segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bolívia II - De Uyuni à fronteira chilena

Bolívia - De Uyuni à fronteira chilena

De Uyuni a Atocha…


A estrada é infinita


As Lamas parecem ser os únicos seres vivos que resistem à dureza do deserto


Afinidades


Desolação


Hora de ponta


Fantasmas, a 11 kms de Atocha

Os duzentos quilómetros que separam Uyuni de Tupiza, não desiludem nem surpreendem. São tão remotos quanto pode ser um deserto contínuo de areia, de pedra, de desolação, de secura, de abandono. A solidão é extrema e constante; a vastidão do espaço é esmagadora e, por vezes, assustadora; raramente passa um carro; raramente se vê uma habitação ou uma alma; não existe uma única árvore, ou arbusto; e os únicos seres vivos visíveis são escassas llamas, um ou outro par de vicuñas, e alguns burros, que aparentam espanto à minha passagem.
A estrada é praticamente plana e apenas alguns troços de areia mais solta me dificultam a marcha. Preciso chegar a Atocha, vila mineira no coração do vazio, onde espero encontrar alojamento e comida, mas antes o piso torna-se mais difícil e as energias do inesperado almoço, em Rio Saladao (assim o miúdo disse chamar-se a minúscula aldeia que tinha um comedoro), já definharam na dureza e distância do percurso.
Foi com alegria revitalizadora que vislumbrei uma raríssima placa de sinalização indicando 7 kms para Atocha!! E no fim da descida, já no lusco-fusco do longo dia, surgiu a desejada povoação, enfiada no buraco das montanhas e escalando um pouco a encosta lunar, numa visão monocromática, minimalista e baça, de vila mineira.
A jornada até Tupiza deveria ser bastante longa, demasiado longa, talvez, apesar de prometer uma “recta final” descendente. De qualquer modo deixei Atocha com a primeira luz da manhã, na expectativa, contida, de poder chegar a Tupiza ou, no mínimo, à vizinha Salo.

E de Atocha a Tupiza

Atocha acordando, vem o sol e vai a lua





Sinais incidentais


À espera de Godoot, num resguardo do vento e do frio


Sobe e desce e sobe, sem rumo


No meio de nada, a caminho do nada, com nada por companhia


Ops! Será o fim do mundo, ou o caminho para os antípodas?


Pela encosta, com o horizonte como destino


Nas imediações de Tupiza, começam a surgir surpreendentes formações rochosas


As cores e as formas da pradaria


O entardecer leva os pastores e o rebanho a casa

Logo à saída de Atocha a energia da manhã não foi suficiente para poder pedalar toda a dura encosta que deixa o vale rumo à montanha. Mas transposta a íngreme subida, o ânimo voltou e o olhar soltou-se pelo infinito “altiplano”, poisando aqui e ali, em surpreendentes formações rochosas, no vulcão Santa Bárbara (?), enchapelado por uma nuvem persistente que apenas ia variando de forma, e na infinda estrada que se perdia por longínquas cordilheiras e encostas, que pareciam suaves. Na realidade, o altiplano aqui tem muito pouco de plano, sucedendo-se um interminável carrossel de desgastantes colinas. É verdade que o vento, hoje como ontem, foi predominantemente amigo e, sem a sua ajuda, não teria conseguido percorrer os mais de duzentos quilómetros neste piso. Mas também é verdade que hoje a procissão ainda vai no adro e, na parte final do percurso, antes da interminável descida para Salo, “rastejei” contra o vento e as subidas, parei literalmente para que a bicicleta não fosse no vendaval e desejei ter um abrigo onde ficar “até ao fim dos tempos”, ou do vento…
A descida para Salo adivinha-se primeiro e vê-se depois, na extensão do caminho que bordeja encostas sucessivas. Começa com uma descida suave mas rapidamente acentua a pendente para se precipitar, curva contra-curva, até atingir a vale plano onde desponta Salo, num pequeno aglomerado de casas de adobe ladeando a estrada. Os muros são de terra, os telhados de lata encimados por fileiras de pesados pedregulhos, os arbustos, espinhosas e mirrados, fazem-me lembrar África e as girafas que deles se alimentam.
Estou exausto, o piso promete muita areia e mais de vinte quilómetros me separam de Tupiza. Um trio de rapazes, não miúdos, mas jovens de 18 ou mais anos, jogam ao berlinde na rua poeirenta. Paro e pergunto-lhes se há um alojamento onde possa ficar. Olham-se surpreendidos e dizem-me que não, que ali não há nada, mas incentivam-me a prosseguir para Tupiza, pois está perto e é sempre “bajada”. Estamos conversados sobre o que esta gente entende por “perto” e também por “pura bajada”, mas o certo é que não tenho alternativa – na verdade ainda não é tarde e posso pedalar mais duas horas antes que escureça.
Como sempre, a bajada está repleta de subidas, ainda que seja predominantemente a descer, é verdade, o piso é terrivelmente mau, oscilando a areia e a “chapa ondulada”. E já perto de Tupiza, há mais uma subida para a sossega, que me obriga a caminhar e empurrar a Dempster. Mas também desta vez, depois da tempestade há-de vir a bonança e Tupiza há-de surgir do nada. No hotel Mitru começam por me pedir 100 bolivianos por noite, mas consigo ficar por 50 e um duche quente, e a certeza de que ficarei um ou dois dias a descansar, fazem olhar para a jornada finda com um sorriso e não um esgar!!
Tupiza é o faroeste. Já ontem, de Salo para cá, me tinha surpreendido com a morfologia e as cores das estranhas formações arenosas que ladeavam o caminho e que, afinal, não passavam de uma pequena amostra daquilo que viria a admirar em redor do povoado. Mas Tupiza não é o faroeste apenas pelos canyons, gargantas, penhascos e montanhas de intensos coloridos, onde predomina o vermelho e onde se imaginam cowboys, pistoleiros, ladrões e sherifes. É o faroeste também porque cá se escreveu uma célebre estória de gansters e pistoleiros… foi pouco a norte do povoado que, em 1903, a dupla Butch Cassidy e Sundance Kid perpetraram o assalto a Carlos Peró, o gerente local da Aramayo Company, levando o dinheiro dos salários dos mineiros. E foi em San Vicente, escassa centena de quilómetros a norte, que ambos encontraram “o fim da estrada” e as balas que lhe deram a imortalidade…

Uff, mais uma estucha de fotos, desta vez de … Tupiza!!

Toroyoj, junto a quebrada seca






Palquiza, uma aldeia fantasma, com todas as portas fechadas a cadeado - ferrugentos



Titihoyo? Quebrada de Yumia? Com gringos cavalgando na pradaria


Em busca do cañon del duende, perdi-me por um fantástico desfiladeiro que não cosnta dos mapas nem das recomendações turísticas...



Porta para o cañon del duende


Beira da estrada


A caminho da puerta del diablo



Cavalgada gringa


Impressões


Puerta del diablo



A bicicleta do professor Damian


Casa de ... campo

O dia em que calcorreei os trilhos em redor de Tupiza, foi um dos mais memoráveis e surpreendentes desta viagem. Não só pela beleza dos cantos e recantos em que literalmente me perdi, mas pela surpresa absoluta das paisagens que encontrei, das incríveis formações rochosas, da monumentalidade da puerta del infierno, do cañon del duende, da quebrada seca, do valle de los machos…e especialmente pelo festival das cores mutantes ao longo do dia, dos vermelhos, laranjas, brancos, cinzas.
No hotel Mitru opera a empresa Tupiza Tours, que não só proporciona viagens pelos locais turísticos dos arredores, como oferece tours de vários dias, cruzando o sudoeste da Bolívia, percorrendo a zona das “lagunas” e subindo ao Salar de Uyuni. E os motoristas da Tupiza Tours foram de uma grande simpatia e disponibilidade, dando-me várias indicações e sugestões sobre o percurso que eu pretendia seguir. Mas acima de tudo tentaram dissuadir-me de o fazer. Sugeriram insistentemente que prosseguisse para a fronteira argentina, pois Villazon está a apenas 90 quilómetros de excelente estrada de asfalto, com clima mais ameno e na minha rota para sul, para Ushuaia. Mas San Pedro de Atacama e as suas rosas, que o Sepúlveda fez o favor de me inculcar na cabeça e no coração, é mais que uma teimosia, é uma obsessão poética…claro que não há rosas neste tempo, mas há Atacama.
Os alertas maiores sobre os cerca de 450 quilómetros que tinha pela frente, eram o elevado desnível, pois partia dos 2950 de Tupiza, para passar rapidamente os 4000, após Sillar; o vento constante; o acentuado frio nocturno, bastante abaixo de zero; o péssimo estado do caminho, com longos troços de areia e outros de pura pedra solta; os rios gelados que teria de atravessar a vau, pois não têm pontes; a escassez de povoados com restaurante, alojamento ou víveres; e os diversos cruzamentos e entroncamentos da estrada, sem qualquer sinalização… uma escassa lista para a minha obsessão.
O cenário era de respeito e parti apreensivo com todo o alarmismo que os meus interlocutores me foram incutindo. Procurei recarregar as baterias, comprei o máximo de víveres que podia transportar, incluindo “muitas” barras energéticas, pão, queijo, fiambre e três litros e meio de água…
Depois de tomar o mais alarve pequeno-almoço de que tenho memória, no buffet do Mitru, como se pudesse acumular no estômago ali alimentos e energia para a semana seguinte..., fiz-me à estrada. Na minha rota ficava a Quebrada Palala, nada impressionante comparando com o que já tinha visto e, no fim da primeira dura e extensa subida do dia, Sillar, mais um vale de abundantes formações arenosas, pacientemente esculpidas pelo vento. Mas o mais marcante de Sillar era mesmo a subida, desta vez em espiral, que trepava monte fora, perdendo-se para além do meu olhar. E já nem faltava o intenso vento, do contra, como viria a ser sempre nos próximos dias…

Palala, à saída de Tupiza

E Sillar…



Pedalando o mais devagar que o equilíbrio permitia, caminhando de dentes cerrados e tronco curvado, quase a comer o guiador da Dempster, maldizendo o vento ou chacoteando-o provocadoramente, cheguei a meio da subida e “almocei”. Recordo a foto que tirei à bicicleta, com as bandeiras do Peru e Bolívia em louco e desorientado turbilhão, como se fossem rasgar-se a qualquer momento.
Ao fim de 25 quilómetros, cantava vitória no topo da subida e iniciava uma descida que me levaria a passar pelo primeiro povoado fantasma… Ao fim de 36 quilómetros deixei para trás nova subida, curta mas grossa. Cada subida que surgia, mesmo quando o desnível parecia suave, tornava-se um pesadelo com o piso de pedra solta e principalmente o vento, pouco menos que ciclónico. Por isso, subir a pé com a bicicleta à mão, rapidamente passou a ser a única opção.

Almoço ao vento…

Logo após esta segunda subida do dia, surge a primeira bifurcação da estrada, a única placa de sinalização e… o primeiro erro de navegação. A placa falava de “Nazarenito”, San Vicente e Cocani. Pelas instruções que percebi (mal, por certo) dos condutores da Tupiza Tours, deveria seguir em frente e foi o que fiz, erradamente. A descida era apetitosa e, apesar do mau piso, conseguia rolar a doze e mais kms/h. Até que, dez quilómetros adiante, já a tocar o fim da descida, vem uma carrinha em sentido contrário, que mando parar para pedir informações sobre a rota. Estou no mau caminho. Para Cerrilhos tenho de voltar atrás, não necessariamente pelo mesmo caminho, mas por um desvio está mesmo ali a 100 metros e desembocará num “cruce”, onde terei de seguir a via da esquerda… nem queria acreditar…entardecia depressa e arrefecia à mesma velocidade, estava encravado no meio de montes e vales, com o vento, cada vez mais forte, lançando areia pelo ar e pelos olhos e só me restava voltar para trás, subindo…

Aldeia fantasma

Decidi aproveitar mais uma hora de luz e fazer alguns quilómetros em busca do incerto rumo certo. Tomei o desvio indicado e pedalei o que pude, mas a moral estava em baixo e o vento soprava-a ainda para mais longe de mim. Além do mais, não estava seguro da rota… o que parecia ser o leito de um rio seco atravessou-se no meu caminho, transpu-lo e, logo a seguir, havia uma grande falésia, que caía a pique sobre a estrada. Pareceu-me o sítio perfeito para fugir ao vento e retemperar as forças.

Campismo, no refúgio da falésia

Montei a tenda e contentei-me com duas sandes e o resto de um litro de água – a ração máxima que defini por “dia de crise”, ou seja, os dias em que não conseguisse atestar os 3,5 litros com que parti. Fazia “contas à vida” quando me pareceu viver uma alucinação: escutava o ruído de um carro aproximar-se!? Salto, descalço, da tenda, mesmo a tempo de fazer para uma carrinha que passava, vinda do “rio seco”. Confirmaram que aquela era a estrada correcta a seguir, que existia o tal cruzamento a “15 minutos de carro” e que deveria virar à esquerda para Cerrillos… e dormi muito bem, repousando sobre a certeza que pelo menos estava na rota certa.

Companheiros vigilantes

Antes do sol sair do seu preguiçoso sono, já eu pedalava, enregelado, pelo descampado à procura do “cruce”. Surgiu pouco depois, com uma qualquer informação sobre a próxima comunidade de Pajchi. Pela manhã há menos vento, mais energia, o céu é mais azul, as cores mais cálidas e pedala-se com mais ânimo. E foi animado, ainda que lentamente, que fui calcorreando os quilómetros de caminho. Quando surgiu nova bifurcação na estrada, uma apontando à esquerda, a San Pablo, e a outra para a direita, para San Vicente. Mais uma vez ia seguir a da esquerda, mas em boa hora apareceu um improvável jipe, cujo condutor me orientou para a direita. Teria de subir todo o vale, explicou, e no cimo há outro “cruce”: o da direita vai para San Vicente e o da esquerda é que segue para Cerrilhos, embora não apareça referido.
Só que a subida é interminável, acentuada e com as características do costume. Consumiu-me um bom par de horas, muitas energias e apenas a meio da tarde atingi o cume anunciado. Tomei a estrada da esquerda mas ao fim de talvez um quilómetro havia nova bifurcação: Candelária para a esquerda e um qualquer nome que não fazia parte do meu léxico, para a direita. De Cerrillos, nada … continuei, hesitante, pela esquerda e quinhentos metros adiante o caminho é cortado por um rebanho de Llamas, desta vez com pastor!! Apesar de mal perceber o que o idoso homem dizia, por entre os lábios verdes e a bochecha inchada de folha de coca, foi inequívoco e insistente que Cerrillos era pelo outro caminho. Lá regressei atrás e pedalei pelo planalto infindo, sem vislumbrar Cerrilhos por perto, que no meu mapa deveria distar escassa meia dúzia de quilómetros do cruzamento que deixara há cerca de 15 kms… De uma casa distante do caminho, brotava uma pequena nuvem de fumo e o meu olhar não conseguiu mais desprender-se daquela espiral suave. Pus os pés ao ténue caminho e rumei decidido ao casebre. Pareceu-me que, há medida que me aproximava, o fumo ia diminuindo e, quando cheguei, tinha-se extinto por completo, pois resultava do pequeno tufo de uma estranha planta que utilizam como combustível. Rodeei a casa com ar abandonado, deparei-me com todas as portas fechadas e sem vivalma. Ainda pensei forçar uma frágil porta para me abrigar no interior, mas dei mais uma volta e descobri uma pequena divisão com ar de “cozinha”, com uma esteira e várias peles de lã de ovelha por cima, a última das quais ainda raiada de sangue. Num arame ao lado, estava pendurado o resto de uma cabeça e garganta de ovelha, ainda com gotas de sangue a escorrer. Definitivamente também não iria ser aquela a minha cama…

O sol tarda em descongelar a tenda…

Procurei o abrigo de duas paredes, montei a tenda e cozinhei a dose de massa com o resto do segundo litro de água…desta vez iria dormir com a inquietação de não saber se estava na rota certa e onde estaria Cerrillos…
O interior da tenda repousava na escuridão da madrugada, ainda noite, quando os meus ouvidos despertaram com a ilusão de um ténue som musical… acordei de mansinho, incrédulo com a alucinação auditiva e, duvidando da minha sanidade, procurei readormecer. Mas ou a loucura aumentava dentro da tenda, ou o som crescia lá fora. E poucos segundos depois o som era perfeitamente audível, ainda que não muito nítido, parecendo estar muito próximo da tenda. Levantei-me, abri a porta interior e espreitei, de esguelha, pela pequena janela da “parede” exterior da tenda. Especado a menos de um metro, estava um homem totalmente enroupado, só se vislumbrando os olhos castanhos. Debaixo do braço transportava o roufenho rádio, de onde brotava um ruído musical. Abri a tenda, estiquei o pescoço e dei-lhe os bons dias. Ele olhava em redor, com ar curioso, para os meus apetrechos. Pelo meu lado, fui explicando que estava a caminho de Cerrilhos, o dia chegou ao fim e, como necessitava de um abrigo, decidi montar ali a tenda. Ele acrescentou que morava perto, por detrás daquele pequeno cerro, indo a caminho de casa… Antes de desaparecer e me devolver o silêncio da manhã, acrescentou, fazendo um gesto largo com o braço livre, que Cerrilhos era logo adiante, podendo seguir por aquele caminho. Despedimo-nos e a música foi-se diluindo na distância dos passos, que se afastavam.
Fiquei uns minutos a matutar naquele encontro irreal… Na profundeza do deserto, no centro do nada, num casebre totalmente fechado e abandonado, mas onde uma pele de ovelha, a respectiva cabeça e garganta, ainda gotejam sangue fresco, a música difusa de um rádio a pilhas entra de mansinho pela tenda, quebrando a penumbra da madrugada ainda escura. De onde vem e para onde vai aquele homem, invisível no gelo do alvorecer? Apareceu apenas para me dizer que Cerrilhos “é já ali”, atrás do cerro e que posso seguir “por aquele caminho”…
Resguardei a tenda do vento, mas também dos primeiros raios de sol da manhã gélida, e não havia maneira da película de gelo que envolvia a protecção exterior, se dissolver. Congelada ou não, arrumei a tralha e regressei à estrada, seguindo o caminho sugerido pelo meu interlocutor matinal. Afinal era apenas um pequeno atalho que ia dos casebres ao caminho principal, distando escassas centenas de metros. Talvez nem um quilómetro decorrido e deparei-me com a primeira bifurcação do dia, com ambos os percursos equivalentemente transitados… qual tomar? O da direita parecia ir demasiado para norte e o meu rumo era tendencialmente oeste, pelo que prossegui à esquerda. Mais dois quilómetros e novo “cruce”, de novo sem supremacia de qualquer dos dois trilhos. Desta vez já era lotaria a mais e parei, completamente indeciso. Esperava que aparecesse alguma estrela, ou um passarinho que me soprasse a direcção correcta, mas nem uma coisa, nem outra… não se avistava qualquer sinal de vida em redor, apesar do desafogo da paisagem e da ampla vista pelo planalto… E ali estava, suspenso do acaso, quando ouvi um galo cantar! Um galo, não havia dúvida! E se havia galo, deveria haver “capoeira” e talvez pessoas. Mas onde…? O som pareceu-me vir da direita…procurei um encosto para a Demsper e comecei a explorar o pequeno vale cavado que se estendia á direita da estrada. Umas centenas de metros abaixo, escondido na encosta, uma casa e vários cercados pareciam albergar vida, pois, mesmo à distância, vislumbrei movimento de gente. Calcorreei a encosta arenosa e fui-me aproximando da casa, onde uma crescente “multidão” se iam juntando, olhando fixamente na minha direcção. Pelo menos três gerações de pessoas, onde abundavam as crianças, estavam concentradas no largo frente a um edifício. Cumprimentei e expliquei que queria ir para Cerrilhos mas não fazia ideia qual o caminho a seguir. O “homem” da família ergueu a voz tranquila e disse-me que tinha de voltar para trás e tomar o caminho da esquerda, pela planície. Confirmei se era o caminho antes da casa abandonada que estava lá atrás, à esquerda da estrada, e conformou que sim, acrescentando que Cerrilhos devia distar uns dez quilómetros. Agradeci e regressei à companhia da Dempster. Se as coisas não estavam a correr mal, a verdade é que, em dois dias, já tinha cometido dois erros de navegação, não muito graves porque, felizmente, havia alguém por perto que me relançou no caminho certo. Caso contrário não sei onde estaria a esta hora… e isso preocupava-me, pois não tinha “folga”, principalmente de água, para erros excessivos.

Companhia, pedalando na areia

Volvidos três quilómetros atrás, tomei a estrada certa e prossegui pela planície ainda fria. Mas não tardou muito que novo entroncamento surgisse no meu caminho. Desta vez acho que tomaria a decisão correcta mas esperei por um fantasma que pedalava pelo meio do descampado, na minha direcção. À medida que o fantasma de aproximava e as suas formas ganhavam definição, fui ficando com a impressão de conhecer aquele perfil. E quando se deteve à minha frente e levantou o olhar, vi os mesmos olhos da madrugada: faltava o rádio, sobrava a bicicleta. Perguntei-lhe qual o caminho para Cerrilhos e confirmou ser o da esquerda e à pergunta se tinha sido ele que apareceu de madrugada junto à minha tenda, sorriu e acenou que sim. Foi-se embora e eu pedalei em busca dos inalcançáveis Cerrilhos, à distância de poucos quilómetros mas muita areia…

Cerrilhos

Cerrilhos surge frente a um morro esbranquiçado. O pequeno aglomerado de casas, de adobe vermelho e cobertura de colmo, funde-se no solo arenoso, também ele avermelhado. Há uma tienda onde comprar bebida, diz-me um ancião especado na praça da aldeia. Afinal a tienda vende bolachas e refrescos mas não água mineral – na aldeia ninguém tem água mineral, e esta é a única “tienda”. Começo por comprar vários pacotes de bolachas e uma garrafa de dois litros de sumo com um colorido “apelativo”.
Sento-me na prancha de madeira, frente ao muro ensolarado, e começo a devorar bolachas e sumo, no intervalo do interrogatório que os dois jovens irmãos me vão fazendo. Mas eu estou preocupado com a água… como fazer sem água? É verdade que ainda tenho um litro, mas não posso arriscar continuar sem mais alguma. Pergunto-lhes se não bebem água e dizem-me que bebem refresco. Insisto se nunca bebem água e lá dizem que sim, mas fervida. Pego na deixa e digo-lhes que era isso que eu queria, água fervida. Então o mais velho dos dois irmãos ausenta-se dizendo que vai ferver água para mim. Ao fim de uma longa espera, surge com uma enorme chaleira cheia de água quente – que espero tenha fervido uns minutos… Claro que está demasiado quente para verter nas garrafas de água e tenho de esperar mais um pouco, para que arrefeça.

Amigos em Cerrilhos

Depósitos cheios de água fervida, dois litros de sumo e uns pacotes de bolachas no estômago e regresso à estrada, em busca de Polulos e Rio San Pablo.
É doloroso pedalar por este miserável caminho repleto de areia, muitas vezes completamente intransponível pedalando e dificilmente ultrapassável mesmo a empurrar a Dempster. O pequeno rio parece grande e a dúvida sobre a rota mais uma vez se instala. Mas um invisual, com quem me cruzei há umas centenas de metros, surge providencial. Confirma que tenho de cruzar o rio e é só seguir o caminho mais trilhado até Polulos – é impressionante a clareza e firmeza com que fala da estrada… Até Polulos, Rio San Pablo e San António de Lipez, onde só chegarei um dia depois, o maior inimigo foi a abundante areia que invade o caminho tendencialmente plano… para alem das pernas e do corpo, dói ver, ouvir e sentir as ínfimas partículas de areia infiltradas nas “articulações” da Dempster, que range, geme, lamenta-se, mas lá vai resistindo estoicamente…

San António de Lipez e o Cerro Lipez

Cheguei, finalmente, a San António de Lipez. Finalmente, porque era uma referência no trajecto e, segundo os meus “amigos” condutores da Tupiza Tours, a partir daqui pelo menos não há que enganar em termos de caminho, uma vez que “todos” os tours passam por cá e seguem invariavelmente a mesma rota até à laguna verde.
Talvez esperasse uma “cidade” turística no meio do deserto, mas o que se me deparou defronte do cerro de Lipez, foi uma pequena aldeia composta por duas fileiras de casas ladeando a estrada. Não havia qualquer sinalização de hostal, hospedagem ou coisa do género e dirigi-me ao primeiro edifício com “ar suspeito” – pelo painel solar e tambor de água que se erguiam acima do telhado. A antipática proprietária disse-me, peremptória e com ar enfastiado, que só recebia “grupos”. Insisti se não havia qualquer hipótese de ali pernoitar, pois apesar de pouco passar da 1 hora, o próximo pueblo era inalcançável. Despachou-me dizendo para tentar na próxima rua à esquerda, talvez aí houvesse alojamento.
Na próxima rua à esquerda, num pequeno largo, o jovem Alexander e a respectiva esposa exploravam três quartos em “banda” e uma casa de banho no topo, vivendo em frente com o casal de miúdos. Os três quartos estavam livres e já se via que este não tinha dimensão nem acordo com os “grupos” das agências de viagens, que partiam de Tupiza e aqui – ou em Quetena Chico – pernoitavam na primeira noite. Alertaram-me que não havia duche nem comida, mas devem ter-se condoído do meu ar “miserável” e acabaram por me preparar não só um excelente almoço, com a melhor sopa dos últimos meses, mas também o jantar e pequeno-almoço no dia seguinte… e tudo servido no quentinho da cozinha, a um escasso metro do fogão a lenha.
Repousava e escrevinhava qualquer coisa para o diário, quando ouvi um estranho diálogo no largo do “meu condomínio”. Alguém tentava falar em espanhol com o Alexander, mas articulava poucas palavras, num sotaque e fonética completamente incompreensíveis… apurava o ouvido quando o Alex bateu à porta a pedir ajuda. Lá fora, um matulão de pelo menos um metro e noventa, a rondar os sessenta anos e equipado com roupa de motociclista, parecia perdido no mundo. O Anthony – assim se chamava o neozelandês, que partira de Santiago do Chile há pouco mais de um mês – procurava ajuda. No seu horrendo sotaque neozelandês, como, aliás, o dos vários compatriotas que já conheci nesta viagem, percebi que a mulher se sentiu mal quarenta quilómetros depois de Quetena Chico, onde ficou, enquanto ele vinha em busca de ajuda. O plano do Antony era simples: deixava a mota dele ali, regressava junto da mulher de jipe, que a traria para San Antonio para repousar, e ele acamparia junto à mota da mulher, regressando com ela no dia seguinte a San Antonio. Não estava a perceber a lógica de acampar e só vir no dia seguinte e receava não estar compreender bem o inglês dele… mas afinal a explicação era simples: não queria conduzir de noite “por aquele caminho diabólico”.
Exposto o problema ao Alex, não tardou que o jipe fosse atestado com o resto da gasolina que tinha e nos puséssemos à estrada. Sim, eu fui com eles, não apenas como “tradutor”, mas aproveitando para “estudar” o “diabólico caminho” que me esperava no dia seguinte… Não sei se classifique de bom ou mau o memento em que me voluntariei para acompanhá-los. À medida que avançávamos, o caminho tornava-se aterrador… já não era só a longa subida que passava em frente ao Cerro de Lipez, para descer pelo meio da “aldeia fantasma”, a aldeia abandonada aquando do fecho da mina que, garantia o Alex, foi explorada deste o tempo dos espanhóis, tendo sido uma das mais ricas da Bolívia e da América do Sul, era o piso horrendo, de pedras e calhaus soltos, eram os sucessivos ribeiros absolutamente gelados e que teriam de ser passados a vau, claro está. Na verdade, toda a zona tinha um ar fantasmagórico, desolador, quase assustador, mesmo não dando crédito às fábulas que o Alex ia contando sobre o local… que no tempo da exploração mineira, há séculos, o diabo, atraído pela riqueza da mina, frequentava e atormentava a região; seduziram-no com grande quantidade de ouro e prata, apanharam-no e amarraram-no, mesmo no topo do Cerro de Lipez. Mas ao fim de algum tempo conseguiu soltar-se e fugiu … para Chuquicamata, a maior mina à época, localizada no Chile. E agora, afirma, está em San Cristobal, escassa centena de quilómetros a norte, perto de Uyuni, por sinal uma pujante exploração mineira… E o Alex, com ar sério e voz pausada, vai esclarecendo que todas as noites horríveis gritos humanos ecoam pelo cerro, galos cantam, homens, mulheres e crianças choram, apesar de ninguém viver vários quilómetros em redor. A zona está assombrada, os fantasmas saem das tumbas e a aldeia fantasma ganha um clarão todas as noites… não confirma ter visto ou ouvido, mas muitas pessoas da aldeia, incluindo o pai, “já viram com os próprios olhos e ouviram”. Hoje, ninguém passa por lá entre as onze da noite e o amanhecer…

O gelo é só mais um desagradável obstáculo…

O jipe move-se devagar, intercalando lentas mudanças “altas” com frequentes “baixas”, para enfrentar a combinação do declive e o piso. Faço algumas perguntas ao Anthony, respondendo-me que a mulher está exausta e doente, depois da violência da semana que levam na Bolívia. Passaram a fronteira de San Pedro de Atacama para a laguna verde, no dia a seguir ao nevão, com -4,5º durante o dia e “nem sabe quantos” à noite, com o piso semelhante àquele por onde estamos a passar, incontáveis rios gelados e, por vezes, mesmo congelados, com a mota a derrapar e cair no meio da água e, para culminar com a “doença da montanha”…não tem nenhum plano para sair daquela situação, mas não pensa conduzir a moto até Tupiza…

Chamam-lhe Estanza (quinta…). Eu chamar-lhe-ia degredo

Adiante de nós, em sentido contrário, vem um jipe, que pára, metade na estrada, metade na encosta. Afinal não é para passarmos…de dentro sai o condutor, o “ajudante” e uma mulher enorme, de cabelos grisalhos, pele alva e olhos azuis mortiços: é a mulher do Anthony. Os jovens da Natural Adventure regressavam “vazios” de San Pedro, onde deixaram um grupo. Ao depararem-se com aquela extraterrestre no meio de nada, ao frio e com ar adoentando, deram-lhe boleia, trazendo-a ao nosso encontro.
O plano do Anthony alterou-se e regressámos todos a San Juan. Amanhã logo se veria… Eu é que estava completamente transtornado, para não dizer assustado, com aqueles mais de vinte quilómetros de estrada. E, dizia o Alex, pelo menos até à laguna Morejon era igual ou pior… Então perpassou-me fugazmente pela cabeça a ideia de regressar com aqueles dois tipos a Tupiza e continuar para sul, directamente para a Argentina. Que se danasse Atacama e as suas rosas, seguramente murchas… os dias anteriores, os quilómetros anteriores e a projecção dos dias seguintes, até à Laguna Verde, pareciam superiores às minhas forças e determinação… Entrei no jipe da Natural Adventure e viemos conversando animadamente até San Antonio, chegando mesmo a combinar que lhes daria 100 ou 150 bolivianos pela viagem de regresso a Tupiza. Mas à medida que me aproximava de San António, sentia mais dificuldade em me convencer a “voltar para trás”. Para trás não é caminho… e San Pedro estava-me no coração “desde sempre”… ou pelo menos desde “As Rosas de Atacama”. (Re)decidi ficar e continuar, custasse o que custasse… além do mais, no dia seguinte o Anthony tinha de ir buscar a mota da mulher. Antes apanhar uma boleia naqueles vinte e cinco quilómetros “de morte”, do que voltara a Tupiza…
A BMW 650, azul celeste, repousava a meio da encosta e de uma longa subida. O Alex prontificou-se a levar-me até ao topo da “danada” e entregar-me aí ao vento forte e á minha sorte. Despedimo-nos com afecto: ele regressava a casa; eu procuraria alcançar Quetena Chico ou, pelo menos, o Sol de la Mañana, a entrada do parque nacional Eduardo Avaroa.

Vicuñas, uma das poucas espécies que resiste e subsiste

A laguna Morejon não estava longe e só a areia solta no caminho me dificultava a vida. Mas depois da laguna surgiu um “longo dia” pela frente. Não recordo quantas subidas nem descidas, nem vento, nem areia, nem pedras, mas de tudo isso houve e com força. Recordo que tive de empurrar a puxar a Dempster com esforço e determinação. Recordo que cheguei a parar de 20 em 20 metros para respirar, descansar e poder atacar os 20 metros seguintes… mas o que mais intensamente recordo dessa longa tarde, foram os anunciados rios que tive de atravessar. Tive a veleidade de julgar puder atravessar o primeiro pedalando mas, escassos metros volvidos, evitei a queda in extremis, lançando os dois pés à água gelada. E já não secaram, nem aqueceram, até ao fim do dia…

Laguna Morejon

O "Sol de la Mañana" surgiu à distância, no descampado deserto, deveriam ser 4 horas. Segundo o funcionário “porteiro”, Quetena distava quinze quilómetros, com uma subida – no horizonte – e depois “pura bajada”. No mínimo necessitaria de uma hora e meia para percorrer a distância, o que significava chegar no limite do entardecer, mas achei que valia a pena arriscar, em vez de pedir para acampar ali… sempre teria cama e comida mais “elaborada”.
Ataquei a última subida do dia, tão dura como as anteriores, mas no topo as notícias não eram boas: não era “bajada” mas plano e, pior, o piso era miserável e, uma vez mais, repleto de areia… penei para transpor cada metro, para contornar a pequena elevação de onde partia uma descida acentuada para … um largo e “profundo” rio – o profundo aqui é sinónimo de “pelo joelho”. Dois tipos de motorizada estavam parados uns metros antes do rio e perguntei-lhes onde raio ficava Quetena. Responderam-me que teria apenas de contornar o pequeno planalto, ficando longo adiante; o problema era passar o rio, que tinha muita água e corrente… Descalcei-me (não sei para quê, pois ainda tinha o calçado molhado) e lancei-me de dentes cerrados à água cortante. Foi uma escassa dezena de metros que me pareceu um infindável quilómetro. Senti o corpo todo a “estalar”, como se tivesse mergulhado dos pés à cabeça no cubo de gelo. Os seixos, pedras e areia do fundo do rio, pareciam lâminas na planta dos pés e quando cruzei a água, não me sentia… sacudi os pés o melhor que consegui, calcei-me sem sentir o corpo e pedalei freneticamente ao longo do tal planalto, contornei-o e, ao mesmo tempo que avistava as escassas luzes da aldeia, já completamente na escuridão da noite, avistava um novo rio a escassas dezenas de metros. “Os homens não choram” e eu não fui excepção, pelo menos com lágrimas a correrem pela cara! iluminadas pela lua … nova. Mas devo ter estremecido e maldito aquele fim de dia, aquela aldeia que estava à distância de mais um rio de gelo – e este era mesmo de gelo, com flocos a flutuarem pela água. Nem pensei em me descalçar, procurei fugir ao trilho seguido pelos jipes e aflorei o rio numa zona que me pareceu mais estreita, com pedaços de terra intercalados com diversas linhas de água… esperava conseguir “saltitar” de um patamar para outro e evitar “grandes banhos”. Mas o erro foi de palmatória. A terra era lodo, a água era gelo que se quebrava à minha passagem, as rodas atolavam-se até a bicicleta ficar suspensa nos alforges e o atrelado totalmente bloqueado no lamaçal de gelo e terra, tal como as pernas, enterradas até aos joelhos. Houve um momento em que senti não ter forças que me permitissem sair dali, mas foi só um momento, uma fracção de segundo. Um safanão violento, desesperado, zangado, e arranquei aquele comboio encalhado do meio do lodo para a água, prosseguindo pelo leito do rio, sem sentir nada, como se pairasse momentaneamente acima da natureza. Transposto o rio, ainda faltavam uns bons dois quilómetros para atingir as luzes da aldeia. Pedalei o mais forte que podia, sentindo o corpo desmoronar-se e o frio paralisar-me, finalmente.
Quando entrei na aldeia e vi um jipe estacionado, onde me dirigi em busca de dormida e comida, tremia dos pés à cabeça. E quando a execrável mulher que me atendeu, disse só receber grupos, não sei se me apeteceu esmurrá-la se vomitar-lhe todo o desprezo que senti. Mas mandou o filho Tito indicar-me um local, na praça, onde talvez houvesse alojamento.
Corria com a bicicleta pela mão e o Tito ao meu lado, para tentar não congelar de vez e manter o sangue a circular. Não estava vivalma na “tal hospedagem” da praça e o Tito disse-me haver outra mais adiante, no fim da aldeia. Não sabia quão longe era o “fim da aldeia” e apetecia-me matar a mãe do miúdo, que não me acolheu nos seus alojamentos… continuámos a caminhar depressa, para chegar finalmente ao Hostal Quetena. A dona tinha um ar cínico e de agiota, mas tinha um quarto, embora horrendo, a única coisa que desejava naquele momento. Por entre choques eléctricos e água a oscilar entre o tépido e o frio, consegui tomar um duche mas não restituir vida aos pés… não admira, pois quando me descalcei, os ténis eram literalmente dois blocos de gelo.
Apesar da fome e do desgaste, não consegui comer a horrível “pasta” de arroz que acompanhava um ovo estrelado e uns fios de carne de llama. Mas restituí uns milímetros de vida aos pés, pois pedi para jantar na “cozinha”, junto ao (quase) frio fogão a lenha…
Nem duas horas depois de jantar e iniciei as visitas contínuas à casa de banho, na pior experiência de intoxicação alimentar que algumas vez pude imaginar… quatro noites e quatro dias contínuos…
Levantei-me exausto e mal avistei uma das “cozinheiras”, mostrei-lhe o meu desagrado pelo jantar estragado. Arrumei a tralha devagar e preparei-me para deixar aquele antro, custasse o que custasse. Quetena Grande distava uns dez quilómetros e pelo menos aí chegaria. Quando a agiota chegou e me pediu 100 bolivianos, ia perdendo a cabeça! Cem bolivianos por uma cama espeluncosa naquele fim do mundo e um jantar estragado! Disse-lhe que ela é que me deveria pagar pelo jantar estragado e que em local nenhum da Bolívia tinha pago tanto por um quarto e não pagaria o que me pedia. Ela olhava-me com aquele sorriso agiota de dente de ouro e eu fixava-a com ar sisudo, inflexível – estava decidido a não ceder, a não me deixar roubar. No fim do jogo, reduziu para sessenta bolivianos e pus-me a milhas daquele local de má memória…
O caminho até Quetena Grande éra plano e sem dificuldades de maior, por isso decidi continuar por mais uns quilómetros. Em má hora, pois daí a pouco deparei-me com dos piores sete quilómetros da minha vida: uma subida que nem vale a pena tentar descrever, apenas acrescentar que foi antecedida por um rio “largo” e horrivelmente gelado…

Laguna Hedionda Sur

Não sei como, não sei em quanto tempo, não imagino quantas terão sido as paragens, não concebo de onde retirei a energia, mas transpus os intermináveis sete quilómetros e ainda tive vontade e determinação para passar a laguna hedionda sur – a laguna hedionda norte, se a memória não me atraiçoa, é incomparavelmente mais bela, à vista de um vulcão e com aves pernaltas salpicando as águas paradas –, chegar à laguna Kollpa e acampar por lá perto – sem encanto nem entusiasmo, apesar da beleza etérea do local…

Laguna Kollpa

Da Laguna Kollpa extrai-se … kollpa!! Não sei exactamente o que é mas creio ser um qualquer mineral utilizado na indústria cerâmica… também pouco interessa. Nas margens da lagoa, moderados amontoados de kollpa e algumas dezenas de sacos cheios, denotam uma actividade pouco intensiva, basicamente levada a cabo pelos habitantes vizinhos de Quentena (grande e chica).
Toda a região é um misto de deserto, no sentido mais estrito do termo, vulcões e lagunas. É uma paisagem simultaneamente desoladora de morte, mas fascinante da sua singularidade, nas cores, nas formas, no silêncio, no vazio, na imensidão. É verdade que pedalar aqui, especialmente nas condições físicas (e, em consequência, mentais) em que o faço, não deixa muito espaço espiritual para o exercício de contemplação que o local proporciona, e a areia – o actual pior inimigo da bicicleta e do ciclista – amplia o esforço e a dureza da aventura, mas é impossível não sentir ao menos alguns rasgos de deslumbre neste cenário lunar… Ah, e o forte vento e intenso frio, são mais duas indesejáveis companhias.

Deserto de Chalviri

O deserto de Chalviri é mais uma extensão brutal que se estende à minha frente e que terei de circundar. É curioso, pois à distância parecia uma “pequena” mancha esbranquiçada, mas pedalo, pedalo e nada parece alterar-se… parece manter-se exactamente à mesma distância, apenas crescendo em tamanho. Apesar de discretamente, do maquinismo rudimentar, mais parecido com um estaleiro de ferro-velho, também os minérios do salar estão a ser explorados.
Finalmente deparo-me com o que julgo ser o cruzamento da “minha” estrada com a rota que vem do norte, pela laguna hedionda, a arból de piedra e a laguna colorada. Se assim for, daqui para a laguna verde será um trajecto que deverei reconhecer – mais tarde ou mais cedo, pois fi-lo há uma década de jipe…

Aguas Calientes


Não tardou muito – estes conceitos são relativos mas, para mim, uma hora ou duas significam “não tardar muito” – e surgiu nova lagoa no caminho. Não a recordo mas pouco interessa, menos recordo o pequeno “charco” de água quente, onde cinco jovens franceses, em biquíni, se divertem. Importante para mim é que a escassos metros há uma casa com um qualquer anexo, e a senhora que me recebeu disse-me amavelmente que poderia acampar onde quisesse, usar a casa de banho e mesmo a “piscina” de água quente, mas sem detergente!

Deserto de Dali

O deserto de Dali impressiona mais pelas caricatas rochas “plantadas” na suave paisagem de areia, do que pela dimensão. Dizem os “guias” que aquelas singulares rochas isoladas, que parecem ter brotado do deserto, como cactos, terão sido “cuspidas” pelo vulcão vizinho. Seja como for, é uma visão surreal, o conjunto de monólitos gigantes que salpicam o deserto arenoso, como se tivessem sido ali colocados cuidadosamente.
Primeiro avista-se o Licancabur, nos seus 5916 metros, depois a extensa laguna blanca e a cordilheira que a rodeia, finalmente, no sopé do Licancabur, surge a famosa laguna verde, menos verde do que a recordo. Parece que a cor verde lhe advém não apenas da composição química das águas mas também da exposição simultânea ao vento e ao sol. Quanto ao sol, não sei se será constante, mas vento seguramente não lhe faltará, como atestam as pequenas ondas e a espuma branca que esvoaça em grandes flocos de algodão.
Derreado e congelado, apesar do sol, só tenho olhos para a hospedagem que se vislumbra lá longe, do outro lado da laguna blanca. Apesar do ar acolhedor, não tem água “corrente”, usando-se o universal sistema do balde, nem duche, muito menos água quente; não tem menu, mas serve chá com bolachas de água e sal, manteiga e doce, o que deve ser adequado para o meu ainda débil aparelho digestivo! Acima de tudo o “dormitório” é de luxo, com cama e roupa decente; a temperatura interior, paradisíaca, quando comparada com o frio que reina lá fora; o vento ciclónico não transpõe a terceira porta de acesso à zona dos dormitórios. Ah, e o preço são razoáveis 40 bolivianos…não 100!!

Laguna Verde e vulcão Licancabur





Laguna Blanca e arredores









Acordei bastante melhor que nos últimos dias e soube-me bem sair para a manhã fria, caminhar na quietude do novo dia recém-nascido, passear o olhar pela luz diáfana que repousa sobre o vale rodeado de picos e encostas brancas de neve, sentir o gelo estalar sob os pés. Fui caminhando erraticamente à beira da congelada laguna blanca e quando dei por mim, transpirava à chegada à laguna verde. Esperava uma visão idílica com a luz da manhã mas desiludi-me novamente. Definitivamente a laguna verde e o seu protector Licancabur não corresponderam às expectativas…
Regressar à hospedagem requereria mais de uma hora de marcha e não me estava a apetecer calcorrear de novo o trilho a pé. Os jipes começavam a fazer a sua aparição matinal, com paragem cirúrgica no miradouro próximo. Todos ficavam mais ou menos o mesmo tempo, uns regressavam pelo mesmo caminho, mas outros seguiam para a fronteira chilena, passando na pousada. Apanhei boleia do primeiro, por sinal com um jovem “patrício” brasileiro.

A caminho da fronteira



Até à fronteira boliviana cumpriram-se os seis quilómetros anunciados, pela estrada de terra ladeada da neve do recente nevão. Mas depois do visto no remoto posto fronteiriço, nunca mais surgia a prometida estrada de asfalto, sempre a descer até San Pedro de Atacama.

Pela fresca

O frio era mais e mais intenso, o piso, apesar de se poder considerar de luxo comparativamente às últimas semanas, ganhava uma fina – por vezes não tanto – camada de gelo ou neve e a progressão era lenta e árdua. Talvez o pior tenham sido mesmo as expectativas… e quando vislumbrei a verdadeira estrada de asfalto e a real descida, quase me esqueci do frio que me tolhia por completo o corpo, literalmente dos pés à cabeça… para trás ficava a etapa mais árdua da viagem… so far.

Mais uma fronteira…