segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

De Puerto Vallarta a Acapulco

De Puerto Vallarta a Acapulco

Este texto não inaugura um novo "estilo", é apenas fruto da apatação as circunstâncias - um trajecto em que partilhei a viagem com o Brian, um "certo" atrazo na escrita, maior apelo por parte das cidades e, por isso menos tempo diário para escrever...

Quando me fui despedir da Nena, conversava animadamente com o Marcos e a Jamona, sentados em confortáveis cadeirões no pátio do hotel Jasmim. O Marcos e a Jamona não escondiam a curiosidade que a bicicleta e a tralha lhes despertavam, mas a timidez impediam-nos de me fazerem perguntas. Cochichavam, gesticulavam, olhavam, até que a Nena, com o que já sabia da nossa conversa do dia anterior, mais a sua imaginação e aproveitando pouca coisa do que eu ia dizendo, fazia enfaticamente o resumo para os outros dois. No fim vira-se para mim com a habitual serenidade, e remata: quando concluíres esta viagem, já podes morrer porque já cumpriste o teu sonho. Não me quis alongar no tema, e assenti…mas senti, mais uma vez, que as pessoas com quem falo atribuem uma dimensão e importância a esta viagem muito maior que eu próprio.

A saída sul de Puerto Vallarta presenteia-nos com vistas soberbas, em que a frondosa floresta tropical mergulha nas águas verdes do pacífico. A estrada é acidentada, contorcendo-se constantemente para transpor a montanha escarpada. A construção é predominantemente discreta, submersa na própria floresta, e de luxo. Mas também há condomínios em prédios de grandes dimensões. O restaurante “El Set” tem amplas portas abertas para o mar, onde assenta os pés. O grande terraço, deserto a esta hora, emana uma tranquilidade e calma paralisantes, com a melhor vista que Puerto Vallarta pode oferecer…Manuel, o responsável, diz que não se importava de aqui trabalhar de borla, só pelo prazer…

Puerto Vallarta - El Set

Puerto Vallarta - El Set



As casas vão rareando cada vez mais mas, em contrapartida, surgem em localizações incríveis, isoladas no meio da floresta ou empoleiradas em ravinas sobre o mar, sem que se perceba por onde se lhes acede…

Nogalito

Em Mismaloya a estrada despede-se do oceano e abraça a Sierra Madre del Sur, seguindo pela margem de um pequeno rio. Ali perto, algures na outra margem, encontrou John Huston o seu paraíso…

Puerto Vallarta - Mismaloya

A estrada vai de encontro à montanha, sem que se perceba como se desenvencilhará dela... Não se adivinha qual a porta de saída. Sempre a subir, sempre nas imediações do rio, sempre na sombra da vegetação frondosa, sempre sob o verde tropical, sempre sob o chilrear estridente dos pássaros que esvoaçam, sem que os consiga avistar. Cumbres e Veranos é apenas uma terriola onde matar a sede, comer uma deliciosa tarte de queijo e sorver uma taça de frutos na única mercearia…O Brian fica-se pela coca-cola e a sua sanduíche de manteiga de amendoim e doce de quaqluercoisa…


De El Tuito a Tomatlan

Depois de muito subir, a estrada leva-nos velozmente até El Tuito. Há uma vintena de quilómetros, um placard na berma da estrada anunciava o Hotel Tuito e quando chegámos ao pequeno povoado, procurámo-lo. No fim de uma rua suja, lá estava o edifício amarelo, algo discreto para quem se fazia anunciar a 20 quilómetros de distância. Depois de insistir na campainha, apareceu ao postigo um jovem franzino. Disse-lhe que procurávamos um quarto para pernoitar e, excepcionalmente, fui ver o quarto antes de perguntar o preço…apanhei um choque e não sei como me contive sem me atirar para o chão a rir às gargalhadas… o quarto era uma suite que ocupava praticamente todo o primeiro andar da casa, tudo cor-de-rosa, branco e dourado, cheio de folhos, rendas e fitas, uma enorme cama de dossel, mesas, cadeiras, poltronas, pufos espelhos no tecto, nas paredes, … tudo cor-de-rosa, tudo dourado…
Ainda perguntei ao orgulhoso empregado (?) se não tinha um quarto normal, mas respondeu-me que era o único e se não queria saber o preço. Lá lhe expliquei que não era o que estava à procura, mas insistiu em dizer o preço: 1100 pesos a noite…

De El Tuito a Tomatlan

Em Punta Perula a estrada 200 beija de novo o pacífico. Os povoados que a ladeiam são ralos e de muito pequena dimensão. Alguns têm modestos hotéis, raramente com ar condicionado, água quente ou internet – luxos que dispenso. Apesar da proximidade do mar, de algumas praias que se vislumbram e outras que se anunciam, creio que seremos os únicos “turistas” a percorrer estas paragens remotas, tomando refrescos em “miscelaneas” onde o pó esconde as letras das embalagens, sorvendo leite que, afinal, já é quase queijo azedo, a que não deve ser alheio as semanas decorridas para além do prazo de validade. Os tacos continuam a ser o único valor seguro...
Com o Brian sempre à frente, os kms passam depressa, demasiado depressa… Na reserva de la biosfera Chamela Cuitzmala, a vegetação é ainda mais densa, mais verde, mais sumptuosa, formando um longo e fresco túnel ao longo da estrada.


Juan Perez - a pobreza e montonia das aldeias, por vezes choca com csas de "luxo"


Cor em Melaque

Playa del Oro parece ser um nome demasiado pretensioso. Na verdade não é mais que uma longa língua de areal, com os restaurantes, bares, chapéus-de-sol e espreguiçadeiras a estenderem-se até à água. A clientela não parece ser muita e os empregados disputam cada potencial cliente, de ementa em riste. O destino hoje é Manzanillo e nem abrandamos o passo.
A estrada de acesso a Manzanillo é um estaleiro. O trânsito caótico. Não se percebe por onde circula cada sentido, quantas faixas existem, se há passeios ou semáforos. Mas o pior é o piso…parece-me que a qualquer momento a bicicleta pode desmembrar-se, uma peça para cada lado…de repente, inexplicavelmente, o trânsito desapareceu e ficámos sós, no meio do estaleiro. Afinal a estrada não tem saída…está explicado.
O hotel em que pernoitamos é longe do centro da cidade. Apesar de haver restaurantes nas imediações, decido apanhar um autocarro e ir jantar à cidade. O Brian, algo a contragosto, acompanha-me. Viajar num autocarro local, com pessoas reais a viverem a vida real, era algo que desejava fazer desde que entrei no México, mas que ainda não se tinha proporcionado. Sinto a adrenalina da condução, caótica e de alto risco para os padrões ocidentais; as ultrapassagens pela esquerda ou pela direita, consoante o espaço disponível; as travagens e acelerações bruscas; as buzinas incansáveis, seja de dia ou de noite. Entra um jovem de viola a tiracolo e começa a entoar uma cantiga em tons suaves. Apesar do meu espanhol ser de improviso, percebo facilmente que tem cariz religioso. A próxima melodia também é religiosa e a seguinte também. No fim solta algumas frases invocando Deus e princípios bíblicos para apelar à solidariedade. Consegue mais moedas do que imaginei…
A zona do porto é particularmente escura, suja e feia. Por seu lado, o centro é inconfundível, com os passeios e jardins repletos de gente, especialmente jovens; com pequenas bancas ambulantes, de comidas, bebidas, frutas, doces; com as luzes fortes e musica ruidosa que brota de todas as portas comerciais; com as cores improváveis das pequenas lojas de roupa, calçado e bugigangas várias.
Ao longo da rua principal estende-se um conjunto de edifícios baixos, pintados de branco, com amplas janelas e grandes arcadas que formam um passeio largo. Numa esquina, um mexicano abraça carinhosamente a viola. Com voz forte e timbrada, lança sentidas melodias ao vento enquanto jantamos.

Antes de deixar Manzanillo, passo a manhã na bicicleteria Norco. Como tenho mais um raio partido, o aro já sofreu bastante e o pneu não aguenta muito mais, decido fazer uma reparação a sério, a ver se fico tranquilo durante uns milhares de quilómetros. Para alem de um aro novo e respectivos raios, substituo o pneu e acabo por ter de colocar um cabo de travão novo, a respectiva bicha e mais um qualquer acessório...



Manzanillo – Norco bike shop, bicicletas equipadas a sério…

Cruzamos Manzanillo ao som de fanfarras, escolas de alunos, militares e população em trajes domingueiros, num desfile ruidoso e colorido: comemoram-se os 100 anos do início da revolução. Tierra y Libertad, foi o seu lema; Madero, Villa, Carranza e Zapata os seus rostos maiores...

Manzanillo

Até Tecomán a estrada desliza veloz por entre coqueirais intermináveis, de palmeiras longilíneas, encimadas por abundantes cachos de cocos e poiso de colónias de elegantes garças, que esvoaçam, assustadas, à passagem de tão estranhas criaturas.

A caminho de Tecomán, com os coqueiros por companhia

E como em Roma… decidimos provar os cocos frios, a dez pesos cada. Não são uma iguaria imperdível – prefiro-os bem regados com rum… – mas o sabor leve do “leite” bem frio, tonifica a garganta seca do calor.

Tecomán – Cocos frios, a especialidade mais anunciada

Ainda não me tinha deparado com hotéis de tarifa horária, pelo que fiquei um pouco incrédulo quando a rapariga da recepção, do outro lado do guichet minúsculo, na parede de cimento, me disse que, como eram quatro da tarde, tinha de deixar o hotel às quatro da manhã, ou então pagar horas extra! Hotéis com tarifa horária e televisão com dois canais – um, o “canal das estrelas”, o outro, está na legenda…– só depois percebi a quem se destinavam! As seis da manhã, quando o Braian, na sua rotina habitual, se levantou e saiu do quarto, uma moça de shorts bem shorts deixo-lhe a chave do quarto, pedindo-lhe para entregar na recepção, momentaneamente fechada...

Tecomán - hotel "red style"

O Francisco, franzino, ar tímido e voz trémula, apareceu no restaurante onde jantávamos a vender copos de arroz doce. Fizemos negócio sem regatear o preço…afinal fui o único cliente.

Tecomán - Francisco, vendedor de arroz doce

Em Tecomán, os preparativos para festejar a revolução começaram com o nascer do dia. A longa avenida principal já estava vedada ao trânsito e centenas de jovens em idade escolar, agrupados em trajes coloridos, alinhavam para os últimos ensaios. Famílias inteiras iam-se instalando no passeio, com bancos, cadeiras, mesas e comida, sob o olhar atento de Zapata: Tierra e Libertad.

Tecomán - Centenário da revoluçäo

Em Tecomán vi a primeira igreja que me pareceu ter sentido…

…sem portas nem janelas

Depois de Cerro de Ortega, os povoados são mais raros que nunca, mas surgem alguns placards na estrada indicando complexos ecoturísticos junto ao mar. Como o dia ia longo e o mapa não mostrava alternativas, optámos por El Faro de Bucerias, uma baía de águas calmas, ladeada por um conjunto de pequenos complexos turísticos, com restaurante, “cabanas”, área para acampar e albergue/camaratas. O preço era tão baixo e a tranquilidade que se respirava tão absoluta, que decidi ficar um dia a saborear…


Alvíceras!!


El Faro de Bucerias



A caminho de Pichilingüi, a estrada prega-nos algumas partidas, com subidas longas sob o sol escaldante e a humidade tropical. Mas também nos presenteia com bonitos jogos de cor, luz e sombra, em locais improváveis, onde a pobreza e as carências parecem fazer parte da “ordem natural”…





De El Faro a Tizupan

Para desespero do Brian, depois de descermos o íngreme caminho que nos levou à praia de Pichilingüi, eu decidi que acampava ali, mesmo sem net, sem rede móvel, com uma mangueira de água atrás de um muro para tomar duche… a pequena comunidade piscatoria, o pequeno areal, a luz do entardecer, o mar azul, tudo encravado entre duas paredes rochosas, davam-lhe um ar tão tranquilo e recatado que eu já não arredava pé.

Pichilingüi

Enquanto o Brian procurava uma ligação à net em Guagua, uma aldeia ainda adormecida e que nem um telefone devia ter, eu relaxava com algumas singularidades coloridas que ia descobrindo…





Guagua

De todas as árvores de fruto que consigo identificar, as papaieiras são as que mais me impressionam, não só por adorar o fruto, mas pela abundância de papaias numa planta tão pequena.

Guagua - Papaeiras

As ementas dos restaurantes à beira da estrada, praticamente só incluem peixe e marisco, ou não estivéssemos em cima do pacífico. Não são de borla, mas para a qualidade, os preços são moderados. Com o calor lá fora à espera, este prato misto de camarão e tiras de peixe marinadas, devolveu-me a alma.

Solera de Agua (perto de)

A paragem era técnica – apenas para beber um refresco – mas o Sr. Elio Quintero conduzia a conversa por terrenos que me interessavam: de Colombo – que pensava ser português – a Vespúcio; da Ibéria, a Granada e Allambra; do latim, ao portugês, castelhano, francês, italiano e romeno; dos milagres de Fátima à virgem de Guadalupe, na Cidade do México. O Brian, que praticamente não fala espanhol e gosta essencialmente de pedalar, desperava…

Solera de Agua - Elio Quintero e filhos

De manhã as cores são mais fortes, os tons mais intensos, os aromas mais frescos, a brisa mais suave. Ou então sou eu que estou mais desperto, mais atento e com mais fome de natureza. E apesar de tudo parecer repetido e mil vezes visto, sentido, cheirado, continuo a pasmar com o que a estrada me presenteiam em cada curva…



De Lázaro Cárdenas a Zhiuatanejo

Acapulco é uma grande cidade – alguém me referiu que, incluindo toda a área urbana, teria cerca de dois milhões de habitantes – encravada entre a bela baía com o mesmo nome e a cordilheira montanhosa que a circunda. Mas Acapulco não é apenas uma cidade, são várias cidades. É a cidade pobre, de barracas tristes, sujas e esquecidas que vão crescendo pelas encostas da montanha, longe dos olhares da cidade. É a cidade turística, com resorts, condomínios fechados em prédios de muitos andares, McDonalds, Starbuks, Nikes, Adidas, Channel, & Cª, na parte oriental, longe dos olhares da cidade. É a cidade do centro histórico, que gravita em torno da Catedral e do jardim, onde se reúnem constantemente centenas ou milhares de mexicanos, desde o clarear da manhã até quase a manhã clarear. Onde palhaços alternam ao longo da semana, improvisando espectáculos para miúdos e graúdos; onde os rappers fazem os seus números acrobáticos, mais para gáudio do próprio grupo do que à procura de público; onde um ocasional grupo musical esganiça umas melodias, à espera que alguém, num passo de dança, encontre o ritmo perdido; onde um grupo de miúdos de palmo-e-meio e respectivos professores/orientadores, pintam telas confusas, que só eles entendem e admiram; onde um declamador, aparentando firmeza e convicção, brama contra os males do mundo, ao lado de engraxadores do tamanho dos bancos onde se sentam, deslizando mãos ágeis pelos sapatos que lhes consomem o brilho devido aos seus olhares baços; onde vendedores sem convicção, anunciam brincos, colares, chapéus, CDs, mais um interminável rol de bugigangas coloridas, num ritual monótono, cansativo. E é a cidade ruidosa, poluída, agitada, confusa, desordenada, num emaranhado de cores sujas, prédios feios, trânsito caótico, que se estende do sopé da montanha até uma ou duas ruas antes do Malecom…



Acapulco - Largo da Catedral


Acapulco - Largo da Catedral


Acapulco - Baía


Brian – o anoitecer de um sonho
A rotina do Brian incluía quase obsessivamente a ligação à internet – praticamente o único requisito que procurava nos hotéis era internet, o que me irritava invariavelmente. Tinha por rotina escrever o diário à noite, ligar para a família, via skype e, por volta das 5h da manhã, levantar-se para fazer o upload do diário do dia anterior na página Web. Naquele entardecer, um mail da sobrinha trazia por notícia que os pais, octogenários, tinham caído ambos, tendo a mãe partido um braço e sido hospitalizada. O semblante do Brian dizia tudo…preocupação, apreensão e antevisão do fim da viagem, que sonhava terminar dentro de cinco meses, depois de descer pelo Pacífico até ao Panamá e regressar a casa, em Bufallo, pela costa do Atlântico.
Os dois dias seguintes foram de suspense, oscilando entre a esperança de encontrar uma solução milagrosa e a certeza que teria de regressar, para cuidar do pai. Tão depressa afirmava sem convicção que a viagem não era importante e que a família estava primeiro, como gritava que tudo o que precisava na vida era mais cinco meses… não parava de falar em milagres e recordou um qualquer famoso jogo entre os EU e URSS, em que os Soviéticos tinham uma super-equipa, estavam a ganhar a um minuto do fim, e os americanos ganharam o jogo – por milagre, já se vê…
O sonho do Brian começou há vários anos…em 2002 comprou a bicicleta e creio que chegou mesmo a iniciar a viagem. Uma queda e lesão grave, com ruptura dos ligamentos do ombro direito, deitaram tudo a perder e levaram-no à estaca zero. Até que em Novembro de 2009, depois de se despedir do emprego e vender “todos os bens relevantes que tinha”, voltou a calçar os ténis e empreender a viagem. Nem duas semanas na estrada e uma ruptura nos ligamentos do joelho direito levaram-no à cirurgia, seguida de três meses de recuperação. Finalmente, em Março, pode dar asas ao sonho e voar. Partiu da Florida, cruzou o sul dos EU até ao Pacífico, subiu a costa até ao Oregon, inflectiu para o interior e juntou-se a um grupo de BTTistas, no Canadá, descendo as Rocky Mountains por Montana, Wiwoming, Nevada, Colorado, Texas, até à fronteira com o México. Depois pedalou ao longo da fronteira até San Diego e entrou no México em Tijuana, descendo a Baja Califórnia. Sonhava continuar até ao Canal do Panamá, sempre junto à costa Oeste e fazer o caminho de regresso por Este …
A decisão estava tomada. O regresso era inevitável e inadiável – as últimas conversas com a irmã não correram bem e o milagre está irremediavelmente atrasado…A última etapa seria Lázaro Cárdenas – Acapulco, 350 quilómetros a percorrer em três dias...
Chegámos a Zihuatanejo ainda cedo, ao fim de 105 kms percorridos – a etapa maior seria a do dia seguinte – e média de 18,6 km/h. Quando nos instalámos no hotel, vi o Brian espalhar todos os seus haveres em cima da mesa à procura de algo. Não encontrava a pequena bolsa de plástico onde guardava dois cartões de crédito, um de débito e algum dinheiro. Dei-lhe tempo, esperando que se acalmasse e que encontrasse a minúscula bolsa… ainda recordava um episódio semelhante em El Faro de Bucerias, dessa vez com o MP3, que estava dentro de um qualquer improvável saco… Creio perceber bem o que lhe vai na cabeça, nestes momentos, pois recordo o meu desespero e fúria quando julguei terem-me roubado a carteira e documentos, em Newport Beach… Depois de rever tudo diversas vezes, decidiu voltar ao último local onde paráramos, uma loja Oxxo, cerca de 20 kms antes de Zihuatanejo. Partiu a toda a brida e quando regressou trazia apenas o desânimo e desespero no rosto… sosseguei-o com a questão do dinheiro, recordando-lhe que lhe podia emprestar-lhe dinheiro para os últimos dias, que a passagem aérea podia ser comprada com qualquer cartão de crédito, incluindo o meu, ou ser mesmo comprada pela família nos EU…
Contactou o banco para comunicar o extravio dos cartões e comunicaram-lhe que já tinham sido utilizados… pouco valor – cerca de US 100$, na loja Oxxo onde os deve ter esquecido. Escusado será dizer que passou a odiar a, antes adorada, Oxxo…
Quando telefonava para o banco, o sinal telefónico era fraco e correu a uma elevação perto do hotel. Deve ter feito um movimento brusco e … lixou o joelho direito.
Nos dois dias seguintes, até Acapulco, era outro Brain…parecia ter chegado ao “fim da linha”…Todos os meus argumentos para o animar esbarravam num sorriso de irónica comiseração. O joelho – já foi operado aos dois joelhos – foi o golpe derradeiro na esperança de retomar o sonho pela terceira vez… Diz que o espera o “Crown Royal, o melhor whisky do mundo”…
Vá lá, Brain, um sonho não morre...morre quem deixa de sonhar e não vive quem nunca sonhou...além do mais, o teu atrelado continua na estrada, agora amarrado à Dempester, e espero levá-lo até á Argentina, a não ser que o queiras recuperar no Panamá!!


A viagem
“O condutor não tem mais de 12 anos”, diz o Brian inquieto. Eu returco, irónico, garantindo que tem pelo menos 15, mas provavelmente mais de 18. O olhar dele, sugere que devíamos esperar por outro autocarro, com um condutor mais idóneo. Eu ignoro-o e acomodo-me no banco. O autocarro vai enchendo, os lugares estão praticamente todos ocupados. O espaço de cada banco é exíguo e tenho dificuldade em encontrar uma posição minimamente cómoda para o meu massacrado traseiro. O angariador de clientes vai gritando, da porta, o destino e os vários pontos do percurso. Parece irritar-se por os transeuntes passarem indiferentes ao seu apelo esganiçado. Atrás do autocarro vão-se perfilando outros. Começam a apitar, cada vez com mais insistência – parecem querer que partamos para eles próprios poderem captar clientes. O jovem motorista arranca de rompante, com as mudanças num rugido de carretos desencontrados e a carcaça do autocarro aos solavancos. Ninguém a bordo parece reparar, apenas o Brian acena a cabeça incrédulo. O angariador, pendurado da porta escancarada, vai gritando o destino sempre que se aproxima de alguma alma. O trânsito é intenso em ambos os sentidos, predominando táxis e autocarros de todas as cores e tamanhos. As paragens são constantes e bruscas, não tanto por entrarem ou saírem passageiros mas porque o simples olhar de um peão que se quede no passeio, parece ser entendido como um cliente potencial a não desperdiçar… O autocarro não tem apenas uma, nem duas, mas três buzinas. A terceira é accionada com uma corda pendurada do tecto, à ilharga do motorista. É a mais ruidosa e a sua preferida. Conduz com uma mão no volante e a outra reparte-a entre a alavanca das mudanças e a corda…assemelha-se à sirene de um comboio e o autocarro parece estremecer ao seu bramido… Um magote de jovens estudantes, junto a uma geladaria, parecem ser a sorte grande do motorista. Vão entrando devagar, um após outro. “Cheguem-se mais para trás, ainda cabe muita gente”, grita o ajudante para os estudantes. Comprimem-se, quase se projectam sobre as pessoas sentadas, parecem sardinha em lata mas o autocarro não parte…meio minuto, um minuto, dois…que raio, começa a ficar um calor insuportável, um ar irrespirável, um ruído ensurdecedor e o autocarro nada. Ouvem-se as buzinas lá fora, a que o jovem de “12 anos” responde à letra. Ouve-se um apito – deve ser a polícia. É mesmo um polícia que vem mandar avançar o autocarro, mas afinal o angariador explica-lhe que estamos apenas à espera de mais três estudantes que, por sua vez, esperam pelo gelado e o troco…finalmente, diria que com ar insolente, os três jovens lá chegaram e, empurrados pelo angariador, conseguiram entrar na lata de entalados… A música, faltava a música. Onde já se viu um autocarro, para mais conduzido por um puto de “12 anos” e coadjuvado por outro de 16 (aparentavam idades muito semelhantes), sem música! Música que se ouça, entenda-se! E então solta-se do céu com estrondo, um trovão musical. Não sei porquê, mas vem-me à cabeça uma câmara de gás…não se distinguem as vozes, da música, do ruído do motor, ou as mudanças, que só entram “à pedrada”. Não se diferencia o cheiro a queimado do autocarro, do odor a gasóleo mal queimado e das nuvens negras de dióxido de carbono que saem de cada escape. Apenas a infatigável buzina se eleva acima de todos os sons, cheiros e pensamentos…
Começa uma descida longa e acentuada e as duas faixas é suposto reduzirem-se a uma. A fila é contínua. É hora de por à prova os travões e os nervos. O autocarro agora parece um baloiço, com as travagens bruscas, violentas, seguidas de inexplicáveis aceleradelas. O motorista parece mais distraído que nunca, na galhofa com o angariador…Cheira a queimado – o Brian diria mesmo que sai fumo junto ao motorista. Podem ser os travões quentes, ou a embraiagem. O mais certo é ser apenas imaginação e receio…Alguém assobia, um assobio seco e forte, à “pastor”. Nada. A seguir começa aos pontapés ao autocarro – é o sinal de paragem de emergência e o assobio era o sinal convencional – e o motorista pára com o estrondo habitual. Um qualquer malandro de outro autocarro, aproveitou a nossa paragem para nos ultrapassar, mas ainda devia estar a espreitar pelo retrovisor e já o “12 anos” se enfiava entre ele e a berma, ultrapassando-o pela direita, por entre solavancos, gemidos e carretos aos berros. Os passageiros continuavam tranquilos na sua modorra ou em amenas conversas…Parece haver semáforos, mas devem ter bloqueado no vermelho, ou então o vermelho é sinal de prosseguir – na verdade nunca percebi porque raio se tem de parar no vermelho e avançar com o verde…aqui o semáforo significa apenas avançar, avançar sempre, de preferência com a buzina de comboio a apitar e o motor a rugir, assustando assim os mais débeis. Sim, isto é um transporte colectivo, tem de ter prioridade… Afinal o “12 anos” parece ter um amigo que conduz outro autocarro em sentido contrário. Ah, porque não discutir o jogo do América contra o Santos, a noite passada? Foi penalty ou não? E as expulsões? 3 a 3, foi muito mau para o América, que quer ser campeão… Lá fora as buzinas rugem furiosas. Aqui dentro, apenas o calor … da viagem, que continua dentro de momentos e por poucos mais minutos, até “porto seguro”.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Entrevista no DN

Olá, desde (quase) Chiapas.
Para depois näo haver reclamaçöes, aqui fica a seguinte informaçäo: se näo houver uma notícia de "última hora", no próximo Sábado o DN trará aquilo que se designa de entrevista com o Bacalhaudebicicletacomtodos. Mas anteçäo, depois de comprarem, näo säo aceites devoluçöes nem me venham pedir o reembolso da massa...
O Bacalhau (seco, nunca de molho)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

De Mazatlan a Puerto Vallarta

De Mazatlan a Puerto Vallarta

De Mazatlan, sei que dista doze horas de ferry de La Paz, do outro lado do Mar de Cortez, no México continental.
O “Piloto II”, pintado com as cores do México, brilha nas águas azuis do Mar de Cortez, conduzindo à ilharga o Chihuahua Star até atracar no porto de Mazatlan.
O condutor de bicicletas tem o mesmo tratamento dos condutores de camiões: prioridade na saída; desce para o piso B; e pode usar o elevador.


Mazatlan

Como tenho um raio partido e queria comprar uma chave de cassetes (para desmontar a cassete da bicicleta, em caso de necessidade), procuro a bicicleteria Vallena (ainda não percebi porque raio escrevem V e dizem B…). À saída do cais de embarque cruzo-me com o Baltazar, um idoso numa bicicleta que aparenta ser da mesma faixa etária, e pergunto-lhe se conhece a bicicleteria Vallena. Olha-me com ar espantado e diz que sim, perguntando-me como sei eu da Vallena, pois não sou destas bandas. Explico-lhe e quando lhe pergunto onde fica, ele diz-me para o seguir que me leva lá…”é mais fácil”.
Sempre que o trânsito o permite, procuro pedalar lado a lado pela avenida Aleman, entabulando conversa sobre a vida na cidade. Diz-me que a principal riqueza é a pesca, que há cerca de duzentos atuneiros registados e mais de quatrocentos “camaroneros”. Que o mar é muito rico e que da terra nasce e cresce tudo o que precisam para viver… frutos, legumes e feijão. Já deixámos a Aleman e seguimos por uma rua perpendicular, estreita. Ele pedala à minha frente, vê se vem trânsito em cada cruzamento e, com a mão esquerda, manda-me avançar…É o meu batedor privado e voluntário… Enquanto lhe retribuo com a minha parte da estória, chegamos à Vallena, que está fechada. Fico a observar as instalações, a ver se tem um horário afixado e já o Baltazar dá meia-volta e me pergunta se não quero que me leve ao “tallere” onde ele vai com a sua bicicleta. Digo-lhe que sim e sigo-o novamente, agora em sentido contrário e contra o sentido do trânsito. A rua é de sentido único mas isso não parece ter significado para ele, que segue em ritmo rápido, avançando e espreitando em cada cruzamento e fazendo-me a sinalética enfaticamente para avançar…e eu avanço, com um sorriso estúpido e incrédulo: ou sou um gajo mesmo de sorte, ou este é um mundo muito melhor do que o melhor mundo que ousei sonhar… Chegamos à bicicleteria Fajardo e o Baltazar praticamente nem pára, mal me dando tempo para lhe agradecer…Como é que lhe poderia transmitir que não imagino melhor forma de entrar em Mazatlan; que a naturalidade da sua atitude me atingiu num ponto vulnerável, deixando-me com dificuldade momentânea em articular sons – ainda não sabia que dois dias depois, enquanto os meus dedos procuravam moldar as palavras, voltei a sentir um aperto algures entre a garganta e o estômago… Mas o Baltazar já tinha desaparecido na próxima esquina.

Mazatlan - Jesus

Jesus, sentado no pequeno banco de madeira, no centro da oficina, com uma roda entre os joelhos, levantou o olhar e disse-lhe qual o problema. Desta vez estava decidido a fazer algo mais do que substituir o raio partido e expliquei-lhe que os raios estavam a quebrar sistematicamente. Queria ou uma roda nova, ou os raios todos substituídos, ou, no mínimo, todos os do lado oposto á cassete – o único onde têm quebrado. Combinámos que substituía apenas raios de um lado. Perguntei-lhe quanto custaria e ele respondeu 60 pesos. “60 pesos, tudo”? E ele reafirmou que sim. Resumindo, para os interessados: paguei 17 dólares (2 dólares pelo raio e 15 pela instalação) nos EU; 50 pesos (que me pareceu uma pechincha) em Ensenada para substituir um (e por massa na roda de trás); 50 pesos em Guerrero Negro para substituir dois raios (os raios eram meus); 6 pesos por cada raio (não sei quanto por substituir um raio) em Ciudade Constitution e, agora, 60 pesos por 18 raios e respectiva montagem, em Mazatlan.
Quando voltei de tomar o pequeno-almoço numa taqueria perto, já estava pronta a Dempster. Perguntei de novo quanto era, para me certificar de que não havia engano, e Jesus olhou para mim com um ar que me pareceu de “fadiga” com a repetição do preço e lá insistiu nos 60 pesos. Dei-lhe 70 e ele pareceu confuso com o extra… deve ter pensado: “este cretino pergunta-me o preço não sei quantas vezes, pois deve achar demasiado, e agora dá-me dez pesos…”. Mas sorriu de satisfação quando lhe sugeri tirar uma foto à bicicleteria…com ele!
Os dias vão ser mais difíceis de gerir se acabar por viajar com o Brian…decidimos ir a um cibercafé para ele checar o mail – continua à espera de resposta de um cuchsurfing para saber se tem alojamento em Mazatlan.

Mazatlan - Teatro Angela Peralta

Acabamos por decidir pernoitar em Mazatlan e partilhamos um quarto no Hotel Belmar, no Malecom, frente ao mar – está em promoção e os 450 pesos reduzem-se a 350.
De cada praça, cada rua, cada esquina, cada casa, cada porta, do pequeno centro histórico de Mazatlan, brota o México que construi no subconsciente. Nos bancos de ferro, dispersos pelas ruas e praças arborizadas, namora-se com intensidade e sem preconceitos; discute-se política, basebol, futebol ou talvez a pescaria da noite passada; assiste-se impassível ao lento vai-e-vem de quem circula sem pressa, sem regatear um sorriso, um cumprimento e sempre disponíveis para juntar conversa; ouve-se música; engraxam-se sapatos; dorme-se a siesta com um olho semi-aberto. De cada porta emana um mar de odores, cores e sons.

Mazatlan

Olhares quentes, vendem gelados de muitas cores; Olhares de mel, vendem doces de muitos doces; olhares tristes, vendem tacos e burritos de muitos aromas; olhares marotos, vendem refrescos de todos os frutos; olhares de veludo, vendem frutos de todas as texturas e paladares. Olhares de todos os olhos, negros, brilhantes, mortiços, cansados, vivos, explosivos, atrevidos, gratos, tímidos, apelativos, implorativos, dignos, param, compram, comem, bebem, falam, cumprimentam-se, viajam até ao próximo olhar.

Mazatlan

O Mercado Pino Suarez parece ser um coração gigante de onde emana e onde aflui toda a vida de Mazatlan. Descrever o interior era falar de novo de todas as cores a multiplicar por todos os frutos, vegetais, legumes, flores, roupas, calçado, utensílios (de plástico, ferro, alumínio, barro), bugigangas, carnes, peixes, queijos, doces, bebidas e comidas – sem esquecer os torresmos – esses mesmo – de toucinho de porco.

Mazatlan - Mercado

Numa das esquinas fui travado não sei se pelos dois pares de olhos marotos, se pelas cores dos grandes boiões de refresco. Enquanto olhava indeciso que cor escolher, o polícia que sorvia pequenos goles de sumo de goiaba, perguntou-me se já tinha provado o sumo de cevada. Por acaso já, mas disse que não e ele afirmou convicto que era o melhor. Aceitei a sugestão e o olhar negro maroto despejou duas conchas de sumo no grande copo de plástico, com palhinha. Ali sorvi, o mais devagar que consegui, o delicioso sumo de cevada, perante o ar inquiridor, primeiro, e orgulhoso, depois, do polícia e o olhar, agora cúmplice, de seda negra das duas mexicanas. Subi ao primeiro piso do mercado, a zona de restaurantes. O longo corredor estava praticamente às escuras, apesar dos restaurantes de um e outro lado. Alguns estavam fechados, os outros abertos mas sem qualquer cliente. As ementas afixadas eram pouco variadas e não muito apelativas – ou talvez fosse o ar descuidado, sombrio, mortiço, sujo mesmo. Dei uma volta e surpreendi-me com a ausência do habitual apetite voraz…a cabeça estava na praça junto ao Teatro Ângela Peralta, de esplanadas com música ao vivo e ementas em inglês. Mas que raio de partida esta, então não havia de sorver um pouco mais do coração de Mazatlan!?

Mazatlan - Mercado, até quando o estômago resistirá?

Dirigi-me ao restaurante que me pareceu menos sombrio e questionei o rapaz de negro sobre o que havia para comer. Com ar incrédulo, perguntou-me se queria mesmo cenar e confirmei com a cabeça. Trouxe-me o menu e escolhi caldo de camarão e brocheta de marisco. Procurei uma mesa junto à varanda, de onde subiu um ruído caótico de vozes, buzinas e motores e quando puxei a cadeira, fiquei com o tampo na mão. Não desisti, insisti. Na cozinha, à minha frente, a frigideira incendiou-se e o cozinheiro/empregado desligou o gás. Os camarões passaram ao meu lado, do frigorífico para a mesa da cozinha. Quando pedi uma Tecate para beber, a miúda que passou o telemóvel das mãos para o decote da T-shirt, perguntou-me quantas queria…desta vez era eu o surpreendido… respondi: uma para já. E ela, algo atrapalhada, “e só vai querer uma”? Porra, eu não estava a perceber o ponto… ela explicou. É que tinha de ir buscar à loja comprar…Foi ao frigorífico e trouxe a única Pacífica que havia no restaurante. Decidi deixar-me de esquisitices e ficar-me pela Pacífica…O caldo escuro, com para aí uma dúzia de camarões médios, estava apaladado e soube-me muito bem. A brocheta tinha um gratinado com queijo e mostarda em excesso…Ia comendo e pensando que se o meu estômago e intestinos resistissem a este jantar, estava pronto para chegar ao Ushuaia sem passar muitas semanas de internamento!
Frente à municipalidade (câmara local) continuava a manifestação dos Picachotos. Homens, mulheres, jovens e crianças de Picachos, vieram exigir justiça, verdade e o cumprimento dos compromissos. Destruíram-lhes as casas para construírem uma barragem. Prometeram-lhes casas novas em substituição das antigas e água canalizada em Picachos. E não cumpriram qualquer das promessas…olhei para os rostos sisudos, fechados, olhares azedos, pesados e vi em cada um, um Baltazar acossado, revoltado e irremediavelmente destruído pela frieza dos cifrões numa folha A4 ou num moderno e-mail. Nas duas semanas passadas na Baja Califórnia, vi dezenas de placards publicitários da Secretaria de Comunicações e Transportes, do género: “o governo federal investe 34,1 milhões de pesos na construção desta ponte, em benefício de 80 000 cidadãos”. Já tinha constatado que não vi um único anúncio do género, mas relativo a hospitais, escolas ou obras sociais. Quantos milhões serão necessários para pagar a dívida a estes Baltazares, antes que deixem de o ser…



Mazatlan - Manifestaçao de Picachos

Vagueava em direcção a lado nenhum quando, de uma esquina próxima, o som roufenho de música quente me travou o passo. Estiquei o pescoço e estava enfiado do bar Olímpia. Calculava o próximo passo a dar – se avançar se recuar – mas já uma cinquentona volumosa, de camisola lilás bem cingida, com “LOVE” em dourado flamejante, me acenava de sorriso aberto e olhar afável. Não havia como recuar. Menos havia porque recuar…

Mazatlan – Bar Olimpia

O bar Olimpia é um barracão rectangular, pintado em tons de amarelo, laranja e vermelho. Tem uma mesa de bilhar, verde e vermelha, num dos cantos, junto ao balcão, que fica no extremo oposto à entrada e mesas com toalhas de plástico grosso, listadas de vermelho e branco. Uma grande jukebox reforça o ambiente festivo. Cruzei a sala toda para chegar ao balcão e senti-me o centro de todos os olhares… Pedi uma bebida forte (a pensar na digestão do jantar) e aceitei a sugestão para a tequilla – com sal e lima, para ajudar. Escolhi uma mesa suficientemente perto das duas que estavam ocupadas pelas quatro cinquentonas – empregadas do Olímpia – e seis ou sete homens não mais novos, mas com uma panorâmica ampla da sala.
Passei duas horas deliciado, com os sentidos a atropelarem-se. Na mesa de bilhar, sucediam-se os campeões, num roda-e-bota-fora, exibindo poderosas e certeiras tacadas; na mesa do canto, uma das empregadas seduzia um cliente sequioso, que passava de quarto em quarto de hora para a casa de banho; nas duas mesas junto a mim, a conversa era animada e um olhar mais demorado, uma mão feminina tocando uma masculina, ou um braço roçando fugazmente outro, pareciam ser a única partilha sexual; numa mesa, no centro da sala, um semi-bêbado entusiasmava-se a cada nova música com que a Junkbox nos brindava. Os vendedores ambulantes, oferecendo pevides, pistachos, chicletes, tabaco e outros bens, aqui de primeira necessidade, iam-se sucedendo. E não faltou o fotógrafo de polaróide ao peito, que teve a sorte de encontrar este desarmado e extasiado estrangeiro. Trocámos fotos – eu de digital em punho e ele de polaróide ao peito. Ganhei eu, que fiquei com ambas as fotos, e ele, que ficou com 50 pesos, depois de regateados (60 pela mudanças dos raios da bicicleta – a escala também chega aqui).

Mazatlan - Bar Olimpia, Polaroid

Do balcão, uns palmos acima da cabeça do empregado, Jesus – Cristo – e Nossa Senhora – sua mãe espiritual – partilham a escassa garrafeira, de onde observam, com ar compreensivo e tolerante, o mundo terreno que os alimenta.

Mazatlan - Bar Olimpia



Mazatlan - Adonde és!?

E a noite continuou, quente e musical. Na cantina “tertúlia”, o bar dos forcados amadores de Mazatlan, fui encontrar a praça de touros do campo pequeno em “corrida à antiga portuguesa”, com 6 magníficos toiros da herdade de não sei quem, nem que cavaleiros, mas com o grupo de forcados de Mazatlan!! E Vila Franca em “monumental corrida” e mais não sei quantas!! E eu, que detesto touradas e essa barbárie, não consegui ficar imune ao entusiasmo e carinho com que me trataram – sairia de lá de rastos com as Coronas que tinha para pegar, se não assumisse ser descortês e ficar-me pela pega de cernelha (a duas).

Mazatlan - Lisboa

Mazatlan – Che

Mas no caminho até ao hotel ainda joguei futebol, com o Mourinho, Figo, Ronaldo e Benfica pelo meio, e arrasei o sonho de um vagabundo que guarda religiosamente 10 (ou 100?) mil liras oferecidas por um turista italiano, há uns anos, e que me ouviu, incrédulo, dizer que as liras acabaram. Agora é o Euro, a nova moeda que circula na Europa, e em Itália também…

A companhia do Brian significa uma pequena revolução na minha (des)organização. Adora o ar condicionado, eu detesto; acorda às 5h da manhã, eu acordo com o nascer do sol, lá mais pelas 7h…; é-lhe indispensável a internet – actualiza diariamente o diário na Web -, eu dispenso; busca desesperadamente café de manhã, eu não sou de café; prefere as lojas de conveniência Oxxo – estandardizadas e iguais em todo o país -, eu é mais as tascas e vendas locais; tira fotos enquanto pedala, eu gosto de parar e demorar a tirar uma foto; é fortíssimo a pedalar, especialmente a rolar, e gosta de chegar cedo ao próximo hotel, eu gosto de seguir num ritmo mais calmo; tem forte preferência pelos hotéis, eu é mais campismo; janta tacos e almoça as suas invariáveis sandes de manteiga de amendoim e geleia de morango, eu procuro as loncherias e como o que há; mantém-se fiel às bananas, eu é goiabas, papaias, ciruelas, mamão, abacates…ainda não tive coragem de me atirar a uma jaca inteira! praticamente não fala espanhol, eu desenrasco-me… Tirando isto, somos iguais! Ambos homens, ambos de bicicleta, ambos pedalamos para sul…eu para a Argentina, ele para o Panamá.
Deixamos Mazatlan mal o dia clareia. Eu quero ir pela estrada (secundária) 15, ele pela “auto-pista” 15D…Como vou á frente, sigo pela 15 e o Brian segue-me. As duas estradas seguem paralelas mas, contrariamente às minhas expectativas, a 15 tem bastante trânsito, incluindo camiões, e praticamente não tem bermas. A condução é tensa, as tangentes dos carros são frequentes e uma ou outra culminou em saída de emergência pelas ervas que ladeiam a estrada.


Chegada aos tropicos
O Trópico de Câncer ficou para trás…estamos entre trópicos. A mudança na paisagem é “da noite para o dia”. A Sierra Madre Occidental surge no horizonte colada ao céu azul; a vegetação é densa e verdejante, cobrindo tudo o que o olhar alcança; os primeiros mangueirais, de folhas viçosas mas infelizmente fora da época do fruto, ladeiam a estrada; flores de diferentes espécies e cores despontam de quando em vez na berma da estrada; borboletas multicolores esvoaçam trapalhonas, chocando comigo aqui e acolá, pássaros ocultos pela densa folhagem das árvores, chilreiam ruidosamente ao longo da estrada.
Em Vila Unión as duas estradas voltam a encontrar-se e aceito a sugestão de experimentar a auto-pista. Na verdade a auto-pista, apesar de portajada, está longe ser uma auto-estrada. Tem apenas uma faixa de trânsito em cada sentido, bermas grandes e não tem separador central. Como é paga, o trânsito é mais escasso do que na 15 e, com as bermas largas, é muito mais seguro e descontraído pedalar.

Escuinapa

Escuinapa de Hidalgo é seguramente a povoação com maior concentração de bicicletas per capita que já vi. Novos, velhos, crianças, homens e mulheres, por diversão mas principalmente como meio de transporte, não dispensam a bicicleta. Em poucos quarteirões contei quatro oficinas… Na praça central, junto à igreja, existe um monumento à bicicleta, invocando razões ambientais…seja como for, aqui o uso da bicicleta é tão natural e intenso como o carro nas cidades ocidentais. Quando perguntei a um grupo de homens, sentados no jardim ao lado das suas pasteleiras, a razão de tão intenso recurso à bicicleta, olharam-se e responderam apenas que são precisas para se deslocarem…



Chapéus há muitos...

A estrada que nos leva, leva-nos por bons caminhos…vai contornando a Sierra Madre Occidental e poupa-nos as pernas; espraia-se pela planície costeira e traz-nos sucessivas lagunas de águas azuis, paraísos de milhares de garças brancas, pretas e cinzentas, pelicanos, patos e outras espécies que desconheço; flecte um pouco para interior e esconde-nos nas sombras dos mangais verdejantes; leva-nos mais para sudeste e a vegetação diversifica-se: os coqueiros agigantam-se numa elegância impar, encimados pela folhagem verdejante que forma uma copa circular, protegendo as dezenas de cocos presos em firmes cachos; das bananeiras, de longas e largas folhas esfarrapadas, pendem pesados cachos de bananas, enfiados em sacos de plástico branco ou azul, à espera de serem colhidos; do topo dos troncos finos das papaieiras, alinhadas geometricamente em modernas plantações, caem em cascata deliciosos frutos.

Laguna Garza

Mangueirais

E mais árvores e mais frutos e mais verdes e mais tons e sons… e de repente, uma curva da estrada presenteia-nos com uma, ou duas, ou várias bancas onde todos os frutos se exibem, num festival de cores, cheiros e sabores. Já consigo identificar metade das variedades, mas no meu exíguo saco de comida, só posso transportar uma quantidade muito limitada…opto pela diversidade: uma banana de qualidade/paladar, um abacate, duas laranjas diferentes, três goiabas, a papaia mais pequena e uma lima para acompanhar…


Cores e aromas

Desde que descobri as goiabas, não quero outro perfume. Uma em cada saco e desapareceram os cheiros que sempre se instalam em quatro meses de viajem…agora é um gosto abrir qualquer saco…a próxima experiência é na tenda e talvez mesmo no saco cama!! (infelizmente nos ténis não dá mesmo jeito…).
A independência anda por aí, de mãos dadas com a revolução. Os cartazes abundam: 200 anos de independência, 100 anos de revolução. Tierra e Libertad! Que viva Zapata! José Maria Morelos, Miguel Hidalgo, Emiliano Zapata, Lázaro Cárdenas. São tantas a s povoações com estes nomes, que se torna impossível utilizá-los como referência geográfica… Creio que há mesmo povoações que têm um nome oficial mas que adoptam localmente o destes Heróis…

Festejos da revoluçäo

Puerto Vallarta é um nome sonante na costa ocidental mexicana…a Bahía de Banderas dá-lhe as praias de águas azuis, ou verdes, ou brancas ou da cor do nosso olhar. A Sierra Madre del Sur, empresta-lhe a verdejante encosta que a protege e esconde do mundo. O rio Ameca traz-lhe a frescura e os segredos da montanha; nas suas margens, sob as frondosas árvores, estende-se um interminável colorido de artesanato, restaurantes, cafés, pequenos ateliers, cantos e recantos de onde nos olham diversas estátuas e criações artísticas. Não falta o John Huston, na sua cadeira de realizador, nem a casa da Elisabeth Taylor, que se terá apaixonado pela cidade…
Mas chegar a Perto Vallarta de bicicleta não é tarefa fácil…as ruas do centro da cidade são autênticos cartões de ovos, com o pavimento típico de seixo. Um ciclista nunca poderá esquecer a sensação terrível, das pernas, aos braços e mãos, mas com particular incidência no já sofrido rabo…a própria bicicleta gemia em todas as articulações, e não era reumatismo...


Puerto Vallarta

O hotel Jasmim fica no coração da cidade, na zona turística, mas não é turístico. Na recepção, a Nena, chegada de férias no dia anterior, 63 anos, sorriso fácil e voz tranquila, anunciou o preço de 500 pesos, mas tinham uma promoção para seniores, com idade superior a 60 anos. Respondi-lhe, a rir, que tinha 65 anos e o Brian devia ser ainda mais velho. Ela pegou na calculadora, tirou 20% aos 500 pesos e mostrou-me os 400 pesos do resultado. Eu não estava bem a acreditar, mas disse de imediato que fechávamos negócio…

Puerto Vallarta - Malecon

Não fosse a abundância de turistas, canadianos e americanos, e seguramente Puerto Vallarta seria uma cidade onde gostaria de despertar qualquer amante do mar, da praia, da floresta, da montanha, mas também da languidez, da tranquilidade, do calor, do sotaque espanhol, da tez morena mexicana, dos aromas dos frutos e da gastronomia, do colorido mercado, do charme das praças, quiosques, restaurantes e bares, das ruas inclinadas pela encosta íngreme, ladeadas de casas brancas em recantos improváveis e equilíbrio instável. Da vida lenta do Malecon, onde se come, bebe, passeia. Mas fundamentalmente onde se está, se conversa e se namora desde tenra idade...


Malecom