onde o pai preparava uma irresistível sopa, ou caldeirada, ou o que seja, de mariscos vários, e depois ainda me apresentou um prato enorme cheio de mar – sim, aquele peixe, de tão alvo, tão fresco, tão suave, parecia condensar nele toda a pureza do gelado pacífico. Depois de tão aprazível almoço, até parece que o frio se foi e o nevoeiro se recolheu, regressando à estrada com a leveza do prazer pelos momentos vividos naquela terra de ninguém.
Ruta 5, de Paposo a Taltal A estrada contorna de perto a linha de costa, ora rochosa, ora arenosa, ora suave, ora abrupta, sempre difusa no denso nevoeiro. Minúsculos barcos com um, no máximo dois, pescadores, bamboleiam-se no suave oscilar das ondas. Algumas colónias do que julgo serem corvos marinhos, pelicanos cinzentos e gaivotas, preguiçam nas rochas esbranquiçadas de caca. Numa colorida capela à beira mar, um trio de abutres com ar severo, parece velar as almas abraçadas pelo mar.
Ruta 5, de Paposo a Taltal Taltal surge defronte ao mar, refugiada no extremo da Baía de Nossa Senhora, num surpreendente colorido de pequenas casas de madeira, em contraste com o chumbo do mar ao entardecer e das douradas encostas arenosas, que lhe aparam as costas. Em Taltal respira-se o mar, no pequeno porto de pesca artesanal, colorido por duas dúzias de vistosos pequenos barcos; no mercado de pescado, onde pequenas caixas ostentam o brilho e odor frescos do mar; nos poucos restaurantes que anunciam variedade de nomes familiares de pescado; na pequena doca onde homens de impermeáveis coloridos, martelam, lixam e pintam barcaças pouco maiores que eles; no pequeno passeio fronteiriço ao mar e nos pontões que se debruçam mar adentro, aproximando-se mais do sol longínquo, dos barcos adormecidos, das focas que, de quando em vez, mostram as barbas acima da linha de água, dos patos, corvos, gaivotas e outros familiares que mergulham como mísseis na água escura da noite, saindo uns metros adiantes, uns frustrados outros engolindo o prémio da caçada.
Taltal, aldeia tradicional de pesca artesanal Do céu espreitam nuvens ameaçadoras. Para Chañaral há que regressar à ruta 5, ao fim de uma quinzena de quilómetros de suave subida. A meio da subida, a ameaça concretiza-se e começa mesmo a chover com força. Nem por encomenda, do outro lado da estrada há um pequeno santuário com uma cobertura em plástico. Decido esperar e ver no que dá a chuva, que abranda daí a poucos minutos. Quase no fim da subida, poucos quilómetros antes de chegar à ruta 5, assisto a mais um estranho fenómeno desta natureza indómita. Á minha frente e direita o céu começa mesmo a limpar, mostrando clareiras de intenso azul; à minha esquerda uma enorme massa de nuvens, ou densa neblina – não sei diferenciar – cavalga velozmente encosta abaixo, em direcção à estrada. Penso que se conseguir passar antes “dela”, me safarei, e pedalo desalmadamente. Mas é impossível fugir à natureza, e rapidamente desaparece tudo ao meu redor: o céu azul, a estrada negra, as placas de sinalização da estrada, a areia do deserto. Parece-me que até as rodas da bicicleta desaparecem da minha vista, tão denso é o nevoeiro, quase chuva. Chego à ruta 5 e os carros e camiões passam devagar, com luzes e piscas ligados. As bermas ou não existem ou são autênticas crateras esburacadas e tenho de pedalar no limite do asfalto, tanto quanto possível sobre a linha branca. Pedalo em enorme tensão, com o ouvido à escuta, tentando diferenciar o sentido do ruído dos motores, para me lançar no último minuto para a berma. O resultado foi um furo na roda da frente. Gelado, molhado, tenso, foi preciso apelar à maior racionalidade, resistência e sentido de humor, para encarar a situação e fazer o que tinha de ser feito: mudar a câmara… Muitos quilómetros volvidos, algumas tangentes, buzinadelas e condenatórios acenos de cabeça, o nevoeiro começou a abrir e pude respirar alguma tranquilidade. Este seria mais um dia difícil, dominado pela incerteza. No mapa havia um ponto assinalado como “las bombas”. Deveria distar uns noventa quilómetros de Taltal e era a minha única esperança de poder pernoitar num local abrigado. No fim de uma suave descida, senti a alegria de avistar Las Bombas. Era uma única casa, nada mais, mas servia refeições e dispunha de meia dúzia de exíguos quartos, enfileirados ao lado do restaurante – tudo o que mais desejava naquele momento estava ali, à minha disposição. Pouco interessava se não havia água quente nem duche, pouco interessava se o colchão parecia meia-lua… havia uma cama e um óptimo jantar quentinho. Para Chañaral parecia existirem dois caminhos alternativos: prosseguir pela ruta 5, num percurso mais longo e monótono; ou tomar a estrada que vai directa ao parque nacional Pan de Azúcar. Se já estava inclinado em seguir esta via, a conversa da dona da hosteria las bombas, reforçou a opção. A caminho de Pan de Azúcar, antes da lama tomar conta do caminho
Nem um quilómetro após las bombas, surge, à direita, o desvio para Pan de Azúcar. A estrada é da tal mistura de terra e sal, a mesmo combinação que já conhecia do Salar de Atacama, dura como cimento, quando seca, e mole como puré, quando molhada. Claro que nem me lembrei desse pormenor quando virei costas ao asfalto e me embrenhei pelo vale ondulado, de sombras e cores esbatidas do deserto. Pedalei com prazer e leveza durante dez quilómetros. Nem mais! Em menos de 100 metros as rodas da bicicleta afundaram-se completamente; a lama, finíssima como farinha e pastosa como cola, agarrou-se às rodas, que deixaram de ser de borracha para serem apenas uma massa disforme de terra. Nem mais um passo, nem mais uma pedalada, nem mais um centímetro. Desmontei e senti aquela massa deslizar-me debaixo dos pés, numa desagradável sensação de desequilíbrio. Com enorme esforço consegui inverter a marcha mas as rodas não rodavam, não conseguia mover-me naquele atoleiro, pareciam areias movediças… pus as mãos ao barro,procurando limpar um pouco as rodas, os guarda-lamas e abrir os travões. Consegui mover-me dois ou três metros e repeti a operação. Exausto e cada vez a deslocar-me menos, não me restou alternativa a retirar alforges, desmontar o atrelado e deslocar uma coisa de cada vez, até sair do atoleiro. Todo sujo, com tudo completamente enlameado, com a corrente, desviador, pedaleiras numa pasta de lama, não podia sequer tentar pedalar… restava-me percorrer os dez quilómetros de regresso caminhando. Entretanto chego a uma pequena curva e deparo-me com uma pick-up acabadinha de capotar. Ainda o casal e os dois filhos gatinhavam do interior para a lama, quando cheguei junto deles. Claro que perdeu a tracção e foi por ali fora… felizmente vinha devagar, diz. Os miúdos pareciam desorientados com o susto. Prometi-lhes que mal chegasse a las bombas avisaria o dono, a ver se conseguiam enviar ajuda para a carrinha, pois os quatro estavam apenas assustados… Já transpirava abundantemente, caminhando apressado ao lado da Dempster, quando me lembrei de utilizar os 2,5 litros de água para limpar a transmissão e tentar regressar pedalando – é que a saúde da Dempster preocupa-me tanto ou mais que a minha e não podia arriscar pôr-me a pedalar assim, danificando a transmissão… pareceu-me que a operação foi minimamente bem sucedida e lá regressei de bicicleta a las bombas, perante o ar espantado dos donos. Explicada a insólita situação e dado conta do acidentado, passei uma boa hora a lavar a Dempster e a tralha toda. Em consequência, era quase noite quando cheguei a Chañaral… Estrada para Chañaral
Da feia Chañaral apenas retenho o simpático pequeno-almoço no hostal playa mar. Não por alguma singularidade do manjar, mas porque uma dúzia de dias e oitocentos quilómetros mais tarde, numa rua de la laguna, nas imediações de Valparaíso, um homem sorridente e espantado se me dirige e cumprimenta efusivamente, oferece-me a casa para pernoitar, um chá e muita simpatia: era o Joaquim, em cuja companhia, da mulher e neta, tinha tomado o pequeno-almoço no playa mar. Abrigo de pescadores
Até Caldera, a ruta 5 segue o litoral, solitário e selvagem. Espantosamente, no frio, nevoeiro e solidão do inverno, há algumas tendas de campismo erguidas no meio dos pedregulhos, à ilharga da linha de água. Percebo que funcionam como abrigo para pescadores que, empoleirados nas rochas, ou esgaravatando na areia e na água, pescam. De quando em vez surgem pequenos aldeamentos junto ao mar, compostos pelo que parecem ser modestas casas de praia, agora despidas de vida na tristonha manhã do inverno. Poucos quilómetros antes da cidade, anuncia-se um estranho “zoológico de pedras”. Rochas invulgares, corroídas pelas forças da natureza, e à mistura com alguma imaginação, permitem ver elefantes, ovelhas, camelos e tudo o mais que se queira. Independentemente da zoologia, a geologia merece uma pausa.
A caminho de Caldera Zoológico de piedra, junto a Caldera Olá Caldeira. Adeus Caldeira. Olá Copiapó. Adeus Copiapó. Olá posada los pajaritos – restaurante e não pousada com alojamento, como deduzi do nome – que estranho zoológico este, no meio do deserto. Aqui me quedo uma noite, acampado debaixo de uma árvore, dormitório e casa de banho de muitos pajaritos… Olá Vallenar. Adeus Vallenar. Olá Incahuasi – restaurante à beira da estrada, cujo dono tocava divinamente viola, creio que apaixonado pela jovem mulher que servia ao balcão com um sorriso enorme e um brilho contagiante no olhar. Adeus Incahuasi. Olá la Serena. Façamos aqui uma pausa para contar um pouco do estado do tempo, do vale del Elqui, da Gabriela Mistral, de pisco… La Serena pareceu-me ser um pouco uma linha fronteira entre o deserto de Atacama, já esbatido, é certo, na paisagem dos últimos dias, e o centro agrícola. Mas também as pessoas me pareceram diferentes, mais abertas, mais comunicativas, mais amistosas, mais viradas para a vida e menos para a “plata”… dá-me ideia que a secura e aridez do rico norte mineiro, contagiou um pouco as próprias pessoas que lá vivem e trabalham, muitas delas migrantes do centro e sul, em busca de “plata”. No hostal Alameda chovia em diversos quartos, no corredor, no pátio coberto. No restaurante onde jantei, havia baldes espalhados pela sala a apararem a água que caía continuamente do tecto. As ruas pareciam pequenos riachos. A explicação parece simples: “nunca chove por cá e quando chove, são uns pingos ralos. Os edifícios não foram construídos para este clima. Há umas semanas, num só dia choveu mais que em todo o ano passado…” Saindo das duas ou três ruas principais, onde se sucedem vistosas lojas repletas de publicidade, num forte apelo ao consumo, a cidade é muito tranquila, de edifícios pequenos e vida de aldeia. Mas com excepção do museu arqueológico, com uma razoável colecção de artefactos dieguitas, múmias e acima de tudo, uma estátua Rapa Nui, vinda da Ilha de Páscoa, e do museu histórico Gabriel Videla, não há muito mais a visitar. Claro, há o mercado la recova, onde apreciar artesanato, comer num dos diversos restaurantes, comprar umas empanadas ou bolos num dos quiosques do rés-do-chão. Como a Dempster se andava a queixar das cruzes, decidi levá-la ao ortopedista Cerro Grande Bike Shop. Combinei uma revisão geral, limpeza e atenção especial à transmissão e eixo pedaleiro, de onde me parecia surgir um leve ruído. Acontece que era meio-dia de sábado e só me entregavam a menina na segunda-feira às treze horas. Assim se gorava a minha intenção de ir de autocarro até Pisco Elqui e regressar de bicicleta, percorrendo tranquilamente o Valle del Elqui. A alternativa era fazer uma das coisas que detesto e de que saí com o sentimento reforçado: ir numa pequena excursão com uma dúzia de turistas, ouvindo um papagaio papaguear, sem alma nem flexibilidade, a cartilha que lhe disseram para decorar. Quando lhe pedi para parar, pois queria tirar uma foto, respondeu amavelmente que parávamos “um pouquito mais adiante”, o que significou uns bons três ou quatro quilómetros. Percebi porquê… era ali o miradouro oficial, onde se parava para o retrato. Claro que não valia a pena explicar-lhe que aquela não era a vista nem a paisagem que mais me interessavam… em Roma sê romano… Mas apesar da minha má vontade e mau feitio, reconheço que o Valle del Elqui tem um encanto especial, é de uma invulgaridade e diversidade surpreendentes. Valle del Elqui
O Valle del Elqui começa por ser um vale indistinto, verdejante, composto por uma larga faixa de terra plana abrigada entre duas cordilheiras. Abundam as plantações de árvores, legumes e vegetais, em ordenadas e modernas explorações. Mas à medida que avançamos, o vale vai estreitando e as vinhas ocupam praticamente todo o solo, subindo pelas encostas. Curioso é o efeito das extensas telas e redes que se erguem, enfileiradas, acima das próprias cepas. Parecem estufas gigantes, embora abertas. Explica o guia que são para cortar o vento e ajuda a preservar a humidade do solo. Para trás vai ficando a planície e a estrada começa a subir progressivamente. Agora todo o horizonte se encontra fechado pela cordilheira árida e nevada. Para um latino ignorante, é uma visão contra-natura, as vinhas paredes-meias com a neve, mas parece que as uvas aqui produzidas têm elevada qualidade. Não por acaso, é exactamente nesta região que se produz o famoso pisco – que “não é mais” que aguardente de vinho. Antes de chegar a Monte Grande, pequena aldeia onde viveu e leccionou Gabriela Mistral, ainda me surpreendi com as plantações de abacate. Impressionante a vasta mancha verde que emerge das íngremes encostas, completamente áridas e, diria, estéreis. Mas parece que um pouco de água e os mistérios da natureza fazem milagres, sendo esta uma das regiões de maior produção de abacate no Chile. Gabriela Mistral
Monte Grande é mesmo uma pequena aldeia afundada na montanha. Daqui só podia sair poesia rústica, poesia das entranhas da terra, poesia simples e ao mesmo tempo com a força universal das leis da natureza. O museu escola Gabriela é simples e altivo; básico e essencial. Lá fora, a sua estátua mira o vale e a montanha. Parece ver para alem do tangível… Mais acima fica a aldeia Pisco Elqui. Curiosamente o nome é recente – tem poucas décadas – e deveu-se a uma estratégia económica e comercial: criaram uma região demarcada e, à semelhança do “douro”, de “champagne” e outras, pretende que apenas o “pisco” produzido em Pisco, possa ser comercializado com esta designação… por enquanto não passa de uma pretensão, pois o Peru produz e comercializa o Pisco. Energia solar ao serviço da culinária Destilaria ABA
Uma visita à destilaria ABA, um almoço “típico”, cozinhado a energia solar, e uma volta por Vicuña, completam o programa, mais cedo que o costume, pois o Chile joga mais logo para a Copa América e os chilenos parecem acreditar que serão campeões…
Vicuña, a maior povoação do Valle del Elqui De la Serena a Valparaíso, haveria umas estorietas para narrar, os fabulosos pitéus de peixe a enaltecer, a exotérica residencial “punta de chungos”, em los Villos – um autêntico museu de história natural – a avenida costeira, de la Laguna a Vale Paraíso, mas o avião não tarda a aterrar em Londres… Ficam algumas fotos e a memória inolvidável do dia 19 de Julho, um ano após a partida de Lisboa… A tenda esticada ao abrigo do restaurante Maria Garcia, para não voar em busca do Aladino, a dois metros da estrada/estacionamento, os camiões rugiram toda a noite, fazendo estremecer o chão e dando a sensação que, desta vez, me transformariam numa folha de papel. Dentro da tenda flutuam as vozes dos meus amigos que, a um oceano e um continente de distância, festejavam – com uma feijoada a preceito – a minha partida. Escasseiam as palavras, sobra o afecto.
Los Villos, aldeia piscatoria Los Villos, a incrível residencial punta de chungos Concón, abundam despretensiosos restaurantes de peixe e marisco ao longo da marginal, demasiado urbanizada, com complexos turísticos empoleirados pela escarpada encosta Renacar

4 comentários:

  1. afinal ainda temos bónus, mas tens que tratar do livro até ao Natal, precisamos de o ir lendo em 2012

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  2. Olá, há alguma forma de o contactar?
    Parabéns pela aventura!!!
    Rui Henrique

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  3. Rui, acrescentei o meu e-mail no "perfil". De qualquer modo aqui fica, esperando que veja este comentário: idiliopombal@gmail.com

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