quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Panamá

Panamá
Como não comento o meu blog, aproveito este post para deixar uma mensagem ao Rafael:
1 – Rafael, tenho muita informação estatística sobre a viagem (mapa do percurso, estradas, locais de pernoita, kms diários, velocidade média, custos por país, furos, etc.). Mais tarde, talvez no fim da viagem, disponibilizarei essa informação no blog.

AH! E ainda me doem os ouvidos dos protestos pelos atrasos, pouca escrita, bla, bla, bla!! A cerveja na América central e do Sul é mais sedutora…

Panamá – da cerveja gelada

Na fronteira de Paso Canoas há um movimento inaudito de camiões. Ao longo de talvez mais de um quilómetro, há dezenas e dezenas de enormes camiões estacionados em espinha, com matrículas do México e de todos os países da América Central. Enquanto alguns motoristas parecem dormitar ao volante, outros repousam em esteiras estendidas no chão, à sombra das galeras enquanto os mais criativos baloiçam em camas de rede suspensas de árvores próximas. Todos parecem preparados para longas esperas…
Ainda do lado costarricense, a poucos metros dos guichets, perfila-se uma larga dezena de motas de alta cilindrada. Por dupla afinidade – às duas rodas, mas também à Transalp que me espera em Portugal, e que recordo por vezes com saudade – estacionei a Demspter ao lado, parecendo-me que não destoava na fotografia!! Ainda estava a executar a difícil manobra – não se julgue que a marcha-atrás, ou encontrar o ponto de equilíbrio do descanso, com atrelado, são manobras fáceis! – e já se me dirigia um matulão de óculos escuros e casaco de cabedal. Perguntou-me se falava espanhol ou inglês e respondi-lhe que era fluente nas duas línguas! – está a apetecer-me brincar com a narrativa …na verdade disse-lhe que arranhava ambas as línguas. Contrariamente às minhas expectativas, não vinha pontapear a bicicleta nem dar-me uns murros, mas sim inquirir com avidez sobre o meu percurso. E os olhos e a face daquele calmeirão de voz trovejante, distendiam-se de surpresa e espanto. E simpatia! Deu-me uma “lição gratuita” e verdadeira – como fui comprovando ao longo do tempo que passei no Panamá. Que as estradas eram boas e com bermas largas o mais das vezes; que podia almoçar bem por 2 ou 3 dólares, e tomar um bom pequeno-almoço por $1,5 ou $2; que o país era muito seguro e as pessoas amistosas, podendo viajar tranquilo e sem receios – apenas ter algum cuidado na cidade do Panamá; etc.. E quando terminámos a conversa e me dirigi para o guichet carimbar a saída, disse-me para ir à vontade que ficava de olho na bicicleta, pois estava à espera dos amigos que visavam a entrada na Costa Rica, para participarem num fim-de-semana de motards em Quepos.
Se a saída da Costa Rica foi rápida, a entrada no Panamá foi meteórica. Apesar de magotes de pessoas nas imediações, não havia uma única nos guichets, o que me levou a duvidar de estar no sítio certo…Pergunto ao “miúdo” por trás do vidro se era ali que se obtinha o visto para entrar no Panamá e acena-me com a cabeça que sim, enquanto continua a conversa com mais dois ou três funcionários. Passo-lhe o passaporte e quase sem olhar, pergunta-me em que transporte viajo. Respondo-lhe “de bicicleta”. Finalmente interrompe a conversa e olha-me de frente. “Como viaja”? repete. E eu repeti também, “viajo de bicicleta, desde o Canadá, por todo o continente americano, há seis meses, como pode confirmar pelos carimbos”…Dá uma vista de olhos pelos vistos enquanto os outros funcionários me observam por entre acenos de cabeça e polegares esticados.

Silêncio interrompido

Em 30 segundos tinha o visto e estava a pedalar na larga, plana, de grandes bermas e maiores rectas, estrada pan-americana, sob o sol tórrido do meio-dia. Felizmente a estrada era mesmo plana e rolava rápido, sem esforço.
Praticamente não havia casas e tinha por companhia apenas os carros, com elevada percentagem de camiões, que passavam rápidos.
Duas ou três dezenas de quilómetros percorridos e surge o primeiro restaurante. Parei para o primeiro teste…Contíguo ao edifício principal, onde apenas uma mesa estava ocupada, havia um grande alpendre com mesas e cadeiras e foi aí que me acomodei. A música brotava com estrondo de dois pares de colunas. Da porta lateral, que ligava o restaurante ao alpendre, os comensais de dentro acenaram-me e retribui. A proprietária, senhora dos seus 50, bem constituída, apareceu devagar para me dizer a ementa: pollo ou língua de rés guisada – qualquer dos pratos acompanhados com arroz, feijão e salada. Para espanto dela, optei pela língua. Perguntou-me se eu sabia o que era língua de rês (não deve ser assim que se escreve mas é assim que designam vaca em espanhol…), se no meu país se comia, se alguma vez tinha comido – parecia preocupada se eu iria gostar… Disse-lhe que sim, que conhecia e gostava.
Antes da língua veio uma garrafa de litro de água fria, que se evaporou sem deixa rasto, depois veio um delicioso, apesar de muito doce, sumo de limão com raspado – não sei o que será o raspado… e, finalmente, a língua, que apenas pecava por ser um pouco dura.
Quem deve ter engraçado comigo foi a Vânia Miranda, a miúda de 5 anos, filha da dona do restaurante, pois sentou-se á minha mesa com a sua mota amarela com uma motociclista de cor-de-rosa, já se vê, e não mais me deu sossego, entre aceleradelas ruidosas e perguntas intermináveis. No fim de almoçar, enquanto aguardava pelo troco dos $2,25 do almoço, a Vânia ia levantando a mesa, uma coisa de cada vez, como a mãe lhe ordenava do balcão…
Apesar dos 108 kms da jornada, desde Porto Jiménez, na Costa Rica, cheguei a David cedinho, graças ao relevo amigável. Inflecti para dentro da cidade, deixando a pan-americana ao trânsito intenso do fim da tarde, e fui pedalando devagar por ruas completamente simétricas, ladeadas por casas pequenas, dispersas na abundante vegetação. Procurava um cruzamento com indicação do número na rua e avenida para me poder orientar e dirigir à Purple House Hostel. Ainda mal tinha posto o pé no chão e sacado o guia da mochila, já um dos vizinhos interrompia a cavaqueira e se me dirigia, perguntando se procurava a purple house. Disse-lhe que sim e indicou-me dois quarteirões ao lado.

Blue Morpho (doente)

Claro que a purple house é lilás, intensamente lilás, com mobiliário lilás, loiça lilás, roupa lilás, sanitários lilás, camas lilás. Enfim, pouco existe ali que não seja lilás… A Andrea, proprietária, explicou tudo com muita simpatia e precisão, incluindo os dois frigoríficos – o da esquerda para ela e o da direita para os hóspedes. Com excepção do quarto e casa de banho, tudo o mais na casa era totalmente partilhado com os hóspedes.
Depois de tomar o ansiado banho, fui deambular um bocado pela cidade, que me pareceu de imediato grande em superfície e baixa em altura. Numa qualquer rua – todas as ruas, com excepção do “centro”, como vim a confirmar, me pareciam iguais – havia uma tasca e procurei uma cerveja. Mas ali só vendiam bebidas não alcoólicas. Bebidas alcoólicas, só no bar, dois quarteirões adiante, como me indicou a proprietária. Não havia que enganar.
Apesar de serem umas 4h da tarde de sexta-feira, ao que parece, a música trespassava as paredes do bar e inundava um ou dois quarteiros em redor. Entrei no pequeno espaço em L, e apenas uma mesa, mesmo à entrada, estava livre. Todas as outras estavam repletas de homens – apenas homens – e garrafas de cerveja – mais vazias do que cheias. Puxo uma das duas cadeiras para me sentar e já um dos meus vizinhos da mesa do lado me dizia, com um sorriso afável, para não me sentar naquela cadeira, pois estava “coxa” – e levantou-se mesmo para me mostrar. Pegava na segunda cadeira quando outro ocupante na mesma mesa me convidou a sentar-me com eles e acho que ainda não me tinha sentado, já me esperava uma Panamá gelada! Melhor recepção não poderia esperar. E melhor companhia também não, pois o Mário, o Osvaldo e o Kirby eram fãs, praticantes e juízes de ciclismo. Neste fim-de-semana estava a decorrer uma prova internacional de BTT ali em David, organizada por eles – a associação de ciclismo de David – e pela federação de ciclismo, e que contava, entre outros, com os campeões centro-americano e pan-americano de BTT. Ao fim de uma hora de muita bicicleta e uma larga meia-dúzia de deliciosas cervejas geladas, foi uma guerra para me deixarem pagar duas rodadas, revivendo, por momentos, “batalhas” iguais, com décadas de desfasamento, na perdida aldeia das beiras, em que a solução passava sempre por “mais uma rodada, pago eu”.

Em David, introdução à dura vida panamenha

Levantei-me com o propósito de ir passear e “cheirar” um pouco da cidade, sobre a qual não tenho referências dignas de registo, e o Mário levanta-se também. Afinal tinham decidido que ia comigo mostrar-me a cidade – não por segurança, porque não há qualquer perigo em David, mas por prazer, disse. Caminhávamos pelas ruas geométricas e ia-me descrevendo cada edifício, do simples banco, à antiga estação de comboios, escolas, parque, ou posto da polícia. E de quando em vez parava numa porta para cumprimentar um amigo, e outro e outro ainda. Parece que conhecia metade da cidade…afinal era guarda-fiscal ou coisa do género.
Separámo-nos no Parque Cervantes e acho que ainda ficou ali um bocado a olhar-me de longe…talvez para se certificar de que eu estava mesmo bem, que a cerveja não tinha sido em excesso e que conseguiria chegar bem à purple house, seguindo as orientações que não se cansou de me repetir.
Mas se não me perdi até à purple house, demorei umas boas horas a chegar. É que duma esquina chegava o som tonitruante de uma banda de música. Nu cruzamento de ruas, dividida em 2 grupos, metade de cada lado da rua, uma banda filarmónica ensaiava com afinco. O pequeno maestro, empertigado num estilo militar, parecia zangado com a indisciplina e alguma risota dos pupilos. Mas os trompetes, o saxofone, os pratos e os tambores, entre outros instrumentos que desconheço, iam irrompendo com alegria no silêncio da noite escura. Até os dois postes de iluminação se “silenciaram” e os raros carros que passavam, pareciam desligavar os motores… quando o maestro parou o ensaio para reunir os pupilos em seu redor e desatar a desancar-lhes – foi o que me pareceu pelo tom de voz e gestos – retirei-me, não fosse confundir-me. Mas não longe, ouvia-se o apito regular de um qualquer árbitro. Afinal, poucos quarteirões adiante, havia um complexo desportivo onde se jogava futebol de sete, basquetebol e voleibol. O jogo de basquetebol era mesmo à seria, com assistência, “bifanas” e árbitros, e fiquei-me por ali a ver os talentos desportivos daquela malta e com grande vontade de saltar para o campo de futebol, onde vários jovens jogavam descalços.
Cheguei à purple house estafado, com a sensação de ter vivido uma carrada de dias num só.

O caminho é em frente, sempre

David fica rapidamente para trás e o trânsito reduz-se drasticamente. Os povoados escasseiam – não é impunemente que 1/3 dos panamenhos vivem na capital – e, quando surgem, são de dimensão diminuta. A estrada pan-americana irrompe pela paisagem plana, de vegetação pouco densa mas verdejante, onde a pastorícia parece ser a principal actividade. Na realidade, durante as primeiras horas da manhã, estranho um fluxo anormal de carrinhas em sentido contrário ao meu, transportando belos cavalos com arreios coloridos. Afinal vai haver uma espécie de rodeo…Pequenas manadas de vacas pastam tranquilamente à sombra dos arbustos, quando não repousam ou são encaminhadas, por ginetes saltitando nas montadas, para outras parcelas de terreno.

...sempre em frente

Apesar de ter tomado um pequeno-almoço antes de começar a jornada, paro num café-restaurante onde se perfilava um grande número de carros e camiões. Entrei na grande sala quadrada, e estendi o olhar. Ao balcão, uma dupla de homens despejava “balboa” atrás de “balboa”, dispondo as latas vazias em pirâmide. Em redor das mesas, dois grupos de camionistas faziam tinir os talheres nos pratos abundantemente recheados com ovos, salsichas, arroz, feijões e douradas tortilhas de milho. Fiz o pedido à jovem empregada e sentei-me numa mesa de canto, perto dos dois bebedores de cerveja. Enquanto comia tranquilamente, as duas mesas de camionistas vagaram, ficando apenas com os bebedores. O mais jovem ofereceu-me uma cerveja, que recusei. Entretanto começa a dar largas à melancolia, declarando-se apaixonado por “aquela bela mulher” – a proprietária do estabelecimento, que estava na caixa na outra ponta do balcão, fingindo ignorá-lo. Como recusei a cerveja, agora insistia em oferecer-me o pequeno-almoço, enquanto continuava a discorrer sobre a beleza da senhora, o amor que lhe tinha e que ela ignorava. Quando fui pagar, a bonita senhora olhou-me algo embaraçada e disse-me que, para além de borracho, ele estava louco…
Afinal, além da pastorícia, começam a surgir vastas áreas de produção de ananás e de cana-de-açúcar. Camiões de grandes atrelados, aguardam, especados no meio dos campos de ananases, que modernos empilhadores depositem ordenadamente os pequenos contentores repletos de ananás. Ceifeiras gigantes ladeadas de camiões com carroçarias gigantes, percorrem lentamente os campos geométricos, ceifando cana. Curiosamente, de uma vasta parcela de cana, com as pontas ainda verdejantes, soltam-se chamas baixas e nuvens de fumo acastanhado…Deduzo que tenha como objectivo queimar as folhas secas que rodeiam a cana, poupando assim espaço no transporte.
Apesar da brisa que me acompanha lateralmente, a jornada decorre com facilidade e bom ritmo. Apenas o calor crescente e a humidade elevada, desgastam.
A estrada pan-americana mostra duas realidades distintas: um Panamá rural, agrícola, rústico, tradicional, lento e acima de tudo de pessoas simples e amáveis; e o panamá dos carros rápidos, modernos e apressados.
Contrariamente aos demais países da América Central – com excepção da Costa Rica – não há sinais evidentes de pobreza, pelo menos de miséria. Não é apenas pela cerveja, que corre em quantidades enormes, mas os próprios “supermercados” de beira da estrada são razoavelmente fornecidos e vê-se a população local a comprar. Uma das curiosidades, e surpresas, com que me deparei, foi a enorme percentagem de chineses que vivem no Panamá, sendo raros os supermercados que não lhes pertençam, numa especialização económica surpreendente…claro, a forte presença chinesa deve ter as suas raízes na enorme imigração para a construção da linha ferroviária, primeiro, e do próprio canal do Panamá, mais tarde.
Sem que se perceba bem de onde surge, pois não são visíveis sinais de qualquer povoado perto, apenas se avistando a planície, rodeada, muito ao longe, por discretas orlas montanhosas, uma pequena banca de fruta, emerge por entre a sombra das árvores frondosas. Para além de vários tipos de bananas, vende ananás e cocos frios! Paro de imediato, pois a água das 2 garrafas há muito que parece chá. Parece ser toda uma família a viver em torno do pequeno negócio: miúdos, adultos e mesmo uma senhora idosa, preguiçam em camas de rede, penduradas na sombra das árvores, ou em espaçosas cadeiras de baloiço á sombra da cobertura de colmo da tenda anárquica. Pro e todos os olhos se viram para mim. Peço uma pipa fria, que me servem com palhinha e simpatia. E enquanto bebo, deliciado, o leite de coco, mais pela frescura do que pelo sabor, vamos conversando sobre o tema habitual: de onde venho, para onde vou, quanto tempo, o que acho do Panamá, etc.. Quando vou para pagar, dizem-me que é “regalo”. Insisto e persisto, até que aceitam os 25 cêntimos, mas presenteiam-me com um cacho de bananas, que não recuso…
Com a proximidade da pan-americana ao mar, agora são pequenas barracas de peixe e moluscos que surgem, de quando em vez, à beira da estrada. Apesar das moscas, que insistem em passear pela boca, o enorme peixe vermelho conserva o ar fresco e o olhar vivo. Vivo e afável são também o olhar e a voz dos dois jovens pescadores que esperam pacientemente por um cliente que desembolse os 17 dólares (negociáveis) que pedem pelos mais de 5 kgs de peixe…

17 dólares de peixe

Devo ter um furo lento na bicicleta, pois está a perder ar na roda de trás – sempre na roda de trás!! Busco uma sombra e decido despender alguma energia e muitas gotas de suor a encher a roda. Ainda estava no início, quando pára uma camioneta de caixa aberta, ao meu lado. O condutor, um idoso ladeado pela mulher, pergunta-me, com um sorriso, se estou com problemas e se não quero que me leve e à bicicleta até à próxima povoação, pois está muito calor e vêm aí umas subidas…Digo-lhe que não, quase com receio que interprete mal a minha recusa ao seu gesto amável. Acena a cabeça, como que dizendo que devo ser maluco, e lá vai, de sorriso no rosto e mão levantada a dizer adeus.

Se são assim mortos...

Não devo estar longe de Tolé, uma aldeia que surge no mapa e que é suposto ser a minha única opção de campismo “urbano”, pois não há qualquer outra povoação num raio vasto. Mas a zona é agradável e começo a perscrutar a paisagem nas imediações da estrada – na verdade, se surgir um ribeiro e uma clareira simpática, estou com vontade de um campismo verdadeiramente selvagem. Muito perto, o que surge é o restaurante “La Isleta”, à ilharga de um verdadeiro rio e envolto no mar de tranquilidade do entardecer. Porque não? pensei, e lá fui. Um jovem com ar afectuoso veio receber-me e expus-lhe a coisa: queria acampar por perto e jantar mais tarde, se possível. O rapaz não escondia o espanto com a bicicleta e a tralha toda, mas lá me conduziu ao “chef” Roberto, que para além de “chef” da cozinha, era o proprietário do restaurante e administrava toda a quinta da família, onde produziam gado bovino.
Depois de terminado o telefonema “de negócios” do Roberto, o jovem empregado apresentou-me. Com a mesma simpatia, foram-me abertas “as portas” da quinta, da casa (casa de banho e duche), do restaurante e mesmo dos kayaks, se eu ainda quisesse arriscar ir até ao mar, “que fica a menos de uma hora de kayak e tem praias lindíssimas, só acessíveis pelo rio”, disse. O Roberto incumbiu mesmo o rapaz de me ir mostrar os sítios mais bonitos, incluindo o “miradouro” das aves e a isleta (onde o rio faz como que uma ilhota).
Na verdade preferi tomar banho no rio e já não arrisquei ir até ao mar…quase dormitei no observatório dos pássaros e lamentei, mais uma vez, não ter binóculos para ver de perto os coloridos, e ruidosos, periquitos, patos e tantas outras aves que o entardecer trazia às margens do rio.

La Isleta - campismo selvagem

Confesso que foi o jantar mais extravagante da viagem e que me custou US$33, mas dificilmente o esquecerei. Disse ao Roberto para sugerir e aceitei todas as sugestões, claro. De entrada, um licor à base de rum com umas gotas anizadas e um ceviche misto, servido na concha; prato de carne de vaca fumada com uma madeira especial, acompanhada de yuca frita, salada e ervas aromáticas e uma garrafinha de Cavernet Sauvignon, chileno; para sobremesa, um sorvete de qualquer coisa parecido com laranja ou mandarim. Mas o melhor mesmo, foi o ambiente amistoso, simpático, familiar, pois eu era o único cliente!


Cavalos com (c)alma

Escrever sobre este Panamá rural, distante da capital, dos seus prédios modernos e vida cosmopolita, obriga a referir as “cantinas”! Não sei se são como as “cantinas” do México, pois aí não as vi. No Panamá, à beira da pan-americana, no local mais remoto, podemos ser despertados do torpor do calor e do silêncio da natureza, pelo troar estridente e alegre de uma juke box. As “cantinas” normalmente são uma espécie de salão de baile, sem paredes – ou com um pequeno muro circundante – com pilares em volta, onde se apoia um telhado de metal e, num dos topos, o balcão que faz a “ponte” entre os clientes sedentos e (normalmente) as empregadas mais ou menos lânguidas e volumosas. Praticamente só se vende cerveja – embora pareça também existir coca-cola –, que sai gelada, em grandes quantidades e baixo preço. No salão dispõem-se algumas mesas e bancos, normalmente perto da “juke”, e as conversas decorrem aos berros, única forma de se fazerem ouvir. Por vezes uma “miúda” sorridente partilha a mesa e uma cerveja com uma mão cheia de homens. Não raras vezes é difícil ver a cor da mesa, repleta de cervejas vazias… Os clientes são de todas as idades, invariavelmente masculinos, chegam a pé, de bicicleta e mesmo a cavalo, que amarram à sombra de uma árvore próxima. É uma imagem pitoresca e anacrónica que guardo, (in)felizmente (?) apenas na memória, destes ginetes tisnados pelo sol, de olhos negros na rugosa face torrada, sob as abas dos chapéus claros do panamá, altivamente empertigados na garupa do cavalo, vivendo devagar…

Artesanato panamenho

O vaticínio foi feito pelos meus amigos ciclistas de David: até Santiago tens de subir aos 1100 metros, mais ou menos, mas depois é sempre plano até à cidade do Panamá.
De facto tive algumas subidas pela frente, mas não dei pelos 1100 metros. Dei, sim, foi pelo vento constante…Santiago pareceu-me uma cidade verdadeiramente feia, em claro contraste com David. Suja, de blocos de prédios decadentes, sujos, inestéticos, com mais lixo do que o habitual e cheiros putrefactos. Na cidade, só vi duas “espécies” de residenciais e um hotel – o Hotel Santiago. Se por fora, e à distância, até parecia acolhedor, no seu verde suave, no interior, parecia parado há umas décadas – na verdade reparei que havia uns diplomas de mérito, e não sei que mais, pendurados na parede, mas datados do início da década de 60…Um pouco pior foi não haver água. Só depois de instalado e quando ia para tomar banho é que me apercebi. Ainda fui reclamar, mas o displicente empregado disse-me que não havia em toda a cidade. O dia tinha sido duro e um banho era o mínimo que esperava. Havia um balde de 20 litros de água no pátio/jardim interior e, discretamente, levei-o comigo. Regressei ao velho método do pucarinho, mas senti-me novo. Boa e barata é a padaria mesmo em frente. Perante o espanto do empregado, comprei um litro de leite e uns quatro bolos diferentes, devorando tudo ali, na mesa existente!
Ainda equacionei pernoitar em Penonomé, mas o meu objectivo secreto era a praia de Santa Clara. Diziam-me que eram vários quilómetros de areias brancas, escassas dezenas de pessoas, águas tranquilas e calma absoluta. Apesar de já estar com mais de cem quilómetros nas pernas, decidi, portanto, atacar os últimos trinta e tal quilómetros até Santa Clara. Sentia-me fatigado, desgastado física e psicologicamente pelo vento, um leve ardor no joelho esquerdo, mas queria dormir na praia, ao relento ou na tenda! Como a estrada inflectia praticamente para sul, o vento passou a favorável, o relevo também ajudou e disparei por ali fora, a trinta kms hora, quando não mais!
Praticamente não há indicação de Santa Clara. É preciso deixar a pan-americana e virar à direita por uma pequena estrada de asfalto. Pedala-se uns dois kms, à ilharga de dispersas casas disfarçadas na vegetação, e chega-se a uma vedação de rede com um portão grande. Um edifício de pedra e colmo abriga o guarda – é o acesso público, mas pago, à praia. O empregado, idoso, negro, com voz de trovão e olhar penetrante – que de imediato associei ao Morgan Freeman – pergunta-me se quero acampar. Respondo que sim, dois dias. São 9 dólares, diz. Alem são as casas de banho, ao lado o duche e pode acampar aqui atrás, frente à praia, onde quiser. Mas, atenção, nós não somos responsáveis por nada das suas coisas. Se roubarem ou estragarem algo, não assumimos qualquer responsabilidade! Is it understood? rematou, com o olhar mais fixo e a voz mais forte e firme que nunca. Sim, disse eu.
Daí a poucos minutos o Morgan Freeman terminou o turno e foi-se embora, ficando um muito mais afável e simpático panamiano de vigilância nocturna. Rapidamente estabelecemos diálogo e arrumei a bicicleta e o atrelado, com tudo o que não necessitava, numa divisão do edifício.

Campismo na praia de Santa Clara

O dia em Santa Clara foi de repouso e relaxe quase total. O areal é interminável, o mar de água (demasiado) morna e calma; pequenas embarcações de pescadores empertigados, saltitam rápidas nas ondas, paralelas à costa; um casal de idosos alourados e pele alva, fazem esvoaçar as gaivotas e outras aves madrugadoras. O sol da manhã desperta reflexos dourados no areal adormecido.
Não é preciso esperar pelo meio-dia para sentir o sol tórrido dos trópicos arrancar gotas consecutivas de suor. Decido procurar a tasca onde ontem ouvi barulho, junto ao desvio da pan-americana. Vou a pé e percorrer os dois quilómetros, mesmo ziguezagueando pela estrada em busca de cada sombra, seca-me a garganta e o metabolismo. Ao balcão está um grupo de quatro ou cinco homens e duas mesas da pequena tasca também estão ocupadas por bebedores sequiosos. A televisão compete com a aparelhagem, não se ouvindo qualquer delas, apenas um ruído infernal que ecoa de parede em parede. Fico-me pelas duas “panamá” de aperitivo e mais duas a acompanhar a carne guisada com yuca, frijoles e salada.
Regresso por um caminho diferente, ladeado de pequenos palacetes, discretos sob a vegetação tropical. Na orla marítima, então, as casas de grandes jardins projectam-se no areal branco, com o oceano turquesa em fundo. Para aceder à praia – “privada” – tenho mesmo de aproveitar um portão aberto e ignorar o repetido aviso de propriedade privada.
De regresso ao meu “lote” de três metros quadrados, decido remendar o furo que me aborrece há uns dias. E nem precisei abrir o kit de reparação, para perceber que algo está errado, pois o peso não é o habitual… afinal desapareceu o jogo de chaves. O mais certo é tê-lo esquecido na beira da estrada, aquando do último furo, ainda na Costa Rica. Afinal este furo é esquisito, pois é na parte interior da câmara…talvez esteja na hora de seguir a sugestão, de há meses, do Serra e pôr uma fita nova no aro…
Remendo posto, tralha arrumada e … reparo na tenda. Está esquisita, torta. Tiro a cobertura e confirmo o óbvio: não está torta, está partida uma das “guias” que a sustem! E como se não bastasse, no local em que partiu, rompeu ligeiramente a cobertura, ficando vulnerável à chuva, quando for o caso! Ou foi por maldade ou, mais provável, algum dos putos que por aqui passaram, deve ter-se – ou ter sido – projectado para cima da tenda, pois é preciso um impacto forte para partir e romper o tecido…Porra, dois contratempos seguidos são desanimadores. Procurei concentrar-me na minha máxima preferida e “o que não tem remédio, remediado está”. Hei-de encontrar uma solução e será melhor amanhã do que agora…Como havia um movimento anómalo junto à água, umas dezenas de metros adiante, fui até lá. Um dos barcos que passou de manhã para a faina, regressava a abarrotar de pargo “rojo”. Literalmente a abarrotar…não imaginava que ainda houvessem cantos escondidos neste planeta delapidado, onde uma barcaça artesanal e uma rede conseguissem capturar tal quantidade de peixe.


Pargo "rojo", esconde-te dos famintos pesqueiros europeus...

Novos e velhos, homens e mulheres, atarefavam-se a retirar o peixe da rede, pargo após pargo, caixa após caixa. Não faltou, a meio da tarefa, uma rodada de cerveja gelada que pareceu evaporar-se, mal tocava nos lábios secos de cada um.
Claro que ao jantar não pude perder um pargo fresco, infelizmente frito, pois peixe grelhado parece ser um conceito desconhecido por estas latitudes…

É preciso é ter lata...

A aproximação à cidade do Panamá afinal é mais tranquila do que esperava. Apesar do trânsito ser intenso e especialmente ruidoso, pois os panamenhos adoram buzinar, pedalei sempre tranquilo e com sensação de segurança, mesmo quando a berma da estrada desaparecia e tinha de rolar na faixa de rodagem…

Cidade Panamá - o içar mortal da bandeira

A ponte das Américas marca a entrada na cidade do Panamá, com a transição brusca do espaço rural para o urbano. Uma pequena zona de subúrbios, com ruas estreitas e sujas, ladeadas de blocos de prédios não muito grandes, mas feios, e armazéns decadentes, não deixa adivinhar o moderno centro de torres de betão e vidro, com os pés no mar e olhos no céu. Avenidas largas, pontes e viadutos, separados do mar por um amplo espaço verde, com ciclovia e via pedonal contornando o pacífico, conduzem-nos ao coração financeiro e económico da cidade. Apesar de não ser fã do betão e vidro apontados ao céu para residir, agradou-me contemplar de longe, do aprazível parque verde, do azul do mar calmo, as formas, a geometria e reflexos da cidade…



Panamá moderno

Mas a minha Panamá estava há muito escolhida: seria a zona de San Felipe, ou “casco viejo”, a segunda localização da cidade colonial, depois da primeira cidade, afastada uma dezena de quilómetros, ter sido saqueada e incendiada pelo bando de piratas de Henry Morgan, nos idos de 1671.





Casco Viejo (San Felipe)
O “casco viejo” é uma espécie de promontório que se estende mar adentro, ao longo das três ruas longitudinais (avenida central, avenida A e avenida B). A “entrada” no casco viejo é desagradável, feia, suja e mal cheirosa. Mas à medida que avançamos para o extremo do povoado, sente-se a atmosfera tranquila da vida descontraída por detrás de portas e janelas abertas; jardins, praças e ruas onde se joga à bola, escuta o relato desportivo, ou se disputa uma partida de xadrez. E no fim de cada (curta) “calle”, estende-se o azul denso do pacífico, suave como uma lagoa. Há dezenas de casas em obras de recuperação e muitas mais que parecem abandonadas ou profundamente degradadas.

Casco Viejo - artesão de "raspados"

Grande parte dos habitantes são de parcos recursos e a pobreza expõe-se, sem complexos ou floreados, por detrás de portas e janelas escancaradas, lado a lado com charmosas boutiques de artesanato, restaurantes para todas as bolsas e mesmo a melhor geladaria “do mundo”. A praça de França oferece entardeceres inebriantes, onde o tempo e o espaço perdem sentido, e o céu e a terra se fundem num abraço magico do instante infinito. Do “paseo de las bovedas” admira-se a distante Panamá moderna e as suas torres longilíneas debruçadas sobre o pacífico, sempre o pacífico…


Casco Viejo - Teatro

O museu do canal do panamá, surpreendeu-me não apenas pela exaustividade e abundância com que ilustra a história do canal, mas pela retrospectiva histórica do país, incluindo o período contemporâneo. Na verdade, por vezes parece que a história do Panamá é a história das vias de transportes e da ligação do Atlântico ao Pacífico. Desde a chegada dos colonizadores espanhóis, que há registos de correspondência no sentido de encontrar uma via que ligue os dois oceanos…Compreende-se, pois o objectivo era chegar ao “oriente” por “ocidente”! Mas a parte mais impressionante é mesmo a construção do canal do Panamá, seja durante a trágica tentativa dos franceses, seja durante a concretização americana. Os equipamentos mobilizados; a quantidade de trabalhadores oriundos dos quatro cantos do mundo; as dezenas de milhares de mortos – há relatos de dezenas de suicídios diários, por enforcamento, principalmente entre trabalhadores chineses, apesar de lhes ser fornecido ópio… fait-divers hilariantes e jogadas de mestre do lobby do senado americano pró-Panamá – discutia-se uma alternativa na Nicarágua. Agora tem sentido…quando estive em León, o Óscar – revolucionário sandinista que me mostrou a asociación de combatentes históricos héroes de veracruz – disse-me que houve uma reunião de “pacificação”, por volta de mil e novecentos, promovida pelo governo americano, em que um dos quatro pontos do acordo de paz era a construção do canal na Nicarágua. Curiosa jogada do lobby pró-panamá, foi o envio a todos os senadores, no dia da discussão, de uma colecção completa de selos nicaraguenses, cujo motivo são … os vulcões activos da Nicarágua! Como construir um canal num país pejado de vulcões activos!? E, já agora, parece que mandou também fotografias do “famoso” “arco chato”, do convento de Santo Domingo, no “casco viejo”, exactamente para demonstrar a “solidez” do Panamá, pois o arco, de 10,6 metros de alto por 15 de cumprimento, permanecia incólume desde 1678…



Casco Viejo

Mas a história do Panamá está indelevelmente ligada ao “amigo americano” e à sua importância estratégica nos transporte… Curiosamente, já a linha-férrea que liga o atlântico ao pacífico, foi construída velozmente para transportar o afluxo de bens e pessoas de… Nova York para San Fancisco, aquando da febre do ouro.


Cidade Panamá - Causeway

O hostal casco viejo fica no coração do “casco” e tem um ambiente verdadeiramente amistoso, dos empregados mais simpáticos e disponíveis que já conheci. Mas recordo o hostal especialmente por duas “figuras” que lá conheci: uma colombiana e uma italiana…
A Seraida, colombiana, viaja há dez anos pela América, do México ao sul do continente. Quando a conheci estava sentada em cima da cama, ladeada por martelos, alicates, arames, fios e mais uma infinidade de quinquilharias. Fabricava brincos, pulseiras, fios e outros objectos de adorno, que dispunha em vários painéis de tecido preto ou branco. Aprendeu, fazendo, e é da sua venda que vive e viaja pelos quatro cantos da América “pobre”. Quando nos apresentámos, estendeu-me a mão e ainda me doem os dedos e o braço, tal a energia, firmeza e força daquela mão pequena, esguia, de dedos finos e rijos. Ainda os meus amigos me acusam de ser bruto…deviam levar com uma daquelas!! Curiosamente, jantava eu numa improvável tasca, repleta de pessoas de todas as idades e credos, mas mais nenhum com sotaque de turista, quando senti uma mão amistosa nas costas e vi o ar de surpresa estampado no rosto, sempre sorridente, da Seraida. Não percebia como é que um turista acabado de chegar, tinha descoberto aquele sítio e, principalmente, se atrevia a entrar… Na noite seguinte a cena repetiu-se, desta vez sem surpresa.
Quando, ao anoitecer, regressei ao hostal, a Nassely, recepcionista, disse-me, em grande excitação, que tinha chegado uma italiana numa bicicleta igual à minha. Mesmo igual, repetia. Vinha no sentido contrário e tinha chegado tão exausta que tomara um banho e adormecera a meio da tarde – iria dormir 15 horas seguidas… Afinal, o que a bicicleta da Micaela (não sei se é assim que se escreve) tinha igual à minha – para alem das rodas, já se vê – é que também viajava com um atrelado, esse sim, exactamente igual ao meu…
Conheci a Micaela ao pequeno-almoço do dia seguinte. Deve ter acordado com fome depois de 15 horas de sono. O hostal tinha pequeno-almoço incluído, mas na verdade eram apenas uns pãezitos demasiado alvos e pequenos, com doce e manteiga de amendoim e café. Eu apenas “degustava” e depois complementava com as minhas provisões próprias, nomeadamente fruta e leite. Mas fui observando a Micaela, que repetia consecutivamente. A determinado passo confessou que já estava com vergonha, mas tinha tanta fome… e foi aí que começou a deixar cair relatos sobre a sua experiência desde o Ushuaia, de onde partiu em Agosto, em pleno Inverno! Falava com uma chama imensa de todos os sítios, das pessoas que conheceu, da generosidade que encontrou em todos os países, mas especialmente no Peru e Bolívia. Fui percebendo o que queria dizer quando deixou “cair” que atravessou o Equador com … 50€!! Nunca dormiu num hotel ou coisa parecida, raramente pagou o jantar, pois as pessoas em casa (ou quintal, ou jardim) das quais pernoitava, davam-lhe comida, por vezes não só a refeição mas também para levar! Eu estava mais ou menos aparvalhado… 50€ dá-me para dois dias e é nos países baratos!! Ofereci-lhe um ananás, que só aceitou depois de lhe mostrar que tinha mais dois para mim. Dei-lhe o mapa da América Central e perguntou-me se não queria algum dinheiro de comparticipação. Quando demos uma volta pela cidade, comprou bananas e … implorou (não regateou ou negociou, implorou) ao vendedor espantado, que lhe vendesse 10 bananas por um dólar. Para sorte dela, o vendedor não percebeu, pesou as bananas correspondentes a um dólar e … eram 12!
Trocámos alguma informação e contou-me da terrível travessia de barco que fez da Colômbia para o Panamá, por San Blass – eu farei o percurso inverso. É a 4ª pessoa que conheço que fez o percurso e todos me falaram do mar tormentoso. Há mesmo um inglês com quem me cruzei na Nicarágua, que me mostrava a forqueta da bicicleta, esmurrada das marteladas que lhe deu para a endireitar, pois com os saltos do barco, tinha ficado toda torta…A Micaela recomendou-me insistentemente que fosse de avião, pois não só era mais barato (cerca de 300 dólares, contra os 400 ou 450 de barco), como mais seguro, cómodo, confortável. Com o mar revolto, enjoou toda a viagem, não conseguiu comer nem dormir, parece que a tripulação não era simpática, o barco sujo e ainda teve problemas com o passaporte – recomendou-me que viajasse com o passaporte e só pagasse a viagem – pelo menos parte – no fim. Enfim, traçou um quadro apocalíptico, a todos os níveis, da travessia San Blass-Colômbia… No dia seguinte partiu “com as estrelas”, como gosta, e gosta de dizer.
O último inverno foi tão intenso que existem algumas centenas de milhares de desalojados no Panamá (dois milhões na Colômbia, ao que parece) e o canal, pela primeira vez em 100 anos, teve de fechar ao trânsito, para abrir as comportas e permitir o escoamento das águas do lago Gatún. A estrada que pensava seguir, de Chepo para Estelí, foi destruída e continua fechada ao trânsito. A alternativa é ir pela costa atlântica até Miramar e fazer de barco os 25 kms de ligação a Porvenir, uma das 375 ilhas que compõem o arquipélago de San Blas, território “autónomo” dos Kuna Yala, onde é indispensável carimbar o passaporte para a saída do país por mar para a Colômbia. Apesar da verdadeira narrativa de terror da Micaela sobre a travessia, mantive a decisão de ir de barco. É verdade que até para a Berlenga ia morrendo de enjoou, e da ligação Pico-Terceira nem se fala, pois não saí da casa de banho, mas está decidido: quero ir a San Blass, ver flutuar mais de 300 ilhas nas águas cristalinas – e revoltas, ao que parece – do Caribe, sentir de perto o remoto modo de vida dos Kuna e talvez sentar-me na ilha Robinson a tentar descobrir o sexta-feira…
O Raffa é um “agente” turístico. Entre outras coisas, intermedeia viagens de barco de San Blas para a Colômbia. É pequeno, franzino, moreno mas com um olhar vivo e afável. No hostal têm o contacto dele, mas quando o peço, dizem-me que ele está lá fora na rua. Saio e dou de caras com ele. Digo-lhe que pretendo uma viagem e procuro saber as condições. Parece que tem múltiplos contactos e que na próxima segunda-feira saem vários barcos. Digo-lhe que segunda-feira é muito apertado para mim, pois queria ficar mais um dia na cidade do Panamá e fazer a ligação de bicicleta, calmamente e visitando alguns pontos ao longo do percurso, nomeadamente o canal. Telefona para o primeiro – que tem o barco maior – mas parece estar completo. Refere-lhe que como o tempo está muito mau, a bicicleta não pode ir “em cima” mas dentro do barco e não tem espaço. Telefona para o segundo, que diz o mesmo sobre a bicicleta. Este tem espaço interior, mas tenho de pagar um extra: 480 dólares o total. Está acima do esperado e, principalmente, desagrada-me partir na segunda-feira, mas não tenho muitas alternativas. Peço-lhe para investigar se há mais alguém que parta a meio da semana. Faz terceira tentativa e o capitão Hernando diz-lhe que tem lugar, que parte segunda-feira ao fim do dia, pois está numa “viagem especial”, com um grupo de colombianos que fazem a viagem de ida-e-volta. A surpresa é que me leva por 250 dólares…Faço (poucas) contas: tenho de encurtar a estadia na cidade do Panamá e partir sábado de manhã, para domingo dormir em Miramar, de onde uma lancha me levará, supostamente por 25 dólares, e também intermediado pelo Raffa, directamente ao capitão Hernando.
Tudo apalavrado, regresso ao hostal e procuro a mephoquina para iniciar a profilaxia da malária. Mas de mephoquina nem rasto!! Há dois dias, no backpaker inn hotel, tirei os comprimidos da “farmácia” para os colocar “à mão” e não me esquecer da treta do tratamento e esqueci-me deles no hotel. “Ainda os estou a ver” em cima da cama e depois a mandar a coberta para trás, tapando-os, e lá ficaram!! Nas várias farmácias da cidade do Panamá não há mephoquina… Talvez se for ao hospital nacional, dizem-me nas farmácias. Mas há uma que tem cápsulas de quinina. Chatice porque assim tenho de tomar diariamente e não apenas uma por semana…paciência, é o que há.

Barcos à espera para atravessar o canal

As visitas ao canal só abrem às 9h. Mas às 9h em ponto há hordas de gente, com todos os sotaques e idiomas, para entrar. Parece ser um autêntico ovo de Colombo… O que mais me impressiona é a precisão de cada navio dentro do “tanque”: “este tem apenas 50 cms livres de cada lado”, diz a speaker. Numa operação em que tudo parece decorrer em câmara lenta, mas onde a precisão é absolutamente crucial, a primeira comporta abre-se e, com a água ao nível do oceano pacífico, o barco avança muito lentamente, rebocado por quatro ou mais rebocadores, que o mantêm “amarrado” e na rota. Fecha-se a comporta e a água começa a subir “rapidamente”. Dez minutos, diz a speaker e vê-se o barco a subir os cerca de dez metros. Agora a água está nivelada com o tanque seguinte.





Canal do panamá

Abre-se a próxima comporta e o navio avança devagar até ficar dentro do “tanque” seguinte. Fecham-se as comportas, de 600 toneladas, na traseira do navio e a água do segundo “tanque”, onde está o navio encurralado, sobe também cerca de 10 metros. Abre-se a comporta da frente e lá vai ele, a caminho do terceiro e último degrau desta escada que o elevou 26 (?) metros acima das águas do mar, para navegar ao longo do lago Gatún, até Cólon, onde descerá para as águas salgadas do atlântico…
De regresso à estrada, em breve alcanço o frondoso Parque Nacional Soberanía. É sábado e passam dezenas de ciclistas em bicicletas de estrada. Infelizmente, as sombras frescas do parque ficam rapidamente para trás e pedalo sob o habitual sol impiedoso.
O meu mapa só tem uma estrada para norte, para Colón, pelo que, em Chilibre, deduzo que tenho de seguir pela “autopista”. Há países onde é proibido circularem bicicletas e outros onde é permitido. Procuro alguma sinalização que me esclareça, mas o único sinal apenas proíbe peões. Avanço e poucas centenas de metros adiante estão dois polícias sentados à sombra de um toldo. Cumprimento-os de forma veemente, esperando alguma reacção, caso não possa pedalar na auto-estrada, mas recebo apenas uma saudação preguiçosa. Aproveito a descida e deixo-me embalar velozmente. Ainda não teria percorrido três quilómetros e já uma potente sirene me fazia comichão nos tímpanos. Olhei para trás e lá estava uma carrinha com luzes e sirenes a mandar-me parar. Não era da polícia mas sim da concessionária da estrada. Saíram e disseram-me o óbvio: que não podia circular de bicicleta. Expliquei-lhes que não havia qualquer sinalização, que os próprios polícias não me tinham dito nada e por isso não podia adivinhar – o que me estava a lixar era ter de subir a distância já percorrida. Sempre gentilmente, disseram que me levavam para trás na carrinha até ao “ponto de partida”.
Durante o resto da minha jornada no Panamá, parece que mudei de país… A estrada é suja, as habitações pobres, sujas, o lixo acumulado por todo o lado e cheiros a condizer. Os miúdos descalços e, os mais pequenos, semi-nus. À porta dos “talleres” acumulam-se carros decadentes, latas e pneus. Até os supermercados dos chineses parecem mais sujos e menos recheados.
Em Sabanitas tomei a estrada para Portobelo. Pouco a pouco, as povoações vão desaparecendo, surgindo coloridas casas dispersas, envoltas na luxuriante vegetação tropical e debruçadas sobre o mar do Caribe. Meia dúzia de quilómetros antes de Portobelo, uma curva da estrada trás consigo o hotel e restaurante octopus, de costas para a estrada e suspenso sobre o mar lânguido do entardecer. A proprietária é americana e não fala uma palavra de espanhol, apesar de viver há mais de uma década “por aqui”. Pergunto quanto custa um quarto e surpreende-me com a resposta: “venha ver e podemos negociar”. Era o único inquilino e fiquei com o mais barato, por 20 dólares…

Portobelo, esplanada do octopus - restaurante, hotel e escola de mergulho




Portobelo

Até Miramar, a paisagem pouco muda. A estrada é estreita e o tráfego cada vez mais reduzido. Sente-se que estamos noutro país; sente-se que os escassos habitantes pertencem ali e não a outro local; sente-se que o seu horizonte vai, no máximo, até Colón; sente-se que o tempo ali tem outra cadência. Em mais que um rio, dezenas de jovens espigadotes brincam como crianças, saltam de pontes em piruetas, mortais, ou de chapa, fazendo estremecer a ponte com o impacto na água – ou com as gargalhadas dos amigos.
Na última povoação que antecede Minamar, paro no supermercado para comprar água. Pergunto o preço, inclusivamente do garrafão de um galão, demasiado grande para as minhas necessidades e capacidade de transporte, e opto por uma garrafa pequena.
Quando transferia a água para a garrafa que segue na bicicleta, aparece-me o Daniel com um galão de água! insistindo em “regalar-mo” – deve ter concluído que não o comprei por falta de dinheiro…tive de lhe explicar insistentemente que não tinha espaço, nem necessidade de tanta água! Acedeu quando lhe disse para então me oferecer uma cerveja…

Miramar

Miramar é quase o fim da estrada. A povoação é muito pequena, de casas pequenas, embarcações pequenas, ruas pequenas. Atravessei muito devagar a aldeia e prossegui ao longo da estrada, agora de terra, flanqueada pelo verdejante Caribe. Pensava que tinha deixado para trás a última povoação, os últimos vestígios humanos, mas afinal ainda existe a aldeia de Cuango. Apesar de não vir “nos mapas”, surpreendeu-me por ter um “restaurante” de “comida crioula”e um bar de onde sai música aos berros. Olhando para o restaurante, o apetite tende a esvair-se, mas a curiosidade pela comida crioula leva a melhor. A casa é minúscula, as refeições são servidas na (única) mesa existente, seguramente a mesma onde a numerosa família come…Não é preciso pedir, pois não há escolha. Na enorme malga de sopa de peixe, consigo identificar yuca, cenoura, milho, banana, cebola, tomate e imensos coentros. De aspecto rude, estava deliciosa… o prato seguinte abarrotava de lentilhas guisadas, arroz de coco, patacones (banana verde frita, presumo que com farinha, dando-lhe o aspecto espalmado das pataniscas de… bacalhau!) e carne guisada. O dono – cujo nome esqueci – veio sentar-se à mesa comigo e conversar. Queria saber a minha opinião sobre a exploração mineral na região circundante – parece que há minério de cobre em abundância e discute-se se deve ou não ser explorado. Pena, disse-me, foi não ter aparecido ontem, pois o almoço foi iguana e estava deliciosa…







Estrada de Portobelo a Miramar

De regresso a Miramar, o dono do café, que também alugava quartos, disse-me que devia estar no molhe pelas 7h da manhã, e não 8h, como me tinha recomendado o Raffa. Normalmente acordo cedo, pelo que às 7h lá estava no pequeno molhe. Àquela hora, apenas havia uma barcaça, com ar decadente, no cais. Do seu interior iam saindo dezenas de caixas de cerveja e pepsi e garrafas de gás, vazias, provenientes de San Blas.
Alguns turistas de mochila às costas iam chegando e em breve tomavam uma lancha para San Blas. Eu aguardava especificamente a Yusiel, do Beto Gonzales…o tempo ia decorrendo, turistas chegavam e partiam e eu sentado esperando. O último grupo a chegar era composto por quatro jovens: dois rapazes e duas raparigas. Quando o polícia estava a verificar os respectivos passaportes, algo me sou estranho…talvez o sotaque de um dos rapazes. Pensei que podia ser português mas desisti da ideia ao perceber o interesse dele pela kalashnikov que o polícia tinha a tiracolo. Deduzi que seria russo…Mas continuei intrigado e como não tinha mais que fazer, acerquei-me discretamente até conseguir ouvi-los trocar algumas palavras. Eram mesmo portugueses! De Coimbra, o Francisco, o Frederico e a namorada de um deles, estavam de férias por estas bandas, a caminho de San Blas. Claro que tirámos a foto da praxe, conversámos sobre destinos turísticos menos convencionais, sobre a minha aventura e fizeram-se ao mar, deixando votos de boa viagem e boas pedaladas…

Em Miramar com os manos Gonçalves

Passava das 9h e comecei a impacientar-me, tanto mais que, contrariamente ao que o
Raffa me dissera, ninguém parecia conhecer a lancha Yusiel, nem o capitão Erik – que a pilotaria, nem o Beto Gonzalez, da ilha do elefante… Suspeito que na realidade conheciam os três elementos, mas diziam que não a ver se eu desistia de esperar e ia num dos barcos locais, que estão sempre a tentar angariar clientes, claro.
Telefonei ao Raffa, que me pediu dez minutos para averiguar o que se passava. Pouco depois garantia-me que tudo estava ok, simplesmente atrasados uma a uma hora e meia. Teria apenas de esperar… e com a ligação ao capitão Hernandez, para Cartagena? Para não me preocupar pois também tinha falado com ele e esperaria…
Às dez e meia lá chegou o Yusiel carregado de passageiros provenientes de San Blas. E, em simultâneo, chegou um autocarro com dezenas de turistas para fazerem o percurso inverso…Mulheres primeiro, homens depois e eu e a Dempster em último lugar, lá nos aconchegámos até esgotar a lotação da pequena lancha – na realidade eram duas, pois não cabíamos todos numa só. Sob o sol tórrido das 11 horas, fizemo-nos finalmente ao mar.
Apesar de o mar não estar muito agitado, mal passámos a zona de rebentação e o barco batia com estrondo na água, após cada onda que sulcava. A minha preocupação era principalmente a bicicleta, deitada numa pequena cavidade do barco, ainda por cima com o desviador para baixo…Fui toda a viagem a fazer de mola, para evitar impactos da bicicleta no barco e cheguei à ilha de Porvenir completamente encharcado em suour, água salgada e dores de braços e pernas – estourado – mas a Demspter não tinha sofrido nada!
Não passei muito tempo em San Blass, mas senti que ali o tempo parou. As 375 ilhas parecem nenúfares a boiarem nas águas cristalinas do Caribe. Palmeiras curvilíneas erguem-se acima da linha de água como cabeleiras despenteadas. Canoas escavadas em troncos de árvore, passam lentamente, aparentemente sem rumo nem objectivo. Outras pairam ondulantes, com um ou dois pescadores de pé, lançando uma pequena rede circular, que recolhem passados escassos segundos. Duas crianças seguem-lhes o exemplo, mas com uns metros de linha…lançam o anzol e de imediato, com uma lata, lançam água sobre a água onde o anzol caiu – presumo que para atrair peixe, claro. De quando em vez passa um pequeno barco a motor, numa velocidade alucinante para o ritmo de San Blas.
Em busca do capitão Hernandez, passamos junto à ilha Robinson. Associo-a de imediato a Robinson Crusoe e esquadrinho a costa à espreita do Sexta-feira ou de alguma peugada de Daniel Defoe…mas em vão. Nem a garrafa de vidro com uma folhinha dentro! Claro, o arquipélago Juan Fernando fica no pacífico e muito mais a sul…

San Blass - uma das 375 ilhas

Está um catamaran ancorado a escassas dezenas de metros de uma ilha pequena, onde a areia é mais branca, mais amarela, mais fina, as águas são mais verdes, mais azuis, mais esmeralda, mais turquesa, mais transparentes, mais cálidas, mais quietas. O Beto chama pelo Hernando e aparece um “velho” marinheiro de cabelo longo e barbas desgrenhadas. O Yusiel aproxima-se quase até se tocarem e a Maria surge atrás do capitão, perguntando quem é o responsável por estarem há um dia à espera. Levando o braço e ela abre um sorriso acolhedor e remata se não podia demorar mais um dia ou dois…
A transferência da tralha é rápida e o acolhimento a bordo do Nácar não podia ser melhor. Mal ponho os pés no barco, logo o capitão me diz: alto, nem mãos um passo! a primeira coisa é descalçares as sandálias. Assim faço. Agora vamos amarrar tudo. E amarramos a bicicleta ao “corrimão”, a estibordo, e o atrelado a bombordo. Os sacos vão para dentro… A chatice é que não tenho qualquer protecção para a bicicleta e vai levar com muita água salgada…
Como me senti culpado pelo atraso, disse que estava pronto para partir, mas o “capi” acenou a cabeça e sentenciou: primeiro vais dar um mergulho e tomar banho neste paraíso; depois almoças e depois iniciamos a viagem.
Já anoitecia quando iniciámos a viagem para Cartagena. Como o tempo estava muito mau, deveríamos demorar entre um dia e meio a dois dias. Felizmente foram pouco mais de vinte e quatro horas, que passei deitado de barriga para o ar, depois de ter vomitado o almoço e tudo o que me caia no estômago, incluindo os miseráveis comprimidos para o enjoou…

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Nicarágua de Sandino

Nicarágua de Sandino...

Entrei na Nicarágua pela fronteira de Guasaule. A única diferença com as anteriores, é o comércio de laranjas, do lado hondurenho. Dezenas de cavalos, equilibram no dorso um ou dois sacos de laranjas a “rebentar pelas costuras”, que são pesados e transferidos para os dois camiões estacionados na berma da estrada.
Na fronteira hondurenha, a funcionária pediu-me o recibo dos 3 dólares que paguei ao entrar no país. Recordo-me bem de ter pago os dólares ao empregado, que largou o garfo com que comia o prato de arroz, para carimbar o passaporte; de lhe dar o dinheiro e não ter recebido qualquer recibo. Depois de algum suspense e consultar a chefia, lá acedeu em me deixar sair sem pagar novamente, recomendando-me, com ar recriminatório, que peça sempre o recibo.
Do lado nicaraguense o movimento era mais intenso que o habitual nas fronteiras anteriores. Há imensos nicaraguenses a entrar na Guatemala. Entrego o passaporte e o empregado pede-me 12 dólares. O meu guia da América Central menciona $5, o cambista a quem vendi as lampiras, tinha-me garantido serem $7 e agora pedem-me $12!? Fiz-me desentendido e insisti na pergunta sobre o montante a pagar. O tipo olhou para mim com ar enfastiado e fez-me literalmente o “desenho”: $12 se quer o visto, disse. Expliquei-lhe que só tinha $7 e que ia trocar dinheiro. Poisou o passaporte e desapareceu por uma porta, enquanto eu fui novamente “ao mercado” comprar mais $5. Quando regressei, o passaporte lá estava mas do tipo nem rasto. No guichet ao lado, outro funcionário carimbava velozmente uns papelitos minúsculos, que me parecem ser vistos temporários para os locais que cruzam a fronteira por horas ou escassos dias. Esperei e desesperei, até que o “meu funcionário” regressou, ainda a palitar os dentes e limpar a boca: era hora de almoço…Apôs o carimbo no pequeno papel e não directamente no passaporte e passou-me um recibo de …$2. Está-se mesmo a ver que, lixado como estava com a espera, e com o recente episódio do lado hondurenho, virei-me para ele e apontei para o recibo de $2, perguntando, com ar inquisidor, afinal quanto é a entrada!? O tipo, desta vez com ar de enfado, juntou os dois papéis e mostrou-me que o outro tinha um valor de $10…
Somotilho é a primeira povoação em território nicaraguense, talvez a uns 15 kms da fronteira, e almocei na explanada do primeiro restaurante que vi. O único prato era bife de cebolada, acompanhado com os inseparáveis frijoles e arroz – mais uma tortilha e um pouco de salada. Na rua, dois miúdos jogavam à bola, por entre o constante vai-e-vem de coloridas bici-táxis – ou trici-táxis – bicicletas transformadas em triciclos, que fazem o serviço de táxi…
A tarde estava bastante quente, e a forte brisa que soprava de Este não ajudava no meu trajecto para Sudeste… Felizmente o percurso é praticamente plano, e consigo manter uma boa média.
Ao longo da estrada surgem casas bastante dispersas. Umas parecem mesmo abandonadas, mas outras têm um ar acolhedor. A vasta planície de campos verdejantes, intercala a pastorícia de bovinos, com culturas que não consigo identificar. O trânsito é escasso mas, surpreendentemente, os veículos que passam por mim, com elevada percentagem de pick-ups, aparentam bom estado. Bicicletas, cavalos e carroças, completam o tráfego.
Na linha de horizonte começa a emergir o cone agudo de um vulcão. Não percebo se são nuvens ou fumo, o chapéu que lhe cobre o cume. À medida que me aproximo, não só vai ganhando dimensão como começa a ganhar nitidez toda uma cadeia montanhosa, pontuada pelas elevações cónicas, típicas dos vulcões. Inquieto-me com a possibilidade de ter de transpor hoje aquela cordilheira, para chegar a Chinandega, a única cidade nas imediações. Observo melhor o mapa e concluo que, afinal, a estrada contorna o “vulcão Viejo” pela encosta norte, o que estica o percurso do dia, mas deve livrar-me da subida.
Procuro manter um ritmo forte, pois não quero pedalar de noite e a terra gira demasiado depressa nesta latitude…
Perto de Vila Salvadorita, ultrapasso dois rapazolas nas suas pasteleiras. Daí a pouco pedalamos os três em fila, em grande velocidade, infelizmente comigo sempre à frente, a puxar…mas a verdade é que por mais de uma vez abrandei o ritmo para não os perder – há sempre um efeito psicológico na competição – e ali sentia-me um bocado a desafiá- los. Teve piada porque, quando parei numa tienda, na beira da estrada, para comprar água, eles pararam comigo, tomaram o peso à bicicleta, desataram a bater palmas e fizeram questão de me encherem a garrafa de água (que agora se vende em “minúsculos” sacos de plástico – de 250 ml).
Até Chinandega foi uma “correria” louca e cheguei à cidade exausto, já mesmo no lusco-fusco. Fiquei no primeiro “hotel” que encontrei, num quarto escuro, sombrio, minúsculo, claustrofóbico, com um beliche aos “pés da cama”, que atafulhava ainda mais o exíguo espaço. Mas a originalidade que retive foi a iluminação: fizeram um buraco na parede que separa o quarto da casa de banho, onde enfiaram uma lâmpada fluorescente comprida, que assim ilumina ambas as divisões…

Hotel em Chinandega

Chinandega parece ser famosa principalmente pela destilaria de rum Flor de Caña, a mais famosa exportação do país e uma importante fonte de divisas, já que é praticamente todo exportado... Nas ruas da cidade, o número de bicicletas e carroças superam largamente o de carros.
No pequeno percurso até Leon, o país de Sandino vai mostrando as suas faces, nem sempre sorridentes… As bicicletas passam devagar, transportando um, dois, três e até mesmo os quatro! membros de uma família, num equilíbrio físico difícil de imaginar. Miúdos e graúdos deslocam-se em cavalos magros, com o trote arrastado e sem o pêlo brilhante e olhar fogoso que nos habituamos a ver nos equídeos de luxo. Pesadas carroças de madeira, carregadas de lenha ou pasto, arrastam-se lentamente pela estrada, puxadas por bois pachorrentos ou cavalos estafados, o mais das vezes com as costelas e quadris pontiagudos à flor da pele. Modernos tractores de enormes dimensões, passam apressados a caminho dos vastos campos de cana-de-açúcar. Pick-ups de brilhantes grelhas cromadas e rumo definido, passam velozes. Da soleira de cada porta, das ondulantes camas de rede, das cadeiras de plástico em redor de uma mesa “coca-cola”, do chão empoeirado de terra avermelhada, ou simplesmente de cima de uma pedra ou bloco de tijolo, jovens, crianças, homens e mulheres de braços caídos, olhares parados nos rostos fechados, talvez aguardem pacientemente que a semente da esperança lançada por Sandino, cultivada por Amador, prometida por Ortega, desabroche na próxima primavera e inunde a terra fértil da Nicarágua. Talvez, como me dizia Maria, a jovem empregada do hostal “tortuga boluga”, aos nicaraguenses baste uma cama – ainda que de rede – e uma refeição para serem felizes…Não sei porquê, mas senti que a sua boca dizia uma coisa e o seu olhar, outra bem diferente.

Leon - "1ª Capital de la revolucion"

León é a auto-proclamada “primera capital de la revolucion”, pois foi a primeira cidade (capital de província) a derrubar a ditadura da oligarquia ditatorial de Somoza e instalar o poder revolucionário sandinista. Óscar, 55 anos, é veterinário e geneticamente revolucionário. Combatente sandinista da FSLN desde “a primeira hora”, com apenas 17 anos, aponta, orgulhoso, para uma fotografia, entre as tantas que povoam as paredes do velho edifício da Asociación de Combatentes Históricos Héroes de Veracruz. “Sou eu”, diz, “no dia em que tomámos León, derrotámos a ditadura oligárquica de Somoza e fundámos a “primera capital de la revolucion”! No resto do país ainda se lutava, mas depois de León ser tomado, nada podia parar a revolução…”.


Leon - Sandino

Discorre com sincero orgulho sobre a história da revolução. Sandino é, obviamente, o pai a mãe, a cabeça, o coração, o herói… Filho de pai cafeeiro e mão campesina, forma-se em engenharia, vai trabalhar nos EU e no México, onde convive com o movimento revolucionário e os seus dirigentes – Zapata à cabeça. Carlos Amador e a fundação da FSLN, décadas mais tarde. As revoltas estudantis e o assassinato de Rigoberto Lópes Pérez. Quantos olhares vazios, quantos rostos anónimos, quantos nomes silenciados, olham, apontam e gritam, das brancas paredes da memória do edifício da “asociación”. Impressiona-me que nem um único dos retratos esboce o mais leve sorriso…Como não podiam adivinhar a morte que os esperava, concluo que não chegaram a aprender a sorrir. A ponte para o presente, e para o “companheiro Daniel”, é feita com menos entusiasmo. Fala dos 5% de analfabetismo, da educação e saúde gratuitas e universais, da distribuição da terra “a quem a trabalha”…A revolução não acabou. A revolução não pode acabar enquanto o miúdo de calções vermelhos dormir, estatelado, no meio do passeio e as pessoas lhe passarem ao lado sem o verem. A revolução apenas pode mudar de cor, de armas, de símbolos, hibernar até. Mas não pode morrer…

Leon - Mural

Lá fora, bem no meio do passeio da Calle Rúben Dário, jaz, de bruços, o miúdo de calções vermelhos e t-shirt cor-de-sujo a quem ontem neguei dinheiro para comer alguma coisa ao jantar, pensando que se estava simplesmente a aproveitar do meu look de turista. Sem cama de rede, sem uma refeição, sob o sol quente da manhã.
Léon está repleta de memórias revolucionárias, de mãos dadas com o sofrimento e a morte dos que trocaram o (seu) presente, sem condições, por um futuro onde não chegaram. Na pequena Galeria Héroes e Mártires, centenas de olhares de homens e mulheres, a preto e branco, olham-nos de todos os ângulos…terão encontrado a sua paz na guerra a que se entregaram…
Lá fora escurece rapidamente. Deambulo em busca de um local para jantar. Nas traseiras da Catedral, junto ao mercado, duas bancas, no meio da rua, libertam um agradável cheiro a comida. Aproximo-me hesitante, procurando avaliar o aspecto, mas já uma expedita rapariga me pergunta o que pode servir-me. Para o espaço e condições, tem uma impressionante variedade de comidas: “Papusas” – uma espécie de empanadas, mas “lua cheia” e não apenas “meia-lua” como estas – com vários tipos de recheio, carnes grelhadas, feijão, arroz, banana frita… Vou perguntando o que é cada coisa e mandando juntar. No fim, acabei com um prato a abarrotar de deliciosos sabores e aromas. Enquanto me esforçava para comer tudo, o meu olhar cruzou-se mais que uma vez com o dum tipo, que andava para trás e para diante, no passeio em frente. Apesar do esforço, levantei-me sem conseguir limpar o prato. Mal me afastei da mesa e me dirigi à moça para pagar, o tipo do passeio chegou-se velozmente à mesa e limpou o prato para um saco de plástico que trazia na mão… Regressou ao “seu passeio”, iniciando o jantar dele com o que sobrou do meu. Desta vez confirmei o que sempre suspeitara: não é por comer tudo o que tenho no prato, que a fome dos que não têm sequer prato, diminui…neste caso até foi o contrário.
Léon vive devagar. Vive em casas baixas, de estilo colonial, com varandas e belos gradeamentos em ferro forjado, de portas abertas para ruas rectilíneas, com o piso rude e irregular de há séculos. Como as demais cidades de fortes raízes coloniais da América Central, o epicentro é a colossal catedral e a praça central, contígua. Pelas ruas deambulam turistas, predominantemente jovens mochileiros, muitos deles de língua francesa.

Daniel...

Numa espécie de ringue, decorre uma intensa partida de basquetebol. Magros e gordos, altos e baixos, carecas e cabeludos, em tronco nu ou com camisolas a preceito, com estilo ou atabalhoados, dos 15 aos 60 anos, disputam os pontos nas tabelas e denominam-se Jordans, Magic, Powel & Cª. Sigo com algum fascínio aquela miscelânea de jogadores, não pelas jogadas ou os pontos que conseguem, mas por ver a mesma alegria e entusiasmo nos de 15 e de 60…
No passeio aquecem skaters, patinadores e futebolistas. Já é noite escura quando os gigantes se dão por saciados e lhes cedam o palco. Um miúdo de calções vermelhos, t-shirt cor-de-sujo e expressão zangada, agressiva mesmo, senta-se ao meu lado e pede-me dinheiro para comer. Olho-o nos olhos escuros e digo-lhe que não – deve querer aproveitar-se do meu ar turístico…
Passei a manhã a visitar o museu arquivo Rúben Darío e o centro de arte Fundación Ortiz-Guardián. Para alem dos belíssimos edifícios onde se localizam, surpreendeu-me a vasta colecção de arte de toda a América Latina, um certame de arte contemporânea de todos os países da América Central, a enorme exposição de cerâmica e mesmo uns Picassos, incluindo uma cópia ou esboço (?) da Guernica…


Vendedor de gelados

Deixo Léon a caminho de Manágua, embora não tenha intenção de parar na capital. A poucas centenas de metros do centro de Léon, regressa com intensidade o modo de vida rústico e carenciado dos nicaraguenses, com as carroças e bicicletas em constante vai-e-vem.
As longas rectas sucedem-se na planície verdejante, delimitada, lá longe, à esquerda, por uma cordilheira de majestosos vulcões. Parece que são dezassete ao todo, alguns em actividade… Com excepção dos distantes vulcões e pequenos fait-divers da vida quotidiana, que acontece para lá da berma da estrada, a jornada é monótona e cansativa. O sol quente, a humidade crescente com a aproximação ao equador, a brisa forte que me acompanhou todos os dias na Nicarágua, e uma longa subida nas imediações de Manágua, fizeram-me desistir do objectivo secreto de pernoitar em Masaya, cerca de 30 kms depois da capital. Mas como queria chegar o mais longe possível, decidi passar Manágua, esperando encontrar um hotel, ou motel, nos subúrbios. Os kms iam passando, o desgaste aumentando, o vento fortalecido pelo meu desgaste e de hotel nem sinal – na verdade vi o Hilton…mas se me aproximasse, deveria ser logo preso! Como estava com pouco dinheiro, parei num multibanco, junto a um supermercado. Duas mulheres, na casa dos 50, conversavam junto ao “cajero” e decidi perguntar se havia algum hotel ou alojamento próximo. Uma delas respondeu que podia alugar-me um apartamento para pernoitar, corrigindo de imediato que não era um apartamento mas sim um quarto na quinta dela. Mostrei-me interessado e perguntei-lhe onde era e quanto custava. A resposta foi mais surpreendente…ficava ao km 13 da estrada (estávamos no 9º) e perguntou-me quanto queria eu pagar! Não estava de todo preparado para aquela pergunta e lá lhe disse que o máximo que podia pagar eram $15 (até no país de Sandino, o dólar vem antes das córdobas…). Respondeu-me que estava bem e para esperar um pouco por ela, pois me “conduziria” até à quinta, seguindo à minha frente no carro.
Ao km 13 há um pequeno desvio à direita e, imediatamente a seguir, novo desvio em terra batida, que dá acesso a várias moradias completamente embrenhadas na luxuriante vegetação tropical. Abriu o portão, abriu as portas da casa, mandou-me entrar com a bicicleta sala adentro e arrumá-la junto a uma parede da sala. Foi-me mostrar o meu quarto, cozinha e casa de banho. Infelizmente não havia água corrente naquela altura – há cortes frequentes no abastecimento de água – e tive de recorrer ao velho método de um alguidar de água e um púcaro.
A casa era de uma enorme simplicidade, com parca mobília e menos elementos decorativos. Mas era uma “casa na floresta”, com um grande alpendre, vedado com rede mosquiteira, onde se dispunham várias cadeiras de baloiço, camas de rede e uma rústica mesa de cimento com cadeiras em redor. Era ali que a Ivânia gostava de passar as tardes, sempre que podia, enquanto o filho Leonardo, de 12 anos, dedilhava acordes confusos, numa das duas guitarras que tinha na sala contígua.
Antes de sair de novo com o filho e me entregar a chave da casa, com a única recomendação de não abrir a porta nem o portão a quem quer que fosse, preparou-me um chá e um pão com manteiga, pois eu “devia estar com muita fome” – não pensei que fosse tão evidente…E enquanto tomávamos o chá, apresentou-se. É emigrante em Montreal, no Canadá, há quase trinta anos. O marido e as duas filhas mais velhas estão lá e ela está temporariamente na Nicarágua, “para ajudar este miúdo” – o filho. Gostaria de não me cobrar nada pela dormida, mas está com alguns problemas na vida e só por isso aceita. A “amiga” com quem estava a falar quando a vi, ficou muito preocupada por ela levar assim um estranho a dormir em casa, ainda por cima estando sozinha com o miúdo, mas ela “seguiu o coração, pois quando me viu, sentiu logo que eu era uma pessoa especial e boa”! Não a felicitei, mas bem podia, pois foi a pessoa que, até hoje, mais rapidamente avaliou correctamente a minha pessoa!!
Na verdade, a Ivânia é que é mesmo uma pessoa excepcional e excepcionalmente boa…quando regressou, passava das 10 da noite, sentámo-nos no alpendre e contou-me o dia dela – quase dava um post, de uma humanidade e solidariedade luminosa…

Manágua - Quinta Scorpio

Despedi-me da quinta scorpio – assim se chama a casa da Ivânia – mal clareava o dia. Não quis pequeno-almoço e despedi-me com o peso das coisas definitivas…Até nunca mais, que é como quem diz, até sempre, pois dificilmente me esquecerei da Ivânia.
Masaya é uma pequena povoação cerca de 30 kms a sudeste de Manágua. Na realidade só há duas razões para pernoitar na cidade: o mercado nacional de artesanato – o único do país – e o activo vulcão Masaya, onde quero fazer um treking.
Uma das coisas excepcionalmente boas desta viagem que estou a fazer, é poder viver cada momento, cada lugar, cada sitio onde pernoito, cada café ou restaurante onde me sento, cada banco de jardim onde “poiso”, cada conversa circunstancial, com a intensidade das coisas absolutas, únicas e irrepetíveis e com a leveza da absoluta despreocupação com o antes e, especialmente, com o depois – com o autocarro ou o avião, com o jantar, com a reunião, com o encontro, com o compromisso, em suma, com o Relógio. Por isso, mesmo Masaya, uma vila – ou cidade – sem nada de cativante, cativou-me. Cativou-me o jardim, mais pequeno e banal que os jardins das cidades importantes, talvez pelos excepcionais sumos naturais que uma senhora simpática e paciente – para me explicar repetidamente quais os sumos que tinha e de que eram – preparava; talvez pelos miúdos brincando em “calhambeques” que se parecem com bicicletas; talvez pelos vendedores de jornais e jogo, que passam (passeiam?) tranquilamente, aparentemente pouco preocupados com o negócio e mais com a conversa.

Masaya – noite de folclore


Vulcão Masaya

Para alem do jardim, há o “museu” – da revolução, claro. Na verdade é uma pequena sala no edifício da câmara (?), narrando e ilustrando a participação revolucionária da região. E, tal como em Léon, lá estão centenas de fotos dos que sacrificaram o único bem que tinham – a vida – ao sonho. É verdade que as fotos “enganam”, pois muitas são das vítimas/heróis enquanto miúdos. Mas isso mesmo dá um ar ainda mais sombrio e injusto à morte. Quando via aqueles olhos de crianças mortas, parados ainda em vida, fixos nos meus, pensava: espera, na foto eram crianças inocentes, mas morreram já adultos, convictos da causa que abraçaram…seja como for, todos aqueles olhos se apagaram como velas lançadas na tempestade, para iluminarem o caminho da esperança…


Juan, vendedor de cordas

O mercado de artesanato fica numa grande “praça”, vedada por um muro parecido com um castelo. As tendas dispõem-se “tematicamente”, em complexos corredores, cantos e recantos. A diversidade é enorme, o colorido sumptuoso, a qualidade parece elevada, os preços baixos e, surpreendentemente para estas latitudes, os vendedores – muitas vezes a lerem o jornal ou um livro – têm uma postura discreta, deixando os visitantes completamente à vontade.
A maioria deste artesanato é produzido na cidade e existe um mapa com a localização de grande parte das oficinas dos artesãos…na minha deambulação pela cidade, que me levou aos subúrbios ocidentais, junto da laguna Masaya, com vista para o vulcão do mesmo nome, vi vários artífices trabalhando em minúsculas oficinas familiares, de portas abertas aos turistas curiosos. Claro que alguns perderam alguns minutos a responderem ao meu inquérito…

Masaya - vendedores de lenha

Mas como nem só de artesanato e turistas vive uma comunidade, um jovem casal de comerciantes de lenha, fazia a entrega da última encomenda do dia. O cavalo seco e com ar estafado, arrastava, sem pressa, a carroça agora vazia. Como há muitas pessoas sem possibilidades para cozinhar com gás, o negócio da lenha vai dando para alimentar os três, diz-me o Juan, com um sorriso triste. A mulher, de lápis e calculadora em punho, vai anotando as encomendas – e os créditos, que também os há…

Granada - Catedral

No mundo simples e a “preto e branco”, Léon é conhecida pela sua tradição revolucionária e de esquerda e Granada pelo conservadorismo. Parece que a implantação político-partidária e a concentração dos votos é mesmo extrema nestas duas cidades e no passado as divergências resolveram-se com violência…


Granada, vista de la Merced

A torre da igreja La Merced oferece uma visão soberba de Granada, das ruas geométricas que nos conduzem o olhar até ao lago Nicarágua, aos vulcões, sempre vigilantes, ou à vegetação verdejante dos arrabaldes. Acima das casas baixas, de telhados de acastanhada telha de canudo que, muitas vezes, dão para sedutores pátios interiores, erguem-se cúpulas e torres de igrejas pelos quatro pontos cardeais.


Granada - La Calzada

Granada faz parte da “ruta colonial e de los volcones”, que atravessa toda a América Central. Muito menos imponente e cosmopolita que San Cristobal de las Casas, no México, menos turística que Antígua, na Guatemala, e que a sua vizinha Léon, parece estar também a despertar rapidamente para o turismo.
A Calle Atravezada e a Calle la Calzada não só delimitam a cidade como circunscrevem claramente o centro. É surpreendente como todos os turistas afluem à mesma zona, povoando as esplanadas, bares e restaurantes de uma mesma rua. É como se houvessem duas cidades na cidade: a Calle la Calzada – para turistas – e o resto. É um estranho turismo, este em que turistas convivem com turistas, mais parecendo que estão num cruzeiro em doca seca…mas é aqui que, pelo menos à noite, todos os caminhos vêm dar. É nesta rua que todas as ofertas podem surgir, desde jovens “massagistas” com ar lânguido e olhar insinuante, a discretos dealers de estupefacientes.
Turistas de todas as idades e pronúncias vão preenchendo as explanadas, e as mesas enchem-se de garrafas de cerveja de litro, vazias. Parece popular na Nicarágua a cerveja de litro, normalmente dividida entre mais que uma pessoa…eu próprio já fui surpreendido com uma, pois como não especifiquei, veio, por defeito, uma de litro!


Granada - campo de futebol

Lambia devagar o gelado, que teimava em escorrer pelo cone, quando o Luís se aproximou de mim com a sua colecção de artefactos de barro. Contrariamente ao habitual, poisou as faianças, com cuidado, no chão, apresentou-se, sentou-se ao meu lado e não falou de negócio mas sim da minha t-shirt – uma adidas preta com listas brancas nas mangas – que serviu de introdução a uma longa conversa sobre futebol, claro. Apesar dos imensos conhecimentos que tem do futebol europeu, confundiu a t-shirt com a “alternativa” do Real Madrid. Mas mesmo assim, pediu-me insistentemente para lha “regalar”, pois colecciona equipamentos de equipas e selecções de futebol, “mas são muito caros na Nicarágua”. Na verdade, ao ouvir o entusiasmo e orgulho com que fala do equipamento da argentina, do Liverpool, Inter, etc., estive vai-não-vai para ficar em tronco nu na praça central de Granada e dar-lhe a t-shirt. Mas tive uma ideia melhor: prometi enviar-lhe a do Glorioso quando chegar a Lisboa. Trocámos endereços e ficou de me “lembrar” lá para Novembro…

Granada - de pequenino...

Granada confina com o lago Nicarágua. De águas acastanhadas e ondas impressionantemente grandes para um lago, na sua margem estende-se um enorme parque verde, que dizem pouco recomendável depois de escurecer. Mas durante a tarde é um excelente perímetro para passear, repleto de vida e espelho das singularidades nicaraguenses. Campo de futebol improvisado, em que quatro bicicletas fazem de balizas; campo de pastagem, onde vacas e cavalos devoram enormes tufos de erva verde a escassos metros do lago; pista de jogging, skate e bicicletas; cenário de fotografia de moda, onde uma jovem hesita entre controlar o vaporoso vestido, revolto pela aragem, e o sorriso ensaiado para o fotógrafo. Eu, acabo a tentar reparar a bicicleta de uma gaiata que mal chega com os pés aos pedais, numa bicicleta enferrujada, onde já nada funciona…


Lago Nicarágua - Ilha Ometepe

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

El Salvador e Honduras

A minha passagem por El Salvador foi praticamente “directa”, seguindo a estrada panamericana, sem procurar sítios que façam parte do roteiro turístico. Mas a verdade é que as poucas atracções turísticas que tive oportunidade de visitar, não me despertaram entusiasmo, muito menos fascínio. Apenas as ruínas de Joya de Cerén, património da Unesco, perto de San Salvador, têm interesse histórico. O sítio arqueológico mostra um pequeno conjunto habitacional, soterrado por diversas erupções vulcânicas no fim do século VI e recentemente descoberto.
A fronteira de Valle Nuevo-Las Chinamas, entre a Guatemala e El Salvador, é definida pelo rio Paz.

Fronteira Guatemala-Salvador

A tarde vai a meio e a descida para o rio mostra um horizonte tendencialmente plano, onde domina o cónico vulcão Chingo. O posto fronteiriço guatemalteco fica imediatamente antes da ponte e o movimento de carros e pessoas é residual. Uma centena de metros antes do edifício, meia dúzia de jovens erguem-se na modorra quente do sol impiedoso e dirigem-se-me, excessivamente excitados. Trazem na mão os habituais maços de notas, um deles, uma calculadora e vários apenas fazem ruído, anunciando o câmbio.
A moeda corrente em El Salvador é o U$ dólar e, como habitual, não sei se tenho de pagar alguma taxa para entrar no país. Os “meus” cambistas dizem-me que não e oferecem-me 1U$=8,09 quetzais. Parece-me um câmbio razoável, pois 1€=10,4 quetzais. Rebusco os quetzais da carteira, sempre rodeado por excesso de alarido, e contabilizo 690. Rapidamente o tipo da calculadora faz a conta, e aponta o mostrador com 43 dólares, que o cambista me passa para as mãos. Digo-lhe que a conta tem de estar errada e o alarido aumenta. Mando-os calar, para fazer a conta sem calculadora. Mas já o “calculadoras” me aponta o mostrador e escreve, 690/8,09=53. Afinal estava mesmo errada a conta!! Enquanto o cambista me passa mais dez dólares para a mão, um terceiro jovem do grupo adianta-se, para me conduzir “rapidamente ao guichet especifico”. Sempre a fazer perguntas, dar explicações inúteis, “obrigando-me” constantemente a alimentar o diálogo. Já era o meu guia pessoal, sem que eu tivesse de lhe pagar nada, por pura preocupação com a imagem e simpatia guatemalteca, dizia o intrujão. Apoio a bicicleta no descanso e quase sou “empurrado” para a porta e o guichet das saídas, onde não há ninguém, sob a garantia de que toma conta da bicicleta. Já estava mais que irritado com a solicitude e presença do miúdo, mas lá o tolerei, ficando aliviado quando entrei na sala e me vi livre dele. Como não havia ninguém na fila, fui imediatamente atendido e quando saí confirmei que o tipo já tinha desaparecido, o que me agradou, pois estava farto dele.
Atravessei a pequena ponte, contornei o edifício salvadorenho e entrei na porta indicada, onde não havia uma única pessoa. O simpático empregado recebeu o passaporte, perguntou-me de onde vinha e para onde ia, pôs o carimbo, escreveu algo e devolveu-mo, dizendo que o visto obtido na Guatemala, válido por 90 dias, me permite o acesso a todos os países da América Central. De facto, quando vi o carimbo de El Salvador, tinha escrito: “a petición de usuário”.
Só depois de regressar à estrada é que voltei a pensar na cena do câmbio, em que nada batia certo. Ou melhor, tudo batia certo: a confusão criada à minha volta, a calculadora que dava resultados diferentes para os “mesmos números”, o rapazote a conduzir-me sob grande alarido e verborreia até à alfândega, mas desaparecendo mal entrei lá dentro… Enfim, ri-me durante muitos quilómetros a recriar a cena em que tinha caído que nem um patinho. Ok, Zé Luís, já sabes que estou “programado” para fazer contas com mais de 10 dígitos…estas contas pequenas parecem-me uma inutilidade. Além do mais, na fronteira da Guatemala tinha prometido a mim próprio não regatear mais os câmbios. Mas uma coisa é regatear câmbio, outra é deixar-me levar, como um analfabeto. A compensação é que assim ficava com uma estória para contar e prolongado motivo de riso, por apenas U$30.
Após a fronteira, a estrada sobe paulatinamente durante uma dezena de quilómetros. Não há aglomerados de habitações, mas apenas algumas casas dispersas ladeiam a estrada. Curiosamente, enquanto umas parecem ser quase “luxuosas”, mesmo com paredes pintadas, outras são inacreditavelmente miseráveis – um bloco de doze metros quadrados, com muros de adobe que deixam à vista os paus que suportam a terra, cobertura de lata e uma porta onde se arrima um conjunto de ramos atados por um atilho. Uma mãe resgata, duma pequena elevação, um miúdo nu, da cor da terra onde gatinha.
Vencida a subida, e maugrado o calor intenso, os 25 kms até Ahuachapán, o meu destino imediato, passam rapidamente.

Ahuachapán

Fui dar por acaso ao hotel casa blanca – uma casa de estilo colonial, pintada de branco, claro, com um bonito e pacato jardim interior, quartos grandes e confortáveis. Os US$29,5 pareceram-me excessivos, mas era um luxo de ano-novo. Alem da estranha sensação de utilizar U$ dólares como moeda corrente num país da América Central, também a presença de vários bancos “ocidentais”, entre eles o City Bank, me pareceu algo “deslocado”. Mas afinal era só o princípio, pois nos escassos dias que passei em El Salvador, principalmente em San Salvador, a presença dos maiores “símbolos” de consumo, e consumismo, americanos, foram-se intensificando.
Não deixa de ser irónico que “todos” os países da América Central tenham vivido, recentemente, períodos revolucionários, visando, directa ou indirectamente, o inimigo Tio Sam, e hoje lhes “caiam nos braços”, adoptando inclusivamente a própria moeda…

Auchapán

No jardim da praça central de Ahuacapán, frente à catedral, o José Cifrão, um salvadorenho de cinquenta anos, bem constituído, bem parecido, bom comunicador e de bíblia discretamente na mão, meteu conversa comigo. Talvez tenhamos passado mais de duas horas a discutir os “males do mundo” e da América Central em particular. E o balanço final é: um ódio de morte aos EU e aos colonizadores/saqueadores espanhóis, admiração ilimitada pelo Chavez, uma enorme esperança no Brasil, curiosamente como benemérito, desconfiança total nos governantes “que apropriam a parte de leão da ajuda internacional”, que “apenas alimenta a oligarquia” e mantém os países na mesma miséria de há séculos…
O que mais me impressionou da longa conversa, foi o ódio e a descrença…a minha convicção, cada dia mais profunda, é que a “principal causa” da pobreza em que vivem persistentemente 4/5 da população mundial, em modernos sistemas de escravatura, produzindo, de borla, os bens que esbanjamos quotidianamente, são os “termos de troca”, que o abençoado “mercado” generosamente pondera a favor dos ricos. O exemplo do café é algo que trago atravessado na cabeça e na alma…como é possível que o preço do café, todo ele produzido em países paupérrimos, por agricultores que vivem em condições desumanas há séculos, esteja a ser transaccionado por um “preço de mercado”. Que mercado é esse, que define que eu possa tomar um café em Lisboa por 0,50€, e o produtor desse café morra literalmente de fome na Guatemala, em El Salvador, na Colômbia, Brasil, Timor, Quénia, etc.. O “preço de mercado” tem de garantir que o produtor e consumidor vivem condignamente…a voz do produtor não se houve acima do cafeeiro; o seu olhar nunca foi além da montanha onde nasceu e onde morre todos os dias; os seus pés descalços, apenas conhecem o carreiro para subir e descer cerros a pique, vergados sob a fome, a miséria e a pobreza absoluta, trazendo às costas os preciosos grãos de café, que nos chegam à mesa em chávenas fumegantes a “preço de mercado”. E mesmo o camião que passa e leva o café, a troco de uma mão vazia de quetzais, é escuro, sujo, decadente, ruidoso, ameaçando desmembrar-se em qualquer curva da estrada…O mercado, esse está literalmente a séculos de distância, não tem rosto, não tem família, não come nem bebe, não tem sentimentos, nem emoções. Ninguém o vê, ninguém o conhece, mas sabe-se que está sempre presente e que, como um Deus, tudo explica, tudo sabe e tudo resolve – sabiamente, já se vê…

Sem romantismo

O caminho para Santa Ana é totalmente desinteressante e limitei-me a pedalar. Ia direccionado ao hotel libertad mas um quarteirão antes surgiu o “la casita” e decidi averiguar. Havia um quarto por $12 e outros a $10. O hotel era muito básico e pobre, mas já estou habituado ao género, e como o miúdo responsável – trabalhador estudante – era muito simpático, decidi ficar. O problema é que só pelas 17 horas (ainda não eram duas…) podia ocupar o quarto. Lá arrumei a tralha num beco e, mesmo com roupa de ciclista, suada e desconfortável, fui deambular pela cidade. Rapidamente confirmei a total ausência de interesse, onde apenas a praça central merece uma vista de olhos, e enfiei-me num ciber-café. Não aguentei muito tempo, pois localizava-se junto a uma paragem de autocarros que, ao arrancarem, enchiam literalmente a sala com o fumo negro e nauseabundo do escape…
Voltei ao hotel um pouco antes das 5 e só então percebi a razão de apenas poder ocupar o quarto após as 5 horas…é que a utilização diurna era de curta duração…na escassa hora que esperei, foi um rodopiar de entradas e saídas. Só esperava que ao menos o miúdo mudasse a porra dos lençóis. Mas, pelo sim pelo não, voltei a dormir no saco cama…


San Salvador pode esperar...

A estrada de Santa Ana para San Salvador é monótona e desinteressante. Algumas dezenas de quilómetros antes da capital, há um desvio para Joya de Cerén, o único património do país que faz parte da lista classificada pela UNESCO. Por falta de qualquer referência convincente a sítios “imperdíveis” no país, decidi fazer o pequeno desvio e visitar o local. Trata-se de um pequeno conjunto arqueológico, mostrando uma aldeia soterrada por cinzas e lava vulcânica, no século VI e descoberta, acidentalmente, na década de 70.

Olhares tuti-fruti

O pequeno museu tem uma mostra de artefactos usados à época, com elegantes peças de cerâmica muito bem preservadas.
A aproximação a San Salvador é particularmente desagradável devido à poluição, que se acentua ao longo da grande subida que antecede Santa Tecla – a cidade subúrbio de San Salvador.
Apesar do intenso tráfico, raramente sinto alguma dificuldade ou insegurança no trajecto para o centro da cidade. Na verdade as informações que me foram chegando sobre a “terrível” San Salvador, criaram-me algum receio e preconceito. Mas resisti às recomendações de me alojar na zona nova da cidade e evitar o centro histórico. E assim fui deixando para trás zonas mais verdes, ruas mais desafogadas, trânsito mais ordenado, prédios mais altos, mais coloridos e mais limpos, os cheiros mais comuns da circulação automóvel, transeuntes mais jovens e mais ocidentalizados, para me embrenhar na caótica calle Rúben Darío. As tendas ultrapassam largamente o passeio e estendem-se pela rua; os autocarros urbanos, velhíssimos e decrépitos, avançam aos solavancos, por entre as habituais nuvens de fumo e algazarra das buzinas; os táxis, “acotovelam-se” para tentar furar e passar à frente uns dos outros; as bicicletas saltam do meio das tendas para a estrada, atravessam-se à frente dos táxis, sobem por qualquer nesga de passeio e, por vezes, vão mesmo às costas; carretas de madeira, repletas de tomates, fruta, vegetais ou bugigangas várias, param em qualquer local em que surja uma oportunidade de negócio e contorcem-se para conseguirem prosseguir, conduzidas por furiosos pregoeiros. A imagem tem tanto de dantesco, quanto de harmonioso, em que tudo parece obedecer a uma superior desordem à beira do caos, sem nunca o atingir.

A História segue dentro de momentos...

Confesso que a mistura de sons, em que os pregões nada ficam a dever às buzinas, dos cheiros e o movimento anárquico dos vários transportes, me fizeram transpirar e desejar sair rapidamente dali. Mas estava literalmente no meio de uma corrente da qual da qual era impossível sair, pois as perpendiculares eram exactamente iguais…
Foi com inusitado alívio que cheguei à Catedral e regozijei com o facto de a frente estar “vedada” a toda actividade. Na verdade, a própria Catedral está ocupada, há 16 dias, pela associação de veteranos da Frente Farabundo Marti…Pude respirar, consultar o meu guia, orientar-me e retomar o rumo para o Hotel Internacional Custódio, a três tenebrosos quarteirões…
Ainda acreditava que San Salvador me cativaria depois do choque inicial, tendo aceite a generosa promoção: 3 noites por $20, em vez dos normais $8 por noite. Na verdade, estava ciente de que ficaria apenas 2 noites, pelo que o desconto de $4 na verdade ia transformar-se num acréscimo de $4, mas não me apeteceu decepcionar a entusiasta proprietária, que me perguntou se não era muito barato o preço que me estava a propor…
Saí do hotel directamente para o centro histórico da cidade, ou seja, para o meio do caos…Apesar de haver um quarteirão específico para o mercado, a verdade é que “o mercado” está por todo o lado: ruidoso, escuro, sujo, pegajoso, mal-cheiroso, desordenado, repleto de detritos, restos de legumes e frutas, plásticos. E pregões! Levei algum tempo até perceber o preço dos tomates, sem dúvida o mais anunciado e vendido: “5 tomates, a cora”, gritam. Só bem depois percebi que a “cora” é “quarter”! Também foi aqui que me confrontei pela primeira vez com a água empacotada, em vez de engarrafada…vende-se em pacotes de ½ litro, trinca-se um bico e já está: é só chupar…e esquecer onde esteve o saco, por que mãos ou locais passou.
A pequena Plaza Barrios e o Parque Libertad permitem ver com alguma tranquilidade o que falta ver desta sociedade salvadorenha: pobreza, miséria, pedintes, amputados, sem abrigo literalmente nus, deitados, inertes, no meio de um qualquer passeios que cruza a praça…num banco de jardim a “dois metros”, come-se um gelado, namora-se, lê-se um jornal ou mesmo um livro, ou toca-se guitarra. Aqui, o “mercado” não exclui ninguém, pelo menos enquanto não se pagar para estar no jardim…
Sem grande vontade para jantar, ingeri uma piza no único local com ambiente tranquilo e arejado que descortinei…

Muros da história

Muros de hoje

Pela manhã, as ruas ainda desertas, deixavam mais a nu os restos de frutas e legumes, espalhados por todo o lado, a cidade sombria e suja, as bancas de madeira parcialmente “recolhidas”. Fui caminhando no sentido oposto ao percurso de ontem, vendo a cidade acordar. No parque Cuscatlán, procurava o “monumento a la memoria y la verdad”, um mural impressionante onde estão lavrados os nomes de 30 000 (trinta mil!) mortos e desaparecidos. Diz a própria inscrição que faltam milhares de vítimas civis, desconhecidas… Na “sala nacional de exposições” conheci uma impressionante exposição do Antonio Bonilla. Uma enorme carga de sarcasmo, ironia, provocação, incidindo sobre a guerra, o sexo e as misérias sociais…
O “museo da la palabra y la imagen”, decepcionou-me pela exiguidade…esperava uma vasta, e comprometida, exposição sobre a guerra civil, mas apenas existe um pequeno conjunto de fotografias sobre a guerra e, principalmente, sobre a “rádio venceremos”… a rádio da guerrilha.
Cá fora, nas ruas novas de San Salvador, o american way of life expande-se confortavelmente. Centros comerciais, cinemas, filmes, cadeias alimentar, moda jovem…Há muitas formas de matar moscas, excepto com vinagre…
Dizia-me o meu anfitrião, Victor, hondurenho, engenheiro mecânico de aviões, semi-activo, proprietário do Hotel Internacional Custódio, que a juntar a todos os males visíveis na sociedade salvadorenha, há que somar a crispação, o confronto, violência, que permanecem enraizados nos homens e mulheres de El Salvador…pareceu-me ver uma notícia num jornal do dia 4 de Janeiro, anunciando vinte e tal assassinatos desde o início do ano…

Sem escolha

Entrei nas Honduras pela fronteira de El Amatilho. Inicialmente tinha pensado entrar por El Poy, na zona central de El Salvador e dirigir-me a norte, para visitar as ruínas Maias de Copán. Mas a falta de interesse que me despertou o país e a suspeição que as Honduras não difeririam muito, levou-me a seguir “o caminho mais curto” para o Ushuaia…

Muros vagos

A principal diferença, que me saltou à vista mal cruzei a fronteira, é a habitação. As casas guatemaltecas têm telhados de telha de canudo e paredes pintadas, para além de enormes estendais de roupa a secar…também me surpreendeu a quantidade de casas em que se percebia não haver homem, apenas mulher, normalmente jovem, e filhos pequenos. Afinal, é o resultado da pesada emigração…

Máscaras

Out of size

Nacaome é a primeira povoação pós-fronteira com alguma dimensão e onde havia hotel. Depois de me alojar no hotel palmeiras, por sinal sem qualquer indicação, fui fazer uma curta exploração à cidade. No pavilhão municipal anunciavam-se as meias-finais do tornei de futebol salão. Depois de jantar, o ruído no pavilhão já se sobrepunha aos alaridos dos miúdos que brincam no jardim contíguo. Paguei as 15 lampiras do bilhete e sentei-me no pavilhão quase repleto de malta jovem.

Quinas

O primeiro jogo estava mesmo a começar e de repente a minha atenção foi cativada pelo equipamento vermelho escuro de um jovem jogador, mesmo à minha frente. Raios me partam se aquilo não são as “quinas”. Claro que é o equipamento da selecção portuguesa! Mas não é só ele, toda a equipa veste o equipamento das quinas. Um tem mesmo o nome “Nani” nas costas! Que coincidência!! Levanto-me, contorno o recinto e vou ter com o “banco de suplentes”, para saber que estória era aquela de estarem a jogar com o equipamento da equipa portuguesa…pensei que tivesse sido uma oferta da embaixada, cônsul ou coisa do género, mas afinal foram os miúdos que o compraram e pagaram, para participar no torneio! Confesso que senti uma inusual vaidade por ver aqueles putos com o equipamento das quinas vestido, ali, em Nacaome, uma aldeia remota das Honduras…

Muros desfeitos


Muros da infância

No dia seguinte poderia perfeitamente ter entrado na Nicarágua, mas como o mapa e o guia são parcos em detalhes, não dando para perceber a dimensão da primeira povoação do outro lado da fronteira, decido pernoitar em El Triunfo, a menos de 10 kms da Nicarágua. Mas contrariamente às minhas expectativas, não havia qualquer multibanco no povoado e, do dinheiro que tinha, sobraram 50 lampiras (2€) depois de pagar o hotel. Pior, para entrar na Nicarágua precisava de dólares – 5, dizia o guia; 7 disse-me o cambista no dia seguinte; e 12 foi quanto tive de pagar. Não me restou outra opção a não ser pedir lampiras ao meu anfitrião, apanhar um autocarro cedinho e voltar a Choluteca, uns 40 kms atrás, para levantar dinheiro…e esta é o resumo da diferença entre entre um gajo (eu) da “classe média” de um país rico (Portugal) – ainda que possa ser o mais pobre dos ricos – e a generalidade dos centro-americanos com quem me cruzo, com quem falo, com quem convivo: um cartão multibanco que me permite acesso ao “mercado”




Muros de papel pardo