quinta-feira, 5 de maio de 2011

Peru I - de La Balsa a Leimebamba

Peru, de la Balsa a Leimebamba

Depois de uma manhã tão sofrida quanto arrebatadora, cruzando as derradeiras encostas do Equador, de Zumba a la Chonta, uma descida louca, com piso muito pedregoso, curvas apertadas e declive a condizer, leva-nos a la Balsa, na fronteira peruana.
Do cimo da encosta avista-se, no fundo do precipício, uma mão-cheia de casas separadas pelo rio Blanco e ligadas pela inevitável ponte “internacional”.
A 200 ou 300 metros do fim da descida, e do posto fronteiriço, a roda da frente fura, vazando instantaneamente. O péssimo piso, o declive brutal, o afluxo de peso à frente e o desgaste dos travões de trás, que quase não travam, acabam por castigar em demasia a frente da bicicleta e o resultado acabou por aparecer com a “meta à vista”. Fico particularmente aborrecido por ser tão perto do fim da descida, e decido fazer os últimos metros com a Dempster pela mão, até ao posto fronteiriço.
Sob o sorriso irónico do Luís, que parece ter pneus e câmaras-de-ar à prova de bala, desmonto a tralha e remendo o último furo no Equador.
Carimbada a saída do Equador, cruzo o rio e aterro no Peru. No posto aduaneiro, o funcionário aponta para outra porta, a uns 15 metros, como sendo a da imigração. Dirijo-me lá, mas no pequeno cubículo de madeira não está ninguém. Volto à aduana e o empregado esclarece-me que o funcionário deve estar a dormir a “siesta”, após o almoço. Pergunto a que horas reabre o posto e, com ar hesitante, diz-me que deve ser pelas 15h30. Pouco passa do meio-dia e a espera avizinha-se demasiado longa. Perante a minha imobilidade e apreensão, diz-me qual a casa do senhor Pepito e decido ir chamá-lo. Bato à porta, chamo pela janela entreaberta, afasto-me e grito o nome com mais força. Na realidade preciso que o senhor Pepito acorde, mas acorde bem disposto, pois caso contrário, pode ser pior a emenda que o soneto… Apesar do meu alarido, não há sinal de Pepito. Uma vizinha veio à porta e disse-me que ele estava a almoçar no restaurante da esquina. Lá fui em busca do importante funcionário, mas nada. Já tinha almoçado e ido para casa, concluiu a sisuda proprietária.
Não havia como arrancar o senhor Pepito da sua profunda siesta, pelo que decidimos almoçar também… Felizmente por volta das 2 horas lá apareceu o funcionário da imigração, calmo e pachorrento, naquela quente terra de ninguém.

Entrámos no Peru sob o sol quente do meio da tarde

Trâmites resolvidos, estômago aconchegado e alguns soles (a moeda do Peru) no bolso, regressámos à estrada, de terra, sob o sol quente do meio da tarde.
À saída do diminuto povoado de Namballe, quando a estrada começa a subir um pouco mais, o pequeno Juan Isidro, de 11 anos, e a irmã Maria, de 6, juntam-se a nós. Apesar do tamanho e da idade, vêm ambos montados numa bicicleta quase do tamanho das nossas. O Juan pedala com esforço, umas vezes em crencos, outras sentado no selim, e a irmã sentada no suporte metálico. O percurso de casa para escola, é quase sempre a descer, mas o regresso é duro, seja pelo declive, pelo calor ou pela chuva, pois durante o ano apanha de tudo. Quando a estrada é demasiado inclinada, a Maria tem mesmo de desmontar e corre ao lado do irmão, que continua, firme, a pedalar. Quando surge um troço mais plano, a Maria volta a empoleirar-se na bicicleta e, ambos de mochila às costas, seguem devagar. Quando pergunto ao Juan se gosta mais da escola ou da bicicleta, não hesita em responder “escola”, mas uma pausa depois, diz que gosta muito das “duas”.

Juan Isidro e a irmã Maria

De olhos semi-cerados, boné com a pala para trás e pequenas gotículas de suor a brilharem no nariz e buço, prossegue lado a lado com o Luís, com quem mantém uma conversa impressionantemente fluente e “madura”. Entretanto pára um carro. Vai para longe, para San Ignacio, mas faz este trajecto várias vezes, conhece os miúdos e dá boleias… A Maria esgueira-se para o assento de trás, o irmão passa-lhe a mochila dele e vemo-la desaparecer rapidamente no carro branco. Nós, só quase uma hora mais tarde chegamos à casa de adobe, perdida junto à estrada. A Maria, com as duas pequenas tranças de cabelo negro atadas com laços brancos e um sorriso alegre no rosto, espera o irmão à porta…
A subida prolongou-se por mais tempo que o mapa fazia prever. O dia, com a forçada pausa fronteiriça, reduziu-se mais que o habitual. San Ignacio parecia afastar-se irremediavelmente de nós… praticamente não havia povoados e os que surgiam à ilharga da estrada, eram de uma pobreza e abandono tocantes, difíceis de imaginar, com minúsculas casas de terra onde, surpreendentemente, assomavam várias pessoas. Porcos amarrados por pequenas cordas ao pescoço, revolvem a terra, paredes-meias com as “casas”; galinhas entram e saem pelas portas abertas; cães esquálidos coçam-se freneticamente.

À espera…

Situado num vale verdejante, rodeado de árvores e encostas densamente povoadas de cafezeiros escuros – o principal meio de subsistência de todos os seus habitantes, como nos dirá o Ronal, ao jantar – Puerto de San António parece um pouco maior. No início da povoação perguntamos se há alguma espécie de alojamento na aldeia e dizem-nos que sim, apontando para adiante, na única rua que constitui o povoado. Volvidas escassas centenas de metros, voltamos a perguntar e a reposta é oposta: que não, não há nada, só em San Ignacio. Prosseguimos, fazendo contas de cabeça à enorme subida que nos espera, a juntar a mais uns vinte ou trinta quilómetros. O dia escurecerá rapidamente e é certo que não conseguiremos chegar a San Ignacio. Estão duas ou três mulheres à beira do caminho e o Luís repete a pergunta: se não há nenhuma espécie de alojamento na aldeia, algum sítio simples onde possamos pernoitar. Uma das mulheres diz que sim, lá atrás junto à igreja, exactamente onde nos tinham dito que não… parecia que estavam a brincar connosco, mas lá voltámos atrás e perguntámos, desta vez a um velhote que estava à varanda. Apontou para baixo, para a porta entreaberta, onde nos intrometemos. Acanhada, envergonhada, tímida, a Betty disse que talvez pudéssemos pernoitar lá, mas teríamos de esperar ½ hora pelo marido.
O Ronal chegou e, também um pouco inibido, lá disse que sim, que se arranjava um quarto com duas camas, ou dois quartos se preferíssemos. O que queríamos mesmo era um tecto e, se possível, um duche – quente ou frio, já não fazia diferença. As camas tiveram de ser montadas, um colchão surgiu de uma qualquer porta vizinha, mal sobrava espaço para um ou dois alforges no quarto, o tecto era de chapa ondulada, as paredes de adobe, alguns insectos planavam pelo espaço, o duche era frio. Ainda assim, estou seguro que tivemos dos melhores alojamentos da aldeia – e de muitas aldeias em redor. E o jantar também: luxuoso frango estufado com arroz…
Em boa hora conseguimos pernoitar em San António, pois só chegámos a San Ignacio pela hora de almoço do dia seguinte, depois de uma longa manhã à chuva, pela estrada enlameada e predominantemente a subir…
Necessitávamos levantar soles, mas o único multibanco foi rebentado numa manifestação recente e ainda não o repararam nem substituíram. A alternativa era rapar o resto dos dólares e recorrer a umas lojas de electrodomésticos que cambiam moeda…

Alunos em San Ignacio

Pouco depois de San Ignacio, ao fim de vários dias de dura montanha, a paisagem muda significativamente. A estrada conduz-nos ao rio Chinchipe, nas fraldas da amazónia peruana, ao longo de intermináveis campos de arroz, umas vezes exíguas parcelas encravadas no vale estreito, outras vezes perdendo-se no horizonte, onde esbarram no sopé de uma qualquer omnipresente cordilheira distante.


Plantando arroz, no vale do rio Chinchipe

Depois da particular dureza dos últimos dias – ou semanas, já nem sei – é quase inebriante a sensação de pedalar na planície, levemente descendente, rolar sem esforço, ver a paisagem deslizar depressa e ficar para trás, respirar suavemente… tomo consciência de como são diferentes as sensações físicas e espirituais nos percursos agressivos e desgastantes da feroz montanha e na suave planície – é como contrapor a indómita tempestade à serena bonança, em que a carga de adrenalina atinge o auge, quase explodindo no corpo, e depois se esvai suavemente, deixando-nos flutuando na leveza do vazio, da ausência...


Deslizando pelo suave declive do vale

Mas se a estrada é descendente e o vale verde-desmaiado dos campos de arroz, não nos iludamos quanto ao local onde estamos. De paredes umas vezes íngremes, outras com declives mais moderados, a montanha domina e predomina, observando do alto, ameaçadora, conduzindo o rio caudaloso, de águas castanhas, por curvas apertadas. De quando em vez surgem pequenos povoados nas margens. Quando se localizam na margem esquerda, curiosas “gaiolas” de madeira, suspensas por um cabo de aço amarrado em ambas as margens, fazem a travessia de passageiros e mercadorias, pois pontes é coisa demasiado fina. Não raras vezes, avistam-se casas isoladas na margem esquerda, dispondo do mesmo sistema de travessia…

Gaiolas para atravessar o Chinchipe

Jaén fica demasiado longe para arriscar atingi-la numa só jornada. Mesmo Tamborapa, que garantem ter alojamento, parece difícil de alcançar. Perico apresenta-se como a melhor opção para pernoitar. Dizem existir uma casa que aluga quartos, mas o senhor Chato só deve chegar pelo lusco-fusco. Duas miúdas simpáticas conduzem-nos a uma outra casa que também deveria arrendar “habitaciones”, mas a senhora hesita demasiado e resiste “até à última” em alugar um quarto. Quando vemos o espaço, percebe-se porquê: não é um quarto, é um cubículo mínimo, com quatro paredes e uma porta, nada mais. Nem sequer há duche (individual ou partilhado, tanto faria…). Decidimos esperar pelo senhor chato, mas entretanto dizem-nos que o alcaide empresta as instalações públicas para pernoitar. Como também ele está ausente, resta-nos esperar, em amena cavaqueira com os miúdos e graúdos da rua, que se vão juntando em redor das bicicletas.

As nossas guias em Perico

Anoitece e o alcaide é o primeiro a chegar. Também ele hesita em ceder o espaço, porque “não tem condições”. Digo-lhe que o que necessitamos é um tecto e um duche e ele conclui, algo envergonhado, que não há duche, recomendando-nos que fiquemos num quarto do senhor Chato, onde há todas as condições. Lá vamos à procura do senhor Chato, sempre em procissão com vários miúdos e as duas gaiatas “à cabeça”. O senhor Chato já chegou, mas também ele não parece entusiasmado com a ideia de nos alugar um quarto. Afinal não há água na aldeia – daí ninguém ter duche… Perante a nossa insistência e desânimo, lá se resolveu a ceder-nos o rés-do-chão da tal casa onde aluga quartos. É um espaço amplo, sem vidros nas janelas de grades metálicas. Nas imediações há uma casa de banho sombria e esconsa, debaixo das escadas, e quando nos preparávamos para recorrer ao sistema de baldes de água para o duche, eis que surgiu água na torneira!
O jantar foi mais ou menos na mesma linha, no “restaurante” familiar da aldeia. A sala é separada da cozinha por uma parede que não chega ao tecto e, ao lado da porta que liga os dois espaços, jaz na cama, a inválida mãe de família. O pai e as duas jovens adolescentes põem a mesa e preparam o único prato disponível. Num ecrã, há uma lista de títulos musicais, que as miúdas vão seleccionando e deixam tocar aos berros, acompanhando a letra desde a cozinha. Jantamos os dois a uma mesa e noutra, ao lado, senta-se a família a olhar para o ecrã e trauteando as letras românticas. O pai e uma filha vão buscar a mãe à cama, pegando-lhe um pelos pés e outro pelos braços. Depositam-na numa cadeira e assistem em silêncio ao estridente som da música…

Deixando Perico…


…E aproximando-nos de Jaén

Sempre com os campos de arroz por companhia

Jaén localiza-se no ponto de ligação entre a montanha árida e inerte e o vale verdejante de arroz. Ao longe, tem a cor avermelhada do tijolo e da telha e prateada do zinco que cobre muitos dos telhados. Ao pé, é horrível, com todas as ruas esventradas, respirando e cuspindo pó por todos os cantos. Centenas ou milhares de moto-taxis, zunem e rodopiam, numa correriam alucinante, cruzando-se, apitando, acelerando, travando, largando fumos e acordes estridentes de tunning desafinado. Parecem o caos dos carrinhos de choque, na feira, com a diferença que aqui ninguém parece chocar com ninguém…Mas apesar do caos da cidade, comi duas refeições excelentes, sem poder esquecer a extraordinária salada de fruta ao jantar, com um estonteante surtido de frutas, numa “terrina” gigante – não era por acaso que havia pessoas cujo jantar se resumia à salada de fruta – por 5 soles (1,2€)!

O rio tem muitas utilizações…

De Jaén a Pedro Ruiz, estendia-se uma jornada de 130 quilómetros, repartidos por etapas distintas, com paisagens diversas e emoções variadas. Se o início foi de “aquecimento”, com cerca de dez quilómetros a subir, seguiu-se uma deliciosa descida até Chamaya e ao rio com o mesmo nome, o fim foi mais ou menos dramático, noite dentro e com problema mecânicos na Dempster.
Do horizonte desapareceu o verde dos campos e dos montes, surgindo áridos desfiladeiros de rocha nua. A Estrada segue ao longo do rio, esculpida na montanha que se ergue a pique sobre as nossas cabeças. Parece que a qualquer momento uma derrocada nos sepultará sem aviso prévio.
O Chamaya desagua no Marañon (Maranhão, em terras do pau Brasil) e deixa-nos no estado da amazónia (peruana).

A caminho de Bagua Grande, depois de cruzar o Marañón pela 1ª vez

A aridez da paisagem volta a dar lugar aos arrozais espelhados de água e salpicos de pés de arroz. Na verdade, todas as fases do ciclo produtivo do arroz podem ser observadas ao longo do caminho: parcelas de terra preta inundada de água, onde tractores com rolos de ferro em vez de charruas preparam os solos para o transplante do arroz; parcelas de água lisa onde homens, mulheres crianças, de cócoras, espetam finos pés de arroz; campos onde o arroz verde-escuro ainda não espigou; outros onde as espigas amareladas tombam suavemente sob o caule; aqui e ali, ceifeiras cortam e ensacam campos de arroz dourado, deixando o restolho alto à espera de ser triturado e reintegrado, como fertilizante no novo ciclo…

Orgulhoso companheiro, por uns minutos

Depois do almoço em Bagua Grande, o ritmo amoleceu e, com as obras na estrada, sucederam-se as paragens prolongadas. Pedro Ruiz parecia cada vez mais inatingível… Em Jamalca, a derradeira povoação assinalada no mapa, ainda fizemos uma paragem “técnica” para comer algo e nos despedirmos dos arrozais. Doravante iríamos entrar progressivamente no vale do rio Utcubambo, cada vez mais ruidoso e mais selvagem. Em breve o horizonte reduzir-se-ia a uma nesga de céu carregado de nuvens, a negra faixa de asfalto, de braço dado com o rio, entalados em labirínticas falésias rochosas, de formas arredondadas, que se erguem a pique até tocarem as nuvens. Uma pequena placa na berma da estrada, chama-lhe “vale encantado”. À escassa luz do rápido entardecer, a textura da falésia, à direita da estrada, parece ser mais suave, possibilitando que milhares de periquitos/papagaios aí escavem pequenos buracos que utilizam como ninhos. O chilrear estridente é quase ensurdecedor, o esvoaçar ouve-se mais do que se vê, na escuridão que se vai abatendo rapidamente sobre o vale, cada vez mais labiríntico e fechado.
Estamos completamente cercados de montanhas e, finalmente, a estrada começa a subir – devagar, é certo, mas inexoravelmente a subir. As nuvens negras, que vinham ameaçando há um bom bocado, iniciaram o seu choro pesado, soltando grossas gotas que ressaltam no asfalto; a temperatura baixa com a noite, a altitude e a água da chuva; a escuridão invade os últimos recantos do vale. Na berma da estrada estão montados dois pequenos iglos junto a uma carrinha. Escuto o palavreado e os cumprimentos dos campistas, que não parecem ser turistas mas trabalhadores da estrada. Ainda me perpassa pela mente a possibilidade de lhes seguir o exemplo, mas opto por levantar o traseiro do selim e pedalar em crencos. Apesar da hora e da longa jornada, sinto-me pleno de energia. Pouco depois, um estalido seco e uma pedalada em falso, não deixam dúvidas: corrente partida… a primeira reacção foi de desalento e, quando o Luís chegou, disse-lhe que ia acampar ali mesmo, na berma da estrada e amanhã trataria da corrente partida. Mas, com mais discernimento, o Luís sugeriu que reparasse a corrente e prosseguíssemos até Pedro Ruiz – afinal deveríamos estar “apenas” a uns dez quilómetros.
À luz da lanterna, e debaixo de chuva – felizmente mais fraca – lá desencantei um segundo elo de engate – depois de ter perdido o primeiro na erva alta da berma da estrada – e “engatei” a corrente. Mas afinal havia mais estragos… para já, dois raios partidos. Sem travão de trás, praticamente sem luz, no breu da noite, e com algumas mudanças a patinarem, fiz-me à estrada seguindo o Luís de perto. O Utcubamba rugia ferozmente à direita da estrada, que não era mais que uma sombra onde, por vezes, se conseguia vislumbrar o traço branco que delimita as duas faixas. Era como conduzir às apalpadelas, fugindo do berma, que parecia precipitar-se no rio furioso, sem percepcionar as curvas, a não ser quando lhe estava bem no meio, cegando com as luzes dos carros e camiões, felizmente poucos e, regra geral, simpáticos, com que nos cruzávamos. E apesar de a chuva ter parado e a subida suavizado, os quilómetros pareciam infinitos. O clarão ténue da luz da povoação, foi como um oásis no deserto e quando passei a portagem e entrei nas ruas de Pedro Ruíz, senti um dos maiores alívios desta aventura…
Pedro Ruiz é um típico povoado de estrada, sujo, desordenado, de construção anárquica e aspecto inacabado, barulhenta, sem um único ponto de interesse – a deixar o mais rapidamente possível. Mas como precisava de uma oficina para reparar a bicicleta – pelo menos substituir os raios – decidimos ficar um dia e visitar a catarata de Gocta que, com 771 metros, é considerada a terceira mais alta do mundo. Assim, depois de substituídos os raios, apanhámos um “carro” (táxi colectivo) para Cocahuayco e, daí, prosseguimos a pé até Gocta.


De Cocahuayco até à catarata de Gocta, um anfiteatro de quedas de água

O dia estava ensolarado e a longa caminhada até á catarata, proporciona panorâmicas grandiosas de um gigantesco anfiteatro natural, de cujas paredes íngremes se desprendem inúmeras quedas de água com centenas de metros de altura.


Aproximando-nos de Gocta

No topo mais afastado do semicírculo que forma o anfiteatro, encontra-se a Gocta. O single treck que nos leva aos pés da catarata, proporciona um belo passeio, com descidas e subidas abruptas, por entre vegetação viçosa e diversificada, ao som estridente dos pequenos papagaios verdes, que cruzam os céus sempre aos pares. A catarata, apesar da dimensão vertical, é pouco impressionante, mas vale pela caminhada…

A catarata de Gocta, com 771 metros, é a 3ª mais alta do mundo…

De regresso à estrada, constato que final os estragos ma Dempster ainda não estavam todos diagnosticados. O desviador e o drop-out estão muito tortos, funcionando apenas três mudanças (1x3, 2x3 e 2x4). Felizmente são mudanças “leves” as que estão disponíveis – se fossem as “pesadas”, não sei como prosseguiria, Andes afora…
O nosso destino mais distante é Cajamarca, mas por hoje contamos pernoitar na aldeia de Tingo, onde esperamos encontra alojamento e visitar as ruínas de Cuelap. A estrada continua de braço dado com o rio Utcubamba, em direcção à nascente, penetrando no silêncio das encostas abruptas, cujas (de)formações rochosas ilustram a violência das suas origens. Na maioria do percurso, no estreito vale apenas cabe a estrada e o rio. Ocasionalmente alarga-se umas dezenas de metros, logo surgindo pequenas parcelas cultivadas.



Pelo vale inóspito do Utcubamba…


…há quem viva em condições inacreditáveis

Num qualquer ponto do percurso, surge uma discreta placa sinalizando um entroncamento: Leimebamba para a direita, por uma estrada de terra que desce para a margem do rio, momentaneamente distanciado do asfalto; Chachapoyas para a esquerda, pela estrada alcatroada. Como o mapa não sinalizava qualquer mudança no tipo de estrada, continuei encosta acima. Estava um pouco desconfiado do rumo que seguíamos, pois, segundo o mapa, não nos deveríamos afastar do rio… Ainda pedalámos uns quilómetros até que mandei parar uma carrinha/táxi. O amável motorista parou e confirmou as minhas expectativas: estávamos a caminho de Chachapoyas e não de Tingo. Deveríamos ter seguido a estrada de terra em direcção a Leimebamba… Depois de uma breve conferência, decidimos prosseguir no desvio para a capital da amazónia peruana e regressar ao caminho do sul no dia seguinte. Talvez até houvesse uma loja de bicicletas em Chachapoyas e pudesse reparar a Dempster…

Subida não planeada a Chachapoyas

Os doze quilómetros para Chacha são sempre a subir. Praticamente à entrada da pequena cidade, cruzei-me com um miúdo também de bicla, que parou e se me dirigiu com um ar aflito e choroso. Perguntou-me de onde vinha e quando mencionei Pedro Ruiz, rematou que era para lá que ia, se eu achava que “conseguia chegar hoje”. Pedro Ruiz dista mais de 50 quilómetros de Chacha e, mesmo sendo praticamente sempre a descer, não parecia fácil…perguntei-lhe porque ia para Pedro Ruiz e disse, com os olhos rasos de lágrimas e a soluçar, que o pai lhe batia constantemente e que tinha decidido ir-se embora, para casa de uns familiares. Entretanto, muito agitado, ansioso, começa a mexer na pequena mochila que transportava às costas, enquanto me diz se lhe compro o celular, pois precisa de “plata”. Está praticamente a chorar quando lhe digo que não, que tenho telemóvel e não preciso de outro. Olha-me desesperado e estendo-lhe alguns soles que tenho à mão. Agradece e desaparece rapidamente na próxima curva da descida…
Chachapoyas é uma pequena e pacata vilazinha colonial, de 30 mil habitantes. É a capital da amazónia peruana, mas situa-se na montanha e entre montanhas. A praça de armas é o espaço mais bonito e tranquilo do povoado, com o habitual jardim rodeado de edifícios de dois pisos, brancos, de varandas de madeira e estilo colonial. Basta afastarmo-nos uma ou duas “quadras”, para se perder a harmonia dos edifícios, mas a tranquilidade mantém-se. Oficinas de bicicletas é que só há duas e não têm qualquer componente que “encaixe” na Dempster…

Os frutos são uma dádiva. Delicioso figo pita(?) – foi a designação que entendi…

A jornada para Tingo é particularmente pequena e suave, pois o Utcubamba continua a subir lentamente no seu caminho para a nascente. Tingo é uma aldeia minúscula, encravada entre montanhas agrestes. Tem o modesto hostal leon e um “restaurante” na esquina, nada mais.
Ingerimos um almoço rápido e lançámo-nos de imediato pelo caminho de pé-posto, montanha fora, a caminho de Cuelap, as ruínas de uma enorme cidade pré-inca, praticamente abandonadas até há poucos anos e raramente visitadas. Ao fim de três horas de dura caminhada, sempre a subir por encostas íngremes, de vegetação rasteira e grande variedade de flores silvestres, Cuelap surge no mais elevado cume das imediações. De altos e grossos muros de pedra rodeando toda a fortaleza, o interior apresenta inúmeras ruínas de habitações, petrogrifos, templos cerimoniais. Para alem da grande dimensão do sítio e da abundância de vestígios e ruínas, o mais fascinante é a localização e as vistas impressionantes que proporciona.

Caminhada ás ruínas de Cuelap, uma impressionante cidade-fortaleza pré-inca





Ruínas de Cuelap









O último dia “tranquilo”, termina debaixo de chuva em Leimebamba, mais uma pacata aldeia colonial. Depois seguir-se-á o ataque aos Andes peruanos, puros e duros. Mas antes, há que visitar o museu comunal de Leimebamba.

Museu de Leimebamba

À partida, não senti grande entusiasmo com a ideia de visitar o museu, que fica uns três quilómetros afastado da vila. Mas vale bem a pena a deslocação – em moto-táxi – pela impressionante sala pré-inca/chachapoya, onde se encontram cerca de duas centenas de múmias num espantoso estado de conservação. Em rigor, todas as múmias e demais artefactos desta sala, são provenientes da “laguna de los condores”, um local ainda hoje só acessível de mula ou a pé, ao fim de um dia de viagem, onde eram celebrados os rituais funerários e depositadas as múmias, primeiro dos chachapoyas, depois dos incas.

A caminho de Leimebamba…




quarta-feira, 13 de abril de 2011

Equador II - De Mendez a La Balsa (fronteira do Peru)

Equador - de Mendez a la Balsa, na fronteira peruana

Em Méndez a rota volta a inverter-se. Devemos ter atingido o ponto mais baixo e deixaremos a plana bacia amazónica para rumar às montanhas, à cordilheira andina, tendo como destino Cuenca. Tínhamos pensado seguir ainda umas dezenas de quilómetros para sul, pela estrada 45, até Plan de Milagro, 11 quilómetros a sul de Limón, e iniciar aí a ascensão aos andes, mas em Méndez convenceram-nos a não o fazer, especialmente devido ao mau estado da estrada – de terra, pedra e muito degradada com as chuvas, isto para alem de passar de novo acima dos 4000 metros…
Deixámos Méndez manhãzinha, depois de um bom pequeno-almoço – sabíamos que iríamos precisar de muita energia. Os primeiros 5 quilómetros foram suaves, mas foram os únicos do dia. O Luís, quando olhávamos o mapa no dia anterior, dizia com voz satisfeita: porreiro, a estrada segue sempre junto ao rio Paute. Ainda lhe disse que assim era, mas para a nascente… infelizmente as cores do mapa, indicando a altimetria, não deixavam grandes dúvidas.

À saída de Mendez, deixando o rio Paute cada vez mais afundado no vale

O rio Paute corria de facto à ilharga, sempre à nossa direita, cada vez mais distante e diminuto. As casas desapareceram rapidamente da paisagem e quando aparecia alguma perdida junto à estrada, não se percebia se estava abandonada ou era habitada. Por vezes, o contador da electricidade cravado numa parede, indiciava que estaria ocupada, mas custava a crer, tal o ar abandonado, degrado e inóspito. A floresta bravia crescia por todo o lado, perdendo-se contra o céu toldado de nuvens, nevoeiro e neblina. Nós arrastávamo-nos montanha acima, rolando por vezes a 4 ou 4,5 quilómetros por hora. O trânsito era escasso e principalmente de camiões. Não tardou muito nós próprios entrarmos dentro das nuvens, perdendo qualquer noção visual do mundo que nos rodeava. Era fácil adivinhar a floresta por todo o lado, mas se o declive da estrada deixou de ser perceptível á vista, às pernas não deixava qualquer dúvida. Com vinte quilómetros percorridos, a fome começou a anunciar-se. Tínhamos bananas, meia dúzia de pequenos croissants e um saco de 12 “pães de hambúrgueres” – que em boa hora comprámos em Méndez . Quando o Luís sugeriu que atacássemos as bananas, ouvi um tropel encosta abaixo – era um homem que descia com o cavalo à ilharga. Chegou à estrada, montou e desapareceu nas nuvens, à nossa frente, ficando apenas o ressoar dos cascos fustigando a estrada, durante um bom par de minutos. Pensei que talvez fosse indício de alguma povoação milagrosa e adiei o almoço de bananas. Mas o silêncio absoluto voltou às nuvens e, pouco depois, lá atacámos o mais frugal almoço nas fronteiras do Equador.

Pedalar nas nuvens, é algo inesquecível…

Descer à terra, é sentir o afago materno

Não tardou que as nuvens desatassem num choro compulsivo, largando grossas lágrimas que não podíamos evitar. O objectivo de chegar a Sevilha de Oro – o primeiro povoado onde poderíamos encontrar alojamento – há muito que estava arreado. Hoje já só esperávamos chegar a Guarumales e que aí houvesse algo para comer e beber. Para dormir, haveríamos de descobrir uma berma da estrada acolhedora. A tarde esgueirava-se velozmente pelo meio das nuvens e da chuva e de Guarumales nem sombra. Mas, algures, apareceu na berma da estrada uma mulher andina, daquelas a quem a chuva não molha, o sol não tisna, o frio não tolhe. Caminhava com passadas curtas, nas suas pernas baixas, saia verde-escuro, camisola rosa, duas longas tranças negras sob o redondo chapéu claro. Perguntei-lhe se não havia uma tienda ou pueblo cerca e disse-me que sim – a 3 minutos!! afirmou. Fossem 3 ou 13, a notícia era a mais desejada do dia. Acho que a estrada era de terra e enlameada, mas já não estou seguro – se não era assim agora, foi-o antes ou depois e sê-lo-ia repetidamente de novo, especialmente no dia seguinte… Poucos minutos depois surgiu do meio das nuvens, primeiro música, intercalada com uma voz masculina ao microfone, depois uma cobertura metálica, depois alguns carros e motas estacionadas e, finalmente, uma “cancha desportiva”. Perguntei à primeira pessoa que vi onde havia uma tienda e indicaram-me o quiosque de apoio ao recinto desportivo. No minúsculo interior havia cerveja, coca-cola, sumo, batatas fritas e umas bolachas. Claro que sonhava com uma sopa ou uns ovos mexidos – para não pensar mais alto – mas contentei-me com o que havia…

Casas onde habita gente “cristã”…

Prosseguimos sem destino definido, com as nuvens de chuva por companhia e a estrada de terra enlameada sob as rodas, sempre a subir, sempre a empinar. Poucos quilómetros depois surge, finalmente, uma placa indicando Gurumales, à direita, fora da estrada. Ignorámos a indicação, pois sabíamos que era pouco mais que uma aldeia fantasma, e prosseguimos de dente cerrado. Mas umas centenas de metros adiante, junto à estrada, havia uma, digamos, doçaria! Tinha leite e iogurte, mas o que nos regalou foram umas tacinhas de doce de leite e iogurte “artesanal” com fruta. Adoçámos o estômago e a alma, demos corda aos sapatos e entramos de novo na chuva, nas nuvens e na estrada enlameada, a pique. Numa mistura de suor e chuva, cheguei ao cume da subida e, à direita junto à estrada, apareceu o fantasma de uma casa. Estava em construção, mas já tinha parede e tecto. Foi fácil convencer o Luís que esta era a nossa melhor opção para passar a noite e esperar um dia novo…
Claro que a empregada não varreu o chão e o pó abundava. Claro que a chuva era muita, mas não havia água, nem torneiras, nem ribeira perto. Claro que as janelas deixavam passar o vento forte, o que foi óptimo, pois secou toda a roupa que apanhou pela frente, dando-lhe um tom de pó de cimento, já se vê… claro que o chouriço minhoto, que o Luís ainda tinha no fundo de um alforge, dissipou qualquer réstia de fadiga ou descontentamento; e a bolonhesa knorr, estava de fazer babar um camelo ao fim de um mês sem beber. E não é que ainda tinha duas mangas deliciosas para sobremesa!? Não podia imaginar melhor repasto nem melhor preparação para o dia seguinte!
Choveu abundantemente toda a noite e a água abatia-se ruidosamente sobre o telhado de metal, causando uma sensação contraditória: por um lado, quanto mais chovesse durante a noite, menos prenhas estariam as nuvens no dia seguinte, diminuindo as probabilidades de continuar; mas por outro lado, à medida que a noite avançava sem o temporal dar sinais de abrandar, ia crescendo o receio de que a noite parisse um dia igual…

Tudo é intensamente efémero, tudo muda a uma velocidade ciclópica, excepto a nossa vontade e determinação, que resiste a tudo!

O dia amanheceu sem chuva, com nuvens esbranquiçadas pairando alto, sobre as montanhas em redor. Ontem não se viam “dois palmos à frente do nariz”, mas hoje dá para perceber que pernoitámos no topo de um morro, começando a jornada com uma descida abrupta, na estrada de terra bem encharcada. Lá longe, no fundo do vale projectado contra a montanha verdejante, avistam-se minúsculas camiões, máquinas e cisternas, que vão crescendo á medida que nos aproximamos – é o estaleiro de apoio às obras de pavimentação da estrada.

As obras estão atrasadas…pelo menos um dia – deveriam ter sido concluídas ontem!!

Finalmente surge Amaluza, pequena povoação debruçada sobre o sempre presente rio Paute. Aproveitámos um dos dois restaurantes para tomar o pequeno-almoço e repor as vitaminas necessárias a mais um dia de montanha. Pouco depois surge o enorme paredão da barragem hidroeléctrica de Amaluza. O lago formado pela barragem, espelha o estranho e perverso efeito das barragens sobre os rios selvagens, com uma densa camada de algas cobrindo por completo as águas paradas.


Barragem de Amaluza – O estranho efeito das algas

Poucos quilómetros volvidos e surge novo paredão e nova barragem: desta vez é San Pedro. O rio descreve uma curva de 180º, trazendo consigo uma paisagem totalmente diferente. A montanha abre-se em encostas cada vez mais suaves, onde diferentes culturas e parcelas formam um gigante tabuleiro de xadrez, de formas irregulares, em diversos tons de verde, salpicados de casas e manchas de vacas pachorrentas.

…Que disfarce mais giro!

O vale muda com a curva do rio...




A curva do rio trás consigo um mundo diferente, mais suave, mais habitado, mais domesticado…

Mais uma vez, ao fim do dia abriram-se as comportas e a água desatou a cair com força. À passagem por Palmas, o inconfundível aroma quente e adocicado de uma padaria, fez-me esquecer a chuva e despertou-me o desejo incontrolável pelas gulodices da panificação. Com os olhos postos na chuva, que continuavam trauteando a sua melodia interminável de lágrimas e lamentos, deliciei-me com três croissants quentinhos, com vestígios de recheio de chocolate, comidos no interior morno da padaria.



Para onde olhar?

Perto de Sevilha de Oro, já a chuva se tinha retirado, deixando nos céus uma carapaça de nuvens desmaiadas, trespassadas pelos raios tíbios do sol poente, dois homens gesticulam na berma da estrada. De garrafa e copo em punho, acenavam enfaticamente para parar e tomar um trago. O Luís ia adiante e passou rápido, mas eu antecipei o convite e detive-me a tempo. Com grande alarido e entusiasmo, não sei se movido a álcool, um dos homens estende-me o copo e o outro verte uns bons goles de aguardente de cana, sugerindo adicionar uma outra bebida tingida de rosa. Aceito a sugestão e junta apenas uma colher dessa segunda bebida. Perante a satisfação e alegria de ambos, bebo um longo trago e faço o AH! da praxe. Repito duas vezes e despeço-me entre elogios e agradecimentos. A mistura não me pareceu muito forte, mas senti uma agradável sensação de calor no estômago.
O hotel de Sevilha de Oro estava momentaneamente fechado e o Luís, cheio de pica neste fim de dia, sugeriu que seguíssemos para el Pan, uns dez quilómetros (seis a subir) adiante, onde pernoitámos numa “espécie” de hotel, pois a aldeia é minúscula e não tem qualquer estrutura para receber turistas.

A natureza está sempre a fazer das suas…

A ligação de el Pan a Cuenca é um passeio tranquilo, com mais descidas que subidas. O mosaico verdejante de pequenas parcelas cultivadas e vacas salpicando as encostas, dá lugar a uma paisagem menos telúrica, mais árida, acastanhada. Os vestígios da urbe não tardam, com o trânsito a aumentar e alguma construção desordenada e dispersa ao longo da estrada.
Cuenca adivinha-se nos bairros compactos de pequenos edifícios, dispostos geometricamente em filas sucessivas, separadas por ruas estreitas e degradadas. Os telhados de brilhante telha vermelha, dão-lhe um tom algo agressivo e um pouco kitsch.
O centro da cidade foi-me um pouco difícil de digerir e não conseguiu entusiasmar-me… Para alem da profunda disparidade entre a rua Simon Bolívar e o resto do centro antigo, formando dois mundos distintos quer em termos de arquitectura, de preservação e de vida, não consegui gostar dos edifícios “rococó”, da heterogeneidade das cores e dos contrastes da construção. Talvez as minhas expectativas andem demasiado altas e o facto da cidade ser “património da humanidade”, as tenham elevado ainda mais… Na verdade, apenas os edifícios religiosos, em particular a pequena, mas tão colorida, catedral velha, parecem merecedores da distinção.

Cuenca – pátio interior

Perguntei no posto de turismo se não havia nenhuns eventos culturais por aqueles dias e a empregada deu-me um pequeno panfleto promocional de uma série de peças de teatro, em exibição nos dias seguintes. O bilhete/convite era obtido por troca com um livro infantil “em bom estado de conservação”. Como não tínhamos livros, decidimos ir às compras e pensei mesmo em oferecer não um mas dois ou três livros. Na realidade o custo de vida no Equador é muito baixo: pernoita-se num hotel razoável por 10 dólares, almoça-se (sopa, prato e sumo natural) por 2 dólares, 3 mangas (enormes e deliciosas) ou um fantástico ananás, não custam mais de 1 dólar, meia dúzia de bolos/croissants, têm o mesmo preço… Quando cheguei à livraria e comecei a folhear livros infantis, vi um pequeno número a lápis, escrito na contracapa: o principezinho – 10; Robinson Crusoe – 12; os Três Mosqueteiros – 12; etc. Pensei que não devia ser o preço mas alguma referência interna, só que num dos livros o número estava antecedido do $... era, portanto, o preço. Fiquei, de facto, surpreendido e caiu por terra a intenção de levar dois ou três livros à troca por um bilhete para o teatro. Fiquei-me pelo Principezinho… Já o Luís, pagou quase 24 dólares pelo pequeno “o melhor do mundo são as crianças”, do Fernando Pessoa!
Talvez pareça um bocado sovina, mas o que me chocou, foi o pequeno Principezinho custar 5 almoços, ou quase 15 quilos de mangas!! – já nem quero pensar no do Pessoa…
Antes de retomar a viagem para sul e para a fronteira com o Peru, decidimos ir fazer um percurso de comboio, que promete muita adrenalina e vistas fabulosas: descer de Alausi ao Nariz del Diablo, no que designam o “trajecto de comboio mais difícil do mundo”.

As cores dos trajes, especialmente femininos, ferem a indiferença

As mais de quatro horas de autocarro, de Cuenca a Alusi, mostram o Equador Central, mais habitado, mais cultivado, com maior diversidade, que o Equador remoto que percorri a oriente. A cordilheira central é imponente, com relevos, declives e precipícios de suspender a respiração, embora vista do interior de um autocarro, se torne demasiado distante, apenas paisagem… Os meios de cultivo são totalmente arcaicos – enxada, bois e charrua – embora tenha dúvidas sobre a possibilidade de utilizar tractores em semelhantes desníveis. As parcelas de terra são pequenas, formando uma gigantesca manta de retalhos, com todas as tonalidades e formas geométricas, pelas encostas fora, cultivadas até ao topo. Homens, mulheres e crianças, de trajes coloridos, chapéus de coco na cabeça e enxadas nas mãos, sulcam, quase de gatas, a terra negra e fofa. Parece um estranho equilíbrio este, um equilíbrio de pobreza, de carências, de dureza, de luta, de infortúnio. Mas, ao mesmo tempo, de orgulho, de firmeza, de beleza, de harmonia. Que perda, se se perder. Que perda quando se perder, pois não há dúvida que se perderá… terá de ser uma questão de tempo apenas.

Andrés – artesão de Alausi

O comboio tem hora marcada para as 11h da manhã: “em ponto”, antecipa o empregado da bilheteira, recomendando que estejamos ¼ de hora antes no cais de embarque.
A locomotiva a diesel, solta um profundo rugido, larga uma espessa e prolongada nuvem de fumo e logo se acalma, no som regular de pistões a martelarem. O cais está cheio, com mais estrangeiros do que equatorianos. As três carruagens são de madeira, limpas, com ar novo e cuidado. Os lugares são marcados e cada carruagem tem um guia. Às 11h em ponto estão todos nos seus lugares, a locomotiva solta dois prolongados apitos, que ecoam por todo o vale, e põe-se em marcha. Apesar do esforço do guia da carruagem, poucos lhe prestam atenção e a ordem para não colocar nenhuma parte do lado de fora do comboio é imediatamente esquecida ou ignorada. Cabeças, braços, mãos com máquinas fotográficas em punho, atropelam-se nas janelas abertas…

O início suave da viagem ao nariz del diablo

A descida começa suave, com duas ou três curvas de 180º, pela encosta verdejante. Rapidamente estamos a correr junto ao rio, que se afunda mais depressa que a linha do comboio no vale abrupto. A linha é estreita e, cavada na encosta íngreme, parece desnivelada. As curvas parecem terminar num precipício mas, no último momento, lá surgem mais uns metros para respirar. Lá em baixo, largas dezenas de metros abaixo, quase invisível da encosta, vislumbra-se a linha. Vai descer em zig-zag, talvez de recuas, talvez dê um trambolhão, ou um salto mortal, e aterre de pé sobre o patamar inferior…


Por vezes é impressionante o desnível dos três patamares da linha…

São 500 metros de desnível em cerca de 12 kms de linha, sulcada na montanha, talhada na rocha, incrustada no vazio, suspensa no nada. Foram vários milhares de mortos, principalmente afro-jamaicanos – onde é que já vi este “filme”! – que explodiram com a dinamite que levavam consigo, montanha abaixo para a fazer explodir. Por cada morto, havia uma indemnização de 2 libras a pagar… barata a feira. O Nariz do Diabo já está estropiado. A linha já passa de uma narina à outra, com dois patamares diferentes. O comboio muda três vezes de direcção, parece que anda tonto, para trás e para a frente. Finalmente estamos no fundo do vale, lado a lado com o rio, encravados no coração das montanhas, no triângulo formado por tês cordilheiras a perder de vista.



A viagem que nos transporta ao nariz do diabo, na realidade leva-nos para fora do mundo, para o coração da montanha, para o universo dos sentidos

As linhas de comboio do Equador foram (todas!) declaradas património de interesse histórico e turístico e estão em recuperação. Em 2014, a maioria deverá estar a funcionar para aproveitamento e exploração turística – a “revolucion ciudadana” está em curso, como não se cansam de anunciar os inumeráveis cartazes espalhados por todo o país! Não sei de onde vem o financiamento, não conheço o défice nem a dívida do país, mas a sensação que fica é que realmente está em curso uma revolução nas vias de comunicação…
Deixo Cuenca em direcção ao sul, à fronteira peruana de la Balsa, nas imediações de la Chonta. A única cidade digna da designação, que se atravessará no caminho, deverá ser Loja…

Pela estrada do sul…

A estória do Sul e dos cinco dias de Cuenca a Zumba, perto da fronteira peruana, escreve-se com chuva, nuvens e nevoeiro; com muita lama e pouco pó; com rios, ribeiros e riachos caudalosos, ruidosos, barrentos, alguns passados a vau; com subidas a 16%, em pisos de cascalho, terra e lama; com descidas de partir os braços, paralisar os dedos e deglutir os travões; com montanhas que não cabem no olhar, vales que se afundam no vazio, silêncios que engolem a terra; com casas que não são possíveis, mas onde vivem mortais – crianças, velhos e adultos, cães, galinhas, patos … – de longos e coloridos estendais, piscando o olho ao sol; com borboletas coloridas flutuando ao sabor do vento, desenhando arco-íris em ziguezagues estonteantes; com pássaros desconhecidos, uns soturnos, outros exuberantes, uns garridos, outros discretos; com grilos, cigarras e demais insectos, que não se calam à nossa passagem, pois devem recear, mais que tudo, o peso do silêncio; com arvoredos, árvores, arbustos, de todos os tamanhos, tons, folhagens e ramagens, umas empertigadas ao céu, outras corcundas, umas de fruto, outras não sei, mas vejo-as aparecer no meio das nuvens, na linha do horizonte, definida pela mais alta montanha, ou em cima de um pedregulho que emerge das águas revoltas do rio.
A estória do Sul escreve-se com o olhar. O olhar dos magotes de crianças que andam a pé 9 quilómetros por dia, para irem à escola (do Canadá a Belavista, por exemplo). De galochas calçadas, sacola a tiracolo, por vezes uma fisga na mão, o pente adornando o bolso da camisa, chova ou faça sol, com frio ou calor... Orgulhosos e inseguros, soltam um: “hello, how are you?” Mas já não conseguem acompanhar o simples “what are you doing?” ou “how hold are you”. Hesitam quando lhes pergunto se querem tirar uma fotografia, mas atropelam-se numa correria quando lhes digo se querem ver a foto (no pequeno visor da máquina) – e os olhos incendeiam-se e o riso ilumina quando se reconhecem no mini-ecrã: seis dedos atropelando-se no visor. E quando se reúnem em volta da bicicleta, primeiro a medo, depois quase devorando-a, tocando no conta quilómetros, apertando os travões, fazendo rodar os estranhos pedais de encaixe, esticando-se para conseguir ver o mapa, correndo atrás de mim quando arranco, agarrados à bandeirola do atrelado ou empurrando durante uns metros…
A estória do Sul escreve-se com homens, explosivos, máquinas e camiões que rasgam a montanha, esmagam a floresta, amordaçam rios, levando a estrada mais longe – dizem que até ao Brasil, através do Peru, pela amazónia adentro…
A estória do Sul escreve-se com suor, que ferve nas subidas e gela nas descidas; com roupa que se molha e não se seca, que cheira a suor, mas cheira bem, que se encharca e nos encharca, mas que mantém a ilusão de protecção da chuva e de resguardo do frio nas descidas; com correntes, mudanças e travões que resmungam, rangem, gemem e choram, mas resistem (ainda e sempre!?); com bananas, bolachas, migalhas de “roscas” – que parecem cavacas – e de bolos – que parecem de novo farinha; com quartos partilhados com vários insectos, camas que parecem ter colchões, mas nem esteiras são, banhos de água fria, para não criar maus hábitos, pois, felizmente, a água da chuva não é quente!
A estória do Sul escreve-se, acima de tudo, com os sentidos – com todos os sentidos; com os músculos – muitos músculos; com a imensa força do querer, que é tão único, tão grande e tão sólido, quanto o Sul, ou não seria possível resistir-lhe.
A estória do Sul escreve-se sempre amanhã, pois hoje continuo pelo norte…

As fotografias do sul talvez se repitam constantemente, talvez nada acrescentem aos olhares do norte, talvez não espelhem a singularidade e grandiosidade do sul. Mas isso é seguramente falha das fotografias, do fotógrafo, do viajante, porque o sul, este sul (e o que espera por amanhã), não cabem em fotografias nem em filmes, nem em descrições, narrativas ou romances…


Sem título?


À saída de Oña, depois, durante e antes da chuva como companhia…


Os planaltos infinitos, mudam com as “estações” do dia


Aqui ainda não chegou a “revolucion ciudadana” – ou será esta a verdadeira!? abastecimento de água à aldeia



Procissão de angariação de fundos para a festa, em Saraguro


A caminho de Loja


Nas proximidades de Loja, surpreendidos pela noite

e pelas muitas, e inesperadas, subidas


Almoço tranquilo no simpático “complexo” VidaAventura, de Tunga a Vilcabamba


Vilcabamba, um mar de sossego no coração verdejante das montanhas do sul


A estrada de asfalto ficou definitivamente para trás…


Vigilante surpreendido


De Vilcabamba a Valladolid, a chuva, o nevoeiro e a lama das estradas


foram o sal e a pimenta que faltava para temperar o relevo alucinante do caminho



Os povoados são cada vez mais distantes, mais remotos e mais pobres. Casas isoladas na montanha, parecem milagres, ou maldições


Mas é sempre possível um olhar colorido, ainda que naiff


De Valladolid a Zumba, largos troços da estrada estão em obras. Felizmente a zona era plana, mas a emoção e boa disposição nunca faltaram – nem a simpatia e incentivo dos trabalhadores…







Quando as obras e a lama ficaram para trás, a adrenalina não diminuiu, apenas mudou de tom…


É impossível não sentir um mundo a ficar para trás…


…e outro abrir-se à nossa frente. Miúdos que fazem 9 kms para ir à escola e voltar – chuva, faça sol, frio ou o que der na gana ao San Pedro


A última do dia… daqui apenas se vê(?) a descida, mas garanto que a subida foi um pouco mais extensa e dura.


Deixando Zumba e rumando à fronteira de la Balsa, ainda havia muito a destilar


Pelo caminho não há só montanhas e verde…


Até custa a crer, mas é mesmo verdade. São casas habitadas…


Adeus Equador (la Chonta)…


Olá Peru (la Balsa)…descobre as diferenças…